3 PCB E SUA CONCEPÇÃO DE REVOLUÇÃO
4.2 Dirigentes e trabalhadores: conscientização de classe
O militante comunista procurava caminhos diversos para divulgar as idéias comunistas, entre os quais a instituição de cursos de formação nos mais diversos locais do país e para as mais diversas categorias de trabalhadores. Tendo como referência histórica o modelo europeu de desenvolvimento social, os pecebistas,
12 Como exemplo do embate entre duas forças contrárias, veja a obra de Monteiro Lobato “Jeca Tatuzinho” que, publicado pela primeira vez na década de 1920, mostra uma grande crença na ciência em oposição à triste figura do Jeca. Um homem doente, preguiçoso, ignorante, faminto, cheio de vícios, que não conseguia produzir além de suas necessidades básicas. Numa visão crítica da ciência e de defesa do pensamento católico, veja Alceu Amoroso Lima “Indicações políticas”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936 e Pe Leonel Franca “A crise do mundo moderno”. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio, s/d.
considerando que estavam situados em um país agrário semifeudal, para se referirem ao operário brasileiro, ampliavam o leque para as mais diversas formas de profissão. Neste sentido, é relevante notar que o “Centro de Cultura Proletária”, publica panfletos convidando:
[...] operários de fábricas e oficinas; trabalhadores das estradas de ferro, do porto e dos navios; trabalhadores a domicilio; empregados do comércio que não se preocupem muito com a roupa. Depois é que procurarás os trabalhadores dos campos: caboclos, colonos-servos, rendeiros, meeiros. Por último, alguns pequenos comerciantes; mas não tenhas fé nesta gente porque de milheiro se tira um 13.
Na primeira metade do século XX, a industrialização ocorria mais no eixo São Paulo e Rio de Janeiro, ao passo que, nas demais localidades, prevalecia a produção agrícola, permeada pelas relações de compadrio e mandonismo local
14. Ou seja, o projeto revolucionário do PCB, centrado na classe operária, deveria antes romper com a forma oligárquica, feudal, regionalista de produção econômica e de mando político. Assim, o esforço do militante comunista era criar a consciência operária, ao mesmo tempo em que julgava necessário criar o desenvolvimento do capital nacional e o trabalhador industrial assalariado.
Em um país, cuja geografia e cultura conspiravam contra a organização unificada da classe operária, as dificuldades não foram poucas. Como exemplo, vejamos o enunciado que consta na contracapa do “Abecedário dos trabalhadores”:
E’s pobres? E’s um trabalhador? Pois reúne num domingo, em tua casa, três ou quatro companheiros de trabalho; lê e relê estas linhas; discute com eles o que te digo. Faze com que cada um deles proceda da mesma forma. Espalha o mais possível este Abecedário, que é teu, que é o abecedário dos trabalhadores; publica-o npublica-o maipublica-or númerpublica-o ppublica-ossível de jpublica-ornais; manda imprimir milhares de exemplares e espalha-os entre os trabalhadores das fabricas, usinas, engenhos, fazendas, oficinas. Mete essas idéias na cabeça dos milhões de trabalhadores de terra e mar;
trava discussões em torno delas, em toda a parte – nas cidades industriais, nos grandes navios que fazem a viagem para a Europa, nas jangadas dos praieiros do Norte, no meio dos seringais, na catinga cheia de vaqueiros, nos altos sertões, na rica zona da mata, nos pinheirais e coxilhas do Sul, nos garimpos de Minas Gerais, nas minas de ouro e carvão de pedra. É de teu interesse, é para teu benefício15.
A complexidade regional, com suas formas de trabalho e de produção, dificulta a ação organizativa centralizada em um partido político, especialmente
13 COMISSÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA DO PCB. Centro de Cultura Proletária, op. cit.
14 Nas décadas de 1920 e 1930, no que diz respeito à relação capital e trabalho, era comum encontrar outras formas de contrato que não se entendiam como de assalariados, como os meeiros, os arrendatários e etc.
