Os judeus mantinham seus registros genealógicos com muito cuidado. Faziam isso principalmente porque os direitos de propriedade em Israel estavam ligados à herança de família.
Quando os judeus se instalaram em Israel, as tribos receberam partes da terra como sua herança (Js 14,19). As famílias, dentro de cada tribo, receberam partes dessa terra, que poderia ser cultivada, desenvolvida ou vendida. Edward F. Campbell sustenta que o livro de Rute testemunha uma forma pré-deuteronômica de casamento de levirato, enquanto para outros estudiosos130, o que está escrito em
Rute não tem nada a ver com o levirato.
Por exemplo: Segal afirma que o livro de Rute propõe a prática legal das leis da herança geûlâh (leis do resgate codificado em Lv 25, que não foram incluídas no Pentateuco. Na opinião do autor, o parente deve resgatar as terras, no caso, as de Noemi.
Segal continua, dizendo que o Talmut e o Midrash nunca trataram Rute como uma mulher que precise conseguir o yibbûm (realização dos deveres do levir para com ela). A questão em si descreve um casamento de levirato, mas isso parece algo acidental. O foco principal é o resgate da terra, ou seja, o dever do go’el (vingador) raiz à qual pertence o verbo ga”al, (fazer um objeto voltar à sua condição primitiva). Noemi diz claramente que as noras devem voltar para a casa de suas mães, pois ela, Noemi, não tem mais filhos para dar como maridos (Rt 1,1-13) e não há irmãos vivos para cumprir o levirato.
Segundo Baba Mesi,
130 Jack Sasson concorda com M.Z. Segal e Robert Godis, ver Atalaya Brenner, Rute a partir de uma
[...] o texto em Rute 4,7 não está claro se é Boaz quem dá a sandália ao parente ou se é o parente quem dá a Boaz; a questão permanece em aberto, mas a entrega da sandália nada tem a ver com o há lisa, ritual de arrancar a sandália em um casamento de levirato, descrito em Deuteronômio.
Ao entregar a sandália (Rt 4,7), o resgatador formaliza a troca de propriedade
131. A cada 50 anos uma família sem posses poderia requisitar de volta a parte da
terra que seus ancestrais tinham recebido na distribuição original (Lv 25,10). Pessoas que não pudessem descrever sua linhagem familiar não possuíam herança na nação de Israel, sendo tratados como estrangeiros, sem posses.
Esse fator contribuía fortemente para a preocupação dos judeus com genealogias. Além disso, alguém que possuísse uma propriedade teria para onde retornar, como é o caso de Noemi e Rute. Já que na teoria era impossível a dissolução dos casamentos mistos, pois seria a destruição da família e mais órfãos espalhados – como fora ordenado por Esdras (Ed 9; 10) – para que os direitos dos pobres fossem restituídos, e as famílias tivessem continuidade e garantia de futuro, era necessária a aplicação das duas leis contidas no livro de Rute: a lei do levirato e a lei do resgate.
2.8 A FAMÍLIA
O tipo da família israelita pertence a um dos diferentes tipos distinguidos pelos etnógrafos: o tipo fratriarcado, no qual a autoridade exercida pelo irmão mais velho é transmitida do mesmo modo que um patrimônio, de irmão para irmão.
Esse tipo de família era comum entre os hititas e hurritas, no Elam e na Assíria. Algum vestígio desse tipo de família também é encontrado no Antigo Testamento, na instituição do levirato e em outros episódios bíblicos, como a iniciativa dos filhos de Jacó, para vingarem o ultraje sofrido por Diná (Gn 34) e o papel desempenhado por Labão, no acordo do casamento de sua irmã Rebeca, (Gn
134 Para estes estudiosos, o que está escrito em Rute não tem nada a ver com o levirato, Segal
sugere que o livro de Rute suponha a pratica legal das leis da herança geûlâh (leis do resgate codificado em Lv. 25) que não foram incluídas o Pentateuco, o parente deve resgatar a terras de Noemi. O Talmut e o Midrash nunca trataram Rute como uma mulher que precise conseguir o
24).
