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2.1 A XVII TURMA DO CURSO BÁSICO DE

2.1.1. Sujeitos do Processo Pedagógico

2.1.1.2. Educandos

A cada ano se realizam duas etapas do Curso Básico, com turmas diferentes a cada semestre. Geralmente as turmas têm em média 90 (noventa) alunos selecionados nacionalmente. Os estados têm autonomia para realizar a seleção de seus militantes que participam da Escola; em geral a escolha é feita pelos coordenadores estaduais do Movimento, considerando as indicações feitas pelas coordenações dos assentamentos/acampamentos. Na maioria das vezes, os selecionados são os militantes atuantes e que já participaram de algum curso de formação política promovido pelo MST, ou que já possuem uma certa experiência política adquirida ao longo dos anos, apenas com a prática cotidiana da luta desenvolvida junto ao Movimento, ou por já terem participado de outro tipo de movimento social e/ou político, como movimentos de igreja, de bairros, estudantil, etc., tendo em vista que parte das famílias que compõem o MST habitava

anteriormente na periferia de centros urbanos. Os alunos mais jovens, em sua maioria, são filhos de assentados/acampados, moram em assentamentos ou acampamentos organizados pelo Movimento e também já atuam em algum setor do MST.

No que se refere à composição das turmas da EN, considerando a questão de gênero, a relação entre o número de homens e mulheres é sempre desproporcional, havendo sempre uma participação maior de militantes do sexo masculino. A XVII Turma, por exemplo, era composta em sua maior parte por homens (80 %), mas a presença feminina (20%) vem crescendo a cada nova etapa, presença que é considerada fundamental para a própria formação de toda a turma, pois, além da questão de gênero a ser trabalhada, todos na Escola acreditam que existe uma mística na presença feminina que cria um ambiente mais rico em diversidade de pensamentos, o que enriquece mais ainda a formação política oferecida pela EN.

Com relação à faixa etária, predomina no Curso Básico da EN a participação de militantes com idade entre 20 e 30 anos, sendo que o militante mais velho da XVII Turma, na época da realização da pesquisa, tinha 55 anos e o de menor idade, uma mulher, se encontrava com apenas 16 anos. Ainda com relação à idade dos educandos, vale ressaltar que muitos educandos aparentam ser muito mais velhos do que realmente são. Isso se deve, talvez, ao envelhecimento precoce, triste sina de um país que submete grande parte de seu povo a uma vida miserável de trabalho penoso e miséria constante.

Assim como em outras etapas do curso, na XVII Turma havia a presença de casais. Para ele reserva-se sempre um alojamento à parte, com o intuito de preservar sua intimidade. Nessa etapa, participaram dois casais, sendo que um deles possuía dois filhos (um com 4 anos e o outro com 6 anos) que os acompanhavam durante o período do curso. Para as crianças que acompanham seus pais no período de formação, assim como em outros cursos e encontros promovidos pelo MST, a proposta da EN tem o cuidado de garantir a Ciranda Infantil, um espaço com atividades recreativas e pedagógicas, onde as crianças são acompanhadas por uma educadora enquanto os pais participam das atividades diárias.

No que diz respeito à escolaridade, a grande maioria dos militantes não possui o 1o grau completo. Como reflexo da triste realidade brasileira neste âmbito, muitos militantes Sem Terra conseguiram concluir apenas o primeiro ciclo (séries iniciais) do ensino fundamental, o que em certa medida representa uma dificuldade a ser enfrentada pela

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proposta pedagógica desenvolvida pela EN na busca de seus objetivos. Questionados sobre tal dificuldade e se não seria mais fácil desenvolver um processo de seleção para a EN que tivesse a escolaridade como critério, a resposta da CPP é direta e contundente:

Nós não vamos conseguir atingir um nível na Escola Nacional onde todos companheiros saibam ler e escrever bem, porque a Escola é reflexo de nossa base. Muitos dos militantes que vêm para a Escola Nacional têm um nível de escolaridade de ensino fundamental. Nós temos ainda companheiros que vêm pra Escola Nacional que têm limites da leitura e da escrita. Tudo isso é provocado pelo sistema capitalista. (...) Este é o nosso povo, é para eles que fizemos a Escola Nacional, é com ele e para ele que temos que trabalhar. Então nosso objetivo é fazer com que esses companheiros e companheiras possam superar esses limites.47

A Escola Nacional, a exemplo da concepção pedagógica defendida pelo MST para todas as suas escolas, busca se construir continuamente como um espaço de inclusão, por isso, como veremos mais adiante quando tratarmos da metodologia, vários instrumentos e táticas pedagógicas são desenvolvidas pela CPP ao longo do curso com o intuito de possibilitar aos educandos com dificuldades de leitura e/ou aprendizado superarem seus limites. Isso se dá também pautado pela preocupação da CPP em elevar a auto-estima dos militantes que chegam à EN desestimulados por causa de sua pouca escolaridade. Por outro lado, a própria CPP revela que há uma preocupação em organizar o programa de formação política do MST fazendo com que todos os estados realizem cursos preparatórios para EN, os chamados Cursos Prolongados, o que certamente diminuiria as dificuldades enfrentadas pela maioria dos militantes selecionados para o Curso Nacional, principalmente no que diz respeito às dificuldades de leitura, aprendizado e até mesmo de adaptação à metodologia da EN.

