Apêndice I: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
CAPÍTULO 3 DIREITOS HUMANOS, DIGNIDADE HUMANA E EDUCAÇÃO
Elegemos este capítulo por concordarmos com a afirmação de que os direitos humanos são valores fundamentais, ademais, decisivos para possibilitar a vida em sociedade. Sem o reconhecimento de direitos às pessoas não há sociedade democrática. “Nos Estados Democráticos é comum adotar a dignidade da pessoa humana como fundamento maior da ordem jurídica, conforme o artigo 1º, III da Constituição Federal” (BARRETTO, 2012, p. 25). Ademais, a principal razão que motivou a elaboração deste capítulo foi a constatação da desigualdade educacional no contexto da educação maranhense, no que diz respeito à população negra, revelada pelo último Censo do IBGE. Aportamos na concepção de educação como um direito social e como instrumento para a formação da consciência crítica, de modo que o ser humano possa compreender-se e lutar por sua cidadania. Entendemos que para tal o ser humano precisa se contrapor à visão ingênua da sociedade em favor de sua dignidade.
Pretendemos nesta seção do trabalho buscar as devidas conexões entre direitos humanos, dignidade humana e educação, sobretudo na perspectiva do direito a receber a educação. Ainda que consideramos importante o enfoque sobre os temas relacionados aos direitos humanos na escola, este aspecto não é objeto de nossa atenção nesta seção do trabalho. Por isso, iniciamos o capítulo discutindo dignidade humana como direito, na sequência destacamos a dignidade como autoria e como projeção de Si a partir das abordagens de Paul Ricoeur (2008) e Jean-Paul Sartre (1973), respectivamente. Em seguida discorremos sobre as articulações entre direitos humanos, dignidade humana e educação. Além disso, recorremos à alguns conceitos de Paulo Freire (1987; 1996), destacando o sentido antropológico de Ser Mais e o seu projeto de Educação Libertadora e suas implicações para as relações étnico-raciais. Aventamos, ainda, as bases conceituais do currículo e os seus pressupostos. Finalizamos esta seção trazendo as pautas internacionais e nacionais sobre direitos humanos com o foco para o âmbito educacional.
3.1 Dignidade como direito
Direito e dignidade são expressões que comumente são verbalizadas no cotidiano, sem se precisar “ao pé da letra” o que tais expressões significam. Pelo hábito, as empregamos sem a preocupação de saber como os campos disciplinares as explicam. Por exemplo, costumamos empregar o termo “direito” para aquilo que é correto, e “dignidade” nos remete a
uma “boa pessoa”. Muito embora esses significados estejam de alguma forma relacionados aos citados termos, mister se faz precisarmos ambos os significados, a partir de autores especializados na área de direito.
O direito e a dignidade humana balizam tanto a vida individual quanto social. Dada a sua importância e atualidade é que os diferentes países vêm ao longo dos anos se reunindo para debater questões ligadas ao direito, à dignidade e ao reconhecimento da pessoa humana, de modo que este é um assunto que está na ordem do dia posto pelas declarações, pelas conferências, pactos, tratados tanto internacionais como nacionais. No artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos está escrito: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. A citada Declaração diz ainda no artigo 2º que “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades” (PIOVESAN, 2012, p. 471), e os direitos enunciados cabem a cada indivíduo sem distinção de cor, sexo, língua, religião ou de outro tipo.
Mas, o que é direito? Em que consiste a dignidade humana? Quais os objetivos do direito? Tais expressões se relacionam? Como se relacionam? Antes de irmos às teorias, recorremos aos dicionários, embora consciente das suas limitações, para trazer uma primeira compreensão do que significa direito e dignidade humana.
Segundo o dicionário Aurélio (FERREIRA, 2004, p. 683), enquanto substantivo masculino, direito é “aquilo que é justo, reto e conforme a lei; prerrogativa que alguém possui, de exigir de outrem, a prática ou abstenção de certos atos, ou o respeito a situações que lhe aproveita, jus ou ainda faculdade consentida da pela lei; poder legítimo”.
Os significados acima nos remetem a várias acepções de direito como ciência, como situação relativa a determinados fatos em que uma pessoa tem um direito em relação a outra. Uma outra acepção de direito refere-se ao somatório de disciplinas jurídicas na carreira universitária (CONSTRUCCI, 2010).
Com o fim de relacionar as expressões “direito” e “dignidade”, apenas o uso do dicionário não é o bastante, daí fazermos uma abordagem interdisciplinar sobre ambos, nos valendo das discussões no campo jurídico e filosófico. Vejamos, portanto, no campo jurídico e filosófico como são concebidas as expressões direito e dignidade e suas imbricações23.
