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DISCUSSÃO

No documento Download/Open (páginas 82-88)

Este estudo buscou avaliar a correlação de algumas variáveis psicossociais de mães primíparas com o desenvolvimento de seus filhos únicos de zero a 42 meses fora da escola. A escolha dessa população, sem os estímulos de irmãos mais velhos e de atividades em grupo, objetivou afastar a influência de fatores que não as variáveis maternas no desenvolvimento dessas crianças.

Das variáveis maternas estudadas, as que apresentaram maior correlação com o desenvolvimento infantil foram em ordem decrescente, especificamente três: a renda exclusiva, a escolaridade e os indícios de possível DPP.

Os resultados obtidos com a aplicação das EDIB III para a habilidade cognitiva apresentaram correlação positiva com escolaridade, renda materna exclusiva e inversa com a presença de indícios de possível DPP; correlação positiva, estatisticamente significante entre a habilidade de linguagem expressiva e renda materna exclusiva, e entre as habilidades motora fina e do comportamento adaptativo com a escolaridade e a renda materna exclusiva. Não se encontraram correlações entre as habilidades da linguagem receptiva, motora grossa e socioemocional com nenhuma das variáveis maternas investigadas.

Neste estudo a renda própria exclusiva foi a característica materna que mais se correlacionou com o desenvolvimento de seus filhos, de forma positiva e estatisticamente significante com as habilidades cognitivas, da linguagem expressiva, motora fina e do comportamento adaptativo, resultados estes que são incidentes com os de Mattos et al. (2016) que embora utilizando outro instrumento de avaliação para o desenvolvimento infantil e não analisando, separadamente, a escolaridade e ocupação de pais e mães encontraram uma correlação entre escore de suspeita de atraso do desenvolvimento infantil daquela população e nível socioeconômico familiar. Neste estudo não foi analisado o impacto da aceitação gestacional.

Em um estudo avaliando crianças em Belém (PA), Paiva et al. (2010) encontraram uma influência negativa dos empregos maternos na habilidade receptiva, e no desempenho paterno na habilidade cognitiva, assim como uma relação negativa entre o possuir o celular e o desenvolvimento nas áreas motoras grossa e cognitiva dessas crianças

Paiva et al. (2010) avaliaram o efeito da pobreza no desenvolvimento de crianças brasileiras entre nove e 12 meses de idade, utilizando as EDIB III, relataram

que 20% das crianças classificadas como pertencentes ao nível socioeconômico inferior, apresentaram menor desempenho na área da comunicação receptiva, assim como as crianças filhas das mães desempregadas; que o desemprego paterno afeta a área cognitiva de seus respectivos filhos, e, que o fato de algumas dessas famílias não possuírem telefones celulares, refletindo talvez um menor poder aquisitivo, se correlaciona com a menor habilidade cognitiva e de motricidade grossa dessas crianças.

Embora esta pesquisa tenha demonstrado resultados similares quanto ao prejuízo cognitivo relacionado à renda, é divergente quanto aos resultados de linguagem. Os autores encontraram, também ao comparar a renda, prejuízo significativo na linguagem receptiva, enquanto, este estudo, verificou significância na linguagem expressiva. Uma hipótese sobre essa divergência á, justamente, a classe social em que se encontra cada amostra.

No estudo de Paiva et al. (2010), as crianças e suas famílias pertenciam a uma classe socioeconômica (renda familiar) inferior àquelas avaliadas nesta pesquisa.

A renda familiar é fator importante na qualidade de vida das famílias, pois determina acesso à saúde, ao lazer, à educação, à alimentação e à moradia adequados. Neste estudo, todas as mães relataram não precisar contribuir financeiramente para manutenção da família e todos os participantes da pesquisa tinham acesso à habitação e alimentação adequadas, assim como a lazer e saúde suplementar para seus filhos, o que não era a realidade das crianças das amostras citadas anteriormente (Mattos et al., 2016; Paiva et al., 2010). Esta maior liberdade financeira da mãe, lhe proporcionando acesso aos materiais educativos e às atividades recreativas poderia proporcionar maior estímulo a estas crianças resultando em um melhor desempenho nas áreas cognitiva, da linguagem expressiva, da habilidade motora fina e do comportamento adaptativo, o que difere um pouco dos resultados da literatura que apontaram correlação positiva entre a renda familiar e a escolaridade parental nas áreas cognitiva e de linguagem em faixa etária mais elevada (Jacobsen et al., 2013).

A escolaridade materna teve influência estatisticamente significante nas habilidades cognitiva, motora fina e no comportamento adaptativo das crianças deste estudo (coeficiente de Spearman = 0,2850, 0,3239 e 0,2236 respectivamente).

