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11 – DISCUSSÃO

No documento ÍNDICE GERAL (páginas 110-123)

genericamente a organização e funcionamento dos SPO e a constituição das equipas técnicas. A importância dos Psicólogos Escolares surge reconhecida no Decreto de Lei n.º 330/97 de 31 de Outubro que estabelece o regime jurídico da sua carreira. No preâmbulo desse diploma afirmava-se que "a qualidade da educação está intimamente dependente dos recursos pedagógicos de que a escola dispõe para acompanhamento do percurso escolar dos seus alunos, considerando-se que o papel dos serviços de psicologia e orientação é o de possibilitar a adequação das respostas educativas às necessidades dos alunos". Apesar do estatuído nesse decreto, depreende-se que estes serviços apenas abrangem um pequeno número de alunos e de alguns estabelecimentos de ensino. Segundo o Sindicato Nacional de Psicólogos, no ano lectivo de 2006/2007, os Serviços de Psicologia e Orientação das escolas da DREL60 têm ao seu serviço efectivo apenas 185 Psicólogos, num total de 2316 escolas. Assim, este ano o rácio de alunos por psicólogo é de, aproximadamente, 2450 alunos para um Psicólogo. Ainda segundo o mesmo Sindicato, e no caso da DREN61, o rácio é de 4636 alunos por Psicólogo, existindo 542441 alunos para 117 Psicólogos afectos às referidas escolas. Estas situações são agravadas pelo facto de, desde 1997, não existirem concursos públicos de admissão de Psicólogos nas escolas portuguesas.

A maioria dos alunos que consultou o Psicólogo Escolar (46,7%) fê-lo por vontade própria, 33,9% procurou os serviços por indicação de um Professor e apenas 7,7% por indicação do próprio Psicólogo. O Ministério da Educação (2006) descreve os Serviços de Psicologia e Orientação como serviços especializados de apoio educativo, integrados na rede escolar dos estabelecimentos de educação pré-escolar e do ensino básico e secundário, que articulam com as estruturas de orientação educativa das escolas e com outros serviços locais para promover condições que assegurem a integração escolar e social dos alunos e facilitem a sua transição para a vida activa. O apoio psicopedagógico a alunos, a orientação escolar e profissional e o apoio ao desenvolvimento do sistema de relações na comunidade escolar são os três domínios específicos da sua intervenção. O facto da maioria dos alunos consultar o psicólogo escolar por vontade própria leva-nos a acreditar que os serviços de psicologia são já conhecidos por esses mesmos alunos, o que nos parece um dado importante a reter. Se o consentimento informado é um paradigma dos cuidados de saúde actuais (Ricou, 2004), na psicologia este facto é ainda

60 Direcção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo.

61 Direcção Regional de Educação do Norte.

mais premente. Na realidade, a psicologia perderá todo o seu potencial de sucesso se não contar com a colaboração da pessoa na construção e participação no processo de intervenção.

Quando questionado sobre o motivo da consulta, 69,3% dos alunos responde que recorreu à mesma com objectivos de orientação vocacional, sendo que apenas 22,6%

admite recorrer aos serviços para “falar sobre os seus problemas”. O Sindicato Nacional de Psicólogos (2003) afirma “que para uma aprendizagem/desenvolvimento saudável de qualidade, todas as crianças e jovens deveriam ter o direito, desde o início da sua escolaridade, a:

- Diagnóstico precoce e acompanhamento eficaz das suas necessidades/problemáticas (dificuldades de aprendizagem e de relacionamento interpessoal, perturbações de desenvolvimento e de personalidade, problemas de comportamento, entre outras), não deixando que estas só sejam detectadas tardiamente, o que leva muitas vezes ao insucesso e abandono escolar;

- Actividades de prevenção dos consumos (tabaco, álcool e outras drogas) e especial atenção às faltas à escola associadas a estes consumos;

- Orientação escolar e se necessário reorientação (nos casos de alunos que não se integraram após a 1ª opção) no 9º ano, 12º ano e em qualquer momento que se coloque a possibilidade de um aluno ser encaminhado para formação vocacional ou formação profissional;

- Actividades de apoio à transição para a vida activa (técnicas activas de procura de emprego e gestão da carreira) sempre que o aluno ingresse no mercado de trabalho; Para além dos alunos, também pais/encarregados de educação, professores e outros profissionais da comunidade escolar, deveriam ter direito a um apoio de natureza psicopedagógica adequado às suas necessidades, trabalhando em conjunto na procura de soluções para os problemas com que se deparam diariamente, como a indisciplina, o stress ou as dificuldades de aprendizagem.”

