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Messianismo: Do livro de Rute ao Brasil contemporâneo-sofrimento esperança

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Academic year: 2017

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ÂNGELA MARINGOLI KITZINGER

MESSIANISMO - DE RUTE AO BRASIL CONTEMPORÂNEO: SOFRIMENTO E ESPERANÇA

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MESSIANISMO - DE RUTE AO BRASIL CONTEMPORÂNEO: SOFRIMENTO E ESPERANÇA

Por

Ângela Maringoli Kitzinger

Orientador: Prof. Dr. Milton Schwantes

Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião para obtenção do grau de Mestre.

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Dr. Milton Schwantes (Titular/UMESP)

____________________________ Prof. Dr. Milton Schwantes

Orientador e Presidente da Banca Examinadora

___________________________ Prof. Dr. Jung Mo Sung

Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião

(4)

Presidente: Prof. Dr. Milton Schwantes - UMESP

Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira - UMESP

Prof. Dr. Renatus Porath - EDT

(5)

Dedico esta pesquisa a José Benedito Maringoli, meu pai: boiadeiro incansável, homem de um caráter resistente às intempéries da vida. (In memoriam)

(6)

Agradeço a Deus, Meu Senhor, Rei e Pai,que generosamente me agraciou com esse tempo de estudo e conclusão do livro.

A Milton Schwantes, meu professor e orientador.

A Neila Cristina, escudeira fiel e amiga em todo o tempo.

A Aline Couto que, por tantas vezes, me ouviu e me ajudou na montagem do trabalho. Ao Rafael Vazquez, meu recente amigo, que chegou aos 33 minutos do segundo tempo e, com muita inspiração, preparou a bola para que eu conseguisse acertar o gol.

A vocês queridos, Tálita, Sidney, Thiago, Thafnes e Osmêndia, muito obrigada pela imensa paciência e amor que demonstraram por mim.

A minha irmã Deuseli, de quem eu sou fã incondicional.

E, aos queridos Pastor Geraldo Ribeiro Filho e Apóstolo Valdomiro Souto Ferreira, meus incentivadores e amigos.

À Profa Neusa Munhoz, pelas horas dedicadas na leitura e correção gramatical.

Deus abençoe a todos...

Foi um tempo enriquecedor conviver com o livro de Rute nesse último ano de 2010. Quando iniciei a pesquisa, pensava estar em uma estrada conhecida e tranquila, cheia de bosques e pastos verdejantes. Mas não foi o que aconteceu. Por várias vezes saí da estrada, e sem que percebesse peguei atalhos com uma ou outra bifurcação. Às vezes, havia buracos na estrada que me segurou horas dentro deles. Então, pensava em minha cabeça: E agora? Como vou sair deste parágrafo? Por onde eu sigo?

E, assim, foram se passando os dias... a cada dia, durante o ritual de leitura das pesquisas dos livros ou a elaboração da exegese, apareciam informações novas. E elas eram tantas, como enxurradas das chuvas do mês de março.

Muitas dessas informações perderam-se. Tenho consciência de que muitas delas não foram processadas. Meu cérebro muitas vezes ficou sem saber qual comando emitir, pois tudo foi muito rápido, mas... o sabor de cada descoberta foi muito bom!

(7)

Hoje me sinto mais forte mais feliz, quem sabe Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei

E nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz pra poder sorrir

É preciso chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente Compreender a marcha e ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro levando a boiada Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu sou

Estrada eu vou

Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz pra poder sorrir

É preciso chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora Um dia a gente chega no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história E cada ser em si carrega o dom de ser capaz

E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz pra poder sorrir

É preciso chuva para florir Ando devagar porque já tive pressa E levo esse sorriso porque já chorei demais

Cada um de nós compõe a sua história e Cada ser em si carrega um dom de ser capaz

E ser feliz1

Almir Sater

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SINOPSE

Esta dissertação analisa a relação existente entre os temas dialogados pelo redator do livro de Rute (4,1-12) e os livros que fazem parte da composição da História Deuteronomística. Havia três propostas, cada uma com a sua própria maneira de ver a situação, a missão e a organização do povo. A primeira é a de Zorobabel e Josué (Ed 3,1-13). A segunda de Esdras (Ed 9,1-10,44) (Ne 8,1-18) e a terceira de Neemias (5,1-19). Como abordar a pericope neste contexto foi realmente um desafio. Em um primeiro momento, ela foi situada no momento da História de Israel, vivenciando o pós–exílio, com a volta dos deportados da Babilônia, época de reestruturação nacional de Judá. Em seguida, os personagens foram colocados em seus devidos papéis sociais. O povo da terra ficou em Judá e nos arredores. As injustiças sociais eram muitas: os campesinos estavam sendo desapropriados de suas próprias terras, pelos irmãos judeus que chegaram da Babilônia (Ne 51-5). Esses mesmos irmãos judeus são os que emprestaram dinheiro ao povo da terra e cobraram o pagamento com usura. O cenário era desanimador; os problemas intermináveis e de todos os tipos. A pobreza e a fome eram cada vez maiores (Ag 1,6), os pobres, estrangeiros e viúvas sobreviviam da respinga (Rt 2,2)

(9)

ABSTRACT

This study analyzes the existing relationship between the subjects dialogued by the writer of the book of Rute (4,1-12) and the books that are part of the composition of the Deuteronomistic History.There were three proposals, each one with its own way to see the situation, the mission and the organization of the people.The first one belongs to Joshua and Zerubbabel (Ezra 3,1-13).The second of Ezra (Ed 9,1-10,44) (Ne 8,1-18) and the third of Nehemiah (5,1-19). It was really a challenge punctuating this pericope in this context. Firstly it was placed at the moment of the History of Israel, living deeply the after-exile, with the return of the deportees from Babilônia during the national restructuration of Judá. Afterwards, the personages were placed in their due social papers. The people of the land stayed in Judah and the surrounding areas. The social injustices were many: the peasants were being dispossessed of its own lands, by the Jewish brothers who had arrived from Babilônia (Ne, 51-5).These same Jewish brothers were those that had loaned money to the people of the land and had charged the payment with usury. The scene was a discouraging one. The problems were endless and of all the types. Poverty and hunger were increasing (Ag 1,6) the poor, the foreigners and the widows survived because of spills (Ruth 2.2)

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CAPÍTULO 1

ANÁLISE LITERÁRIA DE RUTE (4,1-12)...16

1.1 COMO SITUAR A PERÍCOPE...17

1.1.1 Relações da Perícope com o Livro de Juízes...16

1.1.2 A Relação da Pericope com os Livros do Pós-Exílio, Esdras-Neemias...17

1.2 TÍTULO ...17

1.3 AUTOR ...17

1.4 DELIMITAÇÕES DO TEXTO DE RUTE 4,1-12 ...18

1.5 TRADUÇÃO LITERAL DE RUTE 4,1-12 ...19

1.6 ESTILO E FORMA LITERÁRIA ...22

1.7 LUGAR ...37

1.8 DATA ...38

1.9 GÊNERO LITERÁRIO ...41

1.10 GÊNERO DO AUTOR ...42

1.11 CONSIDERAÇÕES ...45

CAPÍTULO 2 A ANTIGA ISRAEL, SUA FORMAÇÃO E INSTALAÇÃO DA MONARQUIA...48

2.1 CONTEXTO HISTÓRICO ...49

2.2 GRUPOS FORMADORES DE ISRAEL ...50

2.3 CONTEXTO ECONÔMICO ...53

2.4 INSTITUIÇÃO DA MONARQUIA ...54

2.5 SURGIMENTO DA NAÇÃO MONOTEÍSTA ...55

2.6 INSTITUIÇÕES E SISTEMAS SOCIAIS EM ISRAEL...56

2.6.1 Sistemas Sociais do Israel Antigo em Rute ...58

2.6.2 Organização da Tribo ...58

2.6.3 Como Eram Constituídos os Sistemas Sociais ...60

2.6.3.1 Religião ...59

2.6.3.2 Economia ...60

2.6.3.3 Política...61

(11)

