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O discurso: objeto de estudo da AD

No documento 2009SandraNovello (páginas 64-67)

3 O CAMPO TEÓRICO DA ANÁLISE DE DISCURSO

3.3 O discurso como local de encontro do sentido e do sujeito

3.3.1 O discurso: objeto de estudo da AD

O discurso, na perspectiva da AD, é de natureza tridimensional; sua produção acontece na história, por meio da linguagem, que é uma das instâncias por onde a ideologia se materializa. Por isso, os estudos linguísticos tradicionais não conseguem abarcar a inteireza de sua complexidade. O objeto de estudo da AD não é a língua, nem o texto, nem a fala, mas necessita de elementos linguísticos para ter existência material. Por isso, podemos dizer que o discurso implica uma exterioridade à língua, encontra-se no social. Nas palavras de Fernandes:

Como o discurso encontra-se na exterioridade, no seio da vida social, o analista/estudioso necessita romper as estruturas lingüísticas para chegar a ele. É preciso sair do especificamente lingüístico, dirigir-se a outros espaços, para procurar descobrir, descortinar, o que está entre a língua e a fala, fora delas, ou seja, para compreender de que se constitui essa exterioridade a que se denomina discurso, objeto a ser focalizado para a análise. (2005, p. 24).

Os discursos não são fixos, estão sempre se movendo em direção a outros discursos e sofrendo transformações, isto é, estão sempre sofrendo “atravessamentos” de vozes que os antecederam e que com eles mantêm constante duelo, ora legitimando-os, ora confrontando- os. A formação de um discurso está baseada neste princípio constitutivo: o dialogismo. Os discursos, mesmo sendo outros, relacionam-se com demais discursos que podem estar

dispersos pelo tempo e pelo espaço, mas se unem porque são atravessadas por uma mesma escolha temática. Por isso, o discurso é uma unidade na dispersão.

Quando um discurso é proferido, já nasce filiado a uma rede tecida por outros discursos com semelhantes escolhas e exclusões. A metáfora da rede utilizada por Leandro Ferreira (2007, p. 19-20) é pertinente para explicar o discurso: uma rede como a de pesca, onde os fios que se encontram e se sustentam nos nós, que são tão relevantes para o processo de fazer sentido como os furos, por onde a falta, a falha se deixa escoar. “Se não houvesse furos, estaríamos confrontados com a completude do dizer, não havendo espaço para novos e outros sentidos se formarem”. Ainda nas palavras da autora:

A rede, como um sistema, é um todo organizado, mas não fechado, porque tem os furos, e não estável, porque os sentidos podem passar e chegar por essas brechas a cada momento. Diríamos, então, que um discurso seria uma rede e como tal representaria o todo; só que esse todo comporta em si o não-todo, esse sistema abre lugar para o não sistêmico, o não representável. Temos aí a noção de real da língua, como o lugar do impossível que se faz possível pela língua. (LEANDRO FERREIRA, 2007, p. 20).

Para a AD, o discurso é uma prática, uma ação do sujeito sobre o mundo e, de acordo com Orlandi (2001, p. 15), tem ideia de curso, de percurso, de movimento, por isso é prática de linguagem. Nessa perspectiva a linguagem torna-se uma forma de mediar o homem e a realidade, e o discurso, por sua vez, torna possível não só a permanência e a continuidade como o deslocamento e a transformação dessa mesma realidade. Esse trabalho não se dá como na linguística, para a qual a língua é fechada. Na AD a linguagem não é transparente e existe a relação língua-discurso-ideologia, sendo o discurso a materialidade da ideologia na língua. O discurso torna-se, portanto, o local onde é possível observar a relação entre língua e ideologia e, consequentemente, compreender “como a língua produz sentidos por/para os sujeitos” (ORLANDI, 2001, p. 17).

