suficiente para obter bom desempenho. Já no experimento 3, os resultados também revelaram melhor desempenho do GS em relação ao GE durante as interceptações aos objetos com velocidade variável, mais especificamente, na condição de velocidade aumentada-reduzida que envolvia menor tempo total de deslocamento do objeto móvel. Novamente, na condição de maior exigência o GS teve melhor desempenho. Ou seja, a prática até a superestabilização do desempenho propiciou maior eficiência nas interceptações, conforme previsto pela primeira hipótese de estudo, mas os resultados foram observados principalmente na situação de maior exigência para o sistema visuo-motor.
Atingir o nível de superestabilização do desempenho propiciou capacidade diferenciada para lidar com problemas motores decorrentes das mudanças de velocidade no objeto móvel que requerem modificações precisas nos movimentos para garantir o sucesso na interceptação. De fato, há evidências demonstrando que a superestabilização do desempenho propicia maior capacidade de executar interceptações diante de modificações na velocidade do objeto móvel (FONSECA, 2009; COUTO, 2012; FONSECA et al., 2012). Contudo, talvez os aspectos mais importantes que o presente estudo pode ajudar a esclarecer são os motivos que levaram à superioridade do grupo superestabilização em relação ao grupo estabilização nas interceptações a objetos móveis com os distintos padrões de velocidade. Essa é uma lacuna que ainda não está totalmente esclarecida na literatura. A análise dos resultados relacionados ao controle visuo-motor deste estudo pode fornecer indicativos para elucidar essa questão.
Era esperado que durante a fase de prática, o controle visuo-motor da interceptação fosse aprimorado. Isto porque, a prática é capaz de desencadear mudanças em mecanismos de controle, e consequentemente, possibilitar a ocorrência da estabilização do desempenho (TANI, 1999; BENDA, 2006; TANI et al., 2014). Então, a identificação de diferenças no controle visuo-motor entre os grupos ainda durante a prática pode fornecer evidências sobre as competências sensório-motoras que são adquiridas pelos dois níveis de estabilização do desempenho testados.
Os resultados da fase de prática dos três experimentos foram consistentes em mostrar que os dois níveis de estabilização do desempenho promoveram mudanças no controle visuo-motor da interceptação. A fase inicial
da prática, marcada pela imprecisão e inconsistência do desempenho, também foi caracterizada pela distribuição similar das fixações entre os trechos de deslocamento do objeto móvel (parte inicial, intermediária e final da canaleta).
Esse comportamento sugere que as primeiras tentativas das interceptações foram reguladas via feedback corrente. O controle feedback sensorial é caraterizado pelo monitoramento visual contínuo do objeto em deslocamento para a regulação do movimento (DESSING et al., 2002; BASTIN; CRAIG;
MONTAGNE, 2006; SARLEGNA; MUTHA, 2014). Porém, essa estratégia de controle foi modificada com o decorrer do processo de aprendizagem, observada pela redução no tempo de reação e na diminuição no número de fixações visuais no trecho inicial do percurso do objeto móvel (GS - experimentos 1, 2 e 3; GE - experimento 3). Além disso, o número de fixações visuais no trecho final do deslocamento do objeto aumentou para ambos os grupos. No geral, esses resultados revelam que quando a estabilização do desempenho foi alcançada, as interceptações foram executadas mediante a combinação de estratégias de controle preditivo e feedback corrente. O baixo número de fixações visuais no trecho inicial e intermediário do deslocamento e a redução no tempo de reação são indicativos de pré-programação. Já o maior número de fixações próximo à zona de contato aponta para um acompanhamento visual contínuo na fase final da interceptação, o que pode representar a predominância do uso de feedback corrente nesta parte do percurso do objeto.
Mas os resultados mais interessantes dessa análise foram as evidências de possíveis efeitos do nível de estabilização no controle visuo-motor ao final da fase de prática. Avaliando somente os resultados referentes aos erros temporais, o GE e GS apresentaram desempenho semelhante no último bloco da prática. A ausência de diferença entre os grupos já era esperada devido aos critérios de desempenho adotados. Como o critério de desempenho envolvia a execução de três tentativas consecutivas em uma faixa de erro relativamente estreita (±30 ms), é provável que esse procedimento tenha nivelado o desempenho dos grupos no último bloco de prática. Fato este que também já ocorreu em outros estudos que utilizaram esse mesmo procedimento metodológico para diferenciar os níveis de estabilização (FONSECA et al., 2012; UGRINOWITSCH et al., 2014).