Actualmente, parece-nos que os serviços de psicologia e orientação escolar estão muito direccionados para a orientação vocacional dos alunos, evidenciando pouca disponibilidade para outro tipo de trabalho e intervenção, nomeadamente aquelas referidas pelo Sindicato Nacional dos Psicólogos (2003). Mais, de acordo com os resultados do nosso estudo, constatámos a existência de um conjunto de problemas nos alunos que, se poderão nem sempre estar associados a entidades nosológicas bem definidas, constituem-se pelo menos como dificuldades para os alunos no sentido de promoverem o seu sucesso escolar. Deste modo, seria de todo pertinente que os serviços de psicologia nas escolas pudessem dar uma resposta mais efectiva a este nível no

sentido de, mais eficazmente, atingirem os seus objectivos. Na nossa opinião, os serviços de psicologia escolar devem centrar-se tanto na orientação vocacional como na intervenção, por assim dizer, mais de âmbito clínico ou de psicodiagnóstico.

Quando se questionam os alunos acerca da efectividade dos serviços de Psicologia, 76,9% responde afirmativamente, sendo que apenas 23,1% responde negativamente, o que nos sugere um bom nível de satisfação por parte dos mesmos em relação aos resultados da intervenção.

A maioria dos alunos – 75,5% – conhece alguém que já recorreu aos serviços de Psicologia (quer sejam escolares ou não escolares), o que nos leva a concluir que o recurso à psicologia se encontra hoje bastante generalizado. Interessante será reflectir sobre as diferenças encontradas quando questionamos os alunos sobre as motivações que, na sua opinião, levam essas “outras pessoas” a procurar os serviços de psicologia.

46,2% indica que essas pessoas os fazem “por terem problemas”, sendo que apenas 38,1% o fará para efeitos de “orientação vocacional”.

As questões relacionadas com a saúde mental e a doença mental são complexas porque afectam as pessoas como um todo, na sua individualidade e na sua relação com os outros e com o meio envolvente. O conceito de saúde mental é bastante lato, tendo sido definido pela OMS62 em 2001, como:

• Um estado de bem-estar subjectivo

• Capacidades de comunicação e relacionamento interpessoal

• Competências na vida pessoal e social

• Capacidades de autonomia e escolha de um projecto de vida

• Auto-realização intelectual e emocional

• Adequação à realidade.

A saúde mental depende tanto de factores pessoais como ambientais e pode ser promovida através da melhoria das condições sociais, profissionais, da prevenção do stress e de outros factores de risco dos quais podemos destacar o estigma a que a pessoa com problemas ao nível da sua saúde mental, por vezes, está sujeita. Na nossa opinião poderá este estigma estar na base da diferença encontrada nas respostas às questões

62 OMS – Organização Mundial de Saúde.

referentes às motivações do recurso à consulta de psicologia escolar. De facto não deixa de ser curioso que, quando questionados sobre os motivos que os levariam a recorrer a essa consulta, os sujeitos da nossa amostra indicam, na sua maioria, a orientação vocacional; contudo quando questionados sobre os motivos que estariam na base do recurso à consulta por parte dos colegas, a maioria, indica a existência de problemas pessoais. Na base desta diferença poderá estar, então, algum tipo de estigma em relação à doença mental o que poderá levar a um evitamento do recurso ao psicólogo com base nestas motivações. No fundo, poderemos assistir a um menor reconhecimento dos problemas, sendo que, muitas vezes, a própria consulta de orientação vocacional poderá servir de mote para a abordagem de outro tipo de problemas.

Quando questionados, de um modo geral, acerca da utilidade/efectividade destes serviços na ajuda aos colegas e a si próprios, a grande maioria respondeu afirmativamente, tornando evidente o conceito positivo generalizado destes serviços de psicologia escolar, junto dos alunos.

Concluímos que quando um aluno é proposto para apoio psicológico por qualquer motivo, esta proposta é aceite pelo próprio aluno e pelo respectivo encarregado de educação, normalmente sem oposições, sendo que parece existir uma crença nos resultados positivos que daí possam advir.