A concepção de direito varia conforme o pensamento jurídico. Com efeito, ao levantar algumas literaturas do campo do Direito, é constatado que este não tem uma única
definição. A concepção de direito muda conforme as diferentes linhas de pensamento que conformam os modelos jurídicos.
Ao percorrermos algumas literaturas que tratam sobre o tema, todas as discussões acerca de direito iniciam-se com a clássica distinção sobre direito natural e direito positivo, o que nos fez perceber o quanto é polêmica essa discussão no campo do Direito.
Sobre essa distinção nos deparamos com a leitura de Lyra Filho (2006). Este autor passa em revista os principais modelos de ideologia24 jurídica. As ideologias situam-se entre o jusnaturalismo e positivismo. Uma das diferenças destacadas pelo autor é que a primeira concebe o Direito como ordem justa e a segunda como ordem estabelecida. Nesse sentido, as duas idéias-chave de ambas são justiça e ordem, respectivamente.
Consoante esse autor, o jusnaturalismo é a posição mais antiga, no entanto, é o positivismo que hoje predomina entre os juristas. Cabe-nos então distinguir o que caracterizaria cada uma dessas tendências. Lyra Filho (2006, p. 34) estabelece a seguinte diferença: “O positivismo [...] é uma redução do Direito à ordem estabelecida; o jusnaturalismo é, ao contrário, um desdobramento em dois planos: o que se apresenta nas normas e o que nelas deve apresentar-se para que sejam consideradas boas, válidas e legítimas”.
De todo modo, segundo o autor, para a ideologia positivista o que constitui o completo direito são
[...] As normas, isto é, como vimos os padrões de conduta, impostos pelo poder social, com ameaça de sanções organizadas [...]. [...] se trata de normas da classe dominante, revestindo a estrutura social estabelecida, porque a presença de outras normas – de classe ou grupos dominados – não é reconhecida, pelo positivismo, exceto, quando não se revelam incompatíveis com o sistema [...] (LYRA FILHO, 2006, p. 34-35).
Por sua vez, o jusnaturalismo “admite certos princípios fixos, inalteráveis, anteriores e superiores às leis e que nenhum legislador pode modificar validamente. Por isso mesmo é, comumente, classificado como um adepto do direito natural” (LYRA FILHO, 2006, p. 30).
Nas citadas ideologias, segundo o autor, existe um dualismo cuja superação dar- -se-ia por meio da teoria dialética social do Direito. Pondera ele que
24 A formação ideológica a que se refere o autor é oriunda de contradições da estrutura socioeconômica,
cristaliza um repertório de crenças que os sujeitos absorvem e que lhe deforma o raciocínio, devido à consciência falsa (LYRA FILHO, 2006).
Por meio desta se evitaria a queda entre o direito positivo e o direito natural. [...] importa em conservar os aspectos válidos de ambas as posições [...] a positividade do Direito não conduz fatalmente ao positivismo e que o direito justo integra a dialética jurídica, sem voar para as nuvens metafísicas, isso é, sem desligar-se das lutas sociais, no seu desenvolvimento histórico, entre espoliados e oprimidos, de um lado, e espoliadores e opressores, de outro (LYRA FILHO, 2006, p. 30-31).
Se a dialética do Direito faz a síntese entre as duas concepções, como se configura, então, a essência do direito nessa teoria?
O autor retoma Marx (apud LYRA FILHO, 2006, p. 94), atribuindo a este a afirmação de que a liberdade e o conjunto das relações sociais constituem a essência do homem. “O que é essencial no homem é a sua capacidade de libertação, o que se realiza quando ele, conscientizado, descobre quais são as forças da natureza e da sociedade que o „determinariam‟, se ele se deixasse levar por elas”.
Nessa perspectiva, de acordo com Lyra Filho (2006), o Direito não é uma „coisa‟ fixa, parada, definitiva e eterna, mas um processo de libertação permanente. A luta faz parte do direito. Em acréscimo a essa tese, diz o autor: “O Direito [...] se apresenta como positivação da liberdade conscientizada e conquistada nas lutas sociais e formula os princípios da justiça social que nelas se desvenda” (LYRA FILHO, 2006, p. 101-102).
Ainda sobre o debate acerca do direito natural e direito positivo, Dussel (2007) se posiciona argumentando sobre a insustentabilidade do direito natural. O autor faz a distinção entre os direitos, bem como a ideia de direito natural.