Nos estudos do discurso, procuramos compreender a língua como um acontecimento, não apenas como uma estrutura, porque “as palavras simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram” (ORLANDI, 2001, p. 20). Para a AD, os possíveis sentidos de um discurso não existem de forma esquemática e linear e não há separação entre emissor e receptor, tampouco esses elementos atuam de forma sequencial; o que ocorre é a realização do discurso por sujeitos afetados pela língua e pela história, num processo de produção de sentidos, não de transmissão de informações.

Para a AD a linguagem não pode ser estudada como algo desvinculado do social e de suas CP, uma vez que é lugar de conflito e de confronto ideológico, pois os processos que a constituem são histórico-sociais. Brandão relata:

A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia. (1997, p. 12).

O sistema da língua é o mesmo tanto para o materialista como para o analista de discurso; trata-se, pois da materialidade, da base comum dos processos discursivos. Difere a AD pelo fato de não tomar o texto como algo concluso e hermeticamente fechado; assim, no mesmo momento em que se propõe uma análise, instaura-se sua incompletude. A língua funciona como uma condição de possibilidade para o discurso; é o lugar material em que o texto “funciona” e onde se realizam os efeitos de sentido. Dessa forma, o discurso passa a ser, na perspectiva da AD, o local onde emergem as significações.

Considerando o discurso midiático uma modalidade de discurso, este tem como uma de suas características possuir a linguagem da sedução e o “poder” de estabelecer e reforçar padrões sociais, já que, no seu dizer, imprime efeitos de evidência e reforça ideologias, entre elas, a ideologia capitalista do consumo. O discurso midiático apresenta-se como um formador de opinião, como um cristalizador de visões acerca do real, e atua na institucionalização dos sentidos na tentativa de torná-los homogêneos por meio da identificação do sujeito-leitor com o objeto, construindo apenas uma possibilidade de sentido para o discurso em questão, visto que as demais possibilidades de leitura são silenciadas.

Schons e Grigoletto, em relação a esse gênero discursivo, afirmam:

Numa perspectiva discursiva, o gênero midiático está ligado à ilusão da promessa de “fabricação” de imagens autênticas e verdadeiras, as quais, por sua vez, produzem a cristalização de UM sentido dominante acerca de determinados fatos, acontecimentos sociais e históricos, ou seja, a mídia produz verdades, silenciando o que outros textos dizem sobre esses acontecimentos. E ao produzir verdades, imprime um efeito de novidade sobre o fato noticiado. (2007, p. 218- grifo das autoras).

O discurso midiático, da forma como foi abordado pelas autoras, propõe apagar as marcas de outros discursos na tentativa de homogeneizá-lo, conduzindo os dizeres para uma única direção: a que melhor lhe convém. Dessa forma, o sujeito-leitor acredita na possibilidade de um sentido único e toma-o como verdade absoluta. Esse discurso produz formas de identificação desse sujeito-leitor com o objeto como se estivessem “compartilhando” o mesmo sentido. Em relação ao corpus deste trabalho, é como se as mulheres leitoras de Nova se identificassem com as informações contidas nos textos do periódico que tratam sobre beleza e deles fizessem apenas uma leitura: aquela pretendida pelo veículo midiático em questão.

O discurso midiático, com seu modo de funcionamento específico e com mecanismos enunciativos próprios, no momento em que faz circular os sentidos que interessam ao capitalismo, por exemplo, contribui para a construção de evidências, atuando como um mecanismo ideológico de produção de verdades aparentes. Essas verdades estão ligadas a sistemas de poder que direcionam os sentidos de um discurso, contribuindo para a “disseminação” de certas interpretações. Portanto, de acordo com Mariani (1998, p. 82), a verdade, nessa perspectiva, torna-se uma direção de sentido que se impõe como literal.

Analisar o discurso não significa descobrir o que nos transmite. A AD trabalha a análise dos efeitos de sentido advindos do discurso de acordo com suas CP e tem como um de seus princípios fundamentais o fato de que não há discurso sem sujeito; por isso, é da constituição do sujeito da AD que trataremos a seguir.

No documento 2009SandraNovello (páginas 64-67)