Capítulo 3 – Discurso, género e identidade
3.1. Discurso e discursos
Discurso
Neste trabalho, adoto uma perspetiva crítica sobre a construção das identidades de género no discurso. Enquanto os primeiros dois conceitos, ‘identidades’ e ‘género’, foram abordados nos capítulos anteriores, será agora o momento de falar sobre o ‘discurso’ e sobre a sua relação com as identidades e o género. Definir ‘discurso’ não é uma tarefa fácil, uma vez que o conceito foi e continua a ser definido de formas diferentes por diferentes autores, em diferentes disciplinas, conforme as perspetivas teóricas de quem utiliza o conceito.
No âmbito da Análise Crítica do Discurso (doravante ACD), ‘discurso’ é geralmente entendido como trechos mais ou menos extensos de linguagem escrita ou oral (Fairclough 1992) que comunicam significado num dado contexto31. ‘Discurso’
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O conceito de discurso pode também ser utilizado num sentido mais abstrato, como por exemplo, em Wodak (2011: 39): “[discourse] is an analytical category describing the vast array of meaning making resources available to everybody. At this level one can also use the term ‘semiosis’ (encompassing words, pictures, symbols, design, colour, gesture, and so forth).”
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refere-se, por isso, a mais do que à linguagem; ‘discurso’ é o sistema linguístico em uso, formando eventos comunicativos complexos (van Dijk 2001a) em que a linguagem se relaciona com outros elementos do processo social (Fairclough 2014). E o texto? A fronteira entre texto e discurso nem sempre é clara, uma vez que também existem diferentes definições de ‘texto’. As definições mais amplas deste conceito chegam a ser praticamente idênticas ao conceito de ‘discurso’ delineado acima. Neste trabalho, entendo e utilizo ‘texto’ no sentido mais estreito32 proposto por Fairclough (1992): textos serão entendidos como a materialidade linguística do discurso, ou seja, o produto oral ou escrito do processo de produção textual. Nesta perceção, o texto constitui uma dimensão do discurso e o contexto outra.
A análise linguística em ACD pode incidir sobre todas as estruturas do texto: estruturas fonológicas, sintáticas, semânticas, retóricas, organização visual, elementos paraverbais, etc. Este leque enorme de possibilidades de intervenção analítica torna impossível uma análise completa de qualquer trecho de texto, como aponta van Dijk (2001b), ainda mais quando temos à nossa disposição uma grande quantidade de dados. Qualquer análise será sempre incompleta, uma vez que forçosamente terá de deixar de fora muitos elementos que poderiam ter sido interessantes e relevantes para a análise. O presente trabalho não constitui nenhuma exceção a esta realidade.
O discurso, na definição acima traçada, torna-se um objeto de estudo interessante não só para a Linguística, mas também para outras áreas de conhecimento como a Sociologia, a Psicologia, a Antropologia, para mencionar só algumas. Como van Dijk (2001a, 2001b) escreve, a análise do discurso é essencialmente multidisciplinar e tem o potencial de responder a questões colocadas em diferentes áreas. Isto é ainda mais verdade para a ACD, uma vez que ela é orientada para problemas sociais, o que torna a interação entre as Ciências Sociais e a Linguística essencial (Resende 2009). A ligação entre a Sociologia e a Linguística é articulada, por exemplo, no trabalho de N. Fairclough, enquanto outros investigadores favorecem outros tipos de interdisciplinaridade: T. van Dijk aprofunda os pontos de contacto entre a Linguística e a Psicologia Social e R. Wodak trabalha a relação entre a Linguística e a História. Nestes quadros interdisciplinares, o lugar da Linguística é o de meio para outro fim. Uma vez que se entende que as realidades sociais são construídas e criadas, pelo menos
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Mesmo esta definição pode ser considerada ampla, distinta de outras que consideram ‘texto’ o produto do ato da escrita. Embora não seja relevante no contexto do presente trabalho, a definição de texto aqui apresentada inclui, para além da linguagem, outros sistemas semióticos como imagens, efeitos sonoros, etc. (cf. Resende 2009).
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em parte, pelo uso da linguagem, a análise da linguagem pode contribuir para identificar elementos linguísticos cujos usos criam realidades desfavoráveis a determinados grupos sociais e identificar pontos onde a mudança na linguagem pode contribuir para uma mudança social.
