1 INTRODUÇÃO
4.1 DIREITOS HUMANOS E DIGNIDADE
Discutir dignidade da pessoa humana, como fundamento dos direitos humanos, é essencial para o nosso estudo, porque esclarece o posicionamento das pessoas, movimentos e organismos que promovem os direitos humanos, direitos individuais e sociais, tais como os movimentos ligados à Igreja Católica.
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Serve de alguma forma a citação de Wolkmer (2011, p. 134) que diz: Postura reivindicatória – visa pressionar o Estado à obtenção de melhores condições de vida e de direitos básicos que não são atendidos. Tal proposta tem alcance limitado no que tange a oferecer soluções criativas para superar os impasses. Atendo-se à priorização de lutas segmentadas, acaba caindo no corporativismo ou em práticas clientelistas e populistas.
88 O MEB ainda está em atividade no Brasil, porém a nossa pesquisa tem lapso temporal delimitado da gênese do
Nos documentos da Igreja Católica, organismo ao qual pertence o MEB, a condição de dignidade da pessoa está ligada à divindade. Existe dignidade da pessoa, porque o ser humano é imagem e semelhança de Deus, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC).
A dignidade da pessoa humana fundamenta em sua criação à imagem e semelhança de Deus; realiza-se em sua vocação à bem-aventurança divina. Cabe ao ser humano a livre iniciativa de sua realização. Por seus atos deliberados, a pessoa humana se conforma ou não ao bem prometido por Deus e atestado por sua consciência moral (CATECISMO..., 1999, p. 466).
Justificar a dignidade da pessoa sob uma visão transcendental, cristã ou não, e a sua consequente fundamentação dos direitos humanos não é próprio apenas da instituição católica, pelo contrário, desde a Antiguidade aos dias atuais, muitas teorias de fundamentação da dignidade da pessoa humana se embasam a partir da relação do ser humano com uma divindade.
Nesta relação de um ser divino com o ser humano, alguns movimentos e teorias defendem explicitamente que certas pessoas eram superiores a outras. Platão tem a explicação teísta da pessoa e do mundo, na obra “As Leis”, em que o ser humano depende da divindade para ser um cidadão. Já Aristóteles, por exemplo, explica que existem indivíduos inferiores a outros e, por isso, esses podem ser escravos.
Outro ponto em relação ao fundamento dos direitos humano precisa de atenção, ou seja, a relação do direito natural com o direito positivo, haja vista que a concepção de dignidade da pessoa humana promoveu a regulamentação de leis que protejam o ser humano. Em contrapartida, essa regulamentação carece, para alguns, de explicação de um fundamento supremo.
Nessa discussão entre direito natural e direito positivo, Bobbio (1995, p. 16-17) explica que Aristóteles os caracterizava da seguinte forma: a) o direito natural seria o que em toda parte tem a mesma eficácia, ao passo que o direito positivo tem eficácia apenas em comunidades políticas singulares em que é estabelecido; e b) o direito natural prescreve ações de valores que impede de juízo que o sujeito tenha, enquanto o direito positivo é aquele que estabelece ações que, antes de serem reguladas, podem ser cumpridas indiferentemente de um modo ou de outro, mas, uma vez normatizados pela lei, importa que sejam desempenhadas do modo prescrito pela lei.
Na Antiguidade, o grande exemplo de justificação ética da conduta humana, princípios dos Direitos Naturais, sem que essa justificação recorresse a alguma divindade é encontrada
no Estoicismo89, cujo o ensinamento era de que os seres humanos deveriam ter como princípio supremo viver em harmonia com a natureza (COMPARATO, 1997).
O fato é que desde o início dessas discussões acerca dos direitos naturais e direitos positivos há uma preocupação em conceituar a dignidade da pessoa humana. A dignidade da pessoa humana é o fundamento do que chamamos de direitos humanos (COMPARATO, 1997). Era preciso, portanto, reconhecer que a pessoa é portadora, linguagem jusnaturalista, de direitos pela sua essência, por ser humano. No entanto, os próprios setores da sociedade delimitavam, ou ainda delimitam, quem deve ser considerado ser humano ou não.