Apesar da semelhança em relação à precisão temporal e consistência, a análise do comportamento visual dos experimentos 1 e 2 evidenciou que somente o GS reduziu o número de fixações no primeiro terço da canaleta do início para o final da prática. No experimento 3, ambos os grupos reduziram as fixações no primeiro terço da canaleta, porém, o GS realizou maior número de fixações que o GE no terceiro terço da canaleta ao final da prática. Esses achados sugerem os grupos atingiram o mesmo patamar desempenho ao final da prática, mas com processos de controle do movimento distintos. A distinção no comportamento visual entre os grupos ainda na fase de prática pode ser interpretada como os primeiros sinais de efeitos do nível de estabilização do desempenho no controle visuo-motor da interceptação, o que pode auxiliar no entendimento sobre como as competências sensório-motoras são adquiridas com a experiência, o que explica as diferenças dos estudos encontrados anteriormente.
A utilização de menor quantidade de informação visual pelo GS na etapa inicial da interceptação indica o aprimoramento da capacidade preditiva proporcionada pela prática até a superestabilização do desempenho. A capacidade preditiva está associada à atuação de modelos internos nos processos de controle do movimento (WOLPERT; KAWATO, 1998; ITO, 2008).
Os modelos internos simulam internamente a dinâmica do controle sensório-motor sem a necessidade de participação de feedback sensorial (WOLPERT;
GHAHRAMANI; JORDAN, 1995; KAWATO, 1999). Esses modelos atuam essencialmente na predição das consequências dos comandos motores a partir do estado atual (modelo forward) ou na predição dos comandos motores necessários a partir do estado desejado (modelo inverso). Um dos pressupostos dessa abordagem teórica é que os modelos internos são formados e ajustados com o decorrer da prática (WOLPERT; GHAHRAMANI;
JORDAN, 1995; KAWATO, 1999; ITO, 2008). Com a prática, o modelo forward se torna gradativamente mais eficiente em realizar predições das consequências dos comandos motores (CISEK, 2009), através do confronto entre as informações do feedback predito e do feedback real. A cada execução é gerada uma nova estimativa de estado, que realimenta o próprio modelo forward. Como o modelo forward possui informações referentes à ação realizada, o mesmo é capaz de se tornar mais competente em suas predições
futuras com a prática (MIALL; WOLPERT, 1996; WOLPERT, 1997). Além disso, tem sido proposto que o modelo forward usa as informações de erro do estado atual do sistema provenientes do feedback sensorial para calibrar o controlador (modelo inverso) (MIALL; WOLPERT, 1996; WOLPERT; KAWATO, 1998). Com o decorrer das tentativas de prática, é esperado que o modelo inverso se torne mais competente em gerar comandos precisos de acordo com o estado desejado (MIALL; WOLPERT, 1996).
Essa proposição justifica a gradativa redução da participação da visão na parte inicial da interceptação, especialmente para o GS (experimento 1 e 2). Se a prática leva à formação e ao refinamento dos modelos internos, é esperado o aprimoramento da competência preditiva com o avanço da prática, principalmente com a sua continuidade após a estabilização do desempenho.
Isso implica em reduzida necessidade do uso da visão no planejamento e controle inicial da interceptação, pois com o progresso da aprendizagem o controle ocorre prioritariamente por pré-programação através dos comandos motores gerados pelo modelo inverso (ZAGO et al., 2009; WOLPERT;
DIEDRICHSEN; FLANAGAN, 2011; LA SCALEIA; ZAGO; LACQUANITI, 2015).
Os resultados da fase de prática do experimento 1 e 2 fornecem evidências na direção dessa premissa. A análise dos tempos parciais vão ao encontro da estratégia visual utilizada, pois não houve aumento do tempo parcial dos últimos componentes, o que evidenciaria o controle via feedback corrente.
Esses achados corroboram o estudo de Profeta (2010), que mesmo usando uma tarefa com características distintas da interceptação também verificou efeitos da superestabilização do desempenho no controle preditivo. Assim, a superestabilização do desempenho parece ter potencializado a capacidade de regular o movimento através de pré-programação, especialmente na fase inicial da interceptação.
O maior número de fixações na parte final da ação observado no GS ao final da prática em relação ao GE no experimento 3 aponta para a predominância de participação da visão na regulação dos ajustes finais da interceptação. Esse comportamento pode estar associado ao desenvolvimento de competências relacionadas à capacidade de regulação dos movimentos baseadas no feedback visual, ou seja, possíveis indícios de aprimoramento do controle via feedback corrente decorrentes da prática até a superestabilização
do desempenho. Isso porque o controle do movimento baseado em feedback corrente prevê a participação ativa da visão na regulação dos movimentos (DESSING et al., 2002; MONTAGNE, 2005; SARLEGNA; MUTHA, 2014).
