CAPÍTULO I Expetativa, Motivação e Conflito de Interesses
1.2 Conflito de Interesses
1.2.1. Disciplina/Indisciplina
Estes dois termos – disciplina e indisciplina - estão intimamente relacionados. Para se falar de indisciplina é inevitável que se defina primeiro disciplina, sendo que aquela tende a ser definida relativamente a esta, “pela sua negação ou privação ou pela desordem proveniente da quebra das regras estabelecidas” (Estrela, 1998, p.17).
Recorrendo ao Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia
de Ciências de Lisboa, disciplina é definida como: “prática que consistem fazer
obedecer a regras rígidas de comportamento e em castigar quem não as seguir”, “obediência ao conjunto de regras que definem a legitimidade de um comportamento”, “capacidade de se comportar ou trabalhar de modo controlado” ou ainda “sistema de limites ou parâmetros que regula determinada atividade” (p. 1270). Destas quatro definições, do termo disciplina, depreende-se que esta corresponde a diversas situações e contextos, estando a ideia de indisciplina, nelas, implícita, surgindo como seu contraponto. O termo indisciplina, por seu turno, é definido no mesmo dicionário como sinónimo de “falta de ordem ou de regras estabelecidas”, como “ato que viola regras estabelecidas” e ainda como “falta de capacidade para agir de uma forma lógica, metódica ou organizada” (p. 2082).
Para se abordar o binómio disciplina-indisciplina, que já se constatou inseparável, procuraremos começar por analisar o conceito de disciplina, mas, inevitavelmente ao centrar a sua análise no contexto escolar é o de indisciplina que sobressai, pelo que a presente exposição se traduzirá numa intersecção dos dois conceitos.
Estrela (1998) define a disciplina como “um fenómeno que decorre da sociedade e do seu sistema de ensino. Ela é também um fenómeno essencialmente escolar, tão antigo como a própria escola e tão inevitável como ela” (p. 11). Ainda segundo esta
autora, quando falamos de disciplina, “tendemos não só a evocar as regras e a ordem delas decorrentes, como as sanções ligadas aos desvios e o consequente sofrimento que elas originam” (p. 17), facto constatado na primeira aceção do termo definido no
Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa“
prática que consiste em fazer obedecer a regras rígidas de comportamento e em castigar quem não as seguir” (p. 1270).
Sampaio (1996) defende que a disciplina passa pela interiorização de uma série de regras, na família e na escola, só suscetíveis de terem êxito se tiverem sido construídas de uma forma participada, pois “a disciplina e a indisciplina são um produto das relações pedagógicas estabelecidas entre os diversos protagonistas da realidade escolar. Para se compreender o que é indisciplina, a escola tem de entender-se primeiro sobre a disciplina, isto é, sobre o conjunto de comportamentos que considera aceitáveis, sob o ponto de vista pedagógico e social, para aquelas pessoas, naquele contexto. Se este trabalho for minimamente levado a cabo, a escola pode avançar para medidas de controlo disciplinar” (p.12). Este autor remete o fenómeno da disciplina e o seu contraponto para o âmbito escolar, conectando-o com o plano familiar, ao invés de Estrela (1998), que o associa ao funcionamento da própria sociedade.
Sampaio (1996) considera existirem três tipos de regras: as formais, estabelecidas pelo Ministério de Educação, e dependentes do sistema político nacional; as não formais, assentes nas regras emanadas do poder central, mas ajustadas ao contexto de cada escola; e as informais, que estão implícitas na rotina diária dos estabelecimentos de ensino e na interação que se estabelece entre a comunidade escolar.
O mesmo autor considera que os comportamentos, ao serem analisados por diferentes sujeitos, são suscetíveis de diferentes interpretações, tornando-se difícil definir quer a disciplina quer a indisciplina. A existência de “um sistema de regras bem
definido é indispensável para se obterem os objetivos previstos, na medida em que permite ao estudante melhor saber o que se espera dele” (Sampaio, 2001, p.11), favorecendo uma abordagem mais objetiva dos conceitos de disciplina e indisciplina, embora a existência desse sistema de regras, por si só, não seja garantia da obtenção da objetividade.
Na mesma ordem de ideias, para Jesus (1999), “a existência de regras implica a cooperação entre os professores de uma mesma escola, para troca de experiências, definição de intervenção e encontrar consensos quanto aos comportamentos que devem ser considerados indisciplina” (p.35), pois, tal como também refere Estrela (2002), é crucial que exista a uniformidade de regras e consistência na sua aplicação “se cada professor estabelecer as suas próprias regras, o aluno perante tal variedade, passará a relativizá-las como “manias do professor” (p. 61).
À semelhança destes dois autores que frisam a necessidade de procurar procedimentos mais objetivos, Silva (2001) afirma que o comportamento é “considerado indisciplinado ou não, conforme o contexto em que ocorre, bem como as perspetivas de quem o observa e de quem o adota” (p.11).
