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Diferentes abordagens de estudos paleogenéticos morfológicos resultam em interpretações distintas sobre a proximidade biológica (Neves, 1982, 1988) dos diversos grupos e tipos de sambaquis. Assim, dados de variáveis não- métricas cranianas apontam para diferenças significativas entre populações sambaquieiras litorâneas e fluviais (Filippini & Eggers, 2005/2006). Acusa também uma homogeneidade morfológica intragrupo, permitindo assim comparações intergrupo, que acabam demonstrando que a proximidade morfológica é maior entre grupos próximos geográfica e temporalmente (Filippini, 2004; Filippini & Eggers, 2005/2006). Por outro lado, estudos craniométricos (Neves & Okumura, 2005; Okumura, 2007) e não métricos dentários (Giardini & Eggers, 2003) resultaram em proximidade biológica entre os sambaquis fluviais e litorâneos. Uma recente análise craniométrica e não- métrica entre sambaquieiros provenientes de vários sambaquis desde o Espírito Santo até o Rio Grande do Sul demonstram também uma proximidade biológica entre esses indivíduos (Wagner et al., 2011).

O modelo de Andrade Lima (1991) sobre a dispersão desses povos alega que os sambaquieiros costeiros teriam vindo do interior pressionados pelo aumento populacional encontrando no litoral, elementos favoráveis e

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abundantes recursos para sua subsistência. A rota migratória sugerida por Neves (1988) aponta para estuários perto de rios que cortam os vales, como em Cananéia, Iguape, Baixada Santista, Baia de Paranaguá, entre outras (Neves et al., 1999). Cita também o Vale do Ribeira e Itajaí, como locais de passagem. Propõe três rotas importantes como porta de entrada para o litoral sul e sudeste. A primeira vinda do Uruguai, a segunda do interior do sul de São Paulo, de onde, uma terceira parte tanto seguindo até o norte do Rio de Janeiro quanto para o sul do país.

Vestígios encontrados em sambaquis fluviais e costeiros na região do Vale do Ribeira de Iguape levam a crer que este deve ter sido palco das migrações interioranas para o litoral e vice-versa (Neves et al., 1999; Calippo, 2010). Nesta região, dois grandes vales cortavam a plataforma continental submersa no estado de São Paulo há 7.000 anos. Um deles conecta-se com os rios que atualmente deságuam no centro e sul do estado de São Paulo. O outro, ao norte, liga os rios do litoral norte do estado de São Paulo e sul do estado do Rio de Janeiro (Calippo, 2010) e são nestas confluências de grandes rios com o mar que se encontram inúmeros sambaquis que foram habitados desde o início do holoceno (Plens et al.,2001; Figuti et al.,2004).

Embora não haja certeza sobre a origem dos sambaquieiros, o número crescente de projetos em andamento e trabalhos já publicados sobre migração costeira (Erlandson et al., 2011; Rick et al., 2005; Dillehay et al., 2008) demonstram uma complexidade maior da história da migração para o Novo Mundo e a colonização das Américas. Quiçá um cenário igualmente complexo será revelado para a origem dos sambaquieiros e os contatos que travavam com outras populações.

Resumo cap. I. Esta construção artificial designada sambaqui é um verdadeiro monumento na paisagem com rica história de vida de nossos ancestrais. Os sambaquieiros são grupos que viveram na costa brasileira, onde havia abundante riqueza de alimentação, cuja base era formada de conchíferos de várias espécies e suas carapaças serviam para a construção de seus sambaquis. A ocupação deles teve seu apogeu em torno de 4.500 anos AP, mas a sua origem tem muitas controvérsias. Sobre a origem do homem na América existem várias teorias. Há uma variação temporal enorme em torno delas. No Brasil se cogita o seu aparecimento desde tempos remotos aproximadamente 30 mil anos atrás, datações estas questionáveis, até 11.500 mil anos AP com datações radiocarbônicas. Vários tipos de sambaquis são expostos, como costeiros, fluviais, pré e pós-cerâmico dentre outros.

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II – TREPONEMATOSES

As Treponematoses são um conjunto de enfermidades contagiosas transmitidas por bactérias anaeróbias, gram-negativas, em forma espiral, não cultiváveis in vitro, extremamente frágeis e sensíveis à temperatura, umidade e desinfetantes (Šťáva et al., 1977). Estas bactérias são do tipo espiroqueta, gênero bacteriano Treponema, família Spirochaetaceae, ordem Spirochaetales, que causa uma variedade grande de lesões, que incluem desde patologias cutâneas sem expressão patológica grave até lesões terciárias sifilíticas que acometem cérebro e ossos (Šťáva et al., 1977).

A pesquisa de identificação dos tipos de treponema passa por estudos bioquímicos, histológicos, microbiológicos e de DNA antigo, abordando também a ação da bactéria sobre o sistema imunológico hospedeiro. A forma mais promissora de evidência molecular para a treponematose pré-histórica, segundo Powell & Cook (2005) é a identificação de imunoglobulinas (Img). Através da microscopia eletrônica também é possível visualizar as espiroquetas, após a identificação de anticorpos do treponema (Powell & Cook, 2005). No presente trabalho, entretanto, utilizamos apenas a avaliação paleopatológica macroscópica óssea.

