(CRUZ 1989, ABRAM 1993,
5. DISCUSSÕES E CONCLUSÕES
Os corpos de rochas máficas-ultramáficas e gabro-anortosíticas do sul da Bahia foram intrudidos na interface (ou próximo dela) dos terrenos metamórficos de alto grau dos Blocos Itabuna-Salvador-Curaçá e Jequié (Fig. II.1), no final da colisão entre esses dois Blocos, ocorrida no Paleoproterozóico. Nessa época houve também intrusões charnockíticas tardias (região de Brejões) no centro do Bloco Jequié (Fig. V.1) (BARBOSA & SABATÉ 2002, 2004).
Com a ajuda da bibliografia (petrografia e análises químicas) foi possível fazer comparações entre os maciços em foco chegando-se às seguintes conclusões:
Corpo de Mirabela Bloco Jequié
Bloco Gavião
Brejões
Figura V.1. Seção Geológica na região granulítica do Sul da Bahia, após a colisão dos Blocos Itabuna-
Salvador-Curaçá, Jequié e Gavião. (modificado de BARBOSA & SABATÉ 2002, 2004). Destaca-se o corpo de Mirabela, introduzido, sob a forma de “tubo” no final da colisão paleoproterozóica, quando as deformações dúcteis estavam em declínio.
Bloco Itabuna- Salvador-Curaçá
(i) O maciço do Rio Piau é formado de gabros (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio) e anortositos (clinopiroxênio e plagioclásio).
(ii) O maciço de Samaritana/Carapussê é formado de piroxenitos (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), de gabros (olivina, ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), de anortosito (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), e por gabro fino (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio). (iii) O maciço de Mirabela é formado por dunitos (olivina, cromo-espinélio,
ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), por peridotito (olivina, cromo- espinélio, ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), por piroxenitos (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), por websterito (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio), por gabros (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio, além de gabro fino (ortopiroxênio, clinopiroxênio e plagioclásio).
(iv) O maciço de Palestina é formado por piroxenito e anortosito, mas não se tem análise petrográfica detalhada.
(v) Os maciços em foco são formados de rochas cumuláticas onde a cristalização se faz não deixando líquido suficiente para formar “trends” de diferenciação magmática típicos, como nas lavas ácidas, básicas e corpos granulíticos envolvidos. Entretanto, nos gráficos exemplificados eles apresentam comportamento geoquímico organizado com relação aos seus membros máficos-ultramáficos, alinhando-se bem com os termos gabro- anortosítico correspondentes. Isso se verifica mais claramente no conjunto cumulático dos corpos de Mirabela e Palestina e no conjunto cumulático do Rio Piau e Samaritana/Carapussê.
(vi) Usando-se o MgO como índice de diferenciação, verificou-se que o Al2O3, o
Na2O o Ba e o Sr vão formar basicamente os plagioclásios dessas rochas,
enquanto que o K2O tem valores nulos ou quase nulos não constituindo fases
minerais.
(vii) A redução do teor de MgO favoreceu a cristalização da olivina, do ortopiroxênio e subordinadamente do clinopiroxênio, visto que eles foram captados durante os processos de acumulação magmática, dando origem aos dunitos e peridotitos, situados nas bases do corpo de Mirabela e possivelmente nos outros, embora eles ainda não tenham sido identificados.
(viii) Com relação ao FeO e ao CaO, eles exibem tendências similares durante a formação: quando o MgO diminui esses elementos entram nas estruturas cristalinas dos plagioclásios (Ca) e dos piroxênios (Fe), respectivamente. (ix) O Níquel e o Nióbio se concentram nas rochas máficas-ultramáficas. E,
conseqüentemente seus teores vão se reduzindo nos gabros e anortositos do topo da seqüência de Mirabela. A concentração do Ni no corpo de Mirabela chega a formar minério, fato que pode ocorrer, talvez nos membros máficos- ultramáficos dos outros maciços, caso eles cheguem a ser encontrados. (x) Com relação aos elementos Terras Raras, quando se utiliza os gabros de
todos os maciços verifica-se uma superposição entre os padrões, com uma razão La/Yb baixa, indicando um tipo de magma toleítico como assinalaram os autores anteriores.
