3. Descrição do projeto
3.3 Caracterização dos textos
3.3.2 Os textos de partida
3.3.2.3 Discursos e públicos-alvo
Conforme descrito no capítulo anterior, é possível dividir os textos apresentados em duas categorias, mas estes contêm dois tipos de discurso que não são exclusivos de cada um dos textos. Quer isto dizer que, por exemplo, no texto “RCM Bystolic” o discurso e o público-alvo são mistos, enquanto que nos documentos conceptuais tais características são mais lineares, com um tipo de discurso e público-alvo bem definidos e constantes ao longo dos textos.
Devemos começar por distinguir dois tipos de público-alvo na totalidade dos textos: por um lado, um público mais especializado nos casos dos documentos conceptuais e em grande parte do “RCM Bystolic”; por outro lado, deparamo-nos com conteúdos destinados a um público menos especializado, nomeadamente no que se refere à secção do RCM destinada às informações a serem fornecidas aos consumidores/pacientes que tomam o medicamento (secção esta que doravante designaremos de “folheto informativo” ou “bula”).
Conforme podemos depreender dos parágrafos anteriores, o discurso utilizado nos textos de partida (e nos de chegada) depende, na sua essência, do público-alvo a que se destina, sendo que estas duas variáveis se condicionam mutuamente. É por este motivo que as apresentamos no mesmo capítulo.
De forma resumida e considerando a nomenclatura de RESURRECCIÓ et al.
(2007:58), poder-se-ia incluir a secção relativa ao “folheto informativo” do “RCM Bystolic” no género de documento de instruções, na medida em que a finalidade do texto é levar o leitor a cumprir ou obter determinadas ações/objetivos (desta situação apresentamos dois exemplos ilustrativos: “If you feel dizzy, sit or lie down and tell your doctor right away” ou “Tell your doctor if you gain weight or have trouble breathing while taking BYSTOLIC”). Também a utilização do modo imperativo nos verbos ilustra este tipo de classificação, na medida em que, em termos gerais, o modo imperativo é o utilizado para efeitos de fornecimento de instruções em língua portuguesa (desta afirmação, são exemplo as traduções dos casos que acabámos de expor: “Caso sinta tonturas, sente-se ou deite-se e contacte de imediato o seu médico” ou “Informe o seu médico caso verifique algum efeito secundário incomodativo ou que não desapareça”). Por outro lado, as restantes secções do documento “RCM Bystolic”, bem como os textos “Documento conceptual 1” e “Documento conceptual 2”, já se incluiriam noutra categoria, nomeadamente na de
documento de exposição, pois são apresentadas informações aos leitores que não visam o desempenho de determinada tarefa seguindo instruções. Por exemplo, a secção 13 do documento “RCM Bystolic” é meramente expositiva das informações relativas à toxicologia não clínica e todos os conteúdos dos documentos conceptuais expõem informações e descrições a serem consideradas pelos destinatários destes textos.
Visto que os documentos conceptuais representam um tipo de documento menos híbrido, comecemos por caracterizá-los com maior profundidade em termos discursivos e de público-alvo, incluindo depois pontos de contacto e de afastamento relativamente ao documento “RCM Bystolic”.
Desde logo, nota-se nos documentos conceptuais a existência de características de uma publicação mais elaborada, que se evidenciam claramente com a inclusão de bases teóricas, em concreto com indicações bibliográficas no final e até mesmo ao longo do documento (por exemplo, no texto “Documento conceptual 1” verificamos referências como “[Camm et al, 2010; Furie et al, 2011]” ou “[Lip et al, 2010]”) e no “Documento
conceptual 2” encontramos igualmente uma secção final do documento dedicada à bibliografia). Tal denota um público-alvo com um nível de erudição superior e de nível académico diferente daquele a que se destina, por exemplo, o folheto informativo de um medicamento. Estes marcadores bibliográficos representam características de textos especializados e cuja escrita elaborada requer uma linguagem mais cuidada e impessoal, típicas da isenção científica.