2.8.3 Casamento ...67

2.8.4 A Viúva ...68

2.8.5 Escravidão...69

2.9 O POVO DA TERRA E OS ESTRANGEIROS RESIDENTES ...69

2.10 A IMIGRAÇÃO ...71

2.11 PROSELITISMO ...73

2.12 CONTEXTOS HISTÓRICOS DAS RELAÇÕES DE ISRAEL COM OS ESTRANGEIROS...73

2.13 RELAÇÕES ENTRE ISRAEL E MOABE...78

CAPÍTULO 3 MESSIANISMO E A MONARQUIA...82

3.1 O MESSIAS E DAVI ...85

3.2 QUANDO O POVO PRECISA TER ESPERANÇA ...87

3.3 DIFERENÇAS ENTRE MESSIANISMO E MOVIMENTO MESSIÂNICO...90

3.4 ASPECTOS MESSIÂNICOS NO BRASIL E SUAS INFLUÊNCIAS NO RELIGIOSO BRASILEIRO...91

3.5 NORDESTE BRASILEIRO E A INFLUÊNCIA DE ANTONIO CONSELHEIRO NA GUERRA DE CANUDOS...93

3.6 RELAÇÃO ENTRE A COMUNIDADE BRASILEIRA E O MOVIMENTO MESSIÂNICO ...94

3.7 CARACTERÍSTICAS DO MESSIANISMO NO BRASIL...95

3.8 IMPORTANTES MOVIMENTOS MESSIÂNICOS NO BRASIL...96

3.9 COMO SE COMPORTA A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA ...99

3.10 CARACTERÍSTICAS DE UM LÍDER MESSIÂNICO NO BRASIL ...102

3.11 O MESSIAS QUE VIRÁ DE BELÉM...102

CONCLUSÃO...104

(12)

INTRODUÇÃO

Esta proposta de trabalho tem como objetivo fazer uma aproximação do Messianismo, existente na perícope Rt 4,1-12, trazendo o seu resignificado para os dias contemporâneos.

Em termos metodológicos, esta pesquisa investigou o tema proposto, dentro da literatura bíblico-histórica, social e teológica. Para tal investigação, teve-se contato com outras pesquisas cientificas histórico-sociais e exegéticas, realizadas sobre o mesmo tema, fazendo-se uso das Ciências da Linguagem, e dos recursos da Semiótica, Semântica, Crítica Literária, Análise do Discurso e Hermenêutica dos símbolos e narrativas. A exegese literária e histórica foi realizada, neste trabalho, com riqueza de detalhes, com foco no texto bíblico em questão e seu conteúdo.

“Rute” é uma novela de quatro capítulos, que já foi pesquisada em muitos artigos científicos e publicada em várias partes do mundo, em diferentes idiomas e sob diferentes abordagens, desde análises históricas, antropológicas e sociológicas, com pontos de vista mais humanitários, culturais, religiosos e espirituais, sendo inúmeras as obras e comentários de autores.

Entre os vários estudiosos, que já abordaram o assunto academicamente, Carlos Mesters1 Leon Morris2 e Mieke Bal3 foram os escolhidos para orientar esta investigação.

“Rute” verbaliza a resistência do povo, frente à decisão tomada pela autoridade sacerdotal e doutrinária de Jerusalém. O escriba-sacerdote Esdras achava que o casamento com mulheres estrangeiras era a causa da infidelidade do povo à Lei de Deus e, por isso, decretou a expulsão delas.

A novela se apresenta como uma história ocorrida no tempo dos juízes, mas, na realidade, é um espelho no qual o povo da época de Esdras via refletida a contradição que marcava a decisão das autoridades religiosas. “Rute” convida o leitor a uma análise mais crítica da situação.

Assim se inicia a narrativa em destaque: “Nos dia em que julgavam os Juízes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de

1 Carlos Mesters. Rute, p. 72.

2 Morris Leon, Rute: Introdução e Comentário, p. 304

(13)

Moabe, com sua mulher e seus dois filhos” (Rt 1,1, ARA, p. 381)4

Estes foram tempos onde a instabilidade política, o colapso moral e a infidelidade espiritual marcaram, de forma decisiva, em Israel5, o período6 fortemente influenciado pelos julgamentos dos Juízes7. O povo buscava por aquilo que podia receber de Deus. Esse período dos Juízes foi marcado pela virada de Israel para a apostasia total, pela qual o território foi entregue, repetidas vezes, nas mãos de nações opressoras.

A volta a Deus e aos seus preceitos eram superficiais. Na realidade, o povo só queria se livrar de suas angústias e problemas. Como as narrativas do texto base (Rt 4,1-12) se situam durante o tempo da história em que os Juízes governavam Israel, é importante estudar e entender os conflitos existentes entre os povos vizinhos e a influência que esses povos exerciam durante a entrada e sedimentação de Israel em Canaã. Este tema, portanto, será abordado de maneira sucinta, no segundo capítulo.

Além disso, a fonte de pesquisa para estes estudos, devido à similaridade em alguns temas, serão os próprios textos bíblicos, dos livros de Juízes, Esdras e Neemias.

A vida do povo das tribos estava centrada nela mesma e não em Deus. Os propósitos de buscá-lO eram sempre altruístas e egoístas. O povo de Israel vivia em meio à influência da cultura dos povos cananeus, alternando a fé e a rebeldia. O culto a Ele era mais uma entre tantas religiões, naquela época. Uma breve revisão da história mostra um Israel original, como um aglomerado de povos, sem uma religiosidade única, sem categorias como templo, pureza e etnia, para servir como diferencial8.

Rute, é marcada por uma narrativa bem contada, com estilo poético e fatos surpreendentes, do inicio ao fim. Segundo Mesters9, a narrativa parece uma história

4 ARA, Almeida, Ed. Rev. e Atual. reimp. p. 381

5 Israel Finkelstein, Neil Asher Silbergman. A Bíblia não tinha razão, p.37. 6 A época do bronze posterior (1500-1150 a.C.)

7 Arthur E. Cundall, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, p. 216.

8 O período que se postula para o surgimento de Israel, como nação, está situado entre os anos de

1300 e 1050 a.C., portanto, o que mais diz respeito a este estudo são os governos dos faraós Amenófis IV, Haremhab, Ramsés I, Sethos I, Ramsés II até Ramsés XI (de 1364 a 1070 a.C.). A atuação desses governantes exerceu grande influência no processo de surgimento da nação Israelita. Houve uma sucessão de curtos governos, que foram gradativamente pondo a perder o poderio do Egito, fazendo com que este ficasse basicamente reduzido à terra do Nilo.

(14)

inocente, uma novela inventada para distrair o povo. Parece, mas não é. É uma historia inteligente, contada por alguém que sabia dar o seu recado. Nela, nada é supérfluo. As informações são passadas nas entrelinhas para o próprio povo.

O conteúdo desse livro do Antigo Testamento é simples e conta o relato do dia-a-dia de uma família. Nele não há a presença de sinais portentosos, “sinais e prodígios ou anjos que apareçam, nem mesmo um pé de uma sarça ardente chamando a atenção, ou um mar que divida ou montes que tremam nas guerras santas”, comenta Hubbard10. A preocupação do autor parece ser a preservação da sociedade local, por meio da esperança, e isto é evidenciado em cada versículo aplicado no drama familiar da novela.

O leitor é colocado face a face com os mais variados tipos de situação: crise financeira, o problema da imigração, o problema da doença, o da morte, o da viuvez, o da pobreza, o da amargura contra Deus. Mas a esperança em um “salvador”, que irá surgir a qualquer momento, faz com que a história vá caminhando para o final.

Ao cuidar do propósito e da dimensão teológica deste texto, me deparei com temas centrados na misericórdia, na bênção e na teologia da providência divina messiânica.

Atikinson11 menciona três fatores que têm desafiado a fé na providência divina, nos dias atuais, assim como nos tempos de Rute e Boaz que são: outros deuses, uma cultura dividida e o problema do mal. Dados exegéticos serão buscados nas entrelinhas do texto, para o entendimento dessa situação, com a ajuda de pesquisa bibliográfica e da exegese propriamente dita, sobre as funções sociais semelhantes às dos personagens principais e seus relacionamentos.

No primeiro capítulo, o objetivo central do estudo, que é a exegese do texto bíblico de Rt 4,1-12 foi apresentado, procurando destacar o contexto literário, o estilo do texto, e o lugar social dos diversos grupos que fizeram parte desta perícope.

