II – CONTROLE JURISDICIONAL ORÇAMENTÁRIO
5. CONTROLE JUDICIAL DOS ATOS DE DESPESA PÚBLICA
5.3. DIÁLOGO CONSTITUCIONAL E AS NECESSIDADES PÚBLICAS COMO DIREITOS FUNDAMENTAIS: ESCOLHAS ORÇAMENTÁRIAS PRÉ-
5.3.2 NECESSIDADES PÚBLICAS COMO PRETENSÕES OBJETIVAS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS
5.3.2.2. DIREITOS FUNDAMENTAIS E NECESSIDADES PÚBLICAS
488 Idem, p. 239.
489 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Tradução de Virgílio Afonso da Silva. São Paulo: Malheiros,
2008, nota de rodapé nº 166, à p. 239.
490 Idem, p. 240. 491 Idem, p. 240. 492 Idem, p. 241. 493 Idem, p. 242.
Pode ser inferido das explanações de R. Alexy sobre relações jurídicas que um estudo sobre posições jurídicas que envide por identificar a relação jurídico-constitucional entre Estado e cidadão (relação subentendida pelo princípio do planejamento orçamentário) há de se referir necessariamente aos direitos fundamentais, para enfim se dirigir diretamente às necessidades públicas constitucionais (que pressupõem a tal relação).
Longe de esgotar tema tão amplo, o que seria fugir ao tema proposto, algumas considerações importantes à configuração do aspecto teleológico do Orçamento devem ser invocadas, justamente para servir de fundamentação ao mesmo.
Inicialmente positivadas como direitos de todos os súditos, as liberdades pessoais do habeas corpus e o Bill of Rights beneficiavam preferencialmente o clero e a nobreza. No entanto, a formulação mais geral do que o texto da Magna Carta permitiu gradualmente a extensão desses direitos a não embaraço da liberdade individual aos burgueses.494
Na Declaração da Virgínia, de 16 de junho de 1776, inspiradora da Declaração de Independência dos Estados Unidos cujo lema é a ‘busca da felicidade’, o art. I “constitui o registro de nascimento dos direitos humanos na História.”495
A francesa Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, reconheceu a liberdade e a igualdade em direitos. Do famoso lema francês restou a fraternidade, entronizada somente com a Declaração Universal de Direitos Humanos, em 1948. De qualquer modo, percebe- se que a proclamação da igualdade e liberdade foi uma mudança radical nos fundamentos da legitimidade política, mas de cunho liberal, ou seja, enfatizando-se as liberdades públicas dos indivíduos em face do Estado.496
As instituições da democracia liberal – limitação vertical de poderes, com os direitos individuais, e limitação horizontal, com a separação das funções legislativa, executivo e judiciária – adaptaram-se perfeitamente ao espírito de origem do movimento democrático. Não assim os direitos sociais, ou a reivindicação de uma participação popular crescente no exercício do governo (referendo, plebiscito, iniciativa popular legislativa, orçamento participativo).497
Desse modo pode ser observado que esse primeiro momento pode ser resumido como o processo que culminou na subordinação dos governantes a um documento com maior legitimidade que eles próprios, para determinar a organização do Estado e o espaço de liberdade dos indivíduos e suas relações. obra de duas grandes revoluções, a Americana e a Francesa, consistiu em um
494 COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 3ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p.
48.
495 Idem, p. 49.
496 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23ª ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2004,
p. 158.
“feito notável de geração dos primeiros direitos humanos e de reinstituição da legitimidade democrática.”498
Como “as grandes etapas históricas de invenção dos direitos humanos coincidem com as mudanças nos princípios básicos da ciência e da técnica,” outros direitos estavam por vir, a partir dos maus resultados da economia liberal, a qual, já na primeira metade do século XIX, enfrentava a pauperização das massas proletárias.
Como busca de uma mudança, a Constituição Francesa de 1848 retomou o espírito de algumas normas de exigências econômico-sociais das Constituições de 1791 e 1793, mas definitivamente a Revolução do México (1910), a Russa, em 1917, e a Constituição de Weimar, na Alemanha, em 1919, configuraram a plena afirmação desses novos direitos.499
No ideal desses novos direitos, Jorge Miranda acentua que nas Constituições a partir da mexicana em 1917 e da alemã de 1919, o Estado social cuidou de articular liberdades públicas e direitos sociais, como exemplo as Constituições da Itália 1947, Alemanha de 1949, Venezuela de 1961, Portugal de 1976, Espanha de 1978 e Brasil de 1988.500
O titular desses direitos não é o ser humano abstrato, mas o conjunto dos grupos sociais esmagados pela marginalização. Sobre o tema, José Afonso da Silva aduz:
[...] as declarações de direito do século XX procuram consubstanciar duas ideias fundamentais: universalismo, implícito já na Declaração francesa de 1789, e socialismo (tomada essa expressão em sentido amplo, ligado ao social, e não técnico- científico), com a extensão do número dos direitos reconhecidos, o surgimento dos direitos sociais, uma inclinação ao condicionamento dos direitos de propriedade e dos demais direitos individuais, propensão que refletiu no Direito Constitucional contemporâneo.501
Ainda, o processo evolveu o constitucionalismo para propugnar a incorporação, pelas Cartas dos Estados, de opções políticas dirigidas à proteção dos direitos fundamentais,502 em resposta à possibilidade efetivada pelos unipartidarismos (v.b., nazismo e fascismo) de deturpar discursivamente os direitos positivados em uma Constituição a fim de cometerem violações genocidas.
A busca por efetividade dos direitos fundamentais se dá pelo reconhecimento constitucional de valores e opções políticas, como também preceitua Ana Paula de Barcellos:
498 Idem, p. 51.
499 NETO, Manoel Jorge e Silva. Curso de Direito Constitucional. 4ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 47 e
60; COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 3ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 53.
500 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. Tomo 1. 6° Ed. Coimbra: Coimbra, 1997, p. 96.
501 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23ª ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2004,
p. 162.
502 BARCELLOS, Ana Paula de. Neoconstitucionalismo, Direitos Fundamentais e Controle das Políticas Públicas.
In: Revista Diálogo Jurídico. Nº. 15 – Salvador. Disponível no site <http://www.direitopublico.com.br>. Acesso em 09/08/2007, p. 04.
As constituições contemporâneas, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, introduziram de forma explícita em seus textos elementos normativos diretamente ligados a valores – associados, em particular, a dignidade humana e aos direitos fundamentais – ou a opções políticas, gerais (como a redução das desigualdades sociais) e específicas (como a prestação, pelo Estado, de serviços de educação).503 Na verdade se trata de uma reafirmação histórica dos direitos humanos, pois o valor da dignidade humana foi posto em discussão e seu respeito alçado a princípio norteador dos Estados democráticos, após as atrocidades da segunda Guerra. Tal culminou com a Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948 e a Convenção Internacional sobre a prevenção e punição do crime de genocídio, do mesmo ano.