15 BRANDÃO. Abecedário dos trabalhadores. Rio de Janeiro: PCB, 1927, contracapa (CEDEM – SP).
porque este, naquele momento, colocava-se como representante de uma classe que ele próprio julgava não estar ainda inteiramente constituída no Brasil. Assim, era necessário também definir o que era classe trabalhadora no Brasil. Nesse contexto, o partido estendia o apelo à organização para as mais diversas formas de trabalhadores e definia classe operária por meio de uma visão empírica. De acordo com documentos do “Centro de Cultura Proletária”, era necessário “estudar a questão operária e propagar em tua localidade as idéias que mais convém à libertação dos pobres, das garras dos ricos”
16. Ou seja, num sentido bem amplo, o pobre era definido como classe trabalhadora, cujo inimigo seria o rico.
O PCB necessitava “despertar” a identidade da classe trabalhadora no momento em que a sociedade estava construindo as relações de trabalho assalariado. Sobre esta questão, ressaltamos que, após 1930, no governo de Vargas, o Estado se dedicou a regulamentar as leis trabalhistas
17, assumindo também as diretrizes da reestruturação econômica e política do país
18, o que tornou a relação entre trabalho e capital mais complexa, conforme Aued ressalta ao refletir sobre a experiência do “sapateiro militante”:
16 COMISSÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA DO PCB. Centro de Cultura Proletária, op. cit.
17 Após o movimento de 1930, através do decreto 19.070 de 1931, o governo passou a interferir na questão sindical e na questão social, transformando os sindicatos em agências de prestação de serviços médicos e jurídicos aos trabalhadores. Adotando o principio da unidade sindical, esse decreto permitia a existência de apenas um sindicato por município e por categoria profissional (Ver:
RODRIGUES. Conflito industrial e sindical no Brasil. São Paulo: Difel, 1966, p. 204).
18 Na crise da tradicional política “café com leite”, cresceu a crença de que a centralização do poder poderia evitar que os “tradicionais donos do poder” continuassem a governar para satisfazer suas necessidades pessoais. A defesa da centralização política com um governo forte tinha como argumento a inorganicidade e atomização da sociedade. Assim, criticava-se o governo local e falava-se em governos que atuasfalava-sem em prol dos interesfalava-ses da nação. Em meio à crítica ao passado político e econômico brasileiro, defendia-se a reorganização política por meio de um Estado centralizado e gerenciador. Em meio à crise da economia cafeeira, esta política centralizadora pendia para a política de industrialização. O governo de Getúlio Vargas, que, logo no início, não previu a institucionalização de qualquer política de industrialização, no decorrer dos anos mudou de atitude e, de modo geral, a indústria passou a ser considerada como sinônimo de desenvolvimento e riqueza.
Esta intenção do governo pode se percebida nas palavras anunciadas por Getúlio Vargas em 1932:
“No momento nacional só a existência de um governo central, forte, dotado de recursos suficientes, poderá trazer o resultado desejado [...]. Se a produção das riquezas com o incremento das explorações existentes e a utilização dos potenciais constituem um programa imediato, seguramente, a sua circulação é a parte dinâmica de qualquer renovação nacional. Rodovias, ferrovias, navegação fluvial, são os escalões imprescindíveis para a perfeita e completa integração do País. Está em preparo o grande plano de ferrovias e estrada de rodagem, cuja execução progressiva será realizada.
Seguramente, é trabalho para muitos anos, talvez para mais de uma geração, mas a existência da Nação conta-se por séculos, e a continuidade do desenvolvimento do país reclama um incessante esforço” (VARGAS, v. 5, p. 164-5. In: SCHWARTZMAN (org.). Estado Novo, um auto-retrato.
Brasília: CPDOC/FGV, 1983, p.422-3).
Em termos gerais, José espelhou o momento da ‘invenção do trabalhismo’, como sugere Gomes (1987)19. Assim, pertencer à classe assalariada, no Nordeste brasileiro, nas décadas de trinta e quarenta do século XX, significa dizer que pertenceu ao conjunto de trabalhadores cujos direitos trabalhistas estavam sendo criados, não sem dificuldades. O sindicato e o sindicalizado são invenções desse período histórico. Portanto, nada estava dado, as relações sociais e as instituições estavam sendo construídas num contexto histórico peculiar, no qual o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, jogou em dois tabuleiros: por um lado, regulamentou o trabalho [...], mas por outro, abriu o país aos capitais estrangeiros.
Coerção de um lado e busca de consenso de outro20.
Essas medidas governamentais eram necessárias, porque, naquele momento de crise da economia cafeeira e da política federalista, o trabalhador de origem rural, desempregado, estava migrando para os grandes centros urbanos.
Era, portanto, necessário integrá-lo ao novo universo de consumo e trabalho, ao mesmo tempo em que o imigrante estrangeiro também precisava ser integrado à Nação. Nesta complexidade regional, produtiva e cultural, o Estado, com medidas populistas, procurava encontrar a melhor forma de construir a identidade brasileira e o desenvolvimento econômico do país, enquanto o PCB assumia a tarefa de construir a identidade de classe. Com esta finalidade, o partido se esforçava para aplicar a teoria leninista à realidade brasileira, combatendo os elementos que, de sua perspectiva, impediam o desenvolvimento da classe operária: o ruralismo e o imperialismo.