No segundo capitulo, foi feita uma abordagem da história do Antigo Israel, com o objetivo principal de contextualizar o livro de Rute e o texto base, entre os outros livros da Bíblia Hebraica. E, também, para compreender-se a visão do mundo que nele é retratada, além da concepção teológica do redator e de sua maneira de escrever.

No terceiro capitulo, foi feita uma leitura teológica da perícope, retratada por

(15)

meio das vidas de Rute e Noemi. Os fatores que incentivaram o crescimento do conceito Messiânico foram analisados, tais como: a fome, a mulher sozinha e a inclusão social, iguais aos fatores que favorecem o Messianismo de hoje.

Num segundo momento desse capítulo, Noemi e Rute, aparecem com o pedido de um resgatador. É um movimento Messiânico, sendo gerado na estória. Elas, e a comunidade, uma luta pessoal, conquistaram maior dignidade humana, e conseguiram participar efetivamente na reestruturação da nação de Israel.

O trabalho foi concluído, tecendo-se um paralelo entre os problemas sociais desta perícope com os dias contemporâneos.

Ressalta-se que esta pesquisa não tem a pretensão de ser uma crítica ao modelo nacionalista exclusivista embutido na religião judaica do pós-exílio – somente o trabalho está centrado nesse período. O fenômeno religioso, no entanto, é analisado com critérios históricos. Portanto, questões como a dogmática e a ética foram tratadas à luz da lei e da história da sociedade israelita.

O período histórico será analisado apenas sobre fatores que exerceram influência no trato de Israel com a presença de estrangeiros, além dos discursos proféticos e as leis que trataram do assunto.

A bibliografia foi agrupada em seções: Bíblias, Dicionários, Livros, Artigos, Dissertações e Teses, Congresso e Sites Acessados.

Entende-se que a relevância desta pesquisa está no diálogo com a sociologia e a antropologia da religião, principalmente no que se aplica à influência no estabelecimento de relações familiares e suas repercussões diante da sociedade. São questionamentos que partem de experiências cotidianas de pessoas que pertencem a uma classe social pouco amparada, marginalizada, necessitada e empobrecida, na qual a tomada de consciência se faça útil.

Finalmente, a autora desta dissertação, espera sinceramente poder contribuir com algumas informações que acrescentem e incentivem novos pesquisadores a trabalharem temas semelhantes. Preconceito racial, imigração, desemprego, casamento misto, diferenças entre as classes sociais, contexto familiar, partilhas e heranças são assuntos bem contemporâneos.

(16)

CAPÍTULO 1

ANÁLISE LITERÁRIA DE RUTE (4,1-12)

A tradução literal da perícope será feita da versão da Biblia Hebraica Stuttgartensia e a versão em Português, trabalhada com a Almeida, Revista e Atualizada. Serão citadas as notas de rodapé necessárias, nas opções feitas durante a tradução. A análise será concluída após o estudo do gênero literário, sua estrutura e estilo, data e o lugar geográfico, assim como a vida das pessoas envolvidas.

1.1 COMO SITUAR A PERÍCOPE

1.1.1 Relações da Perícope com o Livro de Juízes

As narrativas da perícope estão situadas na época em que os juízes governavam Israel. Porém, seus escritos são antagônicos aos de Juízes.

O livro de Juízes trata de guerras e contendas, onde a chave da conotação do termo em hebraico12 poderá ser encontrada em Jz 2,16 “Suscitou o Senhor Juízes, que os livraram da mão dos que os pilharam”. Então, entende-se que os Juízes eram primordialmente “libertadores ou salvadores”.

Esses homens, levantados para serem libertadores de seu povo, se caracterizavam por qualidades peculiares que eram, conforme se acreditava, a manifestação de uma dotação especial do Senhor 13. Contrastando com esse cenário, a perícope trata de uma história aparentemente tranquila, de pessoas

12 Juizes, a raiz spt (*tpt) aparece também no A.T., em acádio e ugarítico. O Verbo inclui muitos

aspectos de governo-executivo, militar, legislativo, judicial. No aramaico biblico (Ed 7,25) o vocábulo é chamamento com conotação judicial porque a situação política assim o determina,

Dicionário Antigo Testamento p.1744.

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comuns cuidando de suas vidas. A história é contada de um modo simples e direto que, de certa forma, narra a vida de duas mulheres.

1.1.2 A Relação da Pericope com os Livros do Pós-Exílio, Esdras-Neemias

A volta do pós-exílio envolve direta ou indiretamente a participação de Neemias-Esdras e a influência dos profetas Ageu e Zacarias. A teologia do pós– exílio foi fruto não apenas das circunstâncias pelas quais os deportados e os autóctones passaram, mas principalmente da mensagem profética que circulava naqueles tempos.

A nação precisava ser reconstruída e isto só se daria com a restauração do templo e do trono de Judá, por um descendente de Davi, que seria o apaziguador entre deportados e o povo da terra e da centralidade da lei e, assim, a adoração a

Yahweh seria legitimada.

1.2 TÍTULO

O título que identifica esse pequeno livro da Biblia deve seu nome a um das personagens femininos da história que ele narra: Rute, a nora moabita de Noemi. Esse nome, na versão siríaca, é traduzido como a “companheira”. Atualmente, descarta-se essa etimologia em favor da derivação da raiz hebraica rvh, que significa “beber até saciar-se, refrescar, aliviar” Entende-se que o significado do nome refira-se às características do próprio personagem e da teologia explicitada no texto.

1.3 AUTOR

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nosso texto. Entretanto, é a dificuldade em situar a data dos escritos que faz com que não se tenha muito a dizer sobre quem seja o possível autor. Há, como será explicado no assunto de canonicidade, uma tradição judaica que atribui o livro de Rute a Samuel, mas os estudiosos, citados na Introdução14, permanecem silenciosos a esse respeito. A maioria deles concorda que o redator é um deuteronomista.

1.4 DELIMITAÇÕES DO TEXTO DE RUTE 4,1-12

O estudo dessa perícope será feito com sua ligação com os blocos literários anterior (3,1-18) e posterior (4,13-22), que a conclui.

Na história dessa perícope está colocada a questão sobre o resgate, que se iniciou no capítulo 3,1-18, especificamente no v.12. No capitulo anterior ao da perícope, Noemi reuniu, planejou e executou um plano para que a lei do resgate fosse observada. A descoberta de que Boaz era o parente e go’el, fez com que Noemi mudasse sua preocupação, que antes era com a falta de pão, para a situação da família (3,2-4).

A ideia de Noemi é levar Boaz a cumprir a lei do Resgate, segundo Mester15. Noemi se inspirou na história de Tamar, a esposa do filho mais velho de Judá (Gn 38,1-26) que, ao ficar viúva, se disfarça de prostituta para obrigar seu sogro a cumprir a lei do levirato. Noemi instrui Rute a convencer Boaz a cumprir a lei do resgate.

Rute, assim como Tamar, se prepara, enfeita-se, vai ao terreiro e espera Boaz dormir, para a execução do plano. Aqui existe certa confusão: Rute quer que Boaz cumpra o Levirato ou a lei do resgate? Segundo Mesters, esses dois assuntos estão misturados no livro de Rute e a resposta só irá aparecer durante o estudo desta perícope.

Como Boaz exercerá o direito de resgate? A lei do resgate não obriga

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ninguém a se casar16. Boaz cumprirá a lei do levirato (família) ou a lei do resgate (terra)? Essas perguntas todas possuem suas respostas no bloco anterior à perícope.

E no miolo da perícope está a afirmação de que só adquire o direito de resgatar a terra de Noemi, aquele que aceitar casar-se com Rute (4,5-8). Esse assunto sobre o resgate é recorrente – já que foi mencionado anteriormente no livro, no final do segundo capítulo (2,15-23), como assunto central e também no terceiro capítulo, durante a conversa entre Boaz e Rute, a palavra resgatar é a predominante (3,8-13).

