1.5 Da filosofia moral de Jeremy Bentham aos primeiros Tratados multilaterais
1.5.2 O nascimento do Direito Internacional do Meio Ambiente
Até 1945, os Tratados internacionais que versavam sobre o meio ambiente eram
escassos "[...] e se limitavam a assegurar a proteção de espécies ditas 'úteis' à agricultura, a
gestão racional de certos estoques a fim de proteger o bem-estar econômico de grupos
precisos (como os pescadores) ou a conservação dos animais de caça" (LE PRESTRE, 2000,
p. 160).
Entre o final da Segunda Guerra Mundial e o início dos anos 60, surgem instituições
como a União Mundial pela Natureza (UICN), criada em 1948, e o Fundo Mundial para a
Natureza (World Wide Fund for Nature - WWF), este com origem em 1961 (LE PRESTRE,
2000, p. 165). Le Prestre (2000, p. 164) ressalta como positivo o fato de que, neste período,
muitas medidas adotadas pela comunidade internacional refletem um aspecto
conservacionista, sem excluir uma preocupação econômica. Nesse sentido, o autor canadense
cita os diversos acordos sobre a "proteção" do atum, como a Convenção sobre a criação de
uma comissão interamericana do atum tropical, de 31 de maio de 1949 (LE PRESTRE, p.
162, p. 164-165).
É preciso ter cautela antes de tecer este tipo de consideração, afinal, nos moldes da
sociedade capitalista e de consumo, quando se fala em conservacionismo, deve-se ter em
mente o seguinte questionamento: seria necessário preservar algo que não é dotado de valor
comercial?
cazar, a pescar, y a recoger. El medio ambiente es nuestro supermercado. Cuando damos el pecho a nuestros bebés, les hacemos beber un cóctel químico tóxico que presagia desórdenes neurológicos, cánceres, enfermedad renal, disfunción reproductiva. El hecho de que las madres inuit – lejos de las zonas en que se fabrican y se utilizan los COP – tengan que pensar dos veces antes de amamantar a sus infantes sin duda es una llamada para despertar al mundo.” (Tradução disponível em ALBUQUERQUE, 2006, p. 74).
Foi a partir desta perspectiva que foram pactuados o acordo sobre os atuns,
precitado, e muitos outros versando sobre a "conservação" das focas, da vicunha, dos ursos
polares... Mas não é preciso refletir para encontrar um elemento comum entre todos estes
"bens" supostamente "protegidos": a raridade de seus genes. A lógica reinante é, portanto, a
seguinte: "preserva-se genes valiosos, ou seja, preserva-se a vida pelo seu valor instrumental,
não pelo seu valor intrínseco" (BRÜGGER, 2004, p. 22), noções que deverão suscitar mais
reflexões ao final deste Capítulo.
Quanto mais rara a espécie, maior seu valor comercial. O resultado deste binômio
foi, então, o crescimento do tráfico internacional de animais silvestres e dos produtos
derivados destes animais. Dados sobre esta atividade ilícita no Brasil serão fornecidos no
Capítulo 3; entretanto, para ilustrar a afirmação feita no início deste parágrafo, é possível
descrever o que aconteceu com a população global de tigres ao longo do século XX: do ano
de 1900 até o ano de 2000, o número de tigres caiu 95%. Acredita-se que, na atualidade,
existam cerca de 5.000 a 7.500 destes animais sobre a face da Terra, sendo que 3 de 8
subespécies já foram extintas. Estima-se que um tigre vivo valha, no mercado negro, cerca de
US$ 15.000, enquanto a pele destes animais chega a valer US$ 10.000, ou mais (FRENCH;
MASTNY, 2000, p. 188).
Ciente dos efeitos do comércio ilícito da vida silvestre, em 1960, por ocasião de sua
7ª Assembléia Geral, a UICN alertou os governos que restringissem as importações de
animais, em consonância com as regulamentações de seus países de origem. Esta proposta foi
muito questionada em função das dificuldades dos países importadores conhecerem as
regulamentações de exportação dos países fornecedores. (WIJNSTEKERS, 2003, p. 19).
Em 1963, então, em outra Assembléia Geral da UICN ocorrida em Nairobi,
aprovou-se uma resolução conclamando à necessidade de criação de uma Convenção
internacional para regulamentar a exportação, o trânsito e a importação de espécies silvestres
raras ou ameaçadas, bem como de suas peles e troféus (WIJNSTEKERS, 2003, p. 19).
O primeiro projeto desta Convenção ficou pronto em 1964. A partir daí, foram
consultadas várias organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas
(ONU) e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade
- GATT) (HUXLEY, 2000, p. 6).
Em 1969, os Estados Unidos da América aprovaram o Endangered Species
Conservation Act, o qual pretendia "proteger espécies ameaçadas do mundo, proibindo
de origem"
21(HUXLEY, 2000, p. 6, tradução livre do autor). Esta legislação teve grande
influência no desenvolvimento da CITES, pois as imposições quanto ao controle do comércio
de espécies selvagens passaram a ser baseadas no interesse dos países importadores, como os
EUA, sem levar em consideração as expectativas dos países exportadores (HUXLEY, 2000,
p. 6-7). O governo norte-americano deveria decidir, então, quais espécies estariam ameaçadas
e, para isso, utilizaria a lista vermelha divulgada pela UICN (HUXLEY, 2000, p. 7).
Em 1971, foi apresentado um segundo projeto de Convenção (WIJNSTEKERS,
2003, p. 19) e, em 1972, durante a Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano,
organizada pela Assembléia Geral da ONU, elaborou-se a Recomendação n.º 99.3, com vistas
a regulamentar o comércio internacional de animais silvestres. Com base nesta recomendação,
88 países deveriam estabelecer um projeto de Convenção durante uma conferência de
plenipotenciários a ser realizada em Washington, entre os meses de fevereiro e março de 1973
(WIJNSTEKERS, 2003, p. 19).
Assim foi redigido o texto da Convenção sobre o Comércio Internacional das
Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (CITES). A CITES foi assinada,
em 3 de março de 1973, por representantes de 21 dos países que participaram da Conferência
de Plenipotenciários (CONFERENCIA DE LAS PARTES, 2005) e entrou em vigor no dia 1º
de julho de 1975, após a décima ratificação (WIJNSTEKERS, 2003, p. 19).
A referida Convenção é administrada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA) e conta, atualmente, com a adesão de 169 países (SECRETARÍA
CITES, 2006), inclusive o Brasil, que promulgou a Convenção pelo Decreto n.º 76.623, de 17
de novembro de 1975 (BRASIL, 1975).
22Antes de uma análise sistemática do texto da CITES, examinando seus artigos, bem
como os mecanismos que cria para regulamentar o comércio internacional da vida silvestre e,
supostamente, preservar as espécies ameaçadas de extinção ou que possam vir a ser afetadas
em razão do comércio, faz-se necessário retomar o debate sobre o “valor” dos animais.
Foi dito, anteriormente, que a vida de muitos animais é preservada unicamente em
decorrência do valor instrumental que representa. Assim, é comum classificar determinados
animais como raros, incomuns e, até mesmo, valiosos. Em contraste à noção de valor
instrumental, entretanto, surge a idéia de valor intrínseco ou inerente destes animais. Uma
21 "to protect the threatened species of the world by banning all imports of such species whether or not they can
be taken legally in their country of origin".
22 O Decreto n.º 76.623, de 17 de novembro de 1975 (BRASIL, 1975), traz apensada a Convenção sobre o
Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (CITES). Doravante, quando for feita alusão ao texto da Convenção, indicar-se-á o artigo e o parágrafo citados, seguidos da sigla CITES.