O aluno e o respectivo encarregado de educação, antes de qualquer intervenção psicológica, devem receber a informação necessária e adequada relativamente ao processo, e só posteriormente, se obtém as devidas autorizações para o acompanhamento. Apenas assim se estará a exercer um diálogo racional entre pessoas autónomas que decidiram livremente sobre uma intervenção (Serrão, 1996).

11.2 – Professores

De acordo com a análise dos dados, verifica-se que quanto à variável “género” a maior parte dos professores pertencem ao sexo feminino (75,1%). Na literatura, os estereótipos de género "são frequentemente definidos como o conjunto de crenças estruturadas acerca dos comportamentos e características particulares do homem e da mulher." (Neto, Cid, Pomar, Chaleta, Folque, pág. 11). Segundo Zenhas (2002), funcionam como esquemas

cognitivos que controlam o tratamento da informação recebida e a sua organização, a interpretação que se faz dela e os comportamentos a adoptar. Podem ser divididos em dois tipos: os estereótipos de papéis de género, que dizem respeito às crenças relativas às actividades adequadas a homens ou a mulheres e os estereótipos de traços de género, que remetem para as características psicológicas atribuídas distintamente a cada um dos géneros.

No que respeita à “idade” a distribuição na nossa amostra parece ser relativamente normal.

Quanto às “habilitações literárias” 84,4% dos professores são licenciados, 6,7 % possuem o grau de bacharelato e 8,6 apresentam o grau de mestres. A variável “número de anos de experiência profissional a nível da docência” permite concluir que uma boa parte dos professores – 39,6% – têm entre 11 e 20 anos de serviço seguido de 30,9%

com 1 a 10 anos de serviço e por último 20,9 % dos professores apresentam entre 21 a 30 anos de docência.

Quando se questiona sobre “quais os problemas – psicopatologias – que detectam, com maior frequência, nos alunos” as respostas são: a Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção (75,4%), seguindo-se os Problemas Comportamentais (67,8%), a Perturbação da Ansiedade (37,2%), o Stress (20,5%), a Perturbação de Sono (19,3%), a Perturbação do Humor (13,4%) e a Perturbação do Tipo Alimentar (9,9%). Segundo DuPaul e Stoner (1994), o denominado Distúrbio da Hiperactividade e Défice da Atenção63 tem sido um dos problemas de desenvolvimento mais estudados e dos que tem mais impacto a nível da sala de aula. Assim, acreditamos que se os professores detectam com mais facilidade a Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção seguida dos Problemas Comportamentais, será porque ambos criam elevada instabilidade no ambiente da sala de aula. São os alunos que, por não se conseguirem concentrar e motivar nas tarefas propostas para a aula, revelam um comportamento desajustado, instável, inoportuno e perturbador para o bom desenrolar do processo de ensino-aprendizagem, revelando-se também alunos com fraco aproveitamento e consequente deficiente sucesso escolar.

63 Também designada por Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.

Os alunos que manifestam uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção rapidamente desenvolvem e manifestam Problemas Comportamentais, sendo que numa primeira fase lhe são diagnosticados problemas comportamentais e posteriormente deparam-se com uma perturbação de hiperactividade e défice de atenção. As crianças com Desordem por Défice de Atenção com Hiperactividade (DDAH)64 têm muitas dificuldades em cumprir as regras definidas ou em manter o empenho nas actividades dirigidas pelo adulto. Os comportamentos perturbadores e as dificuldades de aprendizagem que lhes estão associadas são manifestações muito frustrantes para o professor e para o aluno, podendo conduzir ao desenvolvimento de sentimentos mútuos de aversão ou mesmo de hostilidade (Vasquez, 1997).

A Ansiedade, é defendida por Kaplan e Sadock, (1990, pág. 328), como “…um sentimento de apreensão difuso, altamente desagradável, frequentemente vago, acompanhado por uma ou mais sensações físicas (…)”. Este sentimento pode ser vivenciado, com frequência, pelos alunos em contexto escolar, tornando-se mais visível em situações de stress, como por exemplo, chamadas orais, provas escritas, exames nacionais, etc., manifestam-se normalmente por “bloqueios”, nervosismo, agitação, entre outros.