As palavras que predominam na narrativa são “resgatar e nome”. “Resgatar” aparece 14 vezes na perícope e mais 7 vezes no terceiro capítulo. “Nome começa a ser citada nesse quarto capítulo e continua até o quadro final (4,13-17) – ao todo, sete vezes. Essa ocorrência de palavras demonstra onde está centralizado o interesse da perícope. No estudo do conteúdo haverá um maior aprofundamento a respeito da interpretação e do significado das mesmas e nas questões legais que elas representam.

O entendimento que se precisa para compreender o que leva Boaz a subir até o portão, e deixar a eira logo pela manhã, e o restante do desenrolar da historia deste tema (4,1-12); quando Boaz dirige-se ao portão, está automaticamente amarrada ao versículo Rt 3,12.

Já o desfecho da história está no bloco menor, o qual finaliza a perícope (4,13-22). Este texto é trabalhado na mesma linha de raciocínio que os três capítulos anteriores.

1.5 TRADUÇÃO LITERAL DE RUTE 4,1–12

O objetivo na crítica textual é averiguar as alterações que possam ter ocorrido

16 ARA, Naquela mesma época (pós-exílio) o governador Neemias, usando o poder da sua

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no texto e conseguir a maior aproximação possível do original17. Uma tradução bastante literal é apresentada.

Neste momento, no quadro inicial (4,1-12), o redator mostra uma mudança de cenário. Começo de um novo dia? É um conjunto de acontecimentos que se sucedem, aparentemente de maneira casual, como em um paralelismo sintático, mas, que se prepara para um desfecho, um gran finale, com muita ação (intriga).

Na perícope, a habilidade do escritor em entrelaçar frases e assuntos, até concluir a ideia, é bastante clara. Ademais, olhando as frases uma a uma, durante cada cena podem ser percebidas as divisões e costuras do texto. Normalmente, o assunto abordado no início da história é retomado no final dela. É assim que esta perícope será analisada. Frase por frase, logo após a tradução feita pela autora deste trabalho.

E Boaz subiu18 [para]o portão19 e sentou-se20 ali21.

E eis!22 O resgatador23 estava passando,24 falou Boaz25 e disse Desvie26sente-se aqui, fulano de tal27E ele virou28 e sentou-se29.

17 O texto original entende como Antigo Testamento. O cânon palestinense, o qual foi modelando-se

em suas distintas partes, a partir do 4º século a.C. e fixou, ao mesmo tempo, o texto original, cf. Martin Noth, El Mundo Del Antiguo Testamento p. 359.

18Boaz-‘alâ , conj. subs nominal, Qal perfeito 3ª p, masc. sing.WTW morfology, BDB Lexion, p. 625. 19 Sha’ar , o portão, artigo def. com o sub masc. sing., WTB morfology e BDB Lexion, p.748.

20yashab , vav consecutivo qal imperfeito, 3ª pessoa, masculino singular.

21 sham, aqui, lá ali,(também ASV e RSV). È um advérbio comum, e tem um sentido locativo, como

em (Am 7,12). TWOT Lexion 2404.0.

22hinneh , e eis é uma interjeição, para chamar a atenção sobre o que irá acontecer.

23go’el , particípio, derivado de ga’al, redentor, remidor, TWOT Lexion, traz como: comprar de volta.

p. 2300.

24 ±aba, particípio, o resgatador ia passando, tem o sentido de passar por cima, por acaso, era um

costume seu fazer isso, passar sem ver.

25 Cf. Rt 3,12: “de quem falou Boaz”, TWOT Lexion, p. 302.

26sur, raiz zar, qal verbo imperativo, desviar-se da direção empreendida, deixe de fazer o que estava

fazendo (atravessando) ou seja, e venha aqui, sur não tem sempre um sentido teologicamente marcado Claus Westermann, p. 200.

27Peloni significa: um-certo, são dois adj. masc. sing: absoluto e constructo. Essas duas palavras,

segundo o dicionário Gesenius, Hebrew Grammar, sempre se apresentam juntas. Essa palavra aparece sete vezes nos textos bíblicos de acordo com o BDB, p. 811.

28sûr ,qal vav, consec. imp. 3ª p. masc. sing., tornou a voltar, verbo de locomoção, de movimento.O

sentido primário da raiz é "desviar". Parece ser uma palavra distintiva semítico do noroeste, sendo atestado particularmente em hebraico e fenício. Intransitivo na haste de base, é frequentemente encontrado em conformidade com muitas preposições, produzindo ideias como "desviar-se de para",e"retirar", TWOT, Lexion 1480a

29yashab qal, verbo, vav, perf.. 3a pessoa sing. masc., Significa sentar em algo, sobre algo, tipo em

(21)

4,2E tomou dez homens dentre os anciãos da cidade30 e disse31: sentai-vos

aqui. E se sentaram.

4,3 E disse para o resgatador: a parte do despojo32 do campo que era de

nosso irmão, de Elimeleque, vendeu Noemi33, a que está voltando34 dos campos de

Moabe35

4,4 E eu mesmo disse36 que eu contarei para ti, dizendo: adquire37, na

presença dos que estão sentados, e na presença dos anciãos do meu povo38. Se

resgatarás, resgate. E se não resgatarás, anuncie39para mim e eu saberei.

Eis! Não há, com exceção de 40ti, (alguém) para resgatar. E eu mesmo sou

depois de ti.

E ele disse: Eu mesmo resgatarei.

4,5 E disse Boaz: No dia em que adquirires41 o campo da mão de Noemi e de

Rute a moabita42, mulher do morto, tu adquirirás43para levantar o nome do morto

sobre a sua propriedade44.

4,6 E disse o resgatador: não posso resgatar para mim, para que eu não

30 zeqûnîm derivado de zaqan ,subs. masc, BDB (Full), Lexion.

31 ‘amar, qal verbo, vav perf, 3ª sing. dizer para outro Cf. Harrison dicionário. Niphal pode ser

traduzida como "diz-se" e "ser chamado". O Hiphil significa induzir a dizer. O Hifal transmite a força de "ato de orgulho." O verbo aparece no Antigo Testamento quase cinco mil vezes. Esse verbo comum, com seus paralelos em outras línguas, tem uma grande variedade de significados.

32 sadeh Dicionário TWOT, Lexion 2236b.

33 ARA e demais traduções, inclusive na Stuttigartensia, consta o nome de Noemi. O tradutor

Bibleworks ignora o fato. O nome de Noemi não está escrito. No hebraico do Bibleworks, a frase correta é: “a sogra de Rute”. ARA p.385.

34 A voltante, como art.def.

35 prep. , subs. masc. sing e pr.no Campo de Moabe, terra de Moabe, BDB, p. 555.

36 ‘amar, Vim dizer, no sentido fazer declarar , contar, revelar algo.Cf. Dicionário biblico hebraico –

português, São Paulo, Sinodal 21ª edição, 2008, p.13.

37 Raiz qnh adquirir, não é o sentido geral na linguagem comum, mas sim o significado de comprar.

Cf. Dicionário Claus Westermann, p. 819.

38 Nabucodonosor deixa em Jerusalém os mais pobres da terra (2Rs 24,14) e estes passam a ser o

povo da terra. Essa expressão é distinguida em três períodos na história de Israel: antes do exílio babilônico, durante ele e à volta do mesmo (2Reis, Jeremias e Ezequiel.) O povo da terra também representa o conjunto de cidadãos que, em Judá, é usada como povo de Judá.

39na¹gad O ketib traz o verbo na primeira pessoa, enquanto o qere, 2ª. pessoa. A tradução foi feita a

partir do sentido do texto, confirmando a opção trazida por Q. Claus Westermann p. 155.

40shem; m¹wet qal, part. masc. sing. , nome do morto. Dicionário TWOT Lexion p. 986.

41 yôm, qnh :prep., o subs. masc. sing e o verbo 2ª pess. masc. sing. “o dia em que pensar em

adquirir”, aquisição, bens, posses, Dicionário biblico hebraico – Português, São Paulo, Sinodal 21ª ed. 2008, p. 215.

42 Note-se que o autor não perde de vista a origem da heroína. Encontarmos essa designação, a

moabita, cinco vezes durante as doze referências que ele faz do nome de Rute (1,22; 2,2; 2,21 e 4,5). A nacionalidade Moabita da heroína desempenha um papel importante em sua história.

43 O ketib, traz o verbo na 1ª pessoa, enquanto o qere, 2ª. pess. masc. sing. Dicionário biblico

hebraico–português, São Paulo, Sinodal , 2008, p. 36.

