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4. OS MECANISMOS DE LEGITIMAÇÃO DA IMPUNIDADE

4.3 Disciplinamento neoliberal e novo constitucionalismo

Ao buscar Weber, Gill aponta a distinção entre disciplina e obediência. Apesar de não se comportarem como palavras sinônimas, a primeira seria a base da racionalidade que exerce um papel de regulação comportamental sobre os grupos sociais – distanciando-se também de um significado simplista de obediência. A partir disso, é possível chegar a Durkheim, afirmando que dentro desta base de racionalidade, é possível desenvolver um comportamento razoável capaz de permitiro crescimento moral da sociedade – apontando que destoar deste padrão se caracterizaria a anomia. Acessar Foucault, então, parece ser uma síntese combinada das duas

41 Disciplinary neo-liberalism, do original em inglês. Tradução nossa. A forma pela qual o termo foi traduzido busca desenvolver a ideia de processo contínuo e dinâmico, como busca apontar o autor em sua explicação, visto que faz parte do entendimento que os processos de disciplinamento estão dentro de um conjunto de disputas pela hegemonia – que por sua vez não é um processo estático.

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compreensões anteriores, observando a disciplina como uma estrutura que sustenta dimensões de conhecimento – que pode ser entendido como ideologia – enquanto sistema de controle social e individual. Assim, a conclusão que Gill aponta é que este disciplinamento tem dimensões estruturais e comportamentais que são resultados da associação entre o poder do capital e um poder capilarizado/panóptico (GILL, 2008:137).

Vamos partir desde o conceito, entendendo a reafirmação do poder estrutural como um eixo essencial da regulação das relações sociais que já definimos até aqui: capital e Estado em centralidade. O controle comportamental tem fundamental importância. Aqui, não vamos entrar nas particularidades dos pressupostos dos autores utilizados para produzir o conceito, já que isto geraria uma outra gama de reflexões. Deste modo, queremos entender esse controle comportamental para além do individualismo metodológico que o termo pode induzir. Este controle, então, reconhecemos que perpassa pela organização dos limites institucionais para dentro e para fora dos Estados, através da associação entre autoridades públicas e privadas que buscam impor a superioridade moral e política dos princípios de privatização e desregulamentação em defesa do poder privado (ibidem., pág.138; CUTLER, 2003:237).

Todo esse reordenamento dos padrões políticos e econômicos vai representar um redesenho de como o direito, enquanto esfera de regulação, vai ser recaracterizado e se fortalecer enquanto agente histórico entre as forças sociais. O que Gill denominar denomina como novo constitucionalismo sintetiza como o poder do capital privado passa a ter prevalência e nos conduz a uma transição da democracia para a mercadocracia (mercatocracy), termo utilizado por Cutler – isto é, o poder concentrado nas mãos do mercado.

Como um dos mecanismos de modelagem do que se entende por governança global, o novo constitucionalismo vai se caracterizar pela produção de mecanismos de direito internacional que vão ter efeitos quase-legais e ou quase-constitucionais (Gill, 2008, p. 138). Se materializando enquanto projeto político, seu objetivo é “fazer com que o liberalismo transnacional, e se possível o capitalismo liberal democrático, (sejam) o único meio para o desenvolvimento futuro9” (ibidem., pág. 139). Nesse sentido, estamos falando de uma relação hierárquica de determinação do direito como um todo, fundado nos princípios de um direito produzido com profunda participação de entes privados e intenso constrangimento que conduz à anuência dos Estados nacionais, que unifica as normas, a produção e a realização do direito baseado na rejeição e invalidação dos processos democráticos e de representação política. Assim, esse processo de unificação do direito – isto é, da homogeneização de normas sem margem de incompatibilidade – tem sido tratado como sinônimo de modernização dos Estados, passando estes a agir como participantes do mercado de forma similar às empresas, absorvendo

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inclusive o padrão de priorizar metas fiscais em relação a direitos (ibidem., pág. 142; CUTLER, 2003:192; 226).

