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Capítulo 1 – Identidade e discurso

1.3. Identidade e linguagem

Construção discursiva das identidades

O que é que o que foi dito até aqui tem a ver com a linguagem? Entre todos os meios semióticos de que dispomos para trabalhar a nossa imagem, a utilização da linguagem foi frequentemente identificada como a mais importante. Obviamente podemos também transmitir quem somos ou quem queremos ser através da nossa aparência (roupa, corte de cabelo, piercings, etc.), através das nossas ações não linguísticas (comprar revistas de moda ou de automóveis, etc.), através da nossa mera presença física em algum lugar específico e não noutro (numa manifestação contra a

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precariedade ou num estádio de futebol), etc. Mas frequentemente transmitimos quem queremos ser através daquilo que dizemos (ou não dizemos) ou através da forma como o dizemos. A definição de Giddens (1991) das identidades como narrativas biográficas coerentes que constituem o projeto reflexivo do EU sublinha precisamente isso. Nestas narrativas construímos coerência entre passado, presente e futuro, de forma a dar sentido àquilo que acontece à nossa volta, e fazemo-lo usando construções linguísticas. É nestas construções linguísticas que surge a nossa identidade, que pode, neste sentido, ser caracterizada como construída discursivamente.

A conceção da identidade como discursivamente construída contradiz conceções da linguagem como refletindo uma realidade extralinguística neutra e independente, afirmando que a linguagem não é um mero instrumento de reprodução de algo pre- existente, mas sim um meio de constituição de uma ‘realidade’ sempre condicionada. Derrida (1983) radicalizou esta visão, constatando que aquilo a que chamamos ‘realidade’ são sempre só representações e que, neste sentido, não existe nenhuma realidade para além do texto. Outras visões menos radicais admitem a existência de um mundo para além do texto. Neste sentido, dois indivíduos até podem olhar para o mesmo objeto, mas o olhar de cada um será condicionado por uma série de fatores (Butler 1993). Consequentemente, as descrições que podem surgir desta observação serão sempre diferentes, focando aspetos distintos da mesma ‘realidade’, revelando assim interpretações diferentes dela mas nunca serão um espelho da realidade observada. Aplicado às identidades isto significa que qualquer que seja a nossa conceção das mesmas – essencialista ou construtivista – a sua representação através da linguagem nunca é o espelho da(s) identidade(s).

Assumindo a existência de uma identidade intrínseca, a sua representação discursiva será sempre uma interpretação da mesma. Assumindo uma perspetiva construtivista, não há nada que possa ser interpretado, não há nenhuma identidade pré- discursiva que possa ser refletida, mesmo de forma condicionada. Há, isso sim, representações discursivas que constroem as identidades in loco.

Uma vez que as visões essencialistas dificilmente resistem confrontadas com a multiplicidade de experiências que constituem a vida dos indivíduos no mundo atual, neste trabalho pressuponho uma relação construtivista entre língua e identidade: as identidades são – em parte – construídas discursivamente. Neste sentido, pressuponho que aquilo que dizemos e a forma como o dizemos não revela de forma nenhuma quem nós somos, mas sim quem queremos ser naquele momento enunciativo específico.

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Atribuir e assumir identidades

A construção de identidades no discurso pode ser entendida como um jogo de atribuição e assunção que pode acontecer de forma mais ou menos consciente. No caso das identidades pessoais, o enunciador assume uma identidade quando a constrói para ele próprio e atribui identidades quando o processo de construção recai sobre outra pessoa, esteja esta presente na situação enunciativa ou não. O interlocutor tem sempre ao seu dispor a opção de aceitar ou contestar seja a autoatribuição do enunciador, seja a atribuição que é feita a ele próprio ou a uma terceira pessoa. No caso das identidades sociais ou coletivas, o enunciador atribui uma identidade a um grupo social (às mulheres, por exemplo), distanciando-se simultaneamente deste grupo e da identidade construída, porque não faz parte do grupo, ou então – no caso de ser parte deste grupo – assume esta mesma identidade. Do lado do interlocutor existem as mesmas opções de aceitação ou recusa, fazendo ele parte do grupo identificado ou não.

É de sublinhar que muitas vezes vários tipos de atribuição/assunção ocorrem simultaneamente. Ao construir o outro, o enunciador irá potencialmente construir-se também a si próprio. Para além disso, como escreve Abels (2010), atribuições de identidades acontecem sem que o individuo as tenha pedido: mesmo quando não nos perguntamos quem somos, temos que estar à espera de receber respostas mesmo sem perguntar.