Na luta pela organização operária e por construir a identidade de classe, as dificuldades não residiam apenas nos inimigos externos ao PCB, mas também na organização interna de seu próprio quadro militante, cujos integrantes originavam-se de facções sociais variadas. Dele participavam trabalhadores manuais e intelectuais, mas os jovens intelectuais tinham mais acesso à função de dirigente e às tarefas de divulgação da idéia comunista. Esse fato gerou uma polêmica a respeito da relação entre dirigentes, identidade da classe operária e classe que o partido representava.
Sobre esta questão, Leôncio Martins Rodrigues comentou que a maioria dos jovens dirigentes não provinha do chão da fábrica, mas de famílias tradicionais decadentes que buscavam, no mundo urbano, na política ou nas Forças Armadas, uma alternativa para continuar garantindo uma existência digna para si e seus numerosos dependentes. Segundo Rodrigues:
19 A obra citada refere-se a GOMES. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
20 AUED. O sapateiro militante. Campina Grande: EDUEP, 2006, p. 66. Sobre esta discussão ver também as páginas 181 a 183 do mesmo livro.
[...] os dirigentes do PCB provieram fundamentalmente dos intelectuais (especialmente jornalistas e professores), profissionais liberais (médicos e advogados), e, em meados da década de trinta, do Exército (capitães e tenentes), quase todos eles de famílias brasileiras tradicionais do Nordeste e do Estado do Rio, especialmente. Embora alguns dos intelectuais comunistas tivessem passado pelo anarquismo, a fonte social de recrutamento do PCB foi diversa do anarquismo.
Este se baseou nos trabalhadores manuais de formação artesanal, de origem européia (italianos e espanhóis, principalmente), o esquerdista típico do período anterior à Primeira Guerra Mundial era o operário imigrante anarquista; o esquerdista típico subseqüente foi o jovem intelectualizado de família tradicional decadente dos Estados pobres21.
Segundo Leôncio Martins Rodrigues, a predominância dos jovens intelectualizados das famílias tradicionais na direção do PCB deveu-se ao fato de que, em comparação aos membros oriundos do meio operário, eles tinham mais condições para desempenhar tarefas que exigissem um grau maior de estudo:
[...] levavam ampla vantagem em termos de nível cultural para compreensão das sofisticadas elaborações teóricas do marxismo, de informação e conhecimento da sociedade nacional, de tempo disponível para militância, de apoio familiar quando a repressão tornava-se particularmente dura e, last but not least, de contacto e relacionamento com as altas esferas políticas22
.
Os jovens dirigentes, no papel de divulgadores do comunismo, não se viam como homens comuns da sociedade. Acreditavam que a vanguarda comunista tinha um papel extra-humano na geração do novo, ou melhor, viam-se como aqueles que estavam no mais alto nível das práticas humanas. É o que observa Leôncio Basbaum, ao falar de seu ingresso ao Partido em 1926:
Assim, a partir daquele mês de maio de 1926, em que ingressei no Partido, minha vida mudou inteiramente de rumo. Acabaram-se os namoricos e bailaricos [...].
Praticamente me isolei dos poucos colegas com os quais eu ainda mantinha certas relações de amizade – ou de estudos – para consagrar por inteiro às minhas tarefas [...]. Quando entrei no partido, essas relações se tornaram ainda mais débeis. Fui atacado do mesmo mal que atacava a todos os que ingressavam no Partido: uma espécie de sectarismo que nos tornava em criaturas alcançadas pela graça divina e nos fazia encarar todos os seres humanos não-comunistas como infelizes que ainda não haviam descoberto a Verdade23.
Em um estado de beatitude, o militante da ordem comunista subordinava as contradições capitalistas à sua teoria revolucionária. Neste estado de graça, o anunciador das boas novas tendia a se isolar das massas e, com um
21 RODRIGUES. O PCB... In: FAUSTO (org.). História geral..., op. cit., p. 385.
22 Id. ibid., p. 391.
23 BASBAUM. Uma vida em seis tempos, op. cit., p. 40-41.
comportamento excêntrico, em um árduo trabalho e disciplina, voltava-se para o futuro.
A consciência que se queria formar na classe operária passava a significar também a negação não só da ideologia, mas das conquistas produtivas burguesas.