Hoje conhecemos quatro formas clínicas básicas de treponematose: 1. Sífilis venérea e congênita – agente: Treponema pallidum subsp. pallidum 2. Bejel (sífilis endêmica, não venérea) – agente: T. pallidum subsp.

endemicum

3. Framboesia (yaws) – agente: T. pallidum subsp. pertenue 4. Pinta – agente: T. subsp.careteum

Quando o diagnóstico diferencial tem de ser realizado em apenas material ósseo, como no presente trabalho, ocorre o risco de não identificação dos casos atípicos, pois a literatura tem mostrado somente os casos mais extremos e didáticos, os mais comuns e exemplares. Independentemente deste tipo de abordagem é necessário também um estudo epidemiológico, centralizado na população, onde a distribuição das lesões ósseas respeita a idade, o sexo e a associação com outras patologias no decorrer do tempo

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(Powell & Cook, 2005). Além disso, uma das dificuldades para o reconhecimento destas patologias está no diagnóstico diferencial com fenômenos tafonômicos e outras patologias (Rothschild & Rothschild, 1995a). Para detalhes sobre como os diagnósticos foram realizados no presente trabalho, consultar “Materiais e Métodos”.

De uma forma geral, certas características são bem marcantes nas treponematoses. Estas incluem as periostites que se apresentam através de estrias superficiais com porosidades e formação de osso novo (e remodelação óssea) em ossos longos, o engrossamento do córtex anterior da tíbia (deformidade denominada tíbia em sabre), além de reações periostais espiculares, expansão óssea generalizada, destruição óssea gomatosa e cloaca. Estas lesões podem ou não ser concomitantes. A Caries sicca (no osso frontal ou parietal) e as anormalidades dentárias na sífilis congênita são manifestações específicas da sífilis venérea (Rothschild, 1982). Por outro lado, a tíbia em sabre pode ocorrer nas três formas de treponematose que afetam o tecido ósseo (sífilis venérea, framboesia e bejel). O motivo pelo qual os sinais patognomônicos das treponematoses estão localizados no crânio (Caries sicca) e na perna (tíbia em sabre), ainda persiste obscuro, mas cogita-se que a proximidade da pele à superfície óssea nestes locais seja um fator importante (Ortner & Putschar, 1985).

Embora algumas destas características estejam presentes em mais de um tipo de treponematose, o conjunto e a frequência de cada manifestação permitem diagnósticos diferenciais em casos de boa preservação e conservação do esqueleto como um todo (figura 2).

Esta figura reflete a distribuição e a frequência de ossos afetados em cada uma das três treponematoses: sífilis venérea (veneral syphilis), bejel (endemic syphilis) e framboesia (yaws).

A deformidade da tíbia em forma de sabre está invariavelmente associada com a periostite. Ela pode ocorrer em todas as formas de treponematose, com exceção da Pinta, mas apenas na sífilis venérea existe uma suficiente remodelação, que esconde todos os sinais de reação periostal (Ortner & Putschar, 1985).

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Sífilis venérea Bejel Framboesia

Figura 2: Representação esquemática das lesões ósseas das 3 treponematoses. Quanto mais escuro o osso afetado

maior a tendência das lesões se configurarem (modificado de Powell, 1988)

Framboesia, bejel e pinta não ocasionam lesões genitais e são caracterizadas pela disseminação sem contato sexual (Šťáva, 1977), ao contrário do que ocorre na sífilis venérea. Conforme declara Larsen (1997), infelizmente as lesões típicas dessas doenças são tão semelhantes, que dificultam o diagnóstico diferencial. Outros autores conseguem visualizar diferenças importantes, chegando a estabelecer diagnósticos diferenciais entre, pelo menos, a sífilis congênita e venérea, e a framboesia (yaws) e bejel (Rensick & Miwayama, 1988; Ortner & Putschar, 1985; Aufderheide & Rodríguez-Martin, 1998; Rothschild, 2005; Powell & Cook, 2005).

Exemplos de transição de uma doença para outra devido a alterações climáticas e condições ambientais são numerosas: quando pessoas em regiões úmidas e de clima quente são infetadas pela framboesia e se mudam para regiões mais frias e secas, elas perdem as lesões características generalizadas

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desta enfermidade e passam a desenvolver lesões reestruturadas de bejel (Steinbock, 1976). Portanto, toda a população humana que apresenta algum tipo de treponematose está adaptada ao seu ambiente físico e exibe a forma de treponematose condizente com a ecologia circundante e o modo de vida vigente. Por esta razão Cockburn et al., (1963) sugeriram que muitas ou todas as infecções por treponemas são meramente formas ou variantes de uma infecção básica e que as diferenças clinicas existentes entre elas se devem principalmente ao modo de transmissão, ao clima e a geografia da região (apud Aufderheide & Conrado Rodriguez, 1998).

Um dos primeiros autores que se debruça sistematicamente sobre as treponematoses em material esquelético é Hackett (1976), cujos trabalhos são seguidos por este autor durante esta pesquisa. Mais tarde, Rothschild (1995) fornece os escores de grupos ósseos afetados nas treponematoses, além de seus percentuais prometendo facilitar o diagnóstico diferencial para grupos humanos. Uma das abordagens mais recentes para realizar o diagnóstico das treponematoses, segundo Powell & Cook (2005) é acompanhar a seguinte sequência: a) buscar sinais patognomônicos (Caries sicca – crânio), b) observar quais os sinais de maior frequência, que são típicos e sugestivos de treponematose, como a tíbia em sabre, e finalmente c) analisar os sinais constantes, mas não típicos como as elevações periostais (periostites com remodelação óssea). Todos esses métodos estão descritos abaixo no capítulo “Materiais e Métodos”.