1 PROTEÇÃO SOCIAL E O DIREITO À SAÚDE NO BRASIL
2 ACESSO E A ACESSIBILIDADE AOS SERVIÇOS ASSISTENCIAIS DE SAÚDE
2.1 Discussão conceitual sobre acesso na saúde
Consideramos que as análises sobre o acesso e acessibilidade aos serviços assistenciais de saúde devem contemplar aspectos que envolvam as dimensões políticas e técnicas assistenciais por considerar que estas dimensões são componentes fundamentais para refletir sobre como a população está utilizando os serviços sociais públicos no marco da saúde.
Entretanto, Jesus e Assis (2010) argumentam que, no processo de análise do acesso, é necessário incorporar quatro dimensões: econômica, técnica, simbólica e política, definidas no quadro 1 abaixo.
Quadro 1 - Dimensões analíticas da categoria acesso aos serviços de saúde. Acesso aos serviços de saúde
Dimensão
econômica Dimensão técnica Dimensão política Dimensão simbólica
Equidade; Racionalização; Relação entre oferta e demanda. Planejamento; Organização; Regionalização; Hierarquização; Definição de fluxos; qualidade; Resolubilidade dos serviços de saúde. Políticas de saúde; Conformação histórica do modelo de atenção à saúde; Participação da comunidade. Percepções, concepções e atuação dos sujeitos; Representações sociais do
processo saúde-doença; Representações sociais da
forma como o sistema de saúde se organiza para atender às necessidades. Totalidade concreta Buscar o equilíbrio na relação oferta / Demanda. Organizar a rede assistencial de forma regionalizada e hierarquizada. Desenvolver consciência sanitária e organização popular. Abordar as representações sociais da atenção à saúde e
dos serviços de saúde
Universalização do acesso aos serviços de saúde
Fonte: Abreu de Jesus (2006) apud Jesus e Assis ( 2010).
Ressaltamos que essas 4 dimensões apontadas por Jesus e Assis (2010) são todas significativas, mas é a dimensão política que possibilita situar acesso como uma categoria analítica. Devido ao processo de universalização das políticas sociais com expansão da cobertura visando ao aumento do acesso, porém é imprescindível articulações que envolvam as outras 3 dimensões apresentadas, pois só assim é
que haverá confluência da materialidade das estratégias e ações de ampliação do acesso.
Consideramos ainda que a dimensão simbólica, proposta por Jesus e Assis (2010), apresenta uma concepção de acesso como resultante da interação do comportamento individual daqueles que procuram os cuidados de profissionais dentro do sistema de saúde.
Tal apontado no quadro 1 acima exposto, vê-se que essa concepção parece convergir com a de Oliveira (2008), quando vincula acesso a atuação dos sujeitos, na forma e nos modos de como eles se organizam para construir no SUS, a disponibilização do acesso vinculando-o ao estado de garantia de direitos no uso de bens e serviços considerados socialmente importantes como os de saúde, sem quaisquer obstáculos físicos, financeiros ou de outra natureza, para atender às necessidades.
Sinalizamos que Travassos e Martins (2004) concebem acesso no campo sanitário, compreendendo o desdobramento das consultas, a interação, comportamento da pessoa ou coletivo de pessoas que procuram por cuidados, também envolve nesse processo o comportamento de profissionais quando da prestação desses cuidados, dentro do sistema de saúde. As autoras argumentam ainda que acesso “compreende todo contato direto – consultas médicas, hospitalizações – ou indireto – realização de exames preventivos e diagnósticos – com os serviços de saúde”. (TRAVASSOS; MARTINS, 2004, p.190)
Vê-se nessa concepção de acesso acima descrita, haver certa proximidade com a raiz etimológica do termo acesso: correspondente a “accessus“, “chegada”, de accedere, “chegar em”; ainda, tomam como base a definição de acesso: como “ato de ingressar, entrada, ingresso; possibilidade de chegar a, aproximação, chegada; possibilidade de alcançar algo” 54.
Notamos ainda que tais concepções também trazem a ideia de atendimento da população, e nesse caso abordam aspectos inerentes ao momento em que a população em atendimento expressa as razões e os motivos que as levaram ao serviço assistencial de saúde. Além disso, por vezes, relacionam o termo aos caminhos percorridos pela população na busca da resolução de sua necessidade,
convergindo com as análises sobre acesso vinculado ao contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), no marco do direito universal.
O direito universal ao acesso aos serviços assistenciais de saúde, de acordo com Pustai (2004), para além de ser um direito garantido na Carta Magna de 1988, vem pautando as discussões, debates e das reivindicações dos movimentos sociais. Para a autora, a luta pelo direito à saúde é a defesa do direito ao acesso gratuito aos serviços assistenciais de saúde e permanece sendo pauta da agenda política de um novo projeto societário.
Nesse sentido, vê-se que a universalização do acesso também se configura como um dos instrumentos de luta para transformação da realidade de saúde da população. Assim, o acesso emerge como uma categoria analítica permeada por elementos históricos, contraditórios e de disputa hegemônica do modelo de atenção à saúde.
Campos (1992) afirma que o acesso é um elemento do pensamento transformador dos sistemas de saúde voltados para as necessidades socialmente determinadas e orientadores da consciência sanitária. Poder-se-ia dizer que acesso é conformado num contexto complexo e reflete o desenho das políticas públicas e da política em geral. Assim, o acesso é considerado um elemento disparador para as políticas públicas e prevê intervenções confluentes com os objetivos ou finalidades do processo de transformação da ordem estabelecida55.
Poder-se-ia dizer que a ampliação do acesso aos serviços assistenciais de saúde reflete os projetos políticos sanitários tanto o público quanto o privado sendo, portanto, reflexo do contexto social, econômico e político vigente.
Nesse sentido, sinalizamos que o acesso universal aos serviços de saúde é resultado de múltiplas determinações do real, assim deve ser analisado como um processo em construção e presente nas relações sociais e no modo de produzir as políticas sociais pelo Estado burguês. Isso significa dizer que o conceito acesso está estreitamente relacionado ao de políticas sociais e suas instituições.
Cohn (2006) diz que é na dimensão política,
que se observam os processos de tomada de decisão e imposição para a sociedade pelo poder do Estado. Consequentemente, na esfera da política, a disputa é sempre o exercício presente, desde que observadas determinadas regras do jogo, acordadas socialmente e reconhecidas pela sociedade como legítimas, entre interesses particulares de distintos grupos
sociais para que sejam estes contemplados pelas decisões políticas, e assim impostos à sociedade; e ainda, que nesse processo se configurem como interesses gerais para a sociedade como um todo, portanto não como o interesse de um determinado grupo específico, mas como um bem público, respondendo ao interesse de todos (COHN, 2006, p. 234).
Assim sendo, a dimensão política do acesso emerge com destaque por envolver uma pluralidade de interesses. Nesses interesses estão inseridos os políticos, econômicos, sociais, ideológicos e culturais estratégicos para materializar as relações de poder entre determinadas frações de classes sociais e o Estado numa dada organização social.
Dessa forma, observamos que acesso pensado como categoria de análise da dimensão política da política de saúde possibilita se compreender como vêm se articulando os interesses
(...) as distintas formas de organização e de obtenção de lucro das diferentes instituições e complexos hospitalares, ainda como esses interesses se articulam com a indústria de produtos farmacêuticos e hospitalares, como se articulam com o sistema público estatal de saúde, também como se articulam com o espaço / cidade considerados territórios necessários (COHN, 2006, p. 233).