Discursos
A palavra ‘discurso’ adquire, geralmente, outro significado quando utilizada como nome contável. O conceito de ‘discursos’ é um conceito chave para a Análise de Discurso e tem a sua origem no trabalho de Michel Foucault (1997). Fairclough define- os como “formas diferentes de estruturar áreas de conhecimento e de ação social” (1992: 3)33, Sunderland (2004: 6) entende-os como sistemas de significado amplos e constituintes. Discursos são sistemas de pensar e de falar que constroem aspetos da realidade a partir de uma perspetiva particular (Litosseliti 2006, Sunderland 2004). No ato de enunciação, os falantes fazem referência a estes sistemas que circulam nas suas sociedades e que os ajudam a dar sentido à sua experiência. Os discursos apresentam uma certa estabilidade no tempo (Fairclough 2003), são considerados socialmente aceitáveis, pelo menos por alguns falantes, e reconhecíveis pelos interlocutores (Sunderland 2004). A relação entre discursos e ação verbal é dialética – como é o caso de outros relacionamentos entre estrutura e ação, anteriormente referidos. Por um lado, os discursos permitem a nossa ação verbal, uma vez que aquilo que dizemos só adquire significado no âmbito de determinado(s) discurso(s); por outro lado, eles condicionam a ação verbal, definindo aquilo que nos é possível dizer.
Representando a realidade de uma forma específica, focando determinados aspetos e negligenciando outros, os discursos são inerentemente ideológicos, mantendo ou contestando relações de poder existentes numa comunidade. Discursos genderificados, ou seja, discursos sobre homens e mulheres, sobre as suas ações, os seus comportamentos, as suas posições, etc. (Litosseliti 2006), influenciam assim a nossa maneira de ver homens e mulheres na sociedade. Existindo, simultaneamente, múltiplos discursos genderificados numa dada sociedade – discursos de igualdade, discursos de diferença, discursos sexistas, discursos feministas, discursos de maternidade, de
33 Tradução minha do original inglês: “(…) ‘discourse’ is widely used in social theory and analysis, for
example in the work of Michel Foucault, to refer to different ways of structuring areas of knowledge and social practice.”
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paternidade, etc. – a ACD, quando foca questões de género, está particularmente interessada naqueles discursos que posicionam homens e mulheres de formas diferentes, como ocupando lugares distintos na sociedade, e que naturalizam esta diferença.
Sendo os discursos fundamentais na construção das identidades, considera-se que a eles estão inerentes diferentes posições de sujeito que @ falante pode atribuir às pessoas/aos grupos de que fala, atribuindo assim uma identidade a estes indivíduos/estes grupos. Como referi no Capítulo 1, esta atribuição pode ser aceite ou contestada pelos interlocutores. Um desafio neste processo é a dificuldade em identificar os discursos, uma vez que podem estar dissimulados ou naturalizados, apresentando uma dada perspetiva sobre a realidade como não tendo alternativa. Ao mesmo tempo, ao fazer referência a determinados discursos e não a outros, @ falante constrói a sua própria identidade como ator social numa situação enunciativa específica. Ao falar de homens e mulheres, a partir de um discurso sexista, @ falante mostra quem el@ quer ser na situação enunciativa concreta, sem que, com base nisso, possamos concluir alguma coisa relativamente ao seu ser.
Textos de todo o tipo carregam traços linguísticos de determinados discursos, que podem ser mais ou menos evidentes (Sunderland 2004). Um texto raramente apresenta traços de um único discurso, mas será mais frequentemente uma mistura de vários, que se podem suportar mutuamente ou então – sobretudo em textos que não foram submetidos a nenhuma revisão posterior à sua produção, como é o caso de textos orais – estar em conflito mais ou menos evidente. Esta presença de diferentes vozes num único texto tem sido teorizada de formas variadas, podendo-se aqui mencionar o conceito de interdiscursividade de Fairclough (1992), o conceito de heteroglossia de Bakhtin (1986) ou ainda o conceito de dilemas ideológicos proposto por Billig et al. (1988). Facto é que a ação dos discursos é complexa, assim como a relação entre eles. As ordens de discurso, definidas por Fairclough como a “totalidade de práticas discursivas dentro duma instituição ou sociedade, assim como a relação entre elas” (1992: 43)34, são sistemas abertos à entrada e saída de discursos, à sua redefinição, contestação, etc. Traços linguísticos que indicam a presença de determinados discursos incluem escolhas lexicais, estruturas gramaticais, mas também a inclusão e exclusão
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Tradução minha do original inglês: “The stress on interdiscursive relations has important implications for discourse analysis, since it places at the centre of the agenda the investigation of the structuring or articulation of discursive formations in relation to each other within what I shall call, using a Foucaultian term, institutional and societal ‘orders of discourse’ – the totality of discursive practices within an institution or society, and the relationships between them.”
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representacional de atores sociais, etc. O trabalho de identificação e nomeação destes discursos é sempre interpretativo (Sunderland 2004).