O matriarcado, outro tipo de família, é o mais comum nas sociedades primitivas. Sua característica não é que a mãe exerça a autoridade, o que é um caso raro, mas, ela vai determinar o parentesco do filho, se é judeu ou não. A criança pertence à família e ao grupo social da mãe e não aos parentes do pai; e o direito da herança se fixa na descendência materna. Segundo Robertson Smith132, o regime matriarcal foi a primeira forma de família, entre os semitas, e na escola etnográfica
de Graebner e de Schimidt133 o matriarcado é uma forma de família.
Dentro desses conceitos definidos e por exemplos nos textos bíblicos, como o caso de Sara na condição de prima de Abrão, o de Tamar e o de Sansão e Dalila, infere-se que, independentemente de como tenha sido a sua pré-história, a família Israelita é patriarcal. Isso é o que mostram os documentos mais antigos, nos quais as genealogias são fornecidas por meio da casa paterna bêt’ab.
Na “casa paterna”, as genealogias são dadas seguindo a linha paterna e as mulheres são apenas mencionadas excepcionalmente, como se fossem um parente mais próximo; por linha colateral, por exemplo, um tio paterno. No tipo normal de casamento, o marido é o “senhor” ba’al de sua esposa. Em exemplos que os filhos casados vivessem com o pai, o mesmo era autoridade sobre ele e sua mulher, uma autoridade total que lhe dava o direito de decidir a vida ou a morte, como no caso de Tamar e Judá (Gn 38, 24).
2.8.1 O Cotidiano da Mulherno Antigo Israel
Como nas tradições dos antepassados134 e nas de Moisés, as mulheres ocupavam postos fundamentais, como facilitadoras e celebrantes da libertação de Israel, das opressões do Egito (Ex 15, 22).
132 William Robertson Smith foi um orientalista escocês estudioso do Antigo Testamento e professor
de Teologia ministro da Igreja Livre da Escócia Foi um dos editores da Enciclopédia Britânica Também é conhecido pelo seu livro Religião dos semitas, o que é considerado um texto fundamental no estudo comparativo da religião.Teologo escoces. 8 de novembro de 1846/31 de março de 1894.
133 Escola de Viena William Schmidt e Fritz Graebner, os quais em 1904 lançaram sua visão cultural policéntrica, já que aceitavam que uma mesma inovação pudesse ter sido inventada ou descoberta
em vários.
Ao mesmo tempo, essas mesmas mulheres constituíam, por vezes, uma ameaça, quer em uma apostasia externa, quer na liderança interna, como é o exemplo da mulher cuxita esposa de Moisés que suscita a ira dos irmãos de Moisés, Mirian e Arão. Estes consideravam o casamento de Moisés com uma cuxita uma ligação sexual fora da vontade de Deus (Nm 12,1-5). Um israelita ligado a uma estrangeira era severamente condenado e estava relacionado com pragas e doenças. Entretanto, Mirian, quando contestou a liderança e autoridade de Moisés, foi desvestida das suas funções de liderança e punida com uma doença.
Nesse incidente, entende-se que havia uma coesão da comunidade, em relação aos assuntos de ordem da saúde pública. O significado da doença, nesse caso a lepra, demonstrava que uma autoridade foi suprimida de Mirian: “Assim Mirian foi detida fora do arraial” (Nm 12,15). Gottwald ainda questiona se a mulher cuxita poderia ser a mesma mulher, Séfora, que fora exaltada ao circuncidar o filho, afastando a ira de Iahweh contra Moisés, atitude pouco habitual para uma mulher exercer, na sociedade da época.
Segundo Ana M. Tepedino135, as mulheres fazem com que as histórias aconteçam tanto no presente quanto no passado, em qualquer lugar que estejam. No Oriente, em geral, segundo a autora, havia uma mentalidade bastante preconceituosa em relação à mulher, e em muitos textos bíblicos, muitas vezes, nem o nome do personagem feminino é citado.
Em outras situações, o nome da pessoa não é mencionado explicitamente, por se encontrar inserido no coletivo, iguais aos das citações: “povo”, “multidão”, “discípulos” etc. Ivoni Richter Reimer 136,em sua palestra na PUC, cita:
[...] há muitos jeitos de encobrir ou fazer calar a história de pessoas, um dos jeitos é mencionar alguém rapidamente e se centrar então em pessoas e acontecimentos aparentemente mais importantes. Outro jeito mais sutil e muito mais desenvolvido de encobrir a história pode acontecer justamente através da interpretação da história fixada. Isto é, a história interpretativa de um texto pode silenciar ou deixar de perguntar por algum elemento pertencente a ela.
