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4 A APROPRIAÇÃO DE RECURSOS LINGUÍSTICO-

4.4 Discurso de resistência – enunciados do rap no discurso do

estudar... trabalhar!!! Até mesmo ser bem visto pela sociedade! A sociedade nos martiriza, nos oprime e tenta disfarçar as regras.

(Grifos de Demetrius: 13/03/2017)

O adolescente está refletindo e problematizando a ordem da sociedade. Ele apreendeu os sentidos do tema discutido nos textos orais e escritos no percurso das aulas. Consideramos que os enunciados: “ser bem visto pela sociedade, a sociedade nos martiriza, nos oprime e tenta disfarçar as regras”, trazem marcas do discurso do rap e marcam, no discurso do aluno, a compreensão da proposta pedagógica ao discutir o tema, representado aqui no seu discurso escrito, conforme o ensino defendido por Freire (1981, p. 02):

Seu objetivo não é fazer a descrição de algo a ser memorizado. Pelo contrário, é problematizar situações. É necessário que os textos sejam em si um desafio e como tal sejam tomados pelos educandos e pelo educador para que, dialogicamente, penetrem em sua compreensão.

Por fim, observamos que o discurso do aluno mostra que os letramentos constituem práticas efetivas de resistência. Tanto os letramentos relacionados à sua vida cotidiana de morador da periferia, como também aquele que se deu na escola no processo pedagógico pelo qual ele aprendeu a fazer o seu discurso de crítica social e resistência, também através da escrita, se utiliza de marcas e vozes do discurso do gênero musical rap, gênero híbrido, produzido através da escrita e apresentado por meio da oralidade. Seu discurso caracteriza ainda práticas de um jovem que resiste à opressão imposta pelo sistema, quando lhe é dada a voz, o momento do debate, da roda de conversa e da escrita textual – resistindo ao modelo cultural legitimado, o discurso escolar, formal, e traz uma releitura da situação sugerindo outro discurso, de seu cotidiano, o rap, no seu texto, produzido no contexto escolar e que pedia o uso de características de um artigo de opinião. Ele resiste ao silenciamento imposto pelo uso da escrita na sociedade e com a sua letra, a sua escrita, a sua voz de denúncia de alguém que sente a dor da injustiça e se reconhece injustiçado, toma a voz e grita por justiça através da letra!

A música sugerida pelo aluno, Capítulo 4, Versículo 3, é do grupo de rap paulistano Racionais MC´s que teve seu disco intitulado Sobrevivendo no inferno no ano de 1997 e representou uma vendagem de meio milhão nos trâmites da lei e mais meio milhão na vendagem clandestina. Segundo Takahashi (2014), foi com

esse grupo musical que o rap ganhou notoriedade no país, pois antes era escutado apenas nas periferias urbanas e então passou a ser conhecido amplamente por meio da mídia televisiva e do rádio. Para o autor, esse estilo musical surge como forma de expressividade política dos jovens das periferias urbanas que o utilizam para fazerem crítica social contra os problemas que os atingem como racismo, opressão policial, pobreza dentre outros. Este grupo se caracteriza pela denúncia social contra a opressão e injustiça social tão presentes nos grupos minoritários.

Ao trazermos um pouco da história dessa música e do contexto de produção dela, é perceptível a observação da relação que o estudante estabelece com a proposta pedagógica ao relacionar o conhecimento de sua vivência ao conhecimento adquirido nas aulas. Ele sente tão forte a dor que vivencia no dia a dia de discriminação e opressão social que tão logo remete à memória da música que representa muito melhor, a seu ver, o pensamento crítico que a professora leva para a sala de aula através da música na voz de Zé Ramalho! Para ele, não há indicação mais adequada, que retrata tão bem a sua dor quanto esta que ele conhece tão bem! Aqui a aprendizagem se fez significativa para ele, pois relacionou um texto do repertório de sua memória particular ao texto lido e discutido na aula. E mais: não foi um estudante passivo que recebeu a proposta pedagógica como a ideal por ser parte do currículo, antes, não só rejeita como sugere outra fonte. A resistência deste aluno ao silenciamento que a escrita causa nos menos favorecidos foi marcada não só pelo fato de ter ele escrito o texto escolar, como os colegas fizeram, mas também, pelo rompimento da proposta pedagógica, ao trazer marcas discursivas e citações do rap, bem como a indicação de um rap específico para compor o currículo da aula.

O posicionamento crítico se faz presente em seu texto de forma que, ao criticar o texto trabalhado na aula, sua voz ecoa como crítica, também, ao sistema escolar, que costuma apresentar aos estudantes textos acadêmicos (DOLZ e SCHNEWLY, 1999) que não condizem com a realidade de vida destes aprendizes.

Sendo assim, a sugestão do aluno reflete a necessidade de se fazer ouvido e de se posicionar, ter o seu direito de voz garantido. Traços de sua vivência se refletem na sugestão dada para trabalhar na aula. Ele ousa sair da forma do artigo de opinião e constrói seu texto aos moldes das letras de músicas do estilo rap e, nesse movimento, o sujeito se faz autor. Embora busque outro tipo de discurso, consegue

estabelecer um diálogo com os sentidos que circularam anteriormente sobre o tema, trazendo trechos que representam o seu dizer:

Nos vimos o vídeo do cantor Zé Ramalho: na aula de português; eu achei que essa música é muito antiga, e só favorece os alunos que tem mais idade: e se fosse uma mais na atualidade de debates da política desigualdade. Mas quem me dera se fosse sobre o Racionais? Uma das musica deles a Capítulo 4 versículo 3. Ela retrata a violência policial. (Demetrius: 13/03/2017)

O processo pedagógico que partiu do oral e se estendeu ao trabalho com os gêneros escritos, bem como o contato do aluno com as duas modalidades de uso da língua, também no cotidiano fora da escola, que permitiu a esse estudante, adolescente, reavaliar – no debate ele já tem a percepção dessa realidade – sua identidade e realidade de negro pobre brasileiro, morador de periferia e vítima de discriminação social, ressignificando seu papel social de cidadão que reconhece o seu direito garantido na Constituição de seu país, mas que não é efetivado na vida cotidiana!Vale mencionar o pressupostobakhtiniano de que cada enunciado é pleno de variadas atitudes responsivas a outros enunciados de dada esfera da cadeia discursiva.