1.7 Tom Regan e a defesa dos direitos morais
1.7.2 Direitos morais versus direitos positivos
A principal crítica enfrentada por Regan deve-se à constatação de que, para alguns
filófosos, o fato de se defender direitos aos animais implica que estes devam ser capazes de
reivindicá-los (OLIVEIRA, 2004, p. 295). Se os animais não entendem o que significa ter
direitos, logo não poderão pleiteá-los.
Para Regan, este é um argumento absurdo, uma vez que, “em geral, não exigimos
que algo deva primeiro ser entendido, antes de poder ser possuído” (REGAN, 2006, p. 79). Os
bebês humanos, por exemplo, não entendem o que significa “ter direitos”, mas isso não
significa que não os tenham (REGAN, 2006, p. 79). Assim, se é esta a resposta apresentada
quando se trata de considerar direitos de seres humanos, ainda que não-paradigmáticos, deve-
se adotar a mesma conclusão para os casos nos quais se discutem direitos dos animais.
Regan continua sua defesa, argumentando que certos direitos não necessitam ser
reivindicados, pois constituem direitos básicos, independentes de acordos ou contratos: “a
vida, a liberdade e a justiça são valores que instituem direitos sem que os indivíduos
voluntariamente os reivindiquem” (FELIPE, 2006, p. 130).
Além disso, o filósofo ressalta que tais direitos básicos são acompanhados,
automaticamente, de “deveres negativos correspondentes”, quais sejam, “[...] os de não matar,
não tirar a liberdade, e o de tratar de modo semelhante os casos semelhantes, sem discriminar
os indivíduos” (FELIPE, 2006, p. 130).
O segundo tipo de crítica direcionado ao trabalho de Regan parte daqueles filósofos
que supõem “[...] que os animais não têm direitos, a menos que tenham todos os direitos”
(REGAN, 2006, p. 79, grifos no original). Mais uma vez, Regan usa o exemplo das crianças
(mas, ressalta-se, poderia ter se referido, igualmente, à doentes mentais ou idosos senis, por
exemplo): é necessário que as crianças tenham o direito de votar para que também tenham o
direito de ser tratadas de maneira respeitosa? (REGAN, 2006, p. 79). Pode-se responder,
corretamente, que não... Portanto, se os “[...] seres humanos não precisam ter todos os direitos
para poder ter algum direito” (REGAN, 2006, p. 79, grifos no original), o mesmo deve valer
para os animais.
Esclarecidas estas questões que são fundamentais para a compreensão da obra de
Regan, resta, ainda, um outro ponto que merece ser enfatizado. Já se disse, no item 1.7.1, que,
segundo o referido filósofo, os direitos morais independem dos direitos positivos, mas é
necessário tecer mais alguns comentários sobre este tema.
De fato, Regan esclarece que a idéia dos direitos animais é bastante simples, pois,
“[...] no nível mais básico, significa apenas que os animais têm o direito de serem tratados
com respeito” (REGAN, 2006, p. 12). Regan não está, assim, defendendo ou exigindo que os
animais devam ter direitos positivados, estabelecidos em leis ou códigos para que se possa
partir em sua defesa. É exatamente o contrário: o filósofo “[...] trabalha, apenas, com a
hipótese de extensão de direitos morais humanos para os animais que possuem determinadas
capacidades que os qualificam como sujeitos-de-uma-vida [...]” (BAHIA, 2004, p. 90-91). A
única reivindicação de Regan é a de que o princípio da justiça seja aplicado para que se
atribua o mesmo nível de respeito a todos os sujeitos-de-uma-vida, sejam eles agentes ou
pacientes morais (BAHIA, 2004, p. 90).
Outro esclarecimento importante sobre os direitos morais pode ser retirado da obra
de Singer que, mesmo não centrando suas pesquisas no debate sobre os direitos, adverte que a
reivindicação de direitos morais para os animais independe do fato destes serem membros de
uma comunidade, terem capacidade de respeitar os direitos dos outros ou, ainda, possuir
algum sentido de justiça (SINGER, 2000, p. 8). Estes argumentos são irrelevantes, uma vez
que são critérios estabelecidos por sociedades humanas tradicionais e a defesa dos direitos
morais ultrapassa esta discussão: constitui, inclusive, “[...] uma base a partir da qual os
arranjos jurídicos podem ser criticados” (OLIVEIRA, 2004, p. 295).
Finalmente, Regan esclarece que os seres humanos não precisam “acreditar em
direitos animais, enquanto conceito filosófico” (REGAN, 2006, p. 41) para que atuem na luta
contra toda a forma de exploração animal. É por esta razão que o filósofo utiliza a expressão
Defensores dos Direitos Animais (DDAs) para se referir a todos aqueles que, acreditando ou
não na existência dos direitos animais, concordem com o fato de que todo o uso de animais
para a satisfação de “desejos” humanos, sejam eles quais forem, é moralmente errado
(REGAN, 2006, p. 75) e, por isso, deve ser abolido:
Ser bondoso com os animais não é suficiente. Evitar crueldade não é suficiente. Independentemente de os explorarmos para nossa alimentação, abrigo, diversão ou aprendizado, a verdade dos direitos animais requer jaulas vazias, e não jaulas mais espaçosas (REGAN, 2006, p. 12).
Para Regan, portanto, qualquer forma de utilização de animais, independentemente
do fato de ser indolor ou de não provocar a morte destes seres, “[...] é um erro – é imoral e
injusto – e não deveria ocorrer” (OLIVEIRA, 2004, p. 291).
Apesar da humanidade estar longe de adotar práticas abolicionistas em relação ao
tratamento dos animais, pode-se indicar como principal contribuição da teoria ética de Regan
o mérito de reacender as “[...] reivindicações do movimento que demanda o alargamento do
horizonte moral humano” (OLIVEIRA, 2004, p. 296).
Entretanto, é necessário esclarecer que, pelo menos no Brasil, diante do que dispõe a
legislação pátria, os animais não são considerados pelo ordenamento jurídico como sujeitos de
direito (ao menos no que diz respeito aos direitos positivados). Neste país, o que se percebe é
que os animais são tutelados juridicamente, embora não lhes sejam conferidos direitos de
forma explícita, conforme será possível constatar no Capítulo 3, no qual serão abordados
aspectos relativos à evolução da legislação brasileira cujo objetivo “declarado” seria a
proteção da fauna silvestre.
2424 Para uma discussão mais completa sobre a inclusão dos animais na categoria de sujeitos de direito, sugere-se a
leitura do Capítulo 2 da seguinte monografia: MARTINS, Tiago de Souza. Vivissecção: legislação sem efeito, animais sem proteção, sociedade sem ética?. 2004. 149 f. Monografia (Curso de Graduação em Direito) - Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. p. 72-80.
2 A NATUREZA A SERVIÇO DO HOMEM: SUBSÍDIOS PARA ENTENDER A
CITES
[...] meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos cartazes de música, rock e cinema.
O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador (GALEANO, 2003, p. 116, grifos no original).