135 , M, Ana Tepedino, As discípulas de Jesus. Editoras Vozes, Petrópolis,1990, p.67.
136 Reimer Ivoni Richter, Tema: Jesus e a tradição das transgressoras, II Congresso Internacional de
Antes da monarquia, as mulheres compartilhavam as mesmas tradições, a mesma língua, os mesmos valores dos homens. Elas eram consideradas ‘am-povo (Rt 4,11), mas politicamente não era um “povo” igual “aos homens”, não podiam representar o seu bet ‘ab na assembléia, no portão.
2.8.2 Abusos Sexuais
Sexualidade é um assunto bastante amplo e polêmico, porém sempre presente nas narrativas bíblicas, em muitos livros. É interessante observar-se que a Bíblia não se isenta de apresentá-los, em todas as suas variações. No caso de Ló e suas filhas, existe a presença do incesto (Gn 19,31) ou no caso de Tamar (Gn 38,8), um método preservativo foi usado para que a mulher não gerasse filhos. Ademais, como gerar filhos é um dos mandamentos de Deus, então evitá-lo é um abuso sexual.
O deuteronomista reconheceu a necessidade de falar sobre esse problema social e pontuou juridicamente a infração do ato, instituindo sanções e punições sobre o infrator: “se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagarão seu dote e a tornará por mulher”. (Ex 22,16) É a tentativa de salvaguardar a mulher honesta e casta, contra os abusos masculinos.
Nas narrativas bíblicas (Jz 19) os abusos sexuais contra as mulheres foram relatados com certa frequência, já que aconteciam constantemente. Não se pode esquecer dos episódios do pós-guerra, nos quais as mulheres, em geral, vinham junto com os despojos e eram maltratadas por meio da mutilação dos corpos, do rapto ou mesmo quando uma prisioneira de guerra que houvesse sido cativa, se tornava a esposa (Dt 21,14).
O estupro137 ou as relações sexuais ilícitas que, por vezes, aparecem nas narrativas bíblicas, tenta fazer entender que havia o propósito de reprodução e ou sobrevivência de uma tribo (Gn 19,31). O estupro aparecia com certa frequência e parecia ser uma ocorrência, no Israel Antigo. O homem decidia proceder de tal
137 O conceito de estupro, como um ato animal, refere-se à situação em que uma mulher,
independentemente de ter sua escolha de ter um ato sexual ou uma relação intima com um homem em especifico, é violentada.
forma e contra a vontade da mulher. Era considerado como abuso sexual, qualquer ato com conotação sexual ou resultado sexual, feito com a intenção de objetivar, dominar, machucar ou humilhar uma pessoa138.
Sob o ponto de vista social jurídico e político, a mulher em Israel possuía menos privilégios que as mulheres dos grandes países vizinhos. São poucas as mulheres que se destacaram e adquiriam uma identidade individual: Miriam, as parteiras do Êxodo, Débora, Rute e a Sulamita são alguns dos poucos exemplos, onde o ponto de referência era, em sua maioria, dos homens. No Egito, a mulher comumente aparece com os direitos de um chefe de família. Na Babilônia, ela podia adquirir posses, agir judicialmente e ter partes na herança de seu marido. Na colônia de Elefantina, sob a influência estrangeira, a mulher judia adquiriu direitos.
2.8.3 Casamento
Na época patriarcal, o costume era o de que o homem possuísse somente uma mulher, como foi no início, no relato da criação, onde os casamentos eram monogâmicos (Gn 2,21-24). Abraão possuía apenas uma mulher. Nos escritos históricos, encontram-se as mulheres, principalmente no papel de mãe, que ensina e nutre ou a esposa, ajudante de seu marido.
Os patriarcas seguiam os costumes do oriente e dos seus ambientes. Era a Palestina da Idade Média do Bronze, e não a Palestina do Império Egípcio.
Segundo o código de Hamurabi (1700 a.C.), marido não poderia tomar uma segunda mulher a não ser em caso de esterilidade da primeira. A mulher estéril era quem arrumava uma concubina escrava para o seu marido. A esposa titular era única e só ela possuía o direito de esposa.