(xi) Ainda com relação aos elementos Terras Raras, os padrões das rochas do maciço de Mirabela (dunito, peridotito, piroxenito, websterito, gabros e anortositos) demonstram certa organização durante os processos acumulativos, ou seja: os gabros, no topo e os dunitos e peridotitos, na base. Esse comportamento também se verifica quando são comparados os padrões de Terras Raras de exemplos de rocha da cada um dos maciços. E, como era de se esperar, as anomalias positivas de Eu, aparecem somente nos anortositos e gabros, deixando de existir, ou sendo até mesmo negativa nos termos mais ultramáficos.
(xii) Utilizando os elementos maiores e traços os gráficos demonstram dois conjuntos de cumulatos: um relativo à Mirabela e Palestina (variando da base para o topo, dunitos, peridotitos, piroxenito, websteritos, gabros até anortositos) e outro relativo ao Rio Piau e Samaritana/Carapussê (variando da base para o topo de gabros até anortositos.
Diante do exposto foi possível verificar que os corpos de Mirabela e Palestina apresentam uma grande probabilidade de terem sido formados de uma mesma fonte mantélica, tholeítica. Entretanto parece que os corpos gabro-anortosíticos do Rio Piau de Samaritana/Carapussê vieram de fontes diferentes.
Enfim, as similaridades apresentadas através dos resultados petrográficos e litogeoquímicos, sobretudo dos Terras Raras, ressaltam a importância e o interesse em
aprimorar as pesquisas nesses maciços, numa posterior Dissertação de Mestrado e até em uma Tese de Doutorado, com o intuito de reunir dados suficientes, principalmente geocronológicos e isotópicos, para melhor caracterizar geologicamente esses corpos, que são importantes do ponto de vista econômico.
REFERÊNCIAS
ABRAM, M.B. 1993. O corpo máfico-ultramáfico da Fazenda Mirabela, Ipiaú-BA: caracterização petrográfica, geoquímica, tipologia e implicações metalogenéticas. Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Dissertação de Mestrado, 137p.
ALIBERT, C. & BARBOSA, J.S.F. 1992. Âges U-Pb determines à la “SHRIMP” sur des zircons du Complex de Jequié, Cráton de São Francisco, Bahia, Brésil. In: RÉUN. SCI. TERRE (RST), 14, Toulouse, France, 1992, p.4.
ALMEIDA, F.F.M. 1977. O Cráton do São Francisco. Rev. Bras.Geoc., 7(4): 349-364. BARBOSA, J.S.F. 1986. Constitution lithologique et metamorphique de la région granulitique du sud de Bahia-Brésil. Unpublished Doct. Thesis, Univ. of Paris VI. N. 86-34.
BARBOSA J.S. F. 1990. The granulites of the Jequié complex and Atlantic mobile belt, southern Bahia, Brazil – Na expression of Archean- Proterozoic plate convergence. In: Vielzeuf D. & Vidal Ph. (ed.). Granulites and crustal evolution. Dorbrecht, Kluwer, pp.: 195-221.
BARBOSA, J.S.F. & SAPUCAIA, N.S. 1996. Os corpos máficos-ultramáficos da região de Ipiaú – Bahia e suas encaixantes granulitizadas. In: Congresso Brasileiro de Geologia, 39, Salvador. SBG, Anais, 6: 279-292.
BARBOSA J. S. F. 1997. Síntese do conhecimento sobre a evolução geotectônica das rochas metamórficas Arqueanas e Paleoproterozóicas do embasamento do Cráton do São Francisco na Bahia. Rev. Bras.Geoc., 27: 241-256.
BARBOSA J. S. F., CORRÊA GOMES L. C., MARINHO M. M., ALVES da SILVA F. C. 2001. Geologia do segmento sul do Orógeno Itabuna-Salvador-Curaçá. In: J.S.F. Barbosa, E.P. Oliveira, L.C. Corrêa Gomes, M.M. Marinho, R.C. Melo (Orgs.). I
Workshhop sobre o Orógeno Itabuna-Salvador-Curaçá. Geologia e guia de excursão. Salvador, CBPM, p. 48-79.
