4 A APROPRIAÇÃO DE RECURSOS LINGUÍSTICO-
4.3 O discurso cotidiano da periferia no estilo individual do
Da análise feita, temos visto que os alunos trazem enunciados representativos de suas vivências, atrelados à denúncia social, o que evidencia a importância que atribuem aos conhecimentos que trazem para a sala de aula – e buscamos destacar como os organizam em seus discursos. Assim, os alunos trazem a representação do que Geraldi (1997, p. 135) asserta no trecho abaixo, pois estão no lugar de tomada social do direito de voz:
Considero a produção de textos (orais e escritos) como ponto de partida (e ponto de chegada) de todo o processo de ensino/aprendizagem da língua. E isto não apenas por inspiração ideológica de devolução do direito à palavra às classes desprivilegiadas, para delas ouvirmos a história, contida e não contada, da grande maioria que hoje ocupa os bancos escolares.
Antônio, 58 anos, ao se utilizar de termos e expressões típicas dos grupos representativos dos menos favorecidos está evidenciando marcas de sua vivência.
Em seu texto, ao se referir aos pobres, faz uso da palavra humilde e nos deixa margem a interpretação de que o pobre é o submisso, o oprimido freiriano, pois o humilde, para ele, é aquele a quem é negado os direitos básicos de sobrevivência. O aluno faz uma denúncia. Destaca a educação e a saúde: “Porque os melhores médicos são para os ricos, para as pessoas humildes ainda os melhores médicos ainda são poucos para os pobres.” (Antônio, 13/03/2017). Vimos que Antônio,
conforme termos e expressões destacados, lança seus argumentos de uma maneira que só ele poderia fazê-lo. Seu discurso tem marcas de sua vida de décadas sem o contato com a escrita formal escolar, porém seu conhecimento de mundo se sobressai.
Neste outro excerto, é possível observar que o aluno é responsável por seu discurso ao se posicionar contra a desigualdade, e aqui, não se faz reprodutor passivo de discurso do outro, antes, é produtor ativo de um discurso que, baseado nas leituras dos textos e em leituras de mundo, apresenta-se como seu. E não se proíbe de dizê-lo, mesmo que o faça numa norma que não é a esperada pela escola, nem a legitimada socialmente: “Para o nosso Brasil acaba com a desigualdade. A primeira coisa e os nossos políticos para de rouba para puder sobra dinheiro. Para melhora a educação. Melhora mais segurança. Melhora mais a saúde.” (13/03/17) Os trechos de Antônio e Zenilton demonstram que o aluno se coloca como alguém que não vê o lugar da escrita como autorizado, pertencente a ele, então se utiliza de termos e expressões típicos da oralidade, a fala de periferia, sua realidade de vida, talvez para encontrar o seu lugar de legitimação do dizer. Entretanto, observamos não faltar nos discentes, “o mínimo de conhecimento de mundo, de outros discursos, de memória social, traços capazes de dar congruência aos fatos narrados” (POSSENTI, 2002, p. 111) que, a nosso ver, todo discurso, do mais formal ao mais informal, dispõe, visto ser inerente ao homem a habilidade de agenciar o uso da palavra em sua vida em sociedade.
Nos trechos de Zenilton, a seguir, ele caracteriza o lugar comum de sua vivência ao trazer a dor do outro, coloca-se no lugar desse outro e sente a sua dor!
Ao mencionar os garis, os camelôs, o povo brasileiro representado nos moradores da periferia onde ele se situa e se coloca nessa posição, faz um clamor por justiça.
O como este sujeito expressa o seu dizer, as suas dores, é algo que é só dele, é vivência! Os exemplos práticos pontuados no trecho baixo enfatizam a percepção de Zenilton, do sofrimento que passam os garis, os vendedores ambulantes, o povo brasileiro da classe mais pobre – o aluno faz a leitura crítica da realidade de injustiça que vivencia junto a milhões de brasileiros! Houve a compreensão do tema abordado no processo pedagógico e a conscientização de que a desigualdade social ocasiona tudo isso!:
Os gari que recolhe os lixos das sua rua também é muito sofrido isto tudo e desigualdade social [...] É muito sofrido como ele para ganhar o pão e ele depende das pessoas que vão na sua banca para comprar poder sustentar sua familha e o povo brasileiro da classi mas pobre sofre com a saúde por motivos que não tem medico que também dependi de sua salário que e muito inferior com os vendedores ambulante também sofre com o dia inteiro para ganhar seus mizeraveis trocados. (Zenilton, 13/03/2017)
Neste excerto, Zenilton, ao produzir o seu discurso, faz referência ao texto de Tomazi para mencionar exemplos concretos de injustiça e sofrimento que passam essas pessoas no Brasil:
O setor informal é outro fator indicador de condições de reprodução capitalista no Brasil. Os camelôs, vendedores ambulantes, marreteiros, etc, são trabalhadores que não estão juridicamente regulamentados, mas que revelam a especificidade da economia brasileira e de seu desenvolvimento industrial. (Tomazi)
Nesse sentido, destacamos a presença em seu discurso, da leitura da realidade, da compreensão do tema e da proposta pedagógica, ou seja, o aluno se fez autor e marcou resistência ao silenciamento que lhe é imposto pela escrita socialmente. Superou as dificuldades do desconhecido, produzindo o seu discurso escrito.