Segundo Figueiredo (2006), do Gabinete de Apoio e Aconselhamento Psicológico da Faculdade Nova de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, os adolescentes, com Perturbação da Ansiedade, sentem-se frequentemente mal dispostos, zangados ou tristes. As preocupações relativas ao corpo, à sua imagem e às relações em geral, particularmente com o sexo oposto, são factores de grande ansiedade e receio. No entanto, se estas preocupações forem excessivamente fortes, poderão ter repercussões na escola, em casa, no seu comportamento e até no modo como se sentem fisicamente.

A Perturbação de Sono também é identificada pelos professores inquiridos, normalmente porque se associa a esta perturbação o baixo número de horas que os alunos dormem. Segundo a Investigadora Teresa Paiva (2000) do Centro de Neurociências de Lisboa o sono é uma função essencial ao bem-estar do dia-a-dia, tanto físico como psíquico. Se não dormir bem o jovem fica cansado, irritável, incapaz de cumprir tarefas e tem muitas vezes uma grande vontade de dormir. Isto quer dizer que o organismo tende a repor o sono em falta, mas as compensações nunca são perfeitas. Os resultados de várias investigações têm mostrado que o sono é necessário para o bom

64 Também designada por Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, Vasquez (1997).

funcionamento do sistema nervoso. Quando não se dorme o tempo suficiente, daí advêm a sonolência, a incapacidade de concentração, os problemas de memória, a capacidade física é afectada e diminui a capacidade de desenvolver cálculos matemáticos. Com a privação do sono, os neurónios ficam de tal maneira esgotados de energia ou poluídos pelos produtos resultantes da actividade celular, que podem começar a ter problemas de funcionamento. Pensa-se, também, que o sono permite ao cérebro exercitar ligações importantes neuronais que poderiam, de outro modo, deteriorar-se por falta de actividade.

A Perturbação do Humor promove nos alunos que a apresentam oscilações de comportamento, que se podem manifestar por problemas comportamentais, com os problemas inerentes e referentes ao sucesso escolar.

A última perturbação identificada é a Perturbação do Tipo Alimentar cujo diagnóstico continua, em muitos casos, a ser apenas estabelecido em presença de perdas de peso significativas. Os primeiros sintomas passam despercebidos ou são até banalizados pelos doentes, mas também pela própria família e pelos que os rodeiam, nomeadamente, o profissional da educação e amigos. Um diagnóstico e uma abordagem precoces destas situações podem evitar, em muitos casos, as perdas vertiginosas de peso, por vezes mortais, assim como outras complicações da anorexia e bulimia nervosa.

Uma em cada 250 raparigas portuguesas, dos dez aos vinte e um anos, pode sofrer de anorexia nervosa, o que significa que, fazendo uma projecção para uma população de 916 mil mulheres dessa faixa etária, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, serão 3664 jovens com a doença silenciosa (Carmo, 2006). A autora explica que os estudos foram realizados nas escolas dos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal, “não podemos dizer que todas estas jovens anorécticas existem, porque estes resultados não são projecções nacionais. Haverá escolas com mais ou menos casos.”.65

Segundo um estudo de 2007, de investigadores66 da Universidade do Minho, publicado no Internacional Journal of Eating Disorders (40, págs. 212-217), que avaliou uma amostra representativa da população portuguesa (mais de duas mil jovens, alunas do 9º ao 12º de 11 escolas públicas do País) identificou distúrbios alimentares em 3% das

65 Entrevista publicada no Jornal diário Correio da Manhã, de 3 de Dezembro de 2006.

66 Equipa formada por Paulo Machado, Barbara Machado, Sónia Gonçalves, Hans Hoek, artigo intitulado “The prevalence of eating not otherwise specified”.

alunas. O que significa – perante uma estimativa populacional de 850 mil jovens entre os 12 e os 23 anos, com base na estrutura etária da população em 2005 – que mais de 25 mil raparigas portuguesas têm distúrbios que passam por privação de comida, episódios de voragem alimentar que podem ser compensados por vómito provocado ou consumo de laxantes, e preocupações com a comida, forma ou peso. Ainda de acordo com as prevalências encontradas, mais de três mil serão anorécticas e cerca de 2500 sofrem de bulimia. Acresce, ainda, que estas jovens obtêm bons resultados escolares o que dificulta mais a tarefa do professor em identificar este tipo de problemática.