Dussel alude a questão sobre a historicidade dos direitos, tal concepção admite as mudanças constantes que estes sofrem. Assim sendo, distingue aqueles direitos que são perenes, os que são novos e os que se descartam como próprios de uma época passada. Para ele, existe sempre primeiro como dado o direito vigente, positivo. Os novos direitos não são extraídos de nenhuma lista dos direitos naturais; emergem das lutas populares, como diz textualmente:
Os novos movimentos sociais tomam consciência, a partir de sua corporalidade vivente e enferma, de ser vítimas excluídas do sistema de direito naquele aspecto que define substantivamente sua práxis crítica ou libertadora [...]. [...] os novos direitos se impõem a posteriori, pela luta dos movimentos, que descobrem a „falta- -de‟ como „novo-direito-a‟ certas práticas ignoradas ou proibidas pelo direito vigente. Inicialmente, esse novo direito se dá somente na subjetividade dos oprimidos ou excluídos. Diante do triunfo do movimento rebelde se impõe historicamente o novo direito, e se adiciona como um direito novo à lista dos direitos positivos (DUSSEL, 2007, p. 150).
Entendemos que conceber os critérios de definição dos direitos de tal maneira é fundamental para que seja pensada na esteira de Dussel (2007, p. 150) a “transformação das
instituições da esfera da legitimidade democrática” em que o autor propõe a “irrupção dos novos direitos” tendo em vista a “paz perpétua e a alteridade” (ibid).
O autor nos remete à pertinência dos direitos distintos do Outro. Desse modo, articula a igualdade da Revolução Burguesa com a responsabilidade pela alteridade. Assim novos direitos tomam conta dos “explorados, excluídos, os iguais (de raça não-branca, pobres, pós-coloniais, diferenciados por sua cultura, sexo, idade), as massas populares” (DUSSEL, 2007, p. 147).
Acrescenta o autor:
[...] o postulado da esfera da legitimidade é a „paz perpétua‟ que se define pela razão discursiva como a encarregada de chegar a acordos; razoabilidade diante da violência, cumprindo as reivindicações materiais e a participação em igualdade e condições. Renegar a violência como meio de acordos é próprio da legitimidade democrática (DUSSEL, 2007, p. 148).
Argumenta ainda:
[...] a afirmação da alteridade do outro não é igual à igualdade liberal. Mesmo a luta pelo reconhecimento do outro como igual (aspirando à sua incorporação no Mesmo) é algo diverso da luta pelo reconhecimento do Outro como outro (aspirando, então, a um novo sistema do direito posterior ao reconhecimento da diferença) (DUSSEL, 2007, p. 148).
Consideramos que as análises de Dussel (2007) são pertinentes ao tema dos direitos humanos e sobre essa discussão também recorremos a um outro estudioso que se debruça sobre esse assunto.
Em sua obra “A Era dos Direitos”, Bobbio (1992) relata uma indagação que lhe foi feita cuja resposta é pertinente e corrobora a importância no cenário internacional e nacional das declarações, cartas, tratados que versam sobre direitos, dignidade e reconhecimento da pessoa humana.
Perguntaram-lhe se via algum sinal positivo face às características dos tempos atuais, entre os quais, o aumento incontrolado e insensato do poder destrutivo dos armamentos como uma das previsíveis causas da infelicidade humana. O filósofo italiano se posiciona defendendo como sinal positivo o reconhecimento dos direitos do homem nos debates internacionais.
Nesse sentido, convém rastrear o que são direitos humanos. Para tanto, buscamos uma orientação do ponto de vista conceitual e histórico em Dallari (1998); Piovesan (2012) e ainda em Barretto (2012).
Para Dallari (1998), direitos humanos dizem respeito àqueles direitos que são os direitos fundamentais sem os quais a pessoa não consegue existir ou não é capaz de desenvolver e de participar plenamente da vida.
Para Piovesan (2012), direitos humanos são concebidos como unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores da igualdade e liberdade se conjugam e se completam.
Barretto (2012, p. 28) assinala que
A expressão „direitos humanos‟ é utilizada para se referir a direitos universalmente aceitos, positivados na ordem internacional, enquanto a expressão „direitos fundamentais‟ é utilizada para se referir a direitos positivados na ordem interna do Estado.