Alguns indivíduos careciam de reconhecimento como pessoas, não eram dignos do relacionamento com as divindades e não gozavam da condição de ser humano. Essa “desumanização”, usando o termo de Alves (2005, p. 5), ocorreu com os escravos e não cidadãos das sociedades gregas, mas também, anos depois, aconteceu com os judeus para os nazistas, com os nativos para os colonos, com os negros para os colonizadores. Alguns indivíduos eram considerados sub-humanos e a estes não recaiam as proteções dos direitos naturais.
Voltando ao fundamento transcendental, “na Idade Média, o colossal esforço tomista90 de conciliação da razão humana com a revelação divina, da sabedoria clássica com a iluminação cristã, deu à lei natural uma posição eminente” (COMPARATO, 1997, p. 6-7), isso possibilitou a Igreja Católica, entre o século V ao XV, dizer ou influenciar quem dizia os direitos que estavam de acordo com os princípios de sua doutrina, refutando ideias contrárias a esse pensamento.
Na obra Suma Theologica, de Tomás de Aquino, conforme Bobbio (1995, p. 20-21), o autor prevê as condições básicas da relação entre direito natural e direito positivo. Aquino usa os termos lex naturales e lex humana para se referir, respectivamente, às leis naturais e às leis humanas. A lei humana deriva da lei natural, por exemplo, o fato de ser positivada uma lei contra o falso testemunho está embasado na lei natural de que é preciso dizer a verdade.
Nos séculos XVII e XVIII, recordamos Hugo Grócio com sua contribuição na distinção entre o direito natural e o direito positivo. Distanciando-se da ideia de que o direito natural nascia da vontade divina, ele se apega a tese de que o ser humano é um animal de natureza superior, um ser político que não apenas pretende viver, mas quer viver bem (MACEDO,
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O Estoicismo foi fundada por Zenão de Cítio e tem como base a paz de espírito de acordo com as leis da natureza.
2006, p. 51-53). Dessa feita, para Grócio, o direito natural é uma lei introduzida da justa razão que deve mostrar ao ser humano o que é moralmente torpe (BOBBIO, 1995, p. 20-21).
Immanuel Kant, filósofo do Iluminismo, em “Metafísica dos Costumes”, de 1785, vai tratar das diferenças entre as leis, numa visão jurídica e natural. No entanto, Kant reduz os direitos irresistíveis a um direito, chamado por ele de inato, isso é direito à liberdade e diz “a liberdade (a independência de ser constrangido pela escolha alheia), na medida em que pode coexistir com a liberdade de todos os outros de acordo com uma lei universal, é o único direito original pertencente a todos os homens em virtude da humanidade destes” (KANT, 2003, p. 40).
A liberdade é o direito irresistível que fundamenta todos os outros. No entanto, essa liberdade kantiana deve ser entendida como autonomia, essência da dignidade do ser humano. Por isso, mesmo no mundo das coisas, estas coisas podem ser substituídas por outras, têm valor, por outro lado, a pessoa não teria valor, mas dignidade, haja vista não poderia ser substituída por nem um outro91 (KANT, 2008).
Nessa fase anterior ao Positivismo jurídico, denominada de Jusnaturalismo92, mesmo que o Positivismo tenha várias fases, os princípios dos direitos humanos, entendidos como direitos naturais, são dados e não postos por convenção (LAFER, 1988). Nodari e Síveres (2015) esclarecem que os direitos naturais se constituem como critérios morais de especial relevância para a convivência humana. Nesse viés, o termo direitos naturais está identificado com a teoria Jusnaturalista clássica, enquanto os direitos humanos com a teoria Juspositivista. Todavia, temos a consciência de não podermos separar, porque não é finalidade do nosso estudo, o que existe no direito positivo do direito natural. Nesse sentido, concordamos com Guimarães (2007) que reputa a ideia de descartar a relação entre o direito natural aos direitos humanos, uma vez que o conceito dos direitos humanos está radicalmente válido na pessoa humana enquanto sujeito na natureza, acrescentamos, como sujeito histórico.
Por outro lado, Tosi (2010) explica a importância da positivação dos direitos humanos, quando diz que foi a partir dessa positivação que tais direitos deixaram de ser orientações éticas ou programas de ação, convertendo-se em obrigações jurídicas que vinculam as relações internas e externas dos Estados.
Esse antinaturalismo, negação aos direitos humanos como direitos naturais, é matriz para o Positivismo jurídico que se tornou concepção predominante a partir do séc. XIX. O
91 No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem preço, pode ser substituída
por algo equivalente; por outro lado, a coisa que se acha acima de todo preço, e por isso não admite qualquer equivalência, compreende uma dignidade (KANT, 2008, p. 65).