São inúmeras as outras perturbações descritas, tais como: a desmotivação, o nervosismo, a falta de projectos de vida, a falta de auto-estima, o cansaço, a deficiente organização do tempo, a insegurança, os problemas familiares, os problemas sociais, a falta de hábitos de trabalho, a falta de estudo e a apatia, entre outros. O problema maior poderá ser, então, a dificuldade em identificar as patologias menos visíveis em contexto de sala de aula, pelo que será aqui que se deve fazer um reforço na formação dos docentes.

Quando detecta algum problema ou psicopatologia, 52,2% dos professores entende que a primeira pessoa ou entidade a ser contactada deveria ser o Encarregado de Educação do aluno, seguindo-se o Conselho de Turma (37,9%) e o Director de Turma (30,6%).

Quando um aluno é menor de idade, na maior parte dos casos, o Director de Turma contacta primeiro o Encarregado de Educação, com o objectivo de dar conhecimento do problema e/ou psicopatologia detectada. Quando é um outro professor a detectar a psicopatologia no aluno, normalmente contacta o Conselho de Turma (os outros professores do aluno) ou o Director de Turma. Na nossa opinião, esta sequência poderá constituir um problema sério de confidencialidade em relação ao aluno, agravado ainda por um possível e provável mau diagnóstico com uma consequente rotulagem do referido aluno. Acreditamos que a primeira pessoa a ser contactada, no caso de um aluno menor, deveria ser sempre o seu Encarregado de Educação, excepto nos casos onde se possa ter a convicção de que a ameaça possa surgir por essa via. Será então o Encarregado de Educação que deverá decidir o que fazer, baseado é claro na noção de melhor interesse do aluno. Este processo deveria realizar-se respeitando a confidencialidade inerente a um problema deste tipo. Pretende-se deste modo evitar que todos os professores e demais comunidade escolar tomem conhecimento de um problema que ultrapassa, na maioria dos casos, as dificuldades académicas; mais ainda,

quando sabemos que os diagnósticos realizados pelos professores incorrem em erros frequentes, isso poderá contribuir para a rotulagem do aluno com todas as consequências daí decorrentes. Claro que podem existir situações em que o aluno recorra ao professor pedindo-lhe confidencialidade em relação aos pais. Nesses casos o professor deve envidar todos os esforços para conseguir resolver o conflito de interesses em que incorrem. Por um lado preservar a confiança do aluno, por outro conseguir tomar medidas efectivas no sentido da resolução do problema. Será bom de ver que muitas vezes tal desiderato será difícil de atingir sem a colaboração dos pais ou de outras figuras significativas do aluno. O envolvimento do psicólogo poderá ser outra alternativa neste processo de resolução do problema. Enfim, caso a caso as decisões devem ser tomadas tendo sempre em consideração o superior interesse do aluno e o seu direito a um futuro aberto.

Quando se questionam os professores sobre –“ Quais as psicopatologias que encaminha para um acompanhamento/intervenção” – 71,1% dos professores entendem que, em primeiro lugar, encaminhariam para acompanhamento a psicopatologia – Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção, seguindo-se os Problemas Comportamentais (67,8%), e por último e em igualdade de circunstâncias (34,2%) as Perturbações da Ansiedade e do Tipo Alimentar. É de salientar que os principais problemas referenciados coincidem com os que foram detectados mais frequentemente nos alunos, em contexto escolar, o que nos parece lógico. Contudo, já não nos parece que este critério seja o mais adequado quando consideramos a gravidade da perturbação, o que vem salientar a importância da sensibilização e formação dos professores a este nível.

Quando interrogados sobre o acompanhamento e a evolução da situação psicológica do aluno, 87% dos professores respondem afirmativamente. Esta questão é reveladora do interesse demonstrado pelos professores no acompanhamento da evolução psicológica do aluno, e das expectativas depositadas, relativamente à resolução do problema por parte destes serviços.

Já no que respeita à ideia que os professores têm sobre o sucesso das intervenções, poderemos dizer que são apenas razoáveis, sendo que as respostas se dividiram pelas diferentes alternativas de resposta. Parece-nos sim relevante a diferença entre estes resultados e aqueles obtidos através dos inquéritos aos alunos. De facto, os alunos têm

melhores expectativas em relação aos resultados das consultas. Na base deste facto poderá estar a maior valorização, por parte dos professores, da melhoria em contexto de sala de aula ao nível dos comportamentos, sendo que, por parte dos alunos, poderão ser valorizadas dimensões mais subjectivas do bem-estar.