44 Cf.Comenta The Bible Doctrine of Salvation: “A gente gostaria que houvesse um verbo em inglês,

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arruine a minha propriedade. Resgate para ti, tu mesmo, o meu resgate45, pois46 não posso resgatar.

4,7 E esse, antigamente, em Israel, sobre o resgate e sobre o substituto para

cumprir toda palavra que tirou47 um homem sua sandália e deu para o seu

companheiro e este era o testemunho em Israel.

4,8 E disse o resgatador, para Boaz: Adquire para ti. E ele tirou a sua sandália.

4,9 E disse Boaz para os anciãos e (para) todo o povo: testemunhas sois vós,

neste dia, que adquiri tudo que era de Elimeleque e tudo que era de Quiliom e Maalon, da mão de Noemi.

4,10 E também Rute, a moabita, mulher de Maalon, eu adquiri para mim por

mulher48, para levantar o nome do morto sobre sua propriedade e não será cortado o

nome do morto de entre os seus irmãos e do portão do seu lugar 49. Testemunhas

sois vós, neste dia.

4,11 E disseram todo o povo que estava ao portão e os anciãos: (Somos)

testemunhas. Faça Yahweh à mulher que entra para tua casa conforme a Raquel e

conforme a Lia que construíram, as duas, a casa de Israel. E torna-te forte50 em

Efrata e invoque51um nome em Belém52.

4,12 E seja a tua casa como a casa de Perez, a qual gerou53 Tamar a Judá,

desde a semente que deu Yahweh para ti desde esta jovem.

1.6 ESTILO E FORMA LITERÁRIA

A frase do v.1 se inicia com a conjunção “e” vav. Esta é uma maneira muito

45 ge u’llâ , redenção, subs. fem. sing. abs. O sentido é dever e direito de resgate Cf. Dicionário

biblico hebraico–português, São Paulo, Sinodal, 2008, p. 215.

46ki part. dem. conj. (porque, pois que, quando, se caso). Dicionário Hebraico–Português, São Paulo

Sinodal ., 2008, p. 100.

47 slq O verbo perfeito, qal 3 pess. sing. masc. Significa “tirar o calçado fora” ( “lançar foraDicionário

Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Harris p.1025.

48 ishshâ, mulher, esposa. Mulher investida de sabedoria (ASV e RSV similar.) Dicionário

International de Teologia do Antigo Testamento, HARRIS, p. 235.

49 Ou seu povoado.

50 ‘sh qal imp. Masc. sing. Há-te valorosamente, é na ARA, Dicionário Lexion TWOT, p.135.

51qara-sem Qal, imp. Masc. verbo chamar, proclamar (invoque um nome especifico, ex. do filho mais

velho de Noé.) Dicionário TWOT Lexion p. 263.0.

52 Efrata.

(23)

corriqueira para o hebraico iniciar uma sentença. A primeira frase, iniciando com o “e”, normalmente faria entender que existe uma ligação com o assunto anterior.

Mas, aqui, ocorre outra interpretação: o “e” significa apenas que Boaz subiu, isto é, um exemplo de paragrafagem para chamar a atenção para o personagem Boaz. O redator mostra que a primeira providência de Boaz foi subir ao portão e sentar-se ali.

Ele evita o vav consecutivo, portanto, este “e” não deve ser tomado como indicativo de sequência. Provavelmente o uso da construção com vav dominava a linguagem de tal forma que, ao falar e ao escrever, as pessoas o usassem instintivamente, sem perguntar se estavam no inicio de uma narrativa ou não.

O verbo “subir” dá a ideia de ir recorrer à instituição legal dos anciãos. É que o subir pode ser usado também no sentido figurado de “ir a algum lugarpara recorrer a uma importante personalidade54 ou mesmo recorrer a Deus em petições. Quanto ao verbo subir, cf 3,3, significa o contraste, em que o verbo descer é usado para uma caminhada na direção oposta, como no caso da eira. Aparentemente a eira ficava em nível mais abaixo do da cidade.

No mesmo v1, na frase seguinte, outra palavra importante é o substantivo oportão ...sha “ar55. Nas cidades palestinas, o lugar de encontro era o portão (Dt 21, 19; 22, 13-15). Esse substantivo possui cognatos em ugarítico, árabe e fenício. A ideia básica da raiz é a de “escancarar (como acontece com o verbo em etípo). E “irromper” (como acontece com o verbo em árabe).

“Petah” e “delet” são traduzidas também como porta, “petah” significando entrada, sendo derivada de um verbo que tem o sentido de abrir. A segunda, “delet”, se refere às folhas da porta, que constituem parte da porta em si, “sha’arsignifica o conjunto todo e a área adjacente de circulação dos dois lados. O “sha’ar” (porta) era naturalmente o meio de acesso controlado a uma cidade murada. Dependendo de sua dimensão, uma cidade possuía um número variado de portas, mas sempre uma porta principal que, frequentemente consistia de uma porta externa e uma interna (2Sm 1,24), às vezes de três ou quatro portas, tais como as entradas que Salomão mandou construir em Hazor, Gezer e Megido.

Geralmente, as portas eram de madeira e, com frequência, revestidas de metal (Sl 107,16, Is 45,2) O rei Zedequias, de modo semelhante, se sentou “à porta

54 Claus Westermann p. 355.

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de Benjamim” (Jr 38,37).

Eram mantidas trancadas com grandes barras que, muitas vezes, eram de ferro (Sl 107,16.). O conjunto da porta, frequentemente, possuía quartos laterais, para os guardas (1 Sm 18,24). Também se construía torres para fortalecer a defesa da porta (2Cr 26,9), que era fechada à noite (Js 2,5; Ne 7,3). Em algumas passagens, a palavra designa a porta do templo (2Rs 15,35; Jr 36,10 e Ez 9,2).

A porta era extremamente importante na vida do povo; era ali que as pessoas se relacionavam para discutir o que dizia respeito a questões sociais, administrativas e comerciais. Era o lugar de qualquer assembléia importante. A tragédia de uma cidade era quando os anciãos já não se assentavam à porta (Lm 5,14).

Nesse aspecto, a literatura ugarítica apresenta um paralelo interessante, narrado no livro de Daniel: Ele, Daniel, assenta-se em frente à porta, ao lado das

autoridades que estão na eira (2 Aght 5,6-7). Também o portão é mencionado como

local para execuções: as pessoas eram condenadas diante dos anciãos da cidade à

porta (Dt 22,15-24).

O rei de Israel e Josafá, rei de Judá, estavam assentados, cada um no seu trono, ao ar livre, numa eira à entrada da porta de Samaria. (1Rs 22,10). Tanto reis quanto anciãos da cidade se assentavam para ministrar a justiça (Dt 21,19;Js 20,4). Quando Absalão lançou as bases para sua insurreição, foi junto à porta, local onde ele interceptava as pessoas que vinham até o rei. (2Sm 15,2). Considerava-se uma honra sentar-se entre os anciãos, junto à porta (Pv 31,23).

A praça (com frequência, era uma eira) em frente à porta, era o local mais natural para reunir o povo, e ali os profetas, muitas vezes, falavam à população (2Rs 7,1; Jr 17,19-20) e aos reis. Foi assim que Esdras leu e explicou a lei aos judeus (Ne 8,1; 31). Transações legais também ocorriam ali (Rt 4,1) e o local também servia de mercado ou feira livre.

Frequentemente se menciona o processo de ministração da justiça, mediante a expressão “à porta”. É assim que Provérbios 22, 22 diz “não oprimas ao aflito na porta”. “Aborreceis na porta ao que vos repreende”, referindo-se aos juízes injustos que “tomais suborno e rejeitais os necessitados à porta” (Am 5, 5-10).

As vilas e vilarejos nas montanhas não possuíam portão, mas, segundo Schwantes56, elas eram cercadas estrategicamente, por casas unidas ou por cercas,

(25)

havendo um lugar por onde entrar e sair.