BARBOSA, J.S.F. & SABATÉ, P. 2002. Geological features and the Paleoproterozoic collision of four Archaean Crustal segments of the São Francisco Craton, Bahia, Brazil. A synthesis. Anais Acad. Bras. Ciências, 74(2):343-359.
BARBOSA J. S. F., CORRÊA GOMES L. C., MARINHO M. M., ALVES DA SILVA F. C. 2003. Geologia do segmento sul do Orógeno Itabuna-Salvador-Curaçá. Rev. Bras.
Geoc., 33: 33-48
BARBOSA J.S.F. & SABATÉ P. 2004. Archean and Paleoproterozoic crust of the São Francisco Craton, Bahia, Brazil: geodynamic features. Precambrian Res., 133:1-27. BARBOSA DE DEUS. P.; BRIGO, L.;COSTA, U.;DIELLA. V.; FERRARIO, A.; GARUTI, G The Campo Formoso ultramafic complex. Bahia State, Brazil: an example of na Archaean {GE-bearing chromitites. In: EUG VI Strasbourg. Terra Abstracts, vp;. 3, Number 1. 1991.
BRITO, R.S.C. de. 2000. Geologia e Petrografia do Sill máfico-ultramáfico do Rio Jacaré – Bahia e estudo das mineralizações de Fe-Ti-V e platinóides associados. Tese de Doutoramento. Universidade de Brasília. 325p.
BURGOS, C.M.G. 2005. Contribuição ao estudo dos maciços gabro-anortosíticos do Sul da Bahia, Brasil. Mecanismos de deformação e orientação preferencial cristalográfica do plagioclásio. Tese de Doutorado, IGEO/UFBA. Salvador-Ba. 239p.
CBPM & CPRM, 2003 Geologia e Recursos Minerais do Estado da Bahia-SIG- Sistema de Informações Geográficas, 1:1.000.000. Governo do Estado da Bahia.
CRUZ, M.J.M. 1989. Le massif du Rio Piau. Une intrusion de nature gabbrique et anorthositique dans lês terrains granulitiques du noyau Jequié-Brésil. These Doct., Univ. Paris VI, no 89-4, 280p.
CRUZ, M.J.M; DEMANGE, M.; FONTEILLES, M. 1989. Interpretação das composições químicas dos cumulatos do maciço gabro-anortosítico do Rio Piau-Bahia. Cong. Bras. Geoq., Rio de Janeiro, anais, p.215-227.
CRUZ, M.J.M.; SABATÉ, P.; BORDINI, R. M. & FRÓES, R.T.B. 1999. Afinidades geoquímicas dos corpos Gabro-anortosíticos da interfacie do Bloco Jequié com o cinturão Itabuna/Costa Atlântica (Cráton do São Francisco, Bahia, Brasil). V Congresso de Geoquímica dos Países de Língua Potuguêsa & VII Congresso Brasileiro de Geoquímica, Porto Seguro, Bahia. pp. 441-483.
CRUZ, M.J.M.; SABATÉ, P.; BORDINI, R. M. 2000. Géochimie des massif de gabbro-anorthosites dans les terrains granulitiques du sud de Bahia (Brésil). Contraintes pétrogenétiques. In. 18 RST Soc. Geol. France, Paris. Anais. Paris Soc. Geol. France, V.I. p. 113.
FIGUEIRÊDO, M.C.H. 1989. Geochemical evolution of eastern Bahia, Brazil: A probable Early Proterozoic subduction-related magmatic arc. J. South Am. Earth Sci. 2: 131-145.
FORNARI, A. & BARBOSA, J.S.F. 1992. A Suite Enderbítica-Charnockítica Da Região De Mutuípe-Bahia. In: SIMP. REG. GEOL. BAHIA-SERGIPE, 1. Salvador, 1992. Anais. Salvador, SBG. 1: 87-91.
FORNARI, A. & BARBOSA, J.S.F. 1994. Litogeoquímica do batólito enderbíticocharnockítico do Complexo Jequié na região de Laje e Mutuípe, Bahia. Rev. Bras. Geoc. 24 (1): 13-21.
FRÓES, R.J.B. & SOARES, J.V.S. 1998. O Corpo Máfico-Ultramáfico da Fazenda Palestina, Bahia. In: XL Congresso Brasileiro de Geologia, Belo Horizonte, Anais, P.480.
