2.1 A XVII TURMA DO CURSO BÁSICO DE
2.1.2. A Proposta Pedagógica
2.1.2.5. Metodologia
2.1.2.5.1 Disciplina Consciente
A disciplina no Curso Básico é assumida como resultado de um processo que se encontra em construção permanente, como toda sua proposta pedagógica. Segundo os educadores Sem Terra da EN, não existe uma receita para garantir a disciplina; assim, o desafio posto é o de assumir as vivências cotidianas como fonte para construção de reflexões que permitam aprofundar a compreensão do significado e da importância da disciplina consciente. Para o MST, a disciplina consciente ocorre quando os membros de uma organização aprendem a orientar-se por contra própria, através da consciência do dever, por entender, compreender e decidir colocar em prática as decisões (coletivas), para atingir os objetivos traçados coletivamente (BOGO, 1999: 124).
Nessa perspectiva, ao ser tomada como resultado da consciência de cada educando comprometido com o coletivo, a disciplina em si vai se materializando na forma de autodisciplina.
Para os educadores Sem Terra, a disciplina, quando praticada de forma consciente, traduz a existência de convicções e do compromisso dos educandos com a sua própria formação e com a causa pela qual luta o MST. Entende-se que ser disciplinado é buscar ao máximo nas ações cotidianas manter-se em coerência com aquilo que se defende teoricamente como projeto de vida, encarnado no projeto de sociedade defendido
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coletivamente pela organização da qual participa. Assim, sendo assumida como um dos elementos que sustenta a práxis, a forma como se constrói a disciplina tem reflexos na qualidade da prática política dos próprios militantes.
Na EN os militantes aprendem que, dentro de uma organização social, a existência de um grande número de normas, construídas para assegurar a disciplina (tradicional), reflete a falta de unidade política e de compromisso consciente dos seus membros com a luta. No entanto, os educandos aprendem, também, que não se adquire disciplina consciente – que reflete a unidade e o compromisso dos membros de uma organização, portanto, com o menor número de normas – sem que se estabeleça um conjunto mínimo de acordos (regras) destinados a orientar a convivência coletiva. Para que isso ocorra, é preciso discutir de forma coletiva todos os problemas com os quais o grupo se depara, estabelecendo-se, então, normas de convivência a partir das necessidades reais do grupo, firmando-se um conjunto de compromissos que tem maior possibilidade de ser aceito coletivamente porque resulta de uma construção realizada também coletivamente.
Esses compromissos são a base sobre a qual se constrói a disciplina consciente, não porque os que a possuem a exercitam para respeitar as normas, o que se configuraria também como uma submissão a um conjunto de regras e, assim, como a prática de uma disciplina tradicional. Apesar da existência das normas de convivência, a disciplina consciente se faz quando se vai além do que elas estabelecem; quando, apesar da existência dessas normas, se age de uma maneira ou de outra não porque elas assim o exigem, ou porque alguém se coloca como agente de cobrança para que elas sejam cumpridas, mas porque se assume conscientemente o compromisso com os interesses do coletivo.
Sob o enfoque de buscar estimular o cultivo e o exercício da disciplina consciente, o que os membros da CPP da EN defendem é que as normas de convivência, construídas coletivamente em assembléia geral no início do curso, constituem um acordo coletivo a partir do qual se buscará organizar a vida comunitária durante o período do curso. E a disciplina se faz fundamentalmente como respeito ao que foi decidido coletivamente.
Na tentativa de negar a disciplina tradicional, que se pauta pela necessidade de um conjunto de regras ao qual se vincularia, logicamente, um agente disciplinador que executa punições aos indivíduos que as quebrarem; e assumindo a necessidade de se construir a disciplina consciente como um valor que, por intermédio dos comportamentos e das experiências diárias, coletivas e individuais, se transforma numa virtude, num jeito de ser e viver, na EN busca-se, em tais normas de convivência, segundo a CPP, um elemento
pedagógico que eduque para a vida em coletivo. É evidente que elas servem à regulamentação mínima da vida comunitária, mas para os educadores Sem Terra, acima de tudo, ao ser fruto de uma discussão coletiva, as normas de convivência traduzem também o perfil do militante que se deseja formar na EN.
Assim, elas são assumidas como um parâmetro mínimo a partir do qual, através dos processos de avaliação coletiva e individual (crítica e autocrítica), busca-se identificar as práticas que se afastam daquilo que foi coletivamente tomado como o conjunto de virtudes a serem formadas – figurando como a principal entre elas a disciplina consciente, para que daí se pense em alternativas pedagógicas capazes de estimular a sua transformação em acordo com perfil de militância desejado.
No momento da assembléia geral que discute e estabelece as normas de convivência realiza-se também um debate profundo sobre a questão da disciplina consciente. E nesse momento, é também organizada uma equipe composta pelos próprios educandos e auxiliados pela coordenação pedagógica, para realizar o acompanhamento diário da disciplina. Coloca-se como papel da equipe de disciplina: contribuir para a manutenção do regimento da casa e do MST e das normas do curso, estabelecidas pelo coletivo; realizar trabalho de acompanhamento e propaganda da disciplina consciente; e, conforme a necessidade, na busca dos objetivos traçados, organizar a discussão coletiva com todos os membros da escola para aplicar medidas educativas adequadas aos casos graves de indisciplina.