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1 INTRODUÇÃO

4.2 DIMENSÕES DOS DIREITOS HUMANOS: uma construção

4.2.1 Direitos Humanos Sociais

4.2.1.1 Do Direito ao Trabalho

O trabalho desde sempre foi encarado como a intervenção humana na natureza. Existem diversas concepções de trabalho. No Gênesis, isto é, na história da criação na concepção judaico-cristã, após o pecado que o ser humano cometeu contra Deus, o trabalho não é mais alegria, mas castigo104, ou seja, o trabalho é para o aperfeiçoamento do ser humano. Na Grécia Antiga, o trabalho braçal não era valorizado. E ainda, nos tempos de Paulo105, início do Cristianismo, este apóstolo pregava a máxima de quem não trabalha não deve comer106. Nos centros de concentração nazistas, na Idade Contemporânea, o trabalho era visto como libertador107.

Todavia, não é a este trabalho que nos referimos estritamente, pelo menos não é essa concepção de trabalho que corresponde ao trabalho como um direito humano. Não é o trabalho como castigo, aperfeiçoamento, libertação ou, ainda, condição para alguém se alimentar, mas do trabalho como possibilidade de intervenção humana na natureza, como possibilidade de manutenção da dignidade da pessoa humana.

Diante da concepção do direito ao trabalho, Sarlet (2007) explica que a dignidade da pessoa é a qualidade intrínseca reconhecida em cada pessoa que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, induzindo um complexo de direitos e deveres fundamentais que protege a pessoa de qualquer ato de cunho degradante e desumano, assim como garante as condições existenciais mínimas para a vida saudável.

Por isso, “é possível afirmar que o trabalho constitui uma das facetas da dignidade humana [...], especialmente levando em consideração seu caráter de subsistência e realização do indivíduo” (PESSANHA, 2015, p. 9). Dessa forma, o trabalho é visto como fundamental para a realização da pessoa como um sujeito histórico e, consequentemente, sujeito cultural.

O direito ao trabalho está protegido pela DUDH que dispõe assim sobre tal direito:

104 Disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz da tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te

havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar” (GÊNESIS, 3,17- 19).

105 Paulo de Tarso, apóstolo, escreveu diversos textos nos primeiros anos do Cristianismo, nasceu entre 05 a 10

d.C. e morreu entre 64 a 67 d.C. em Roma, Itália.

106 “Se alguém não quiser trabalhar, não coma também”, Paulo, em 2 Tessalonicenses 3,10. 107 “Arbeit macht frei”, em alemão quer dizer “O trabalho liberta”.

Art. 23.

1.Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego.

2.Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.

3.Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita, e à sua família, uma existência conforme a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de proteção social. 4.Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.

Art. 24. Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas (ONU, 1948, p. 12-13).

Dessa maneira, essas normas da DUDH, sobre o direito ao trabalho, reforçam que o trabalho está associado à dignidade da pessoa humana e, por conseguinte, é um fator de complemento da vida humana, seja como necessidade de manter a si mesmo ou de manter à sua família, mas também pelo valor social que é atribuído ao labor (PESSANHA, 2015). “O direito ao trabalho é um direito vinculado ao direito à vida, pois sem trabalho as pessoas não têm como proporcionar uma vida digna para si e para sua família” (FONSECA, 2006, p. 126). Além de outras proteções e normas internacionais, o conhecido Protocolo de São Salvador, de 1988, prevê proteção aos direitos trabalhistas.

Art. 06.

Direito ao trabalho

1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, o que inclui a oportunidade de obter os meios para levar uma vida digna e decorosa por meio do desempenho de uma atividade lícita, livremente escolhida ou aceita.

2. Os Estados Partes comprometem-se a adotar medidas que garantam plena efetividade do direito ao trabalho, especialmente as referentes à consecução do pleno emprego, à orientação vocacional e ao desenvolvimento de projetos de treinamento técnico-profissional, particularmente os destinados aos deficientes. Os Estados Partes comprometem-se também a executar e a fortalecer programas que coadjuvem um adequado atendimento da família, a fim de que a mulher tenha real possibilidade de exercer o direito ao trabalho (CIDH, 1988).

O direito ao trabalho é a expressão genérica do direito de o ser humano ter um trabalho, liberdade de trabalhar, uma atividade laboral digna para se manter e manter a sua família, mas o direito ao trabalho fortalece a expressão direito do trabalho108 que surgiu na Alemanha por volta de 1912, influenciada pela Revolução Industrial (BOBBIO, 2004; MARTINS, 2010).

108 O Direito do Trabalho tem por fundamento melhorar as condições de trabalho dos obreiros e também suas

situações sociais, assegurando que o trabalhador possa prestar seus serviços num ambiente salubre, podendo, por meio do seu salário, ter uma vida digna para que possa desempenhar seu papel na sociedade (MARTINS, 2010, p. 17).

Entendemos que direito ao trabalho engloba, ou melhor, faz nascer outros direitos como o direito ao salário, direito ao devido descanso, direito às férias, direito à associação e sindicalização, dentre outros relativos ao direito laboral (BOBBIO, 2004). Fonseca (2006) destaca que com o início da Revolução Industrial tem-se uma nova concepção de que todos deveriam ter a liberdade de acesso ao trabalho ou ofício.

Nesse sentido, Fonseca (2006, p. 130) defende que o termo “liberdade de trabalho109 seria uma outra terminologia, em alguns casos mais adequada, para o “direito ao trabalho”, a julgar porque no sistema liberal o número de desempregados é elevado e uma cruel naturalidade, deixando muitas pessoas sem a condição de trabalhar. Apesar de reconhecer os argumentos acertados do estudioso, não aprofundaremos essa discussão.

Da época do MEB, a Constituição Federal brasileira de 1946 utilizou a expressão direito do trabalho. Além disso, protegeu o direito ao trabalho e aqueles que estavam ligados a este, como o direito ao salário mínimo capaz de satisfazer as condições de cada região e as necessidades de cada trabalhador e de sua família. Proibia a diferença salarial para um mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil e trabalho noturno a menores de 18 anos, defendia o repouso semanal remunerado e a assistência aos desempregados. Essa Constituição defendia o direito à greve, à liberdade de associação profissional e sindical (GROFF, 2008). Essa Carta Magna também prescreveu que:

Art. 145. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social, conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho humano.

Parágrafo único - A todos é assegurado trabalho que possibilite existência digna. O trabalho é obrigação social.

Portanto, o direito ao trabalho não pode conter, em sua fundamentação como direito humano, o direito a ter uma atividade laboral apenas, porque isso feriria a dignidade do ser humano. O direito ao trabalho está intrinsecamente relacionado às condições de trabalho, à manutenção do trabalho, à permanência da pessoa como ser trabalhador, isto é, a saúde do trabalhador como sujeitos.

109 Pode ser definida como o direito do indivíduo a não sofrer interferências externas no exercício de uma

atividade legítima e livremente escolhida, ressaltando-se, é claro, os casos em que o exercício se encontra devidamente regulamentado pelos poderes públicos. Ela se dirige contra o Estado e também contra terceiros e o seu conceito engloba a possibilidade de que cada um eleja o seu trabalho, segundo as suas aptidões e vocações pessoais (FONSECA, 2006, p. 143).