No que se refere ainda aos documentos conceptuais, verifica-se nestes a utilização abundante de siglas (exemplo: AF, VKA, SEE, CHMP, AHFS), o que demonstra novamente a familiarização com a área da especialidade do público a que se destinam. Apesar de, na primeira ocorrência de cada sigla, ser apresentado sempre ou quase sempre em conjunto o significado da mesma (por exemplo: “Acute Heart Failure (AHF)” no “Documento conceptual 2” ou “systemic embolic events (SEE)” no “Documento conceptual 1”), não se verifica uma grande necessidade ou preocupação de explicitação adicional das mesmas, dada a naturalidade de utilização deste tipo de nomenclatura neste género de recursos para um público-alvo que se pressupõe conhecedor do tema. Da mesma forma, no “RCM Bystolic”, há alguns símbolos usados sem necessidade de explicitação: “ClCr less than 30 mL/min” (o destinatário identificará facilmente que “ClCr” se refere a uma representação química e “mL/min” a uma unidade de medida por minuto, o que não aconteceria com um público-alvo menos especializado). Já o contrário acontece na secção dedicada ao “folheto informativo”, no texto “RCM Bystolic”, na medida em que as siglas são praticamente inexistentes (exceção para “ICU”, por ser uma
sigla com vasta utilização para “Intensive Care Unit” - Unidade de Cuidados Intensivos ou UCI)25.
Tal como acontece em ambos os documentos conceptuais, constatamos que, no documento “RCM Bystolic”, a primeira grande secção (anterior ao “folheto informativo”) apresenta um cariz especializado e é orientada para um público especialista, não apresentando o tipo de discurso vulgarizado que se encontra no “folheto informativo”. De facto, a secção final de “folheto informativo” destaca-se pela diferença de estilo, discurso, terminologia, em suma, por um maior nível de vulgarização que se evidencia pelo tipo de orações e linguagem utilizadas. Por exemplo, há uma explicitação adicional sobre as informações apresentadas, nomeadamente a forma de ler a palavra com a indicação “(bi-STOL-ik)” ou a explicação, por extenso, de algo que, para um público especializado, seria apresentado apenas com símbolos: em vez de “beta-blocker” em “BYSTOLIC is a kind of prescription medicine called a “beta-blocker””, para um destinatário mais especializado bastaria usar “β-blocker”, não sendo necessária a sua descrição por extenso.
A característica “híbrida” do documento “RCM Bystolic” manifesta-se a partir da secção que se refere principalmente ao “folheto informativo”. É evidente, por exemplo, o cuidado de explicitação para o público-alvo menos especializado, logo no texto de partida, no sentido de aproximar o discurso do paciente, com a existência de explicações de determinados termos especializados, como é o caso em “Have a slow heartbeat or your heart skips beats (irregular heartbeat)” ou em “problems with blood flow in your feet and legs (peripheral vascular disease)”. Responde-se, assim, à necessidade de, como RESURRECCIÓ et al. nos sugerem, “De-terminologize medical terms […] so as to make
them comprehensible to lay readers when necessary” (RESURRECCIÓ et al., 2007:37). Denota-se ainda nesta mesma secção que há um cuidado de síntese, simplificação terminológica e explicações de senso comum (veja-se, a título de exemplo, a apresentação de informações por listas de pontos, em vez da sua concertação em frases complexas), sendo estas características típicas de textos cujo género é menos especializado.
Nesta mesma sequência de ideias, OLIVEIRA cita Gaudin para mostrar que o discurso vulgarizado não é um “discours d’autorité, mais […] un discours visant à faciliter
25 A este respeito note-se que, no ponto dedicado a “Acrónimos e siglas”, no capítulo “Discussão
de problemas e resultados” deste relatório, muitos dos exemplos apresentados pertencem ao texto “Bystolic”; não obstante, estes exemplos encontram-se essencialmente na parte do texto que não corresponde à secção de “folheto informativo” aqui indicada.
l’appropriation de connaissances, ce qui implique négocier son vocabulaire” (Gaudin, 2003:131, citado por OLIVEIRA, 2010:245, marcação a negrito do autor). Ora, tal negociação está perfeitamente patente na necessidade de adequação do discurso aos diferentes públicos visados pelo texto “RCM Bystolic”, de que daremos conta na nossa “Discussão de problemas e resultados”, em específico na secção de “Adaptações do discurso ao público-alvo”. Não obstante toda a necessidade de adaptação e adequação em termos discursivos e de público-alvo, não podemos descurar a necessidade de manter algum nível de terminologia especializada a nível global nos três documentos. Com efeito, dada a especificidade da temática sobre a cardiologia, é natural que predomine bastante terminologia que, no caso do “RCM Bystolic”, inclui igualmente algum cuidado de explicação (conforme já referimos a respeito da adaptação necessária na secção referente ao “folheto informativo”). Não obstante, estas explicações existem não só na secção final do “RCM Bystolic”, mas também em passagens de outras secções do mesmo documento, como em “glucuronides (the predominant circulating metabolites)” ou em citações retiradas dos documentos conceptuais: “Atrial fibrillation (AF) is the most common sustained cardiac arrhythmia” (documento “Documento conceptual 1”) ou “Acute heart failure (AHF) occurs in children as a consequence of congenital or acquired disorders” (documento “Documento conceptual 2”).