Positivismo jurídico falha, para Comparato (1997), quando defende o direito humano na competência de quem o promulgou. Dessa maneira, leis injustas teriam validade, o que contraria a base dos direitos humanos que está acima da tirania das leis formalmente promulgadas, porque mais do que uma questão de validade formal, as leis devem corresponder ao valor ético.
Portanto, existe um cerne que une os direitos humanos e este é o fato de que todos estes direitos, sejam individuais ou sociais, têm por vocação o reestabelecimento e a manutenção da dignidade da pessoa humana. Dignidade da pessoa humana, ou seja, “o valor da pessoa humana enquanto ‘valor-fonte’ da ordem de vida em sociedade encontra a sua expressão jurídica nos direitos fundamentais do homem”93
(LAFER, 1988, p. 20).
Quando Comparato (1997) apresenta as características do ser humano para fundamentar a sua dignidade, leva em consideração primeiramente a liberdade, mas também a autoconsciência94, a sociabilidade, a historicidade e a unicidade existencial. A liberdade defendida por esse pensador é a que faz do ser humano um ser dotado de autonomia, a capacidade de dizer suas próprias normas de condutas, e a autoconsciência é oposta ao estado de alienação, sendo a pessoa “aperfeiçoada” quando vive em sociedade e reconhece a sua natureza histórica e insubstituível no mundo, isto é, o ser humano tem um valor absoluto.
Nessa perspectiva, Bobbio (2004) considera que aquilo que parece fundamental em uma época pode não ser em outra, porque os direitos humanos são conquistas históricas e achar que um fundamento absoluto, um valor absoluto, sirva para todas as épocas é tarefa difícil ou impossível. Não se concebe a possibilidade de atribuir um fundamento absoluto aos direitos humanos, pois estes são relativos e o relativismo deriva do pluralismo de ideias.
Nessa discussão sobre a fundamentação da dignidade da pessoa humana, Bobbio (2004), contrariando Comparato (1997), diz que a obsessão em embasar os direitos humanos é uma tarefa infundada, já que haveria vários fundamentos possíveis, por isso mesmo o autor italiano sugere que o problema essencial dos direitos humanos não é a justificação, mas a proteção, tratando-se de um problema de ordem política e não filosófica. Já Bobbio (2004) parte do pressuposto que os direitos humanos são direitos desejáveis, isto é, fins que merecem ser perseguidos.
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Lafer (1988) usa o termo “direitos fundamentais do homem”, entendemos ser esse sinônimo de direitos humanos.
94 A evolução vital e a acumulação da memória histórica não apagam nunca, em cada um de nós, a permanência
consciente na identidade do ser. O homem é, portanto, essencialmente, um animal reflexivo, capaz de se enxergar como sujeito [...]. A autoconsciência opõe-se ao estado de alienação, que é a negativa da especificidade humana [...]. Alienado diz-se do homem que é incapaz de exercer sua liberdade e que vive, portanto, em situação de permanente heteronomia (COMPARATO, 1997, p. 24).
Mesmo que haja “desejabilidade” na promoção dos direitos humanos, esses não foram todos reconhecidos, mas a fundamentação é uma forma de ampliar o seu reconhecimento e, por consequência, a sua proteção. Outro fator é o da exigibilidade dos direitos humanos, haja vista esses direitos não estão vinculados à positivação dos Estados-nação, porque são reconhecidos direitos do ser humano. Tavares (2007) escreve que mesmo que os Estados não positivem os direitos humanos, estes direitos constituem prerrogativas básicas ao ser humano e não perdem a sua exigibilidade pela ausência de sua inserção no arcabouço jurídico.
Por fim, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de 1948, em seu Preâmbulo, traz expressamente que a base dos direitos humanos está ancorada na dignidade da pessoa humana. Entendemos, portanto, direitos humanos como construções sociais e históricas, que, por mais fundamentais que sejam, são direitos surgidos de forma gradual. Esses direitos foram nascidos para atender às demandas dos seres humanos, como aqueles que tem direito a ter direitos, a fim de proteger as suas lutas por garantias individuais e sociais. Por isso, concordamos que são as demandas locais e temporais das pessoas que evidenciarão a precisão de novas proteções (ARENT, 2012; BOBBIO, 2004).