JESUS, M.L. 1997. O maciço gabro-anortositico da Samaritana, Itamari – Sul da Bahia, Brasil. Dissertação de Mestrado. IGEO/UFBA. Salvador-Ba. 113p.
LEDRU, P.; COCHERIE, A.; BARBOSA, J.S.F.; JOHAN, V.; ONSTOTT, T. 1993. Agê du metamorphisme granulitíque dans le craton du São Francisco (Brésil): implications sur la nature de l’orogène transamazonien. C. R. Acad. Sci. Paris,211: 120- 125.
LIMA, M.M.J. 1997. O maciço gabro-anortosítico da Samaritana, Itamarí – Sul da Bahia/Brasil. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal da Bahia, 110p.
LIMA, T. M., 1997. Geologia, Estratigrafia e Petrologia da Porção Sul do Complexo Máfico-Ultramáfico de Cana Brava, Goiás. Dissertação de Mestrado, Instituto de Geociências, Universidade de Brasília. 300p.
MACÊDO, E.P. 2000. Geoquímica do maciço anortosítico de Carapussê, Itamari-Bahia- Brasil. Dissertação de Mestrado, IGEO/UFBA. Salvador-Ba. 121p.
MACÊDO, E.P. 2006. Petrografia, Litogeoquímica, Metamorfismo e Evolução Geo tectônica dos Granulitos das Regiões de Amargosa, Brejões, Santa Inês, jaguaquara e Itamarí, Bahia, Brasil. Tese de Doutorado, IGEO/UFBA. Salvador-Ba. 305p.
PIMENTEL, M. M.; FERREIRA FILHO, C. F.; ARMELE, A.; 2006. Neoproterozoic Age of the Niquelândia Complex, Central Brazil: Further ID-TIMS U-Pb and Sm-Nd Isotopic evidence. Journal of South American Earth Sciences, 21 (2006): 228-238. PRESS, F., SIEVER, R., GROTZINGER, J., JORDAN, T.H. Menegat R. (Coordenador) 2006. Para Entender a Terra. 4a. Ed. Porto Alegre: Brookman, 2006. p. 656.
RAEDEKE,L.D. & McCALLUM, I.S. 1984. Investigations in the Stillwater Complex: Part II. Petrology and petrogenesis of the Ultramafic Series. Petrol. 25:395-420.
SILVA, L. C.; MCNAUGHTON, MELO R.C.; FLETCHER I.R. 1997. U-Pb SHRIMP Ages in the Itabuna-Caraiba TTG Hight-Grade Complex: The First Window Beyond the Paleoproterozoic Overprint of the Eastern Jequié Craton, NE Brazil. In: INTER. SYMP. ON GRANITES AND ASSOC. MINERAL - ISGAM. Salvador, Abstracts. SBG.1997. 1: 282-283.
STRECKEISEN, A. 1976. To each plutonic rock its proper name. Earth Sci. Rev. 12: 1- 33.
SUN S.S. & MCDONOUGH W.F. 1989. Chemical and isotopic systematic of oceanic basalts for mantle composition and process. In: A.D. Saunder, & M.J. Norry (ed.) Magmatism in the ocean basins. Geological Society, Special Publication, 42:313-345. SZABÓ, E. & HALLS, H.C. 2006. Deformation of the Sudbury Structure: Paleomagnetic evidence from the Sudbury breccias. Department of Geology, University of Toronto Canada. Precambrian Research 150 27–48.
TEGNER, C., CAWTHORN, R. G., KRUGER, F. J., 2006. Cyclicity in the Main and Upper Zones of the Bushveld Complex, South Africa: Crystallization from a Zoned Magma Sheet. J. Petrology, November 1.
TEIXEIRA, W. & FIGUEIREDO, M.C.H. 1991. An outline of Early Proterozoic crustal evolution in the São FranciscoCraton, Brazil: a review. Precambrian Research. 53(1/2): 1-22.
WILSON N. 1987. Combined Sm-Nd, Pb/Pb and Rb-Sr geochronology and isotope geochemistry in polymetamorphic Precambrian terrains: examples from Brazil and Channel Island, U.K. Master of Science. Unpublished Master’s Thesis. Oxford University, UK. 54 p.