Parte II: Investigação
6. Discussão
6.1. Qualidade de vida
6.1.1. Discussão dos resultados do QLQ-C30 (versão 3.0)
Os resultados da escala QLQ-C30 (versão 3.0) (tabela 6 da página 89) permitem-nos caracterizar melhor a qualidade de vida das doentes com cancro de mama que estão a fazer tratamentos de quimioterapia por via endovenosa, e que fizeram parte desta amostra. Começando pelo desempenho e funcionamento destas doentes, verificamos que aquele em que são obtidos scores mais elevados é o do funcionamento cognitivo (70,19), que está relacionado com a capacidade de as pessoas se lembrarem das coisas do dia a dia e de se conseguirem concentrar, em actividades como por exemplo ver televisão. Este bom desempenho a nível do funcionamento cognitivo, nesta fase da vida das mulheres, em que ainda estão a fazer tratamentos de quimioterapia, poderá ser explicado pelo facto de a doença
e os tratamentos não terem ainda provocado um grande deficit intelectual a este nível, uma vez que só passados vários anos depois de as mulheres terem tido cancro de mama, é que vão ter algumas evidências de uma disfunção cognitiva, que será de 15% a 20% nas mulheres que fizeram quimioterapia, quando comparado com os 10% daquelas que também tiveram cancro de mama mas que nunca fizeram tratamentos de quimioterapia (O’Shaughtnessy, 2002). Por outro lado também concluímos que os desempenhos que estão a afectar mais a qualidade de vida destas mulheres, nos quais são obtidos os scores mais baixos são o funcionamento ocupacional e emocional (59,03 e 59,37 respectivamente). O funcionamento ocupacional está relacionado com as limitações que as pessoas sentem no dia a dia com a realização das suas actividades profissionais ou de lazer e recreativas, enquanto o funcionamento emocional está relacionado, com a forma como as pessoas se sentem (tensas, preocupadas, irritáveis ou deprimidas). Curiosamente, e de acordo com o estudo realizado por Osoba, Hsu, Copley-Merriman, et al (2006), verificou-se que dos 4 efeitos que os doentes com cancro de mama mais gostariam de evitar dois deles são efectivamente uma diminuição do seu funcionamento emocional e ocupacional, o que demonstra bem a importância que um bom desempenho nestas áreas pode vir a ter para a qualidade de vida destas doentes. De acordo com este autor, os outros efeitos que as mulheres mais gostariam de poder evitar são as náuseas, os vómitos e as dores. De acordo com o trabalho realizado por Santos (2006), o funcionamento emocional foi também um dos que mostrou uma menor performance, o que de acordo com este autor poderá estar associado à situação stessante vivenciada, que imprime uma maior carga emocional.
Mas para além do funcionamento, a escala QLQ-C30 (versão 3.0) também permite caracterizar os sintomas que estas doentes apresentam, e que também vão influenciar directa ou indirectamente a sua qualidade de vida, uma vez que grande parte da qualidade de vida dos doentes está menos relacionada com os sintomas específicos que eles sentem, mas sim com o impacto que estes sintomas tem no seu funcionamento do dia a dia (Hann, Jacobsen, Martin,
et al, 1998; Johnson, Hauber, Osoba, et al, 2006), pelo que podemos afirmar que na maior parte das vezes “o controlo de sintomas é a diferença entre uma boa e uma má qualidade de vida” (Ribeiro, 2003, p.12).
