A defesa dos direitos laborais dos professores revelou-se um elemento estruturante dos discursos da FENPROF e da FNE. Tal constatação não é de todo surpreendente. O associativismo sindical docente focaliza-se precisamente na protecção dos direitos e interesses laborais dos professores. Reside aqui, por excelência, um dos traços que caracteriza e distingue a especificidade funcional dos sindicatos, quando comparada com o âmbito de acção das associações profissionais.
A reivindicação do direito a condições de trabalho condignas surge discursivamente em reacção à paulatina degradação percepcionada das condições e do clima de trabalho nas escolas. A sobrelotação das turmas e as novas funções administrativas altamente burocratizadas que os professores são, em tom irónico, “convidados” a desempenhar, reestruturaram o tempo de trabalho do pessoal docente, nomeadamente a extensão da sua componente não lectiva, aqui entendida como o conjunto de tarefas que extravasam a preparação, acompanhamento e leccionação das aulas e a relação pedagógica com os alunos. No discurso da FENPROF encontramos uma relação de dependência entre a crescente sobrecarga dos professores com tarefas burocráticas e o correlativo decréscimo da produtividade e qualidade da sua performance. Ressalta dos discursos das duas federações sindicais que o exercício da actividade docente deverá reger-se por um condigno regime de tempo de trabalho (i) intelectualmente compatível com a função/cargo desempenhado e as responsabilidades que lhes estão inerentes, (ii) que permita o exercício de uma reflexiva prática pedagógica devidamente preparada, com elevados padrões de qualidade e alvo de uma contínua requalificação, (iii) consagrador de espaços de discussão entre pares e, por fim, (iv) que possibilite conciliar a vida profissional e pessoal, sem que a primeira invada o espaço da segunda. Ter “tempo para ser professor”, aqui entendido como legítimo direito, fazendo uso de uma das expressões paradigmáticas das bandeiras de luta discursiva da FNE, consta da paleta de objectivos que o redesenho estratégico dos horários de trabalho deverá cumprir. Na voz da FNE, impera que o primeiro foco de intervenção procure, desde logo, destronar a “quase” hegemonia exercida pelos ditames burocráticos sobre a autonomia e as funções nucleares da docência. Nesta linha, avança, metaforicamente, que a componente pedagógica e a relação com os alunos podem, sim, subjugar os tempos de trabalho em que o professor se transforma, por momentos, em burocrata e administrativo. Encontramos, ainda, na documentação analisada a denúncia da desproporcionalidade e ausência de relação
Covilhã, 16 e 17 de Maio de 2013
linear que existe entre quatro dimensões-chave: a) organização dos tempos de trabalho (número de horas que o trabalho prescrito e os comportamentos extra-papel somam em conjunto); b) a compensação monetária auferida; c) as especificidades e a centralidade da profissão e, por último, a d) o desgaste psicológico e físico que decorre do exercício da função.
Num outro ângulo de análise das condições em que os professores exercem a sua actividade, desvendámos elementos discursivos denunciadores da crescente deterioração do clima de trabalho colegial nas escolas devida à imposição de uma cultura organizacional potenciadora do conflito que preconiza os valores do individualismo e da competitividade entre pares. A colegialidade e cooperação cedem lugar a relações de atrito e de desconfiança mútua. Na linha do argumento anterior, as disfunções organizacionais ao nível micro das escolas, decorrentes das constantes mudanças no plano macro das políticas educativas e meso da gestão escolar, são erigidas discursivamente como os factores explicativos do mal-estar que se vive na classe docente e cujos indicadores mais visíveis são os graus de insatisfação, desmotivação, emoções negativas, exaustão emocional e ansiedade permanente, stress e desgaste sentidos pelos professores.
Verifica-se que a reivindicação do direito à estabilidade profissional e no emprego é, também, um elemento basilar dos modelos normativos da profissionalidade que a FENPROF e a FNE procuram defender. No arco temporal em análise, a dimensão estabilidade laboral é apelada mais intensivamente em tempos de revisão do ECD e, mais recentemente, quando se discutiram os impactos profundos da reforma da estrutura curricular no (mercado de) emprego docente. Como seria óbvio, os discursos da FENPROF e da FNE vão claramente no sentido da defesa do emprego estável, seguro e protegido. Nesta linha, a FENPROF critica veemente a alegada “progressiva substituição de docentes em lugar de quadro por docentes em situação precária” e, como tal, “facilmente descartável”, fazendo uso de uma expressão paradigmática reiterada múltiplas vezes no seu discurso.