Esses achados são consistentes com o estudo de Couto (2012) que previamente demonstrou que a superestabilização do desempenho é capaz de melhorar o controle de ações de interceptação via feedback corrente, mas são contrários aos dados do tempo parcial, conforme citado anteriormente. Uma possível explicação é que os comandos motores gerados pelo modelo inverso não necessitaram ser corrigidos na fase final da interceptação através do feedback visual, o que também sugere o aperfeiçoamento da capacidade preditiva com o processo de aprendizagem.
Em suma, as diferenças observadas entre os grupos no comportamento visual durante a interceptação ainda na fase de prática fornecem os primeiros sinais que o nível de estabilização pode influenciar o controle visuo-motor da interceptação, mais precisamente, afetar os mecanismos associados à combinação do controle preditivo e feedback corrente. Porém, as evidências mais fortes para essa proposição e confirmação da primeira hipótese do estudo foram verificadas na fase de testes, quando as interceptações foram executadas sob diferentes padrões de velocidade do objeto móvel.
Na fase de teste, o GS teve desempenho superior ao GE nos três experimentos. No experimento 1, essa superioridade do GS foi verificada nas interceptações aos objetos móveis com velocidade constante, tanto em velocidade reduzida quanto em velocidade aumentada. No experimento 2, o melhor desempenho do GS foi observado diante de objetos móveis com velocidade variável e sem mudança no tempo total de deslocamento. Mais especificamente, durante a combinação de velocidade reduzida-aumentada. Já no experimento 3, o desempenho do GS foi superior também sob circunstâncias de velocidade variável do objeto móvel, mas com modificação do tempo total de deslocamento. Isso ocorreu na combinação de velocidade aumentada-reduzida quando houve redução no tempo total de deslocamento do objeto para a zona de contato. Esses achados estão em consonância com estudos prévios que tem verificado melhor performance nas interceptações
após a prática até um nível de superestabilização do desempenho (COUTO, 2012; FONSECA et al., 2012).
Entretanto, um dos pontos mais importantes deste estudo é auxiliar na elucidação dos mecanismos de controle afetados pelo nível de estabilização do desempenho e também mapear as competências sensório-motoras que são aprimoradas com a continuidade da prática até a superestabilização. Alguns comportamentos interessantes relativos ao controle visuo-motor da interceptação foram identificados em associação com o melhor desempenho do GS nos três experimentos. Primeiramente, pôde ser observado que os grupos parecem ter usado uma mesma estratégia de controle nas interceptações (combinação de controle preditivo e feedback corrente) nos diferentes padrões de velocidade do objeto, corroborando os achados de estudos prévios (MÜLLER; ABERNETHY, 2006; TEIXEIRA et al., 2006a; DE LA MALLA;
LÓPEZ-MOLINER, 2015). No geral, as interceptações foram realizadas com pequeno número de fixações visuais em sua etapa inicial, mas com maior número de fixações na fase final da ação. Esse comportamento é tipicamente característico da combinação do controle preditivo para iniciar o movimento e feedback corrente no seu final, o que aponta para a interação entre um modelo interno preditivo e a informação visual adicional para os ajustes dos comandos gerados por esse modelo quando necessário.
Tem sido proposto que a interação entre o modelo original e a informação visual adicional pode ser importante para garantir a precisão espaço-temporal das interceptações (TEIXEIRA et al., 2006a). Na presença de erros de predição dos modelos internos, a informação visual possibilita correções precisas do movimento previamente planejado (TEIXEIRA et al., 2006a). Então, a diferença observada no desempenho pode ter ocorrido devido à maior eficiência do GS na combinação desses mecanismos. Diante dos objetos com velocidade constante (experimento 1) foi verificado menor tempo de reação e maior número de fixações na etapa final da interceptação do GS em relação ao GE. Quando as interceptações envolveram objetos com velocidade variável (experimentos 2 e 3), os resultados mostraram durações mais breves nos tempos parciais dos componentes (TR e sub-movimentos) aliadas com maior número de fixações na etapa final da interceptação do GS em relação ao GE.
Considerando os resultados do experimento 1, a superestabilização do desempenho pode ter promovido aprimoramento da capacidade preditiva. O GS apresentou menor tempo de reação e maior número de fixações na fase final da interceptação em relação ao GE. Apesar do monitoramento visual mais evidente do GS na parte final da interceptação, não foram encontradas diferenças entre os grupos na duração dos últimos sub-movimentos da interceptação (Tpar4 e Tpar5), que indicariam correções mais pronunciadas momentos antes do contato. Isso leva a crer que a diferença no desempenho nas interceptações durante a velocidade aumentada e reduzida foi devido à predição mais eficiente do GS em relação ao GE. Esses resultados fortalecem as evidências encontradas na fase de prática que já apresentavam indicativos dos efeitos da superestabilização na aquisição de competências preditivas.