Correa, Minetto & Crepaldi (2018) sugeriram que os índices maiores de escolaridade indicam maior conhecimento sobre desenvolvimento infantil e oferta de

experiências desafiadoras. As autoras acrescentam que há uma tendência de níveis mais altos de escolarização serem inversamente proporcional à presença de ambiente familiar negativo. Estes resultados confirmam os achados deste estudo e sugerem que o melhor desempenho dessas crianças nessas habilidades possa ser decorrente de um ambiente familiar mais favorável e aos estímulos mais adequados, proporcionados por mães com conhecimento das fases do desenvolvimento infantil e da importância do acompanhamento deste, mas também da estimulação adequada para que este se dê de forma saudável.

Ozkan et al. (2012) quando estudaram a correlação entre desenvolvimento infantil e fatores socioeconômicos e de risco biológicos concluem que estes dois fatores exercem impacto semelhante no desenvolvimento de crianças entre três meses e cinco anos avaliadas pelo teste de Denver. Os autores apontaram que a baixa escolaridade materna e paterna, associadas ou não à baixa renda familiar, são os fatores mais relevantes e impactante no desenvolvimento da primeiríssima infância, encontrados por estes pesquisadores. Estes dados são semelhantes aos encontrado neste estudo, uma vez que nenhuma das crianças apresentavam riscos biológicos, conforme definição dos critérios de inclusão desta amostra.

Andrade et al. (2005) também encontraram associação positiva entre desenvolvimento cognitivo infantil de crianças entre 17 e 42 meses, primogênitas, que convivem com seus pais, filhas de mães com maior escolaridade, que trabalham fora e que moram com seus companheiros por usufruírem de melhor qualidade de estímulos no ambiente domiciliar, fato potencializado por melhor renda e dinâmica familiar. Pode-se perceber uma grande semelhança nos critérios de definição da amostra deste estudo e do supracitado, embora haja diferença nos instrumentos adotados e no número de participantes avaliados. É possível inferir que a semelhança da amostra gerou resultados semelhantes quando relacionam-se a renda e o desenvolvimento cognitivo.

Por outro lado, o trabalho de Escarce et al. (2012) não demonstra correlação entre a escolaridade materna e o desenvolvimento da linguagem infantil. Este resultado pode estar relacionado ao instrumento e objeto de avaliação. Enquanto neste estudo investigou-se separadamente a linguagem receptiva e expressiva resultando diferença significativa em apenas uma delas; as autoras avaliaram a linguagem global, em uma amostra de mães bastante uniforme no que diz respeito ao grau de instrução.

A influência do gênero (Umansky, Vardy, Lapidus, Mrahad, & Zucchi, 2005) e da prematuridade do concepto (Alexandre, Monteiro, Branco, & Franco, 2016) sobre a autoestima materna é conhecida em publicações anteriores assim como o fator determinante que a autoestima materna exerce sobre a recuperação nutricional de crianças de zero a três anos desnutridas na Guatemala (Sánchez, 2011). No entanto, os resultados deste estudo não confirmam os indicados pela literatura consultada. A hipótese para esta divergência é que as crianças prematuras e com riscos nutricionais importantes foram excluídas desta amostra. Nos critérios de inclusão estavam gestação de risco habitual e sem intercorrências, tais como a prematuridade. Embora na amostra possam estar inseridas crianças com dificuldade de alimentação, esta restringiu-se aos padrões habituais, não pertencendo à amostra as crianças claramente desnutridas.

A repercussão da qualidade da relação conjugal no desenvolvimento psicológico de crianças e adolescentes (Benetti, 2006) e no comportamento infantil (Boas et al., 2010) parece bem estabelecida na literatura; porém, a correlação da percepção materna de satisfação com sua relação de casal com o desenvolvimento de crianças pequenas ainda precisa ser melhor avaliado. Nesta amostra estas duas variáveis maternas não apresentaram correlações estatisticamente significantes com nenhuma das habilidades infantis testadas. A premissa de que uma percepção satisfatória de sua relação de casal poderia estar associada a um ambiente positivo e mais estímulos e atenção aos filhos, resultando em desenvolvimento infantil superior precisa ser melhor avaliada.

Outros estudos apontaram a influência de distúrbios psiquiátricos, mesmo leves e de DPP no desenvolvimento infantil pela literatura (Santos & Serralha, 2015), o que foi confirmado neste estudo.

Nesta pesquisa, embora a maioria das mães (79,27%) não apresentassem indícios de possível DPP, conforme os resultados obtidos pelo preenchimento do questionário de Edimburgo, os resultados da avaliação de seus filhos pela EDIB III demonstraram que a presença de indícios de possível DPP materna influencia de forma inversamente proporcional no desenvolvimento da habilidade cognitiva estatisticamente significante.