Estudar os textos dos alunos representa a beleza vista por Bakhtin no uso da linguagem, a linguagem do dia a dia na boca do povo. Observar a subjetividade do aluno autor ao fazer uso do discurso escrito, o que é novidade para ele, representa mais que o simples uso da linguagem escrita, representa o direito de voz dado a este aluno. Temos observado ao longo da análise do corpus, o aluno como sujeito da vida, ativo e não passivo, um sujeito com sua visão de mundo, emitindo opiniões e respeitando as diferentes das suas.
Lúcia traz no seu trecho a dor que sente ao ver e vivenciar os efeitos da desigualdade social na comunidade em que vive e essa dor parece atravessa as letras de seu discurso:
A pobreza é uma realidade muito difícil mas real nus nossos dia pois a fome a miséria as pessoas morando na rua dói você ver e não pode fazer nada enquanto os nossos governante pode fazer muito e não faz. Isto é revoltante, gostaria que fosse diferente as coisas no Brasil, enquanto isto não acontece vamos caminha. (Lúcia, 13/03/2017)
Nesse trecho, a aluna faz uma afirmação sobre o tema do texto. Para ela, a pobreza é uma triste realidade e existe no seu dia a dia, dando exemplos concretos de pobreza (a fome a miséria as pessoas morando na rua). Encerra seu ponto de vista no parágrafo, lamentando o fato de o governo poder solucionar o problema e optar por não fazê-lo. Mas, finaliza expressando esperança, resignação (enquanto isto não acontece vamos caminha). Mais um exemplo de discurso próprio do aluno, as palavras e expressões estão carregadas de vivência da periferia, não consideramos que este discurso, esta leitura da realidade seja simplesmente uma reprodução de outro discurso. Há uma leitura de mundo e uma compreensão do tema abordado para, então, desencadear a produção de seu discurso.
Givanilson também se enxerga como excluído social que é afetado pela desigualdade: “Como consequência da desigualdade social no Brasil temos os grandes problemas que nos afetam diretamente podendo ser visto a toda hora e todo momento [...]”.
Salientamos a importância de se levar em consideração, no momento da produção textual, o contexto tanto da sala de aula quanto da realidade de vida dos envolvidos. A expressão “vendedores ambulante também sofre com o dia inteiro para ganhar seus miseráveis trocados” mais que o próprio trecho como um todo, traz um alerta contra a injustiça social que paira no país, notadamente no mundo desses estudantes. Mostra, às claras, o conhecimento, por parte do aluno, de que a opressão se dá na e pela linguagem (FREIRE, 1986).
O tema desigualdade social, ao ser abordado nos textos de Marcos Cintra, Nelson Tomazi e Zé Ramalho, em tempos e contextos diferentes, puderam proporcionar ao aluno leitor o entendimento e desencadeou a discussão em seus textos, fazendo assim com que esse discurso de denúncia social, pertencente à cultura, aflorasse no momento de produção tanto dos autores de referência quanto dos próprios estudantes. Os trechos acima trazem traços nítidos da cultura dos estudantes, de seus mundos, e representam, no uso que fazem de termos específicos da fala, seu enraizamento e, na produção textual, a aquisição do uso escolar, da escrita.
Destacamos o estilo individual dos alunos no momento de autor produtor de texto, marcado aqui pela emissão de argumentos que definem a sua vivência. “Todo
enunciado oral e escrito, primário e secundário pode refletir a individualidade do falante ou de quem escreve” (BAKHTIN, 2003, p. 265). Ora, os alunos autores interagem e se posicionam em todos os momentos do processo pedagógico do oral ao escrito, respondendo às expectativas linguísticas e socioculturais, conforme suas posições no mundo concreto, suas condições de estudantes da EJA, com histórico de distanciamento com a leitura e a escrita formal escolar. Esse distanciamento diz respeito à relação que o aluno estabelece com a leitura e a escrita no ambiente não escolar. Qual o contato que tem com a escrita formal na sua vivência não escolar, que uso faz da leitura, no seu cotidiano.
Temos visto que, ao serem preparados para o contato, acesso e trabalho com um dado gênero, agenciam sua capacidade dialógica e se apropriam do novo. Cada um traz a sua marca pessoal, o seu eu que o diferencia do tu que é o outro. É da ordem do como, da maneira como se utiliza dos recursos linguísticos para desenvolver o seu discurso particular, dentro do discurso, que identifica o texto argumentativo.
Temos percebido que os discursos dos alunos mostram que os processos de letramento pelo qual passaram em sala de aula, no contato com gêneros orais e escritos, constituíram práticas efetivas de resistência por meio de suas vozes que ecoam por entre as letras de seus textos. Tanto os letramentos relacionados à sua vida cotidiana de morador das periferias, como também aquele que se deu na escola no processo pedagógico pelo qual ele aprendeu a fazer o seu discurso de crítica social e resistência, também através da escrita, utiliza-se de marcas e vozes do discurso de denúncia, de posicionamento ativo. Seus discursos caracterizam práticas de sujeitos que resistem à opressão imposta pelo sistema: quando lhes é dada a voz no momento do debate, da roda de conversa e da escrita textual – resistindo ao modelo cultural legitimado, o discurso escolar, formal, e trazendo uma ressignificação com práticas de outro discurso, de outra esfera de comunicação de seu cotidiano, o rap, a canção popular, a mídia – produzido no contexto escolar e que pedia o uso de características de determinado gênero escrito formal. Eles resistem ao silenciamento imposto pelo uso da escrita na sociedade e gritam com suas letras, suas escritas, a suas vozes de denúncia de pessoas que sentem a dor da injustiça e se reconhecem injustiçadas, mas tomam a voz e gritam por justiça através da letra!