A partir desta leitura, o que podemos perceber é que a modernização dos Estados – muito observada pela avaliação dos projetos de desenvolvimento orientados à matriz econômica durante o século XX – também pode ser lida pelo campo de atuação voltado à estrutura institucional desses Estados. Nesse sentido, os elementos do novo constitucionalismo são reflexos da imposição de uma ordem de controle e atuação determinada pelos princípios do Consenso de Washington, que estabelece mecanismos de vigilância das instituições internacionais (com atenção especial ao Fundo Monetário Internacional - FMI e Banco Mundial - BM), mas também de instituições privadas associadas a avaliação de cenários para crédito, investimento e riscos associados (GILL, 2008: 139). Vários dos mecanismos aqui expostos serão observados à luz do estudo do caso Chevron no Equador, o qual será apresentado na próxima seção.

Direcionando a nossa atenção às hierarquias entre centro e periferia dessas transformações nas dimensões pública e privada, bem como na subsunção da política à economia, é possível observar, como consequência dessas relações, os aspectos que podem ser compreendidos enquanto neocoloniais e imperialistas são mobilizados como legítimos. As instituições financeiras e econômicas internacionais como FMI, BM, Organização Mundial do Comércio (OMC) e outras são agentes essenciais para a consolidação dessas políticas.

Com o avanço do neoliberalismo e a pretensa universalização das ideias de mercado sobre a iminência e inevitabilidade da globalização econômica, o papel dessas instituições associado ao poder do capital transnacional, foram responsáveis por um conjunto de medidas que podem ser entendidas por desregulação e re-regulação. A desregulação, já abordada no capítulo anterior, é uma das características-chave da prática neoliberal dentro dos países: reformas nos sistemas de direitos relativos ao trabalho, à seguridade social, legislação ambiental e serviços públicos. A re-regulação é o efeito prático da desregulamentação. Modificam-se os marcos regulatórios que permitem controlar as atividades das empresas e se instituem novas regras que privilegiam seus interesses e suas expectativas de ganho, passando o Estado a ter uma posição de responsável na garantia desses interesses e não mais nos direitos – ofuscados pela perda da validação jurídica – dos povos inseridos no seu território (ZUBIZARRETA; RAMIRO, 2016:17; CUTLER, 2003:180; GUAMÁN; MORENO, 2018:34). Assim se estrutura o que foi apresentado como novo constitucionalismo.

Essa reconstrução institucional sofre muita influência das determinações das instituições financeiras. No caso da América Latina, o FMI condicionava empréstimos e

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financiamento de iniciativas estatais à implementação de um conjunto de mudanças estruturais da forma do Estado para que este pudesse acessar o dinheiro. As políticas de ajuste fiscal, controle de investimentos – entendidos como gastos – e a criação de legislações de fiscalização foram adotadas como resultado do super-endividamento dos Estados latino-americanos no final do século XX e posicionadas como caminho único de garantia de estabilidade financeira (ibid., pág. 19). Na prática, eram impostos limites à capacidade de atuação do Estado no sentido de uma política própria de desenvolvimento autônomo e soberano.

No Brasil, o governo de Fernando Henrique Cardoso é um exemplo das consequências das condições dos pacotes do FMI como parte do receituário neoliberal. A criação do tripé macroeconômico para estabilização da economia nacional priorizava o controle da inflação em detrimento da garantia de empregos. As condições de desestatização conduziram à privatização de empresas estratégicas para a viabilização de uma cadeia produtiva nacional industrializada, como a Companhia Vale do Rio Doce – hoje, Vale – e como se pretendia fazer com a Petrobras – e que é feito no governo Jair Bolsonaro com o desmonte a partir da venda de subsidiárias. Junto a isto, não se pode esquecer a Lei de Responsabilidade Fiscal que, em nome do controle financeiro, criminaliza o investimento público.

No Equador, no ano de 2019, foram formuladas políticas exigidas pelo FMI para a garantia de um empréstimo de US$ 4,2 bi – cifra coincidentemente equivalente ao valor de US$ 4,2 bi que o governo isentou grandes empresas e bancos de pagarem em impostos nos anos recentes. Junto a isto, as medidas também exigiam a retirada de direitos trabalhistas com o intuito de flexibilizar as condições do trabalho, bem como a retirada de subsídios sobre combustíveis, que tem como efeito direto a associação aos valores do mercado internacional, que eleva a lucratividade das empresas do ramo e, consequentemente, redução do poder de compra do salário com aumento em cadeia do custo de vida (LANG, 2019:30).

A partir de agora conectamos mais elementos para referendar a afirmação de que estamos tratando de relações desiguais que reafirmam das hierarquias neocoloniais e as dinâmicas históricas do capitalismo.