Por sua vez, Amado (2001) considera que construir a disciplina significa “formar ou educar o aluno para a autodisciplina e para a responsabilidade, criar ambiente de trabalho e condições organizacionais de modo a alcançarem-se os objetivos da escola” (p.8). Este incumprimento das regras denota a não identificação do discente com o Projeto Educativo da escola, não seguindo as orientações definidas pela organização, o que prejudica as inter-relações que ocorrem nos diferentes espaços da escola e, em última instância, pondo em causa o próprio processo de ensino- aprendizagem. Do exposto nos parágrafos anteriores, constata-se que, para que haja uma boa convivência social é necessário que existam normas e regras que orientem os
comportamentos dos indivíduos, de forma a minimizar os conflitos, mas é ainda mais necessário que todos os envolvidos se identifiquem e tenham conhecimento do caminho que o grupo pretende percorrer, de modo que a autonomia e a liberdade de cada um pressuponha responsabilidade na sua atuação. Este procedimento levará os alunos a sentirem-se seguros no contexto escolar, uma vez que preveem o que fazer, como fazer e as consequências que podem advir do desvio, isto é, autorregulam a sua ação (Iglesias & González, 2006).
Relativamente ao conceito de indisciplina, e na linha do que já foi sendo abordado ao longo desta reflexão, a indisciplina aparece definida como uma “transgressão das normas escolares, prejudicando as condições de aprendizagem, o ambiente de ensino ou o relacionamento das pessoas na escola” (Veiga, 2007, p.15), defendendo Sampaio (1996), por sua vez, que a organização da escola é um fator importante na prevenção da indisciplina e na formação de um clima de escola propício, pelo que o aluno interessado é um aluno disciplinado.
A propósito do clima de escola, Amado (2001) define-o como um fenómeno relacional e interativo, que para ser plenamente compreendido, deve ser situado num contexto que tem por componentes principais os próprios indivíduos nele intervenientes (o aluno, a turma e o professor), a escola, enquanto espaço físico e social, e a própria natureza dinâmica das interações, pautadas por regras nem sempre desejadas, compreendidas e respeitadas, influenciadas por representações e expetativas mútuas, e concretizando-se em conflitos de poder, em "estratégias de sobrevivência" e em medidas de controlo e disciplina. Este autor considera um conjunto de fatores na análise do clima de escola: fatores de ordem social, política e familiar, quando os interesses, valores e vivências são divergentes; fatores de ordem institucional, quando os espaços e currículos estão desajustados relativamente aos interesses do aluno; fatores de ordem
institucional informal, quando há desajustes em termos relacionais; fatores de ordem pedagógica, quando se verifica pouca consistência nos métodos, técnicas e competências de ensino; fatores de ordem pessoal, do professor e do aluno, quando os valores não se coadunam, promovendo dificuldades de adaptação. A história de vida e o percurso académico, o auto-conceito, a idade e o género do aluno poderão também propiciar situações de indisciplina. Os autores que estudam o fenómeno da indisciplina apresentam uma variedade de motivos que estão na sua origem, não havendo unanimidade quanto à importância de cada aspeto.
Amado (2001) considera que a indisciplina surge por três motivos: desvio às regras estabelecidas, conflitos entre pares e conflitos na relação professor-aluno. Considera também que as tarefas académicas são aspetos a considerar na prevenção da indisciplina, tal como “a vertente relacional da prática docente (domínio que se prende essencialmente com os estilos de autoridade do professor e o modo como ele gere os poderes, dele e dos alunos, no interior da aula), e a ética da gestão pedagógica (que tem a ver, sobretudo, com os valores docentes e o modo como os faz passar junto dos alunos, bem como com a preocupação pela ação justa e pelo cuidado e compreensão relativamente aos alunos)” (p. 365).
Stichini e Gandum (1997) destacam as seguintes variáveis que influem na (in)disciplina escolar: a inexistência de regras, o interesse dos alunos pela matéria, a relação aluno/professor, o clima da escola, as metodologias utilizadas, a imaturidade dos alunos, a necessidade de libertação de tensões e energia sentidas pelos alunos, o stress do professor, a luta pelo poder e ainda fatores de índole fisiológica.
Postic (1995) chama a atenção também para o facto de que é importante levar em conta o percurso do aluno, nomeadamente “a ausência de pré-requisitos, acidentes cognitivos e os acidentes afetivos, ligados a experiências passadas” (p.20).
Pelo exposto, constata-se que estes quatro autores partilham a mesma opinião sobre alguns aspetos, divergindo noutros.
Num estudo recente sobre as causas da indisciplina, realizado com professores do Ensino Básico e Secundário, sobre as suas perceções e representações relativas a este fenómeno, Favinha e Moreira (2015), concluem que as causas da indisciplina são o desinteresse pela escola, a falta de valores morais, resultado de estruturas familiares onde existem problemas de natureza diversa, a falta de perspetivas de futuro, a falta de visão sobre a importância da escola para a sua vida provocadas por fatores sociais e familiares, pela própria instituição e pelo próprio sistema de ensino. Para estas autoras, as expetativas dos alunos relativamente à escola são entendidas como causa da indisciplina em contexto escolar.