É de interesse, no presente caso, lembrar que se um homem morresse sem deixar filhos, e seu irmão se recusasse a casar com a viúva, esta deveria proceder conforme Deuteronômio 25,7: ”subirá esta à porta, aos anciãos”, a fim de iniciar um processo de humilhação pública ao ofensor. De modo específico, o portão era usado para assuntos públicos, como o que agora é estudado. Clama por justiça “na porta e, no caso de Rute, a moabita, sua situação é definida “na porta” (Rt 4,1) 57.

A frase seguinte, ainda no v1, que inicia com E eis! É uma frase exclamativa, com o intuito de chamar a atenção para um fato de que algo irá acontecer. Finalmente, o “resgatador”, de que falara Boaz a Rute,“ia passando” (qal, particípio ativo). Não há indicação de que ele soubesse do que se passava. Boaz sabia que ele haveria de passar por ali. E, por isso, o esperou naquele local.

A forma principal do verbo qal tornou-se praticamente um substantivo, com todos os seus atributos. O termo traz a ideia de “ga’al” (salvador), onde o go’el é um termo derivado.

O sentido original da raiz do verbo é cumprir o papel de resgatador, redimindo, portanto, o parente, da dificuldade ou sinal de perigo: um homem bom que o ajudaria a resgatar um campo que fora vendido, em um momento de dificuldade, é usado pela legislação do Pentateuco (Lv 25, 25).

A forma participial do qal, tem sido traduzida como “parente-remidor”, ou “resgatador” como faz a ARA.

O resgatador é o personagem que efetua o resgate. Segundo o hebraico, “resgatar58” significa voltar para a terra que pertenceu uma vez à família. O termo que traz a ideia de “salvador”.

As orações estão ligadas pela conjunção “e”,que adiciona uma oração à outra por três vezes, agora, recordando-se da situação na noite anterior, quando Boaz e Rute estavam na eira. Rute lembra Boaz de suas obrigações como go’el ou redentor para com Noemi e Boaz argúi que existe outro fulano que exerce o direito de resgate antes dele, “aquele de quem falou Boaz” (3,8-12). Quando ele, o fulano apareceu, Boaz o chamou e o convidou a se sentar.

“O resgatador estava passando”. O hebraico usa duas palavras de tratamento para o termo “fulano” semelhante ao significado em Português. É uma maneira de

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mostrar que, quem chama, tem em mente uma pessoa definida, de quem está falando, sem, contudo, mostrar o nome.

Segundo essa explicação, a versão Inglesa (RSV) 59 traduz como “amigo”, mas, para Knox e Moffatt60, Boaz o chamou pelo nome e o cronista não se incomodou em fornecê-lo ou talvez não o soubesse. Segundo esses mesmos estudiosos, no Hebraico a depreciação do nome implica em que a designação do homem fazia parte específica do processo jurídico. Em 1Sm 21,2 e 2Rs 6,8, existe um paralelo onde o nome de personagem é escondido, mas com um propósito para isso, diferente do caso atual.

O resgatador estava passando; a ideia principal é que esse verbo é de movimento, assim, como regra, é o movimento de uma coisa em relação a algum outro objeto que está parado, em movimento, ou de motivação. Alguns disseram que a tradução mais simples de ± bar é "passar", mas isso realmente não abrange as diversas nuances que ± abar pode realizar com ele. Ele é usado mais de 550 vezes.

As frases do v.2 são ligadas pela conjunção e são frases que geram ação. Boaz providenciou, em seguida, o que se poderia chamar de um júri. Tomou dez anciãos da cidade que Moffat traduz como sheikhs e os fez se sentarem.

“Sentai-vos aqui” é oração imperativa, que expressa uma ordem, um conselho.

Nos textos de Deuteronômio (Dt 21,19; 22,15) os assuntos municipais estão nas mãos dos z eqenîm, “anciãos da cidade,” Souza61 sugere que este vocábulo também identifique homens possuidores de terras (nahalah), pois, homens livres e plenos é que podem participar do portão, e esses homens têm acesso e possibilidade a uma série de direitos, tais como:

1-participar do exército;

2-participar do culto e da refeição sagrada; 3-“ter privilégios de resgatador(go’el)”;

4- participar da comunidade jurídica no portão, como juiz acusador e testemunha, homens adultos que usam barba (zaqan).

Esse adjetivo cabe também para os termos “ancião”, “velho”. São os chefes

59 RSV, American Revised Standart Version, 1952.

60 R. Knox. The Holy Bible, A translation from Latin, Vulgate in the Light of Hebrew and Greek

Originals,. J Moffatt. A New translation of the Old Testament, 1942 p.

61 Carlos B. N. Cesar Souza, Justiça no Portão! Considerações Exegéticas a Respeito das Exigências

(27)

de família que formam, em cada cidade, uma espécie de conselho (1Sm 30,6-31). Em muitos outros textos, tem-se a palavra sinônima ´sarîm, que também designa chefes de família (Jz 8, 6,16), (Nm 2,7-14), ou oficiais, civis ou militares, funcionários de rei, em reinos estrangeiros ou em se tratando do reino de Israel (1Sm 8,12). Depois do exílio, aparece a palavra negîdim, para designar o mesmo grupo e, nos

textos pré-exílio, eram também conhecidos como nagîd.

Nos textos de Rute 2; 1Sm 9,1, o termo gibbôrim, ou gibbôre hail, significa uma classe de grandes proprietários de terra, uma espécie de nobreza rural, onde se encaixa Boaz. A raiz shofer e as palavras derivadas dela possuem dois sentidos básicos:

1-Juízes maiores: militares que eram carismáticos recebiam o ruah, Espírito de Yahweh, e eles salvavam o povo dos inimigos externos.

2-Juízes menores: não tinham as funções claras ou definidas e não há informações exatas sobre eles. Provavelmente tenham tido o papel de julgar. Soggin questiona essa afirmação, por não ter dados suficientes para afirmar que eles eram juízes no sentido jurídico, isto é, com uma função judiciária, dentro do sistema tribal.

O que se pode dizer é que esses juízes menores representavam tradições independentes e que os redatores reuniram e elaboraram sem quaisquer modificações. Assim, foi inserido o conceito dentro das tradições.

Soggin continua dizendo que essas estórias épicas, do período da conquista, foram preservadas oralmente; algumas tradições eram do Norte e outras do Sul e, às vezes, as interpretações eram diferentes entre o Norte e o Sul. A ação judicial v.2 se inicia com Boaz a caminho do remidor: ”Ele lhe diz que Noemi, com respeito

àquela terra... e tem para venda”. Alguns estudiosos opinam que a viúva não podia

herdar (Nm 27,8-11). Fica claro que Noemi podia, pelo menos, vender a terra, agir como remidor, enquanto o Prosksch62 diz que se trata de um “conceito da lei de família”.

A terra era considerada um presente Divino a Israel e o cumprimento das promessas que haviam sido feitas aos antepassados. Para exprimir “terra de Moabe”, o hebraico emprega uma expressão que parece significar literalmente “os campos do filho de Ló”; traduz-se melhor, colocando-se: os “campos de Moabe”.

62The Bible Doctrine of Salvation comenta: A gente gostaria que houvesse um verbo em Inglês, que

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Isso poderia ser nada mais que uma forma muito natural do hebraico, para descrever um país predominantemente rural. Segundo Morris, “Juízes e Rute, introdução e comentário”, p. 231, tal expressão não é incomum. Por exemplo: “na terra dos filisteus” (1Sm 6,1) ou “Campos de Efraim” e os “Campos de Samaria” (Ob.19). O incomum aqui é a forma plural. Ocorre apenas nesse livro, e sempre a expressão “terra de Moabe”(1,1,6,22; 2,6, 4,3). Em cada uma das passagens, onde ela é encontrada, existe um apoio textual para a forma singular, a mais usual, tanto para os manuscritos hebraicos, como nas versões tais como: LXX, Siríaca e Vulgata A maioria dos estudiosos (F. I. Andersen e Myers Rudolf) concorda que a forma plural é correta; seu significado, porém, não fica claro. Myers, p. 9, toma a expressão como sendo uma construção singular. Segundo Myers, essa é uma forma poética arcaica ‘säday; ele salienta que um campo, ou terra individual é helgat-hassadeh. A hipótese de que se trata de uma forma arcaica de singular é bem aceita, então, o melhor significado seria, “território de Moabe”, “terra de Moabe”.