É interessante verificar que, nos últimos seis anos, o objecto central das reivindicações da classe docente mudou de enfoque. Se, durante o período em que o governo socialista assumiu funções, os professores lutavam pela carreira, agora, lutam pela defesa do emprego. A percepção do risco de perder o emprego intensificou-se paulatinamente segundo as recentes reflexões críticas
contidas no discurso da FENPROF a propósito dos impactos da reforma da estrutura curricular. Ainda neste quadrante de análise, a federação denuncia o crescimento muito acima da média nacional do desemprego no sector. Constatámos que, na perspectiva da federação, a incerteza e insegurança profissional/laboral foram importados para o interior da classe docente através dos projectos neoliberais de privatização do sector público da educação.
Encontrámos elementos discursivos que chamam a atenção, não apenas dos professores, mas da opinião pública em geral, para os custos que advêm da deterioração e precarização das condições de exercício da docência. A denúncia do lado emocional das mudanças ocupou uma parcela significativa dos discursos da FENPROF e a FNE. Absentismo, ansiedade, desgaste físico, mental e psíquico, síndrome de burnout enquanto indicador de stress profissional, desmotivação, insatisfação e erosão do compromisso com a profissão, são alguns dos custos individuais mais denunciados e criticados discursivamente. Mais, a ânsia por uma ruptura total com a profissão, materializada no pedido de reforma antecipado e/ou saída do sistema de ensino público, reflecte, na perspectiva das federações, os sentimentos de frustração profissional, cansaço e fadiga emocionais decorrentes da degradação do clima e das condições de trabalho nas escolas, bem como das constantes alterações de fundo que decorrem na educação pública.
As posições assumidas neste aspecto pela FENPROF e a FNE, próximas entre si, são claras. Estes impactos adversos não se coadunam com os objectivos estratégicos, sobejamente publicitados pela tutela, de elevar o profissionalismo, a qualidade, eficiência e eficácia da
performance dos professores numa perspectiva de revalorização profissional. Os efeitos
esperados das reformas educativas e os seus custos sociais mostram-se, à luz dos discursos reivindicativos, contraproducentes e contraditórios e, acima de tudo, comprometem a qualidade do ensino público e do trabalho docente. A FENPROF, em específico, propõe a adopção (urgente) de novas políticas de gestão de recursos humanos nas escolas que, entre outras valências, valorizem, desenvolvam e recompensem o valor distintivo dos professores. Estas políticas, idealmente imunes a orientações gestionárias e orientadas estrategicamente para a gestão de pessoas, devem fundar os alicerces de uma cultura e de um clima organizacional colegiais que assumam o papel de catalisadores do incremento dos níveis de motivação, satisfação, realização, bem-estar e “felicidade” sentidos no local de trabalho.
Covilhã, 16 e 17 de Maio de 2013
Reformas educativas gestionárias e estabilidade profissional: paralelas que podem convergir?
Em jeito de conclusão, apresentamos um quadro-síntese que, de uma forma simplificada, permite enunciar as imagens de marca dos discursos da FENPROF, FNE e ANP, ou seja, as temáticas que os singularizam e distinguem entre si.
Quadro 1: Especificidades temáticas dos discursos da FENPROF, da FNE e da ANP Discurso da FENPROF Núcleo Central de Temáticas Discurso da FNE
√ Co-regulação da profissão em parceria com o Estado
√ Coesão e unidade da acção colectiva docente
√ Forte cultura e identidade profissional
√ Autonomia e poderes profissionais √ Direitos laborais
√ Poderes simbólicos: estatuto e prestígio √ Colegialidade profissional
√ Distintividade, especificidade e centralidade da docência
√ Reflexividade profissional √ Defesa da profissionalidade docente
√ Diálogo social: parceiros sociais como co-reguladores da profissão em parceria com o Estado
√ Estrutura organizacional horizontal e colectiva: carreira única
√ Organização dos tempos de trabalho
√ Funções nucleares da docência
√ Auto-regulação da profissão √ Ética e deontologia
Discurso da ANP
O núcleo central do quadro n.º 1 delimitado a tracejado, reporta-se aos elementos identitários estruturadores dos modelos da profissionalidade docente que não representam a singularidade dos discursos. O tracejado procura demonstrar que os elementos agrupados ocupam simultaneamente uma posição central nos vários discursos. Os elementos identitários que demonstram a particularidade dos discursos coincidem com os traços que, traduzem a especificidade funcional dos tipos de associativismo laboral e profissional (Freire, 2004).