A repercussão da DPP na saúde mental das crianças em idade escolar parece bem estabelecida pela literatura (Santos & Serralha, 2015). Contudo, a sua influência no desenvolvimento psicomotor na primeira infância parece apresentar dados

controversos. Em um estudo publicado por Teixeira (2007) postulou que a DPP não impacta a interação mãe-bebê, não repercutindo no seu desenvolvimento, que é avaliado no final de seu primeiro ano de vida. Entretanto, Brum e Schermann (2006), Ramos e Furtado (2007), Silva et al. (2010), Freitas et al. (2012) consideraram que a DPP poderia ser fator determinante na vida escolar e adulta de seus filhos quando os prejuízos no desenvolvimento se manifestam de forma grave. Assim, a repercussão da DPP no desenvolvimento infantil parece depender da gravidade do quadro, da falta de apoio familiar e o do parceiro, das condições socioeconômicas adversas e a presença de fatores estressantes durante a gravidez e puerpério (Santos & Serralha, 2015).

Nesta amostra, por se tratar de um estudo transversal e recente, as crianças ainda não estão em período escolar para que se possa verificar a correlação da DPP e o desenvolvimento neste período da vida. Ao se resgatar a caracterização da amostra, pode-se perceber que todas as mães relatam o apoio familiar ou profissional durante o pós-parto, inclusive aquelas que mostraram indícios de depressão. Este apoio, como mostra a literatura (O’Hara & Swain, 1996, Silva et al., 2010; Correa et

al., 2018) pode ter sido fator de proteção para maiores prejuízos no desenvolvimento

infantil.

Os efeitos da depressão materna têm sido atribuídos à interação mãe-criança menos sintonizada, principalmente devido à baixa sensibilidade e responsividade materna. Assim, tem sido bem estabelecido que crianças de mães clinicamente deprimidas tem um risco aumentado de desenvolver um relacionamento de apego inseguro e comportamentos negativos no início da vida (Behrendt et al., 2019). Entretanto, não houve correlação, neste estudo, entre indícios de depressão materna e prejuízo de habilidades socioemocional e de comportamento adaptativo infantil, provavelmente, pela avaliação precoce nesta pesquisa e pelo apoio familiar presente.

Neste estudo, a maioria das mães (91,67%) das crianças com habilidade cognitiva em patamar superior não apresentaram indícios de um possível quadro depressivo. Assim, a correlação estatística apontou haver relação inversa entre os escores da possível condição depressiva da mãe e da habilidade cognitiva da criança. No estudo de Servilha e Bussab (2015) o grupo de crianças de mães sem indicativos de depressão obteve melhor desempenho quando avaliada a habilidade da linguagem, pois interagiu mais com as mães e, proporcionalmente, verbalizou mais que o outro grupo, que, por sua vez, utilizou mais gestos e vocalizações. Uma hipótese

para esses resultados seria que a mãe sem indicativos de DPP estimula mais verbalmente seu bebê, por meio do diálogo nas brincadeiras. Entretanto, neste estudo, não houve correlação entre os indícios de depressão materna e o prejuízo na habilidade de linguagem. Pode-se inferir que, por possuírem rede de apoio satisfatória (segundo autorrelato), tais estímulos e vocalizações fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, possam ter sido oferecidos por outros familiares, disponíveis para o cuidado da criança. Este mesmo suporte pode ter colaborado também para o desenvolvimento motor dessas crianças, pois, os quadros depressivos não mostraram impactar esta habilidade como em outros estudos (Alvarenga, Paixão, Soares, & Silva, 2018).

Alvarenga et al. (2018) observaram que quando comparadas às mães sem prejuízos emocionais, mães com indicativos de depressão tendem a tocar menos o bebê, apresentando menos comportamentos que promovam o movimento (de mexer nos braços e pernas do bebê, por exemplo) e comportamentos que favoreçam a oferta ou exploração de brinquedos. Nesse sentido, foi aventada a possibilidade de que esses comportamentos maternos inibidos tenham prejudicado não apenas o vínculo entre mãe e bebê, mas também o desenvolvimento motor da criança.

Os resultados obtidos neste trabalho contemplam a avaliação de um perfil materno-infantil bastante específico, portanto, não estendido para população de um modo geral, devendo ser considerados como válidos para uma amostra populacional pouco abordada nos estudos realizados no Brasil, por se tratar de famílias com nível socioeconômico e escolaridade materna elevados, com acesso à saúde suplementar, com possibilidade de manter suas crianças fora de creche ou escolinha, sendo cuidadas pelos pais ou parentes de primeiro grau sem vínculos financeiros, que são voluntários para esta função.

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