Nessa esteira, cabe indagar: Como nascem e desenvolvem-se os direitos humanos? A propósito, nos coloca Bobbio (1992, p. 28-30):
Na história das declarações de direitos podem-se distinguir pelo menos três fases. [...] Sua primeira fase [...] a idéia de que o homem enquanto tal tem direitos, por natureza, que ninguém (nem mesmo o Estado) lhe pode subtrair, e que ele mesmo não pode alienar [...]. O segundo momento da história da Declaração dos Direitos do Homem [...] a afirmação dos direitos do homem ganha em concreticidade, mas perde em universalidade [...]. Os direitos são doravante protegidos (ou seja, são autênticos direitos positivos), mas valem somente no âmbito do Estado que os reconhece [...]. Com a Declaração de 1948, tem início uma terceira fase, na qual a afirmação dos direitos é, ao mesmo tempo, universal e positiva.
Barretto (2012), tal como outros autores, configura as fases de desenvolvimento dos direitos humanos da seguinte maneira:
Quadro 8 - Quadro comparativo entre as gerações de direitos humanos
1ª GERAÇÃO 2ª GERAÇÃO 3ª GERAÇÃO
VALOR
CENTRAL LIBERDADE IGUALDADE FRATERNIDADE
Direitos Civis e Políticos Sociais, econômicos e culturais
Difusos, da Humanidade, dos povos (direitos ao ambiente ao desenvolvimento e de proteção ao consumidor) Características Direitos negativos, contraestatais, que negam a atuação do Estado, que impõem uma abstenção do Estado
Direitos positivos, prestacionais, que exigem do estado intervenção no domínio econômico e prestação de políticas públicas
Direitos de todos os homens indistintamente, afirmação da proteção universal do homem
Marco Histórico Revolução Gloriosa na Inglaterra, Independência Americana e Revolução Francesa Revolução Mexicana e Revolução Russa Pós 2ª Guerra Mundial e o Surgimento da ONU
governo de John Locke, e o Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau
sobre a condição dos operários, escrita pelo Papa Leão XIII em 1891 e Manifesto do Partido Comunista escrito por Karl Marx e Friedrich Engels
Marco jurídico
Constituição Americana de 1787, Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 Constituição Mexicana de 1917 e a Constituição Alemã de 1919, conhecida como Constituição de Weimar
Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948
Fonte: Barretto (2012, p. 42).
Além dessas três gerações de direitos humanos, autores como Bobbio (1992) e Bonavides (2008) referem-se a outras gerações. Na concepção Bobbiana, os direitos humanos se afirmaram historicamente em quatro gerações, são elas: 1ª Geração: Direitos Individuais – pressupõem a igualdade formal perante a lei e consideram o sujeito abstratamente; 2ª Geração: Direitos Coletivos – os direitos sociais, nos quais o sujeito de direito é visto no contexto social, ou seja, analisado em uma situação concreta; 3ª Geração: Direitos dos Povos ou os Direitos de Solidariedade: os direitos transindividuais, também chamados direitos coletivos e difusos, e que basicamente compreendem os direitos do consumidor e os relacionados à questão ecológica; 4ª Geração: Direitos de Manipulação Genética – relacionados à biotecnologia e bioengenharia, tratam de questões sobre a vida e a morte e requerem uma discussão ética prévia (BOBBIO, 1992).
Para Bonavides (2008), existe a 4ª geração, compreendida como direito à democracia, e a 5ª geração que compreende o direito à paz.
O Direito Internacional dos Direitos Humanos25, por conseguinte, segundo a classificação de Barreto, estaria na 3ª geração ou dimensões dos direitos humanos. Vejamos como outros autores investigam essa matéria.
Em sua obra “Direitos Humanos e o Direito Internacional”, Piovesan (2012) dispõe sobre os primeiros precedentes26 do processo de internacionalização dos direitos humanos e sua consolidação em meados do século XX. Conforme salienta a autora, a consolidação dos direitos humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial, cujo desenvolvimento está atrelado às violações de direitos humanos da era Hitler.
25“O Direito Internacional dos Direitos Humanos é a parte do Direito Internacional direcionada à temática dos
direitos humanos, sendo formado pelo conjunto de normas e medidas internacionais voltadas para a tutela dos direitos humanos” (BARRETTO, 2012, p. 94).
26 Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos são: o Direito Humanitário, a
Liga da Nações e a Organização Internacional do Trabalho. Para maior aprofundamento, ver Piovesan (2012, p. 177-183).
(BUERGENTHAL apud PIOVESAN, 2012). Nesse sentido, ela acrescenta que os direitos humanos edificam-se com vistas a resguardar o valor da dignidade humana, entendida como fundamento dos direitos humanos.