A situação dos direitos legais da mulher Israelita era então diferente da de uma mulher escrava. Um homem poderia vender sua escrava ou até sua filha legitima (Ex 21,7), mas não poderia vender a sua esposa, ou nem mesmo aquela esposa que houvesse sido cativa de guerra (Dt 21,14). O marido podia repudiar sua esposa, mas o documento e repúdio a protegiam e lhe restituíam a liberdade. O
138 F Rachel Magdalene, Ancient Ner Easten Treaty Curses and the Ultimate Text of Terr, A Feminist
provável é que depois do repúdio, a mulher recebesse apenas o usufruto do marido, mas também uma parte do mohar que veio com ela, por meio de seus pais (Jz 15,19; Jz 1,15).
A estima pela mulher sempre era maior quando a mesma gerava filhos para a posteridade (Gn 16,4;29,31;30,24); principalmente se fosse menino, o respeito de seu marido aumentava, em função do direito de herdar a herança da terra e de preservar a família pela progenitora. A lei condenava tanto o homem como a mulher, pela falta de filhos (Ex 21,17; Lv 20,9; Dt 21, 18-21) e o decálogo insiste no respeito aos pais (Ex 20,12), essa orientação é repassada nos escritos dos livros sapienciais, como os de Provérbio.
No Egito, por exemplo, a mulher comumente aparecia com os direitos de um chefe de família. Na Babilônia ela podia adquirir posses, agir judicialmente e ter partes na herança de seu marido. Na colônia de Elefantina, sob a influência estrangeira, a mulher judia adquiriu direitos de representar o seu bet ‘ab na assembléia.
2.8.4 A viúva
Havia os pobres, as viúvas e os estrangeiros que, para sobreviver, recorriam ao direito da respinga na terra de outros (Rt 2,2). A viúva no Antigo Oriente Próximo perdia a posição social garantida pelo marido e, geralmente, perdia também a posição político-econômica. Em geral, as leis do Antigo Testamento mostram mulheres legal e essencialmente dependentes dos homens, conforme algumas leis. Ela possuía certos direitos e responsabilidades, sua situação nos dias de hoje seria comparativamente à mesma dos sem-tetos, que perambulam pelas ruas do país. Como não tinham a dependência de um homem, economicamente, dependiam da sociedade em geral.
Em algumas dessas leis, as mulheres viúvas possuíam certos direitos e responsabilidades, mas que já haviam caído em desuso. É interessante salientar-se, também, que as mulheres nunca recebiam heranças. Elas e as crianças eram vendidas como escravas.
da vida e a valorização da mulher por meio de uma releitura das leis deuteronomistas. Lê-se nos livros de Rute, Judite, Cântico e Cantares, que foi nessa sociedade degenerada, que a mulher passou a ser valorizada.
Belém (a cidade do pão) foi onde surgiu o resignificado da legitimidade do lugar pela mulher; a socialização intencional da viúva, e do encaixe da sobrevivência pelo pão diário, a partir do entendimento da consciência de gênero.
2.8.5 Escravidão
A condição do escravo na vida diária dependia em grande parte do caráter de seu dono, mas geralmente era suportável e o escravo tinha a segurança de que não lhe faltaria o necessário. Os trabalhos domésticos exigiam muito: criar os filhos, cozinhar, fazer pão, cuidar do rebanho, trabalhar no campo, tecer etc. Essa labuta diária a integralizava ao social.
As mulheres escravas tinham uma situação particular. Estavam a serviço exclusivo da dona de casa.
Também havia os escravos (as) israelitas, na casa de Israel. Não apenas os adquiridos nos pós-guerras, mas aqueles que ficavam nessas condições pela miséria ou pelas dívidas. Além disso, devem-se acrescentar também os ladrões que não podiam restituir e eram vendidos para recuperar o valor do furto. Segundo o código de Hamurabi, alguns escravos por dívida não podiam ser retidos por mais de três anos, mas essa lei nem sempre era observada, como mostra Jr 34, provavelmente pela inobservância. Em Lv 2 prevê-se um prazo de 50 anos, mas obriga o dono a tratar seu escravo como um assalariado ou como um hóspede.