O padrão de velocidade variável do objeto móvel nos experimentos 2 e 3 tem como particularidade a exigência de correções nas interceptações com a ação em andamento. A mudança da velocidade do objeto durante o deslocamento para a zona de interceptação pode causar erros se os movimentos não forem compensados. Assim, o padrão de velocidade variável induz a ativação de mecanismos de feedback para produzir as correções da itnerceptação (TEIXEIRA; LIMA; FRANZONI, 2005; TEIXEIRA et al., 2006b).
Se a capacidade de regular apropriadamente a interceptação baseada no feedback corrente foi exigida nesses dois experimentos, as diferenças entre os grupos podem estar relacionados às competências envolvidas no controle via feedback corrente.
O desempenho superior do GS em relação ao GE foi observado sob duas condições distintas de combinação da velocidade, ou seja, durante a velocidade reduzida-aumentada (experimento 2) e velocidade aumentada-reduzida (experimento 3). Embora as combinações de velocidades sejam opostas, elas possuem um aspecto em comum: o tempo relativamente curto para realização dos ajustes. Nas duas situações em que o GS apresentou melhor desempenho, o tempo disponível para correções foi reduzido. O tempo para realizar correções após o início da interceptação pode ser considerado fundamental para a precisão espaço-temporal, especialmente devido aos problemas de atrasos decorrentes da transdução sensorial, processamento
neural, condução neural e ativação muscular (TEIXEIRA et al., 2006b; ZAGO et al., 2009; WOLPERT; DIEDRICHSEN; FLANAGAN, 2011).
De fato, a redução no tempo disponível para implementação de correções em virtude da manipulação da combinação de velocidade (experimento 2) ou do tempo total de deslocamento do objeto (experimento 3) parecem ter afetado negativamente a precisão temporal dos grupos. Os erros foram maiores quando o tempo para os ajustes foi reduzido, como por exemplo, nas condições de velocidade reduzida-aumentada (experimento 2) e aumentada-reduzida (experimento 3). Apesar da maior exigência nessas condições devido à disponibilidade de tempo para as correções das interceptações após as mudanças na velocidade do objeto, o GS demonstrou desempenho superior ao GE. Os resultados também revelaram durações mais curtas nos tempos parciais dos componentes (TR e sub-movimentos) associadas com maior número de fixações na etapa final da interceptação do GS em comparação ao GE.
Embora os resultados dos experimentos 2 e 3 tenham também evidenciado o uso da combinação de estratégias de controle preditivo e feedback corrente, diferentemente do experimento 1, não foram encontradas evidências de efeitos do nível de estabilização nos mecanismos relacionados à competência preditiva. Isso pode ser explicado pelas diferentes características do padrão de velocidade do objeto entre os experimentos. Como na interceptação envolvendo objetos com velocidade variável requerem o envolvimento predominantemente do feedback corrente, seria pouco provável encontrar diferença em relação à competência preditiva. Por outro lado, os achados dos experimentos 2 e 3 fornecem fortes indícios que o nível de estabilização do desempenho modulou a eficiência do controle mediante feedback corrente da interceptação a objetos com velocidade variável, especialmente quando o tempo para implementação de correções foi reduzido.
A explicação para esses resultados pode ser atribuída à influência do nível de estabilização do desempenho nos atrasos visuo-motores típicos do controle através do feedback corrente. Os atrasos sensório-motores são apontados como um dos maiores problemas do controle através do feedback corrente (ZAGO et al., 2009; WOLPERT; DIEDRICHSEN; FLANAGAN, 2011).
Esses atrasos podem variar entre 150 e 250 ms (BRENNER; SMEETS; DE
LUSSANET, 1998; SAUNDERS; KNILL, 2003, 2005). Isso significa que as correções nos movimentos não podem ser realizadas instantaneamente em resposta às mudanças ambientais ou detecção de erros motores. Porém, tem sido demonstrado que a experiência prévia pode minimizar os efeitos negativos dos atrasos visuo-motores durante o controle via feedback sensorial (MCLEOD, 1987; LE RUNIGO; BENGUIGUI; BARDY, 2005). Por exemplo, há evidências de que sujeitos com maior nível de experiência são mais precisos durante a interceptação de objetos que se movem com velocidade variável (aceleração e desaceleração) em comparação aos sujeitos pouco experientes. O desempenho superior foi atribuído aos menores atrasos visuo-motores dos sujeitos mais experientes em relação aos sujeitos menos experientes, o que aumenta a possibilidade de correções bem sucedidas na interceptação durante a sua execução (LE RUNIGO; BENGUIGUI; BARDY, 2005). Portanto, a superestabilização do desempenho pode ter potencializado os mecanismos de controle via feedback corrente de forma a minimizar os problemas de atrasos visuo-motores, e assim, parece ter possibilitado maior eficiência nas correções da interceptação quando a restrição temporal foi maior.