Recentemente foi publicada a obra “Tratado Luso-Brasileiro sobre a Dignidade Humana” (2009), a qual também é esclarecedora quanto à concepção de dignidade humana. Nessa obra destacamos o autor Marco Antonio Marques da Silva em que discute “Cidadania e Democracia: instrumentos para a efetivação da dignidade humana” (2009).
Silva (2009) elabora a concepção acerca da dignidade humana e assim a conceitua:
A dignidade humana está ligada a três premissas essenciais: a primeira refere-se ao homem, individualmente considerado, sua pessoalidade e os direitos a ela inerentes, chamados de direitos da personalidade, a segunda, relacionada à inserção do homem na sociedade, atribuindo-lhe a condição de cidadão e seus desdobramentos; a terceira ligada à questão econômica, reconhecendo a necessidade de promoção dos meios para a subsistência do indivíduo (SILVA, 2009, p. 224).
Outros autores, como, por exemplo, José Afonso da Silva, afirma que “o termo dignidade humana é empregado como atributo intrínseco, da essência da pessoa humana [...]. É, pois, um valor autônomo e específico inerente aos homens em virtude da sua simples pessoalidade” (SILVA, 1996, p. 91).
Uma outra definição digna de nota é a de Ives Gandra Martins e Celso Ribeiro Bastos, ao prescreverem que a “dignidade da pessoa humana parece conglobar, em si, todos os direitos fundamentais, quer sejam clássicos, de fundo econômico e social” (MARTINS; BASTOS, 1996, p. 425).
Diante de tais conceituações podemos considerar que, tratar o outro como inferior é um ato criminoso na medida em que depõe contra a dignidade da pessoa. A dignidade, por conseguinte, envolve todos os tipos de direitos no que diz respeito à sua singularidade, à sua liberdade, bem como aos seus direitos sociais, econômicos e culturais.
Existe, portanto, uma aliança entre o princípio da dignidade humana como direito humano e o Estado Democrático de Direito. É por meio deste que os direitos humanos se exprimem. O Estado Democrático de Direito é uma forma de Estado que propicia efetivo respeito aos cidadãos, em igualdade de condições e promoção da justiça social. Ademais, a efetivação da cidadaniasó se torna possível naquela forma de organização social.
Assim, partimos da premissa de que é na luta que se constrói o direito e como tal indagamos quais seriam as características, ou como se concebe uma identidade de tal modo.
Mediante essa indagação, buscamos como alguns filósofos argumentam em torno da subjetividade humana. Da forma como a concebem perpassa a ideia de que essa subjetividade é sempre um vir a ser, conforme o que ele quer que seja, visto pressupor luta, movimento e força viva. Desse modo, sujeito digno não é “algo” pronto e acabado, precisa ser construído e perseguido.
Face ao exposto, consideramos importante abordar duas concepções filosóficas que centralizam no homem a responsabilidade por sua existência, por seus atos: a de Paul Ricoeur e a de Jean Paul Sartre.
3.2 A dignidade como autoria (falar, narrar, agir, julgar) em Paul Ricoeur
Conforme os estudiosos da área de direito, citados em páginas anteriores, os direitos humanos são a expressão direta da dignidade humana. Assim, para que um ser humano tenha direito e possa exercê-lo, é indispensável que seja respeitado e tratado como pessoa.
Mas, “quem é o sujeito do direito”? (RICOEUR, 2008, p. 22). A esse respeito, reunimos algumas reflexões em torno do pensamento de Paul Ricoeur (1913-2005), notadamente em um capítulo da sua obra “O Justo I”, intitulado “Quem é o sujeito do direito?” (2008). O filósofo francês discute a noção de capacidade como o pilar do respeito moral e do reconhecimento do homem como sujeito de direito.
Em primeiro lugar, convém destacar em Ricoeur (2008) que o direito conduz à moral e esta à antropologia. A questão “quem é o sujeito de direito” remete a outra: “quem é o sujeito de direito digno de estima e respeito” (aspecto relativo à moral), que, por sua vez, reporta a outra questão, relativa a quais são as características (sic) fundamentais que tornam o ser capaz de estima e respeito (aspecto relativo à antropologia).
O autor tem preferência pela pergunta, usando o termo “quem”, visto que este incita a identificação. Em outras palavras, ao formular a pergunta utilizando o vocábulo “quem”, remete à questão da identidade. Nesse sentido, o termo “quem” é a palavra-chave para a configuração do sujeito capaz.
A noção de capacidade é referência do respeito moral e do reconhecimento do