Interessante é notar que enquanto Moabe é chamado de “campos de Moabe”, Judá é denominada de “terra de Judá” (1,1-18).

É possível que Noemi tenha vendido a propriedade anteriormente a esse momento, para pode subsistir.

Afinal, Boaz vai cumprir a lei do resgate (terra) ou a lei do levirato (família)? As cinco orações que se seguem (v4) são explicativas. E a última é uma oração conclusiva. Ela conclui o assunto definindo-o: “e eu mesmo que contarei para ti dizendo” (v4) ou “vim dizer”, no sentido de “fazer declarar”, de revelar algo, de informar “eu descobrirei a tua orelha essas expressões originalmente significam falar confidencialmente, denotando o levantamento do cabelo ou de uma touca, quem sabe.

Mas, na verdade, o que Boaz faz é informá-lo para que a adquira (compre-a na frente) na presença desses anciãos (pessoas investidas de poder) que estão sentados em frente na presença e na de meu povo se pode resgatar, resgata. Se não poderesgatar, fale para mim (me diga) para eu saber, pois não há outro resgatador senão tu, e eu depois de ti. Interessante observar que Boaz não usa a palavra “casar-se”. Ele prefere usar a palavra “resgatar”.

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habitantes da Palestina, que não são judeus e que colocam obstáculo na observância da guarda do sábado e das festas.

Entende-se que houve um grande esforço dos autores que trabalharam arduamente com o conceito, –am-ha-aretz63, em esclarecer o seu significado e

acredita-se que o termo se refira a todos os judaítas assentados em Judá, durante o exílio, como “Povo da Terra”, o que se torna uma generalização anacrônica e pouco pertinente, para a complexidade do conceito e significado.

Agora (4,5-8), Boaz apresenta seu verdadeiro interesse nesse caso. Rute (tanto como Noemi) está preocupada com a propriedade. O miolo dessa perícope se encontra na afirmação de que só adquire o direito de resgatar a terra de Noemi, aquele que aceitar casa-se com Rute (4,5-8), como já citado.

Outra questão é o costume do go’el, que se refere ao direito e à obrigação que, em Israel, eram de salvaguardar a propriedade familiar (Lv 25,25; 27,9-33; Nm 27,1-11). A responsabilidade da preservação da família é enfatizada. A BDB64 dá ao verbo o significado de “redimir, agir como remidor, enquanto o Prosksch65 diz que se trata de um “conceito da lei de família”. A terra era considerada um presente Divino a Israel e o cumprimento das promessas que haviam sido feitas aos antepassados. É possível que Noemi tenha vendido a propriedade anteriormente para subsistir.

Quatro orações formam o v5, Boaz está advertindo o fulano de que a aquisição da terra terá um senão: o casamento, por levirato. Aqui tem-se diferenças entre as traduções, a ARA66 que traz assim; “também tomarás da mão de Rute, a moabita” (com apoio da F.F.67). Outra tradução possível é: “estarás também comprando Rute, a moabita” Aqui se tem o apoio de Moffatt, Knox e outros.

A primeira opção de tradução reflete o texto hebraico. Contudo, especificamente a Vulgata e a Siríaca dão a segunda opção. O verbo para a melhor tradução é adquirir, como colocado nesta tradução, pois ele dá melhor sentido junto aos v4 e v10. Essa harmonização talvez tenha sido feita pelo próprio escriba.

Talvez Boaz estivesse dizendo, que Rute tem algo a ver com respeito ao

63 Ver explicação no capitulo 2desta pesquisa.

64 Hebrew-English Lexion of the Old Testament, F. Brown, Oxford University Press, 1907.

65The Bible Doctrine of Salvation, Epworth comenta: A gente gostaria que houvesse um verbo em

inglês, que significasse:”resgatar por casamento”. The Bible Doctrine of Salvation, Epworth, 1946, p. 331.

66 Almeida, edição Revista e Atualizada p. 385.

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campo; visto que ela é a viúva de um homem que não teve filhos, e, portanto, o caso envolve casamento com ela, a fim de suscitar filhos.

O miolo dessa perícope se encontra na afirmação de que somente adquire o direito de resgatar a terra de Noemi, aquele que aceitar se casar com Rute (4,5-8), como já citado, pois era importante suscitar o nome do esposo falecido, sobre a herança dele. E, assim o fazendo com o nome de Maalon, o de Elimeleque também o seria.

As frases no v6 são optativas, já que o emissor expressa um desejo. Nas orações que compõem o versículo, a palavra “pois (4,6) Kiî dá a entender que essa conjunção é uma explicação e, ao mesmo tempo, uma conclusão. Isto é, uma decisão vinda da parte do fulano. Aqui, entende-se melhor a razão de o resgatador fulano aparecer sem nome no v1, porque, para o redator, ele também não é importante na história, aparecendo apenas para renunciar seu direito a Rute e desaparece.

Assim, seu nome não importa. É interessante observar que aquele que estava ansioso em preservar e adquirir a herança, agora nem seu nome é conhecido.

O remidor mudou completamente o esquema, quando soube que a redenção do campo e o casamento com Rute viriam juntos. Ele disse: “para mim não a poderei resgatar”. O que é bem diferente de dizer: “não posso resgatá-la”. A razão que ele

dá é: “para que não prejudique a minha”, isto é, a herança do resgatador.

Não é muito claro o significado disso, mas, possivelmente, o resgatador era pobre. Ele pode remir o campo, mas agora ele vê que não há aumento de propriedade. Haverá, sim, uma diminuição de seu patrimônio, visto que ele terá que pagar pela terra que não passará a pertencer à sua família, mas ao filho de Rute.

Normalmente, numa transação dessas, o campo pertenceria à viúva, não à sogra da viúva. Além do que, lhe restaria também a obrigação de sustentar Rute e as despesas seriam bem elevadas. O remidor estava disposto a comprar o campo, sem se casar com Rute. Cassel68 acha que a desmotivação do homem para casar com Rute era o fato de ela ser uma moabita (o que é várias vezes mencionado no texto), e não a alegação de que não se casou porque o filho de Rute herdaria as terras.

Entende-se que ele deveria pensar: toda a família havia se extinguido e, ao

(31)

unir-se a uma moabita, ele não queria ser o próximo. Entretanto, nada existe no texto para explicar o pensamento do remidor. São apenas especulações dos estudiosos. É mais plausível pensar que ele não poderia suportar o fardo financeiro, duplamente pesado: comprar o campo e sustentar a viúva. Isso, segundo o v3, prejudicaria a herança dele. Diante disso, ele tirou sua reivindicação de resgatar e convidou Boaz a assumir as responsabilidades. “Redime tu” é uma expressão enfática.

O que me cumpria no hebraico, é uma expressão cognata de “redimir”69 e de “parente go’el”. O remidor repete sua declaração de que não poderá resgatar. Parece que ele não quer deixar qualquer dúvida a respeito disso.

O narrador, em seguida, explica um costume que se havia tornado obsoleto. Nessas duas orações explicativas, tem-se a fala do redator, explicando sobre o que se passava na época e os costumes sociais da época são respeitados aqui nesta perícope. Centraliza-se em resolver questões legais, “Corpus Legal”, “Lei do Levirato”: tirar a sandália e realizar o contrato no portão da cidade, diante de testemunha.

A LXX se baseou em manuscritos diferentes, ao traduzir o início desse versículo e usou mis’pat como “costume”, “então este era o costume” poderia ser o texto original. O fato é que se o escritor achou necessário explicar o costume, indica que ele escreveu algum tempo após o acontecimento que narra.

O redator interfere na cena, para ensinar o significado de uma antiga tradição que é citada no v7 e que já estava ultrapassada e obsoleta quando o capítulo foi escrito, sendo isso uma indicação de uma datação posterior, conclui Cundall 70. Tal costume diz respeito à remissão e mudanças, isto é, “resgates” e “permutas (remissão e contrato, na ARC). Segundo Morris71, não se tem condição de saber o que esse termo significa realmente, mas ele cita Lv 27, que trata da possibilidade de trocar ou resgatar animais oferecidos em sacrifício. Para ele, o v 10,33 usa exatamente a palavra em questão, para denotar um animal que se pretende trocar por outro, que deveria ser sacrificado. A palavra na perícope parece confinada a situações de que um remidor sucede o outro.