Assim, e tendo em conta os resultados obtidos, verificamos que o sintoma mais intenso ou que está mais vezes presente é claramente a fadiga (45,25). Também no trabalho realizado por Bernardo (1997) no Hospital da CUF com 150 doentes submetidos a quimioterapia, ficou demonstrado que 50% destes referiram sentir fadiga. De acordo com Jacobsen e Stein (1999), a percentagem de doentes que refere sentir fadiga logo após o primeiro ciclo de quimioterapia é de 82%. De acordo com este autor a causa da fadiga é multifactorial, e está relacionada não apenas com aspectos físicos resultantes do tratamento (como por exemplo a anemia ou acumulação de metabolitos tóxicos), mas também com alterações psicológicas ocorridas no próprio doente. Os estudos realizados por Chantal (2001) na Grã Bretanha indicaram ainda que esta fadiga dos doentes não é apenas sentida durante os tratamentos de quimioterapia, mas pode persistir mesmo durante vários anos, havendo por isso nas actividades quotidianas uma diminuição da capacidade de 87% para pegar em objectos pesados, de 60% para proceder a limpezas, de 56% para cuidar do marido ou filhos, e de 50% para subir e descer escadas. Desta forma, poderíamos ser levados a pensar que com níveis relativamente elevados de fadiga houvesse um pior desempenho das doentes a nível do seu funcionamento físico e ocupacional, e verificamos efectivamente como já referimos, que neste trabalho de investigação o funcionamento ocupacional tem o score mais baixo das várias sub escalas funcionais (59,03). Contudo, o funcionamento físico obtêm o segundo melhor score dentro desta sub escala (66,97), e apesar de estas diferenças não serem estatisticamente significativas, isto deixa-nos na dúvida se poderíamos atribuir este pior desempenho a nível do funcionamento ocupacional, mais às actividades do dia a dia propriamente ditas que as doentes pretendem realizar na sua vida profissional ou nas actividades de lazer, do que propriamente ás suas limitações físicas ou á fadiga. Este bom desempenho físico das doentes,
acaba por ser extremamente importante e significativo uma vez que está demonstrado que a manutenção da actividade física ao longo do percurso da doença oncológica (tratamento e reabilitação) parece ser favorável ao bem estar e satisfação com a vida (Courney & Friedenreich, 1997).
Logo a seguir ao sintoma da fadiga, e de acordo com os resultados deste trabalho, verificamos que que os sintomas mais frequentes são por esta ordem, as insónias, a perda de apetite e as dores (37,34, 29,93 e 28,77 respectivamente), o que está sensivelmente de acordo com os resultados obtidos em outros trabalhos de investigação realizados por Byar, Berger, Bakken et al (2006) e Santos (2006). A perda de apetite é também o sintoma que apresenta neste nosso trabalho de investigação o maior desvio padrão, o que significa que há uma grande heterogeneidade entre as pessoas em relação a isto, o que poderá ser explicado pelo facto de existirem diferentes protocolos de quimioterapia que estão a ser administrados, a estas doentes, em que alguns nomeadamente o FEC, TAC, CMF e o AC tem um potencial emetizante maior que outros, como é o caso do Docetaxel, Vinorebina, ou o De Gramont. Embora se consiga imaginar mais facilmente que as insónias e as dores possam provocar um grande desconforto ás doentes e consequentemente uma diminuição da sua qualidade de vida, a perda de apetite, embora de uma forma mais indirecta, também tem uma grande interferência na qualidade de vida destas, uma vez que a perda de apetite dos doentes com cancro provocada pelos próprios tratamentos de quimioterapia e pelos efeitos psicológicos da doença, pode vir a estar na origem de uma má nutrição que por sua vez tem como consequências uma diminuição do estado de imunidade, uma diminuição da resposta aos tratamentos de quimioterapia, e uma maior toxicidade induzida por estes com complicações mais severas que vão afectar não apenas a qualidade de vida mas também o próprio tempo de sobrevivência dos doentes (Van Cutsem & Arens, 2005). Esta ideia é também defendida por Yeo, Mo, Koh, et al (2006) num trabalho com doentes com carcinoma hepatocelular, ao referir que a pior qualidade de vida provocada por uma diminuição do apetite é um dos
factores preditivos da sobrevida destes doentes.