Como já constatámos, os públicos-alvo dos RCM e dos folhetos informativos não são os mesmos. Como tal, é tão importante manter um discurso próximo do paciente no folheto informativo como não descurar a elevada qualidade da terminologia médica especializada no RCM. Estas características discursivas condicionam fortemente as estratégias de tradução, como discutiremos na secção dedicada a “Adaptações do discurso ao público-alvo”, inserida no capítulo “Discussão de problemas e resultados”.
Assim, pode inferir-se que o público-alvo da secção final do “RCM Bystolic” pode não ser especializado e a linguagem deve, pois, ser adequada em conformidade, no texto de chegada. Não obstante, alguns termos mais específicos deverão manter-se, na medida em que estes poderão ser determinantes na aplicação ou não do medicamento descrito. Além disso, deve haver o cuidado de manter alguma terminologia, na medida em que tais termos podem ser utilizados por profissionais de saúde aquando da sua comunicação com os pacientes. Portanto, sendo que estes mesmos pacientes poderão ser os leitores destas informações, haverá uma necessidade de identificação dessas referências especializadas para uma contextualização adequada, seja perante as informações recebidas dos profissionais de saúde, seja ao deparar-se com as apresentadas num folheto informativo.
Constatamos também que predomina a voz passiva na língua inglesa e que este é um tipo de discurso bastante presente nos três textos de partida, conforme se justifica com os seguintes exemplos:
- Documento “RCM Bystolic”: “BYSTOLIC has been evaluated for safety in patients”, “discontinuation of therapy due to adverse reactions was reported”, “rats were given nebivolol”;
- Documento “Documento conceptual 1”: “Various bleeding risk scores have been validated”, “a bleeding risk score has been proposed and validated”, “Several emerging new oral anticoagulants are being developed”;
- Documento “Documento conceptual 2”: “The treatment of paediatric AHF is characterised”, “the document is predicted to be discussed”, “a regulatory guideline that outlines the requirements is considered”.
Não obstante esta evidente predominância da voz passiva, verifica-se que no texto destinado ao público geral (secção dedicada ao “folheto informativo” do “RCM Bystolic”) se recorre com mais frequência do que nos outros documentos à voz ativa, nomeadamente devido ao público a que se destina. Disto são exemplo citações como “Do not abruptly discontinue BYSTOLIC therapy” ou “Do not use BYSTOLIC with other
β-blockers”, em que se evita a voz passiva que poderia ser usada em sua substituição (“BYSTOLIC therapy should not be abruptly discontinued” ou “BYSTOLIC should not be used with other β-blockers”). Conforme já notámos acima no que se refere ao modo imperativo, os motivos subjacentes a este tipo de discurso inserem-se num género textual e num tipo de discurso que é propenso a este género de formulação.
Em jeito de conclusão, o documento “RCM Bystolic” pode considerar-se como um documento híbrido em termos não só de discurso, como também de público-alvo, que requer uma especial atenção por parte do pós-editor, na medida em que é crucial manter estas mesmas intenções e cuidados no texto de chegada. Conforme enunciado ao longo deste capítulo, o facto de o texto “RCM Bystolic” apresentar, por um lado, características semelhantes às dos outros ficheiros de documentação conceptual mais especializada, mas também diferentes dentro do próprio documento “RCM Bystolic”, manifestou-se uma boa fonte de estudo para analisar a capacidade de implementação da TA, com a intenção de cumprir os objetivos propostos e demonstrar o imprescindível contributo que o tradutor profissional tem na sua colaboração com a aplicação das tecnologias informáticas à tradução e, em especial, à TA. Foi, pois, neste contexto que se avançou para criação dos textos de chegada que a seguir apresentamos.