Nos seis anos abrangidos pela análise documental desenvolvida, não se evidenciaram alterações e descontinuidades nos conteúdos identitários, nas concepções e propostas da FENPROF, FNE e ANP. Observaram-se, sim, inevitáveis ajustes de posições em contexto de negociação e conflito.
Os discursos sindicais e associativos providenciam retratos pessimistas de uma profissão em mudança. Como ficou patente, as reformas educativas implementadas desde 2006 desestabilizaram os pilares das identidades profissionais veiculados por estas associações e implicaram uma reafirmação dos discursos profissionais que as tomam como matéria de reivindicação. Na concepção das três organizações profissionais, o leque alargado de medidas de reforma educativa que têm vindo a ser implementadas, quando combinadas entre si, intensificam as tendências de uma desprofissionalização e de crise do trabalho docente. Nesta linha de raciocínio, em sede dos discursos profissionais analisados, as reformas educativas gestionárias assumem o papel de instrumentos desestabilizadores de uma profissão outrora reputada como estável. A filosofia gestionária que subjaz às reformas educativas e a desejada estabilidade profissional surgem descritas nos discursos profissionais como paralelas que não convergem, pois percorrem caminhos opostos.
Referências
Freire, J. (org.) (2004), Associações Profissionais em Portugal, Oeiras, Celta Editora.
Schiffrin, D., D. Tannen, & H.E. Hamilton (eds.) (2003). The handbook of discourse analysis. Malden, MA: Blackwell.
Covilhã, 16 e 17 de Maio de 2013
Precariedade Académica nas Linhas de Montagem Teleoperacionais
Isabel Maria Bonito Roque [email protected] CES_FEUC
Resumo
Em finais do século XX a precariedade e a flexibilização surgem como consequência da abertura e concorrência desenfreada dos mercados económicos conduzindo a um cenário de recomposição laboral de capitalismo globalizado. Os conceitos de trabalho e emprego tornam-se polimórficos, revestindo-se de uma atipicidade contratual. Esta individualização das relações de trabalho reforça situações de precariedade, colocando em causa a vulnerabilidade e a dignidade do trabalhador. Num quadro de inovação tecnológica, o presente estudo toma como representativa uma empresa de call centre localizada em Coimbra, o maior seio académico português. Os call centres ilustram na perfeição o quadro da procura pela sobrevivência por parte dos jovens licenciados. No seio desta conjuntura precária cria-se uma nova geração de ciberproletários (Braga; Antunes, 2009), por um lado, e por outro, de precariados (Standing, 2011). Os jovens teleoperadores, maioritariamente académicos ou recém-licenciados, ambicionam independência económica, durante e após os estudos, procurando para tal as empresas de trabalho temporário, meio de inserção profissional mais eficaz. No entanto, devido ao emprego de um modelo de trabalho toyotista, advêm novos sentimentos de alienação e/ou frustração, de corrosão do caráter (Sennett, 2001). O temporário torna-se permanente. Através de uma metodologia de integração in loco levada a cabo num call centre de telecomunicações, a observação do dia-a-dia dos trabalhadores, assim como entrevistas pessoais, permitem registar em diário de campo o modo como opera uma linha de montagem toyotista. O relato do sofrimento diário inculcado pela opressão e exploração exercidas pelas chefias, as manifestações de protesto social, os jogos de "making out" levados a cabo pelos operadores, manifestam uma repressão silenciada e enclausurada num invólucro de terror diário.
Palavras-Chave: Precariedade, Call Centre, Estudantes, Flexibilização, Identidade Ocupacional