Por isso, é também necessário que haja um controlo cada vez mais eficaz das náuseas e vómitos provocados pelos tratamentos de quimioterapia, uma vez que habitualmente estes sintomas também são responsáveis pela perda de apetite. Mas em relação a estes sintomas verificamos neste trabalho de investigação, que são de facto um dos sintomas menos frequentes ou intensos (18,22). No entanto, na análise destes resultados devemos ter em conta, que as pessoas responderam ao questionário logo no inicio do ciclo de quimioterapia, e que era pedido ás pessoas para se reportarem à última semana, uma vez que segundo Crawford (1999) num estudo realizado com 379 doentes, verificou que nos primeiros dias após a quimioterapia, 34% referiram náuseas e apenas 18% fadiga, enquanto que passado alguns dias, a fadiga passou a ser referida por 25% contra apenas 13% que tinham referido náuseas. Por isso, e apesar de estar também descrita a existência de vómitos antecipatórios, em 18 a 50% dos doentes que fazem quimioterapia (Bishop citado por Santos, 2006), podemos concluir que estes foram pouco frequentes nas pessoas que fizeram parte da nossa amostra. Embora neste trabalho, se tenha associado as náuseas e os vómitos num único sintoma, em virtude da escala de avaliação que foi utilizada, as náuseas e os vómitos são dois problemas diferentes que deveriam ser por isso avaliados separadamente, uma vez que as náuseas são um problema maior que os vómitos, afectam mais a qualidade de vida, e os antieméticos não são tão eficazes a resolver este problema (Chustecka, 2006).
A dispneia e a diarreia são os sintomas com scores mais baixos (7,09 e 9,56 respectivamente), e que tem também os menores desvios padrão, o que significa que por um lado são aqueles que são menos frequentes, e por outro lado são aqueles em que há menos discrepâncias entre as pessoas.
De um modo geral, podemos concluir neste trabalho de investigação que o estado global de saúde das mulheres que fizeram parte da amostra é positivo (53,53) e que as pessoas tem uma certa tendência a considerar que a sua qualidade de vida é ligeiramente melhor (55,24)
quando comparada com a sua saúde em geral (51,24). Se tivermos também em conta os resultados da escala QLQ-C30 (versão 3.0), na globalidade, podemos afirmar que os desempenhos destas doentes tem scores praticamente sempre acima dos 60 enquanto que a presença de sintomas só muito pontualmente ultrapassa o score de 30, o que parece corresponder de facto a uma boa qualidade de vida global.
Este resultado se por um lado nos deixa surpreendidos, uma vez que habitualmente os tratamentos de quimioterapia provocam uma redução da qualidade de vida nas mulheres com cancro de mama (Mills, Parker, Dimsdale, et al, 2005), por outro lado, já há mais de 20 anos, se dizia também que as doenças oncológicas podem afectar menos a qualidade de vida dos doentes do que geralmente se pensa, devido, provavelmente, a alterações das suas expectativas ou valores, a melhorias efectivas em determinados aspectos das suas vidas (por exemplo reforço de certos vínculos afectivos) ou a uma reestruturação das prioridades e objectivos de vida (De Haes & Van Knippenberg, 1985).
Mas os resultados dos trabalhos de investigação que demonstram que a qualidade de vida destas doentes é positiva deveria de certa forma, deixar-nos preocupados se tivermos em consideração que “os estudos que demonstram que as pessoas com cancro têm uma qualidade de vida satisfatória ou mesmo boa mascaram as respostas emocionais, que surgem associadas à doença e ao tratamento” (Lopes, Ribeiro & Leal, 1999, p.484). No entanto encontramos na literatura outros autores, que realizaram outros trabalhos de investigação sobre a qualidade de vida dos doentes oncológicos com outras localizações do tumor, nomeadamente útero ou ovário (Lopes et al, 1999) ou hematológicos (Sá, 2003), e que obtiveram níveis de qualidade de vida relativamente semelhantes aos que foram encontrados neste nosso trabalho.