69 ARC (Almeida Revista e Corrigida) traduz como: remissão, p. 386.

(32)

O costume não fica bem explicado, segundo Cooke72, quando a “propriedade era transferida”. Como no caso presente, a ação de tirar o sapato e entregá-lo à pessoa cuja transferência foi feita, representava um atestado simbólico desse ato, investindo-o de validade legal. Tratava-se de transferência de direitos e não de propriedade, o que se tem em vista. O tempo verbal é o perfeito, pois a ação foi feita uma única vez. Era assim que os israelitas registravam seus documentos e as pessoas ficavam sabendo a respeito do acordo feito.

Alguns estudiosos têm objetado sobre essa interpretação do costume, dizendo que o relato mostra ignorância em relação à Dt. 25,5-20, no qual é relatado o que verdadeiramente acontecia. Segundo eles, o relato demonstra que o autor de Rute vivia numa época em que o costume caíra em desuso e no esquecimento, e, por isso, interpretou mal.

Em Deuteronômio 25, 7 têm-se: “o cunhado que se recusa a ajudar a viúva de seu irmão, e não quer exercer a obrigação de cunhado”. Não há um parente alternativo. E os motivos do homem são egoístas. Então, a viúva deve cuspir nele e seu sapato deve ser arrancado à força. O versículo de Dt 25,7 não se enquadra nessa situação, pois o remidor não é parente próximo e nem irmão do falecido; e talvez nem conhecesse Rute. Assim, parece não haver razão para que o mesmo fosse humilhado.

O v7 mostra como se fazia quando um homem simplesmente passava seus direitos a outro. O sapato era nessa e em outras situações, um simbolismo: “sobre Edom atirarei minha sandália” (Sl. 60,8 - ideia de soberania e posse). A entrega do sapato simbolizava a entrega daquilo que iria junto. E. A. Speiser73 cita exemplos, tirados dos documentos de Nuzi, de cerimônias de transferência de sapatos, como meio de validade para as transações.

Só vai resgatar a terra quem casar-se com Rute, conforme v8: o “outro” vai recusar. Deve-se entender o diálogo que se trava entre a recusa do resgatador e o risco à sua propriedade. Essa aquisição e restituição era tarefa do parente mais próximo e também esta associada ao fato de que havia também o uso da lei na questão da redenção dos animais não sacrificáveis, ofertados ao Senhor, ou ainda

72G. A Cooke. , The Book of the Ruth, Cambrigde University Press, 1913.

73Bulletin of American Schools of Research, 77 Fevereiro, 1940, p. 15-18. E.R. Lnacheman também

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dos primogênitos dos animais imundos (Lv 27,11), a transação de forma alguma poderia ser desonesta e, consequentemente, o preço da redenção um pouco mais alto, “compra-a tu(a respeito de comprar , ver Rt 4, 4).

O que o resgatador diz é: “toma-a para ti mesmo e então tirou o calçado”, algumas versões dizem eentregou-lhe” (LXX e Áquila), deixando claro que foi o resgatador quem tirou o sapato.

Um conjunto de frases declarativas existe no v9. Após a constatação de um fato, o emissor faz uma declaração. Boaz inicia sua última fala. E dirige a atenção das gentes presentes para os pontos que ele quer salientar. Primeiro ele se dirige aos “anciãos”, mas se junta a “todo o povo. Há apenas uma preposição unindo os dois grupos, embora os grupos que estejam ligados a eles não sejam idênticos.

Os dois testemunhos, dos anciãos e do povo, são importantes. As pessoas não são espectadoras ou assistentes. Os anciãos foram escolhidos (4,2). O povo também é testemunha mencionada em 4,1. Boaz toma essa atitude para que sua transação seja segura, testada por todos eles, afinal, naqueles dias, existia muito pouco documento escrito e o texto não diz que algo foi posto por escrito, durante a transação. Então, era importante uma multidão de testemunhos confiáveis. Portanto, o “comprei deveria ter o sentido do tempo presente adquiro (4,4).

Até agora tinha-se lido no texto “aquela parte que foi de Elimeleque”(4,3). Porém, agora Boaz comprou, “é tudo o que pertencia a Elimeleque, a Quiliom e a Malom. É a posse de tudo que era da família. Não é muito claro o porquê de Quiliom entrar na transação, afinal Boaz não estava se casando com Orfa. Provavelmente, na ausência de um herdeiro, seu “nome” desapareceria e a parte da propriedade passaria para o herdeiro de Malom, e também existe o propósito de evita-se o acumulo de terras nas mãos de um só latifundiário.

No v10 as frases são justificativas. Elas justificam o porquê da atitude de Boaz e as orações são aditivas, o que é confirmado pelo uso da conjunção e, conclusivas e com justificativas. Boaz chega ao cerne da questão; ao adquirir o campo, ele adquiriu também Rute como esposa. “Rute, a moabita que foi esposa de Malom”, aparece com ênfase na frase (4,4). No hebraico, esse não é um verbo comum, pois qny74é uma raiz que serve para designar aquisição, mas é compreensível, dado à circunstância. Aqui, o pensamento de que a terra é algo dado

74 qny adquirir cf. Dicionário Hebraico-Português (ver Nm 32,42) “Noba foi e tomou Quenate com

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por Yahweh como herança e direito está intrinsecamente embutido.

No v.11 as frases são declarativas. A reunião do juri terminou após a constatação de um fato. O povo faz uma declaração. Dessa vez o povo vem em primeiro lugar, “todo o povo que estava na porta e os anciãos” responderam à declaração de Boaz, dizendo que eram testemunhas. A frase parece ser longa demais, para ter sido pronunciada por “todo o povo”.

A LXX insere ”e os anciãos disseram”. E logo após “testemunhas”. E, não satisfeitos em desempenhar suas estritas funções de juri, eles ,os anciãos, insitiram em pronunciar uma bênção sobre Boaz e sua noiva75. Eles começaram com Rute, usando o verbo “entra”76, o ato foi iminente e tomado como já feito.

No fim dos v11 e v12 o tribunal ratificou e aclamou a decisão de Boaz. A reunião do júri terminou com uma declaração das testemunhas. Primeiro todo o “povo” “que estava na porta”, e os “anciãos responderam à última declaração de Boaz, afirmando que de fato eram testemunhas. Entende-se, que a aprovação destes estava ligada de forma sutil à palavra que os descreveu como testemunhas. A frase que veio em seguida foi bastante extensa, para ter sido pronunciada “por todo o povo”; possivelmente a mesma tenha sido dita pelos anciãos. A LXX diz “e os anciãos disseram” logo após, “testemunha e os anciãos continuam pronunciando as bênçãos”. Observe que eles, os anciãos, não se contentaram em desempenhar unicamente as suas estritas funções legais. Insistiram em pronunciar uma bênção sobre Boaz e sua noiva77. Usaram o verbo entra”, onde o ato é iminente, é tomado como já feito.

Oraram para que Deus fizesse a Rute “como a Raquel e Lia”, embora o povo, os anciãos e Boaz fossem belamitas e, assim, descendentes de Judá, filho de Lia. Raquel foi colocada no primeiro lugar na hora da bênção, talvez porque Raquel fosse a amada de Jacó, havia falecido e sido enterrada nas vizinhanças da cidade de Belém.

A oração da bênção se dirigiu, portanto, para que os noivos, ou melhor, Rute, alcançasse descendência numerosa e distinta. Apesar de ser uma estrangeira, Rute

75 E. Neufeld acha que isto fazia parte de uma cerimônia de casamento e cita Gn 24,26 e Tobias

10,11, Ancient Hebrew Marriage Laws, Logmans, 1944.

Cf. observação de Morris é difícil enxergar uma cerimônia de casamento em qualquer um dos três exemplos e na verdade temos pouca informação a respeito de como se realizava uma cerimônia matrimonial em Israel, Op. Cit, p. 289.

76’ qal part. fem.abs.sing, entrar, coabitar Cf. Dicionário Hebraico- Português, Sinodal 2002, p. 23. 77 E Neufeld. Acha que isto fazia parte da cerimônia matrimonial, e cita Gn. 24,60 e Tobias. 10,11s,

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