Outro aspecto considerado importante pela CPP é o tempo de participação dos militantes no Movimento. O ideal seria que todos os participantes já tivessem uma certa experiência e um tempo maior desenvolvendo atividades políticas, e que a EN funcionasse como um espaço de qualificação dessa militância. No entanto, a maioria das turmas tem sido composta por militantes com uma média que varia entre dois e três anos de participação no MST, jovens que ainda estão iniciando sua carreira de militante Sem Terra. Isso faz com que, internamente, o nível de maturidade política de cada turma seja bastante heterogêneo, o que também causa certas dificuldades à implementação da proposta pedagógica.

Além disso, segundo o entendimento da própria CPP, o que poderia ser um problema tem sido transformado em elemento enriquecedor, pois os diferentes tempos de MST permitem um processo de troca de experiência entre os militantes mais velhos e os mais novos, o que leva grande parte do próprio coletivo a participar da formação política dos demais.

Para a CPP, apesar de o nível dos alunos não ser o mesmo, a vontade de ser militante do MST e de querer transformar a realidade é a mesma,48 e essa força de vontade dos educandos contribui para que os limites do processo sejam vencidos. No caso da XVII Turma, segundo o perfil dos militantes traçado pela CPP, de acordo com a Ficha de Identificação49 preenchida no ato de ingresso no curso, a expectativa inicial da maioria dos alunos em relação à formação oferecida pela EN gira em torno das seguintes questões :

Ø Adquirir mais conhecimentos sobre o MST e sobre o socialismo para poder formar outros militantes.

Ø Que cada militante entenda todo o processo, para depois voltar ao seu estado e fazer um bom trabalho.

Ø Adquirir mais conhecimentos sobre o MST e aprender ser um bom militante. Ø Aprender uma metodologia nova de organicidade do MST.

Ø Ampliar os conhecimentos para se sentir mais seguro de seus atos enquanto militante e contribuir melhor com o MST.

Ø Adquirir mais conhecimentos para poder formar outros militantes. Ø Aprender novas formas de fazer a luta.

Ø Boa formação política e ideológica

Ø Consolidar a ideologia, aprender e vivenciar novos valores.

Um aspecto curioso levantado pela Ficha de Identificação que ajuda a definir o perfil dos educandos diz respeito às questões que ajudam na escolha das oficinas artístico- pedagógicas a serem oferecidas como parte do Curso de Formação Política. Quando questionados sobre que habilidade artística gostariam de desenvolver através das oficinas, os educandos quase que em sua totalidade sugeriram aprender a tocar violão, ficando em segundo lugar o desejo de aprender teatro. Entre os militantes da XVII Turma,

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Depoimento de Maria Gorete – membro da coordenação político-pedagógica da EN (maio de 2001).

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identificados pelo perfil traçado pela CPP, alguns já desenvolviam atividades artísticas trabalhando com a produção de artesanatos, sendo que esses, posteriormente, foram convidados a oferecer uma das oficinas que se realizaram durante o curso.

Das informações levantadas pela Ficha de Identificação constaram também as seguintes questões a serem respondidas pelos educandos: a principal dificuldade no que se refere ao processo ensino-aprendizagem (a maior parte da turma se referiu à concentração e ao entendimento das leituras); a maior qualidade/virtude pessoal (a grande maioria registrou ser a facilidade em fazer amizades); o gosto musical (a maioria revelou ser MPB e música sertaneja); doenças e remédios controlados; e as últimas leituras realizadas (mais de 50% da turma afirmou ter lido algum livro editado pelo próprio MST).

Dados da XVII Turma do Curso Básico de Formação Política

IDADE TEMPO DE

MOVIMENTO

REGIÃO ESCOLARIDADE

menos de 20 anos 15 menos de 1 ano 27 sul 24 1o incompleto 49

Entre 20 e 30 anos 62 2 ou 3 anos 40 sudeste 15 1o completo 14

Entre 30 e 40 anos 10 4 - 6 anos 17 centro-oeste 12 2o incompleto 5

Mais de 40 anos 4 7 - 9 anos 4 norte 12 2o completo 21

Total 91 mais de 10 anos 3 nordeste 28 3o incompleto 1

Total 91 Total 91 3o completo 1

Fonte: Secretaria da EN Florestan Fernandes / MST (maio, 2001)

Total 91