No contexto de escola os professores gostariam que estes serviços fossem mais abrangentes (ou seja, atendessem um maior número de alunos necessitados) e que estivessem mais direccionados para o diagnóstico e resolução de psicopatologias/problemas, o que vem de encontro ao referido anteriormente sobre a necessidade de promover um melhor diagnóstico dos problemas existentes. Serão pois serviços em que toda a comunidade escolar (professores, funcionários, alunos, encarregados de educação) deposita elevadas esperanças e expectativas na resolução de alguns dos problemas que afectam a vida escolar.

11.3 – Psicólogos

Todos os psicólogos da nossa amostra (n=8) são do sexo feminino, sendo que têm idades compreendidas entre os 22 e 51 anos de idade, são licenciadas, sendo o número de anos de experiência na área da Psicologia Educacional muito variado. O horário escolar semanal das mesmas varia entre as 10 horas (2 Psicólogas) e as 35 horas (restantes 6).

Os serviços prestados pelas inquiridas, segundo as próprias são: orientação vocacional (100%) e apoio psicopedagógico e psicoterapêutico (75%). Em algumas escolas ainda é facultado apoio psicopedagógico ou outros, como aulas de recuperação, sala de estudo e desenvolvimento de projectos da escola.

Os problemas/psicopatologias que as Psicólogas indicam detectar nos alunos, com maior frequência, são: 87,5% com Perturbação da Ansiedade; 75,0% com Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção; 62,5% com Problemas Comportamentais;

25,0% com Perturbação do Tipo Alimentar e com Perturbação do Humor e 12,5% com Stress. As “outras” problemáticas identificadas em menor frequência são: dificuldades de ou na aprendizagem, desinteresse, desmotivação e ausência de projectos de vida.

Percebe-se que as psicopatologias detectadas e encaminhadas pelos Professores para os Serviços de Psicologia e Orientação Escolar não coincidem com os problemas identificados pelos Psicólogos Escolares, o que não será de estranhar já que os professores estão longe de ser especialistas em psicodiagnóstico. Ou seja, um aluno chega junto dos serviços de psicologia com um problema/psicopatologia caracterizado pelo professor ou conselho de turma que na maioria das vezes não coincide, depois, com o diagnóstico efectivo realizado pelo Psicólogo. Claro que esta realidade não constituirá em sim mesma um grande problema se os alunos forem rapidamente encaminhados para os serviços de psicologia. Torna-se sim ainda mais importante que a identificação do problema por parte do professor tenha uma divulgação limitada no contexto académico, já que a possibilidade de realizar diagnósticos errados é elevada. Mais uma vez se corrobora a necessidade da existência destes serviços em todas as escolas e que abranjam todos os alunos encaminhados, seja por que problema for, vista a grande probabilidade de realização de diagnósticos errados por parte dos professores. Como já dissemos, por si só, tal facto não constituirá um grande problema desde que, por um lado, a privacidade dos processos seja mantida, e por outro, o aluno possa ser acompanhado de uma forma consistente e profissional.

Contudo, se consultarmos os dados da DGAE67 relativos a Portugal Continental, do ano de 2003, concluímos que o número de psicólogos é reduzido para o número de escolas abrangidas. Como já o dissemos, e de acordo com os resultados, seria de todo o interesse que cada escola tivesse acesso a um psicólogo escolar para facilitar a resposta às necessidades dos alunos.

Todas as Psicólogas inquiridas afirmam que todos os alunos encaminhados para intervenção são previamente autorizados pelos respectivos Encarregados de Educação.

Tratando-se de alunos menores, será o Encarregado de Educação que autoriza e consente a intervenção psicológica a que o aluno será sujeito. Contudo, é condição sine qua non para qualquer acompanhamento psicológico, independentemente da idade do consultando, que este colabore; de outro modo o processo dificilmente terá qualquer tipo de resultado positivo, pelo que o consentimento e o envolvimento activo do aluno são fundamentais, paralelamente ao consentimento dos pais (Ricou, 2004). Aqui mais

67 Direcção Geral da Administração Educativa.

No documento ÍNDICE GERAL (páginas 110-123)

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