Segundo Leôncio Basbaum, a consciência operária partidária pura era a do operário que não se contaminava com os hábitos burgueses:
A proletarização tinha apenas um sentido romântico: proletarizar-se significava, segundo alguns, abandonar hábitos burgueses, só fumar cigarros baratos, andar mal-vestido. A própria gravata passou a ser um sinal de tendência pequeno burguesa. [...] até mesmo tomar banho diário era um resquício pequeno-burguês capaz de afetar a ideologia proletária do Partido24.
A adoção de novos hábitos era também uma forma de a vanguarda se mostrar diferente dos seus antepassados. Por meio dessas novas posturas, a divulgação das idéias e a organização partidária deveriam criar forças para criar a unidade, a pureza ideológica e a identidade de classe. Pelas observações de Basbaum, podemos deduzir que todos esses comportamentos significavam, antes de tudo, uma negação do contexto social. Nesse sentido, a vanguarda comunista não se via como parte do movimento contraditório da sociedade capitalista, mas como uma espectadora da tragédia burguesa. Assim, mantinha-se em um compartimento à parte da forma de vida comum, o que a levava a um isolamento em relação à sociedade.
Em suma, as questões aqui apontadas nos induzem a afirmar que a diferença social e cultural e a imaturidade teórica dos dirigentes comunistas podem ter influenciado o posicionamento dos dirigentes pecebistas, contribuindo para florescer o sectarismo. Porém, não entendemos que estes sejam elementos determinantes. Mais importante seria considerar a base teórica que sustentava a forma de ser do jovem comunista. Não podemos ignorar que a presença de intelectuais era urgente no Partido, mas a questão fundamental, de nosso ponto de vista, é a concepção de história que fundamentava as teses aprovadas pelo partido.
Neste sentido, é possível considerar que o isolamento em relação à sociedade e às demais correntes de esquerda foi fruto da concepção etapista e
24 Id. ibid., op. cit., p. 75. Esse comportamento parece deslocado do que se propunha para a sociedade comunista. Para Marx é a riqueza e a capacidade de produção que permitem ao homem viver como comunista. Para Lênin, a ciência burguesa produtiva não deveria ser negada, mas apropriada e superada.
bipolar da história, na qual se sustentava a idéia de que o Partido Comunista era o representante certo e seguro da nova ordem social. Esta concepção, em parte, também contribuía para fortalecer, no partido, a idéia de que ele era o condutor do trabalhador ignorante, já que apesar de ser considerado o elemento revolucionário, este era também entendido como inconsciente da força que tinha. O partido iria
“despertar” a consciência:
O proletário, este, sim, é que ainda não ganhou consciência de sua força. Ele não sabe o que vale e quanto vale. É muito corrente, entre nossa gente do campo, dizer-se que o boi não sabe a força que tem e que, se soubesse, não se sujeitaria tão facilmente às pesadas tarefas que lhe arrumam sobre o cachaço. Assim é o proletário. Não sabe quanto vale porque se o soubesse não se sujeitaria à exploração de que é vítima. Apenas uma pequena minoria do proletariado tem consciência disso.
Ora, a essa pequena minoria – minoria revolucionária – compete, pela propaganda e pela ação, despertar a consciência das massas, abrir-lhes os olhos sobre si mesmas, fazê-las sentir o que valem e quanto valem25.
Segundo o pressuposto de que a massa trabalhadora era ignorante, os jovens comunistas desconsideravam a experiência de luta anterior e a forma como o trabalhador pensava. Aliás, toda experiência anterior deveria ser destruída, para construir o “verdadeiro” revolucionário comunista. Na relação entre vanguarda e massa de trabalhadores, os jovens militantes entendiam que só o Partido poderia dirigir a revolução. O operário só seria sujeito da história sob a ordem do partido. Ou seja, na ação educativa, o homem histórico ou a luta de classes como motor da história foram convertidos em obediência às teses do partido. O trabalhador passou a ser visto como um sujeito sem autonomia e deslocado do seu contexto, o qual seria conduzido pela “teoria” do Partido. Neste pressuposto, assim como a relação entre partido e trabalhadores era conduzida por um conceito abstrato de teoria, também era abstrato o conceito de classe operária e de partido. Estes eram importados dos moldes europeus.
Para refletir sobre essa relação, é necessário considerar que, historicamente, o desenvolvimento do capitalismo industrial, por um lado, tornou homogênea a classe operária anteriormente dividida em corporações e ofícios, mas, por outro lado, contraditoriamente, com a intensificação da divisão do trabalho, criou diversas camadas de trabalhadores. Os pioneiros do marxismo, ao entenderem que
25 “A preparação das massas”, MOVIMENTO COMUNISTA, n. 23, 25 jun. 1922 p. 167. In: PEREIRA.
Construindo o PCB, op. cit., p. 105. Grifo nosso.