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Considerando os resultados apresentados, serão retomados os objetivos e hipóteses apresentados anteriormente, de modo a discuti-los e promover reflexões acerca do que este estudo experimental evidenciou.

O primeiro objetivo estabelecido diz respeito à promoção de avanços no desempenho matemático em princípios de contagem das crianças de 1º ano, do pré para o pós-teste. A análise dos dados demonstrou que, de fato, os alunos da amostra tiveram avanços do pré para o pós-teste: tanto os sujeitos do grupo experimental quanto do grupo controle apresentaram taxas de avanço consideráveis, conforme exposto na Tabela 15. Tal melhora, no entanto, poderia ser atribuída não apenas à intervenção, como também às aulas regulares que as crianças seguiram frequentando.

Por conta disso, o segundo objetivo estabelecido neste estudo se refere à avaliação da efetividade de uma intervenção de curta duração e específica sobre princípios de contagem, com a hipótese de que os avanços dos estudantes do grupo experimental fossem maiores que os avanços apresentados pelos sujeitos do grupo controle, evidenciando que a melhora no desempenho fosse atribuída ao programa de intervenção em questão. Novamente, a expectativa se confirmou: os resultados demonstraram que além das taxas de avanços do grupo experimental terem sido superiores às taxas de avanço do grupo controle, em três princípios de contagem (correspondência termo a termo, cardinalidade e irrelevância da ordem) esta melhora obteve superioridade estatística. Isto aponta para a efetividade do programa de intervenção, de curta duração (2 vezes por semana, em 2 semanas) e com foco nos princípios mencionados.

Estes resultados vão ao encontro de outros estudos de intervenção que também realizaram uma comparação entre grupos controle e experimental. Fuchs et al.

(2010), ao apresentarem os achados do estudo interventivo sobre prática em contagem, evidenciaram que os três grupos de crianças participantes (experimental

com prática, experimental sem prática e controle) obtiveram melhoras no desempenho, com os sujeitos que receberam algum tipo de intervenção demonstrando avanços maiores que os indivíduos do grupo controle.

Da mesma forma, Dyson, Jordan e Glutting (2011) indicam que os alunos de baixa renda participantes da condição de intervenção em senso numérico apresentaram crescimento maior que os sujeitos do grupo controle no pós-teste. As autoras Praet e Desoete (2013) também apontam para achados semelhantes: os dois grupos experimentais de seu estudo (um com foco em comparação numérica e outro em contagem) demonstraram melhor desempenho que o grupo controle após receberem intervenção. Mononen e Aunio (2016), em pesquisa de intervenção sobre habilidades de contagem para crianças com baixo desempenho, indicaram que os estudantes do grupo experimental melhoraram significativamente suas habilidades em comparação aos indivíduos do grupo controle após o término da intervenção.

Estes e outros autores evidenciam que intervenções específicas, para crianças pequenas, envolvendo um ou mais aspectos do senso numérico, são efetivas e promovem avanços no desempenho matemático (ARAGON-MENDIZÁBAL et al., 2017; BRYANT et al., 2010; DOWKER; SIGLEY, 2010; DYSON, JORDAN, GLUTTING, 2011; FUCHS et al., 2010; MONONEN; AUNIO, 2016; PRAET;

DESOETE, 2013; SPERAFICO, 2014).

O terceiro objetivo deste estudo corresponde à avaliação da ordem de construção dos princípios de contagem de alunos do 1º ano do Ensino Fundamental.

Esperava-se que a ordem apresentada por estas crianças fosse semelhante aos resultados encontrados por Dorneles (2004; 2006). Para tanto, os resultados do pré-teste da amostra foram analisados e organizados de acordo com as idades das crianças: alunos de 6 e 7 anos tiveram seus desempenhos expostos nas tabelas 16 e 17, assim como crianças que não tiveram suas idades identificadas. Desta vez, a hipótese não se confirmou: a ordem de construção dos princípios evidenciada pela amostra deste estudo foi um pouco diferente da relatada por Dorneles (2004; 2006).

Nos estudos da autora, os alunos demonstraram consolidar primeiramente a ordem estável, seguida da correspondência termo a termo, cardinalidade, abstração e irrelevância da ordem. Neste estudo, entretanto, foi evidenciado que os alunos tiveram mais dificuldade com a correspondência termo a termo: a ordem de construção dos princípios de contagem da amostra total foi iniciada pela ordem estável (com média de contagem correspondente a 30), seguida da abstração,

cardinalidade, correspondência termo a termo e irrelevância da ordem. É importante ressaltar que o princípio da correspondência foi avaliado através de mais de uma solicitação (na tarefa, foi avaliado com 10 e 15 fichas, em fila e espalhadas) e a resposta da criança foi classificada como “não” ao responder incorretamente a todas as solicitações.

É surpreendente que um número tão alto de crianças tenha demonstrado dificuldades de contar empregando a correspondência termo a termo, evidenciando a necessidade de mais atenção a tal princípio. Este fato pode ser atribuído à demanda da tarefa e a outras variáveis que não foram controladas neste estudo, como, por exemplo, atenção. A tarefa avaliativa utilizada neste estudo possui grande demanda e pode ser custosa à criança, enquanto outros estudos, com tarefas diferentes, como de detecção de erro (BRIARS; SIEGLER, 1984; GELMAN; MECH, 1983), possuem uma demanda distinta, exigindo que a criança apenas monitore um fantoche contando em vez de realizar a contagem ela mesma.

Os erros cometidos na avaliação do princípio correspondência termo a termo também podem ter sido relacionados à falta de atenção dos alunos no momento da solicitação em questão, não refletindo, necessariamente, a falta de habilidade com este princípio. Por conta da importância do estabelecimento de critérios para realização da avaliação, foi preciso segui-los à risca visando à credibilidade da pesquisa e, assim, não abrindo precedentes de considerações específicas para cada indivíduo. De qualquer modo, é relevante chamar atenção para o desenvolvimento da correspondência termo a termo pelas crianças, uma vez que este compõe os princípios de “como contar”, sendo imprescindível para a aprendizagem matemática posterior.

Também é válido ressaltar que a análise dos resultados do pós-teste evidenciou que o princípio da correspondência termo a termo foi um dos que apresentou maior taxa de avanço: 59,09% dos alunos que receberam intervenção e 35,37% dos indivíduos do grupo controle demonstraram melhora neste princípio.

Este achado, juntamente com os outros aspectos discutidos até então, aponta para a efetividade do programa de intervenção em princípios de contagem para promover avanços no desempenho das crianças.