Este jogo de atribuição e assunção foi formulado por Judith Butler (2001), com referência a L. Althusser, utilizando os conceitos de interpelação e aceitação. No ato de aceitação, o indivíduo interpelado torna-se aquele que foi interpelado. Quando num café o empregado de balcão se dirige a mim dizendo “Menina…”, ao responder “Um galão, por favor”, eu aceito que a identidade de menina me seja atribuída e torno-me de facto esta “menina”, com todas as consequências inerentes em termos de distribuição de poder. Não se pode dizer que o empregado no seu ato de enunciação confirme uma identidade que é minha por natureza (aliás, pessoalmente não me revejo na identidade de “menina”) e também não descreve uma realidade pré-discursiva, mas constrói uma representação subjetiva, espacial e temporalmente limitada que naquele momento engloba a construção de uma identidade para mim. O processo de interpelação/aceitação constitui o que Butler chama uma “totalização temporária” (1993: 309), uma vez que ele implica uma exclusão de todas as outras categorias identitárias que teriam sido possíveis de construir e que assim ficaram invisíveis. A atribuição do nome “menina” implica a

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ocultação de toda uma série de outras categorias possíveis como “senhora”, “doutora”, “querida”, etc. No caso da cena do café, isto pode não ter consequências significativas, mas em outras situações terá. O exemplo também serve para demonstrar que a interpelação está inserida em estruturas discursivas de poder normativo que tornam impensável o empregado chamar-me, por exemplo, “senhor” ou “menino”, porque não reúno os requisitos fisiológicos necessários de pertença aos grupos respetivos, enquanto outras opções como “borracho” ou “gorda”, embora possíveis, são improváveis, porque implicariam uma forte probabilidade de contestação da minha parte, o que não estaria no interesse do empregado.

Nesta tese, o aspeto interacional das identidades passa para segundo plano uma vez que o discurso das mulheres entrevistadas será analisado focando a construção de identidades femininas que a falante assume para ela própria ou atribui a outros indivíduos enquanto mulheres ou homens. Os dados não permitem a análise dos processos de aceitação ou recusa dos indivíduos categorizados (ver capítulo 5, sobre a postura do entrevistador). O único momento em que podemos presumir que houve uma interpelação/aceitação é o momento do primeiro contacto com as entrevistadas em que lhes foi dito que seriam entrevistadas enquanto mulheres e filhas e mulheres e mães. À partida, todas elas, ao aceitarem ser entrevistadas, terão aceite estas classificações.

Diferentes graus de consciência na construção

Queiramos ou não, estamos sempre a fazer trabalho identitário; fazemo-lo é de forma mais ou menos consciente. Haverá situações em que afirmamos claramente quem somos, sustentando esta afirmação por narrativas que criam coerência entre eventos no nosso passado e comportamentos atuais, eventualmente fazendo previsões para o futuro. Desta forma, fixamos temporariamente a nossa identidade no discurso. Isto não quer dizer que num outro contexto situacional não a fixemos temporariamente de outra forma. Mas, mesmo quando não temos intenção declarada de dizer aos outros quem queremos ser, é impossível não fazermos trabalho identitário. Quando falamos ou escrevemos um texto, por mais isentos que tentemos ser, dizemos sempre algo sobre nós. Ainda que um autor tente evacuar-se do seu texto, essa mesma preocupação estará explícita e constituirá ela própria uma marca identitária, no sentido de o autor considerar

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que na situação específica a objetividade/isenção seria a melhor forma de atingir o seu objetivo.

Um dos objetivos principais deste trabalho é tornar visíveis os processos de construção de identidades que normalmente ocorrem de forma inconsciente e destacar o papel que a linguagem pode ter neste processo. Este papel é muitas vezes subestimado e desvalorizado. Uma análise linguística, como a que proponho neste trabalho, pode ‘revelar’ posicionamentos a nível léxico-gramatical, dos quais o falante não tem consciência.

Síntese

Procurei, neste capítulo, demonstrar que a forma como o indivíduo se vê a si próprio está relacionada com a mundivisão em que se insere, o que provoca mudanças na definição do conceito de identidade ao longo da sua história. Espero ter tornado claro que as visões essencialistas da identidade, como sendo única e imutável, dificilmente se adequam à experiência de vida nas sociedades atuais, na medida em que não conseguem traduzir a complexidade das formas contemporâneas de organização social. Isto torna necessária uma perspetiva atualizada sobre as identidades que passam a ser temporárias, múltiplas e utilitaristas. Identifiquei o discurso como o lugar por excelência para a construção das identidades. É através da maneira como falamos e daquilo que dizemos que construímos quem queremos ser numa situação específica. A construção identitária pode ser um processo consciente, mas mais frequentemente ocorrerá de forma inconsciente, o que a torna um objeto de estudo pertinente para uma análise crítica que tem o objetivo de tornar visíveis as identidades construídas e as suas emanações sociais.

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Capítulo 2 – Género

Neste segundo capítulo, exploro o segundo grande pilar teórico da presente tese, abordando aspetos fundamentais da teorização do género. O capítulo é dividido em três subcapítulos. O primeiro aborda a relação entre género e sexo. Depois de uma breve reflexão sobre a simbiose que, no senso comum, frequentemente caracteriza a relação entre os dois conceitos, faço uma pequena excursão às origens do questionamento desta mesma simbiose, para, de seguida, apresentar quatro possíveis teorizações desta relação. O segundo subcapítulo visa problematizar a relação entre género e poder. Reflito sobre o potencial explicativo do conceito de patriarcado e sobre o exercício do poder através da norma, antes de focar de forma mais pormenorizada uma conceção foucauldiana do poder como dinâmico e relacional. No mesmo subcapítulo discuto também a possibilidade de o sistema de género constituir uma ferramenta de exercício de poder. Na terceira e última parte do capítulo apresento algumas considerações sobre as mudanças de género, incluindo uma reflexão crítica sobre o papel do feminismo na sociedade atual.