conhecer, reunir e andar junto
DISPUTA NERVOSA
A Disputa Nervosa é uma competição de dança, uma batalha de passinhos do funk, realizada por membros do Centro Cultural Lá da Favelinha. O local promove atividades culturais e de formação como oficinas de capoeira e hip hop, aulas de línguas, biblioteca aberta à comu- nidade, entre outras.
O Passinho, criado há mais de quinze anos por jovens de comunidades do Rio de Janeiro, foi amplamente divulgado desde a sua aparição. São passos rápidos e coreografias em freestyle, unindo funk, frevo, break, samba e aqui em BH, em alguns grupos, temos o Vogue também. Mais do que um tipo de dança, um movimento que segue vivo e se espalha pelo país. Em Belo Horizonte, o movimento começou a tomar corpo em 2013 e em 2015, Kdu dos Anjos, arte-educador e morador do Aglomerado da Serra, criou a Disputa Nervosa, uma disputa de dança que desde então traz muitos fãs pelas ruas da cidade.
Ele era jurado em um campeonato de passinho que acontece todos os anos durante a Virada Cultural de Belo Horizonte. Lá ele conheceu Johnathan Dancy, e o convidou para dar oficina de passinho no Centro Cultural Lá da Favelinha. Ambos moram no aglomerado, onde fica o Centro Cultural e com as oficinas, vieram as apresentações e as disputas.
Kdu dos Anjos - Mc, compositor, poeta, professor:
“Como sou curador que chamo convidados para os eventos (não só as disputas que são aber- tas), tento sempre misturar o máximo possível. Então tem muitos meninos cis, mas também muitas meninas e chamo as viada em peso para colar. E o Favelinha Dance está bem misto. Estamos com dois meninos héteros, dois meninos gays e duas meninas. Acho que a galera, toda população LGBT se sente bastante à vontade. A gente não aceita nenhum tipo de homofobia, transfobia ou racismo e nenhum tipo de preconceito e isso é falado várias vezes nos eventos.”
Negona Dance (Welleton Carlos) - dançarino, coreógrafo, professor, produtor:
“Comecei a dançar em meados de 2011, eu sempre fui apaixonado com dança desde novo. Cheguei em Belo Horizonte vindo de São Paulo e tive a primeira oportunidade de fazer ofi- cinas. Comecei a fazer aulas de hip hop e danças urbanas e me apaixonei, fui identificando que era aquilo mesmo que eu queria. Fui investindo nisso, fui para o jazz, ballet clássico e dança contemporânea. O funk até então, eu só dançava nas baladas e nos rolezinhos. Um dia, num rolê, uma edição do “Somos Todos Black” que aconteceu lá na Sapucaí, estava com
umas amigas que também dançavam e estava rolando essa batalha que o Lá da Favelinha faz, a Disputa Nervosa. Estava rolando as inscrições e minhas amigas me incentivaram a participar, elas fizeram minha inscrição sem que eu visse, daí tive de batalhar. Quando subi e dancei funk com a galera, foi um momento incrível e histórico, tinha muita gente, estava lotado. Quando eu dançava, a galera vibrava e aquilo foi muita emoção e ali percebi que o funk me abraçava muito mesmo. Por ser homem, cis, gay e afeminado, o funk tava ali comigo, em peso. E ali eu poderia ser quem eu quisesse, porque o funk ia me dar esse apoio. Foi quando surgiu um dos apelidos: Negona. Negona é por causa de dançar um funk de uma forma mais afeminada, de uma forma bem viada mesmo, assim. A minha carreira começa a partir daí. Ganhei essa dis- puta da Sapucaí e fui me interessando mais pelo funk, que era uma coisa que estava perto de mim por ser morador de favela. E ao mesmo tempo estava muito distante, porque durante o dia fazia aulas de dança fora da favela, não tinha muito esse contato. Nesse dia conheci o funk que conta minha história, que fala de mim, que fala de onde eu venho, das riquezas que as favelas têm e das coisas ruins também. Daí comecei a estudar o funk, a embarcar nessa onda e hoje estou no Favelinha Dance74, que é o grupo de funk do Lá da Favelinha. Vendo o quanto
o funk me moldou como pessoa, me fez entender diversas coisas e estereótipos que não tenho obrigação nenhuma de seguir. Eu posso ser quem eu sou, quem eu quiser ser, vestir o que quero, ir onde quero e também posso entrar e sair de onde eu quiser. O funk me deu essa força, essa resistência, esse lugar de fala. Entendi onde estava meu lugar de fala. As pessoas que não vivem dentro das favelas, não sabem o quanto é importante a existência do funk. O funk vai para além de um estilo musical ou de dança, é um estilo de vida. Os funkeiros têm respeito. Não estou dizendo que não acontecem piadinhas, mas quando o funk deu essa revolucionada, se tornou a linguagem da juventude, foi se tornando também muito respeito, pela pessoa, não só pela população LGBT, mas por pessoas. Entender que somos iguais, mas ao mesmo tempo, somos diferentes. O funk me fez entender que vale tudo, só não vale qualquer coisa. Aprendi muito com o funk e hoje o funk é uma das minhas maiores rendas como professor, dançarino de funk e como pesquisador do funk também. E além do funk, o Projeto do Lá da Favelinha me abraçou muito também, me disse “você pode, você consegue, vamos caminhar juntos, vamos fazer o rolê acontecer, com grana ou sem grana”. Eles me fizeram firmar essa resistência. A Disputa rola até hoje. Hoje em dia, às vezes sou jurado, mas não disputo. O Favelinha Dance não disputa. O funk tem um direcionamento para mim em um momento ímpar da vida, quando estava em uma indecisão sobre o que é ser gay, o que é ser LGBT, será que devo ou não me aceitar? As outras danças, ballet, hip hop, outras danças urbanas me cobravam uma masculinidade. Na minha cabeça me perguntava: o que é masculinidade? O que é feminilidade? O que é ser feminino ou masculino?
Como isso se desdobra dentro de mim? Como na minha corporalidade dentro do funk eu consigo expressar o meu feminino? Não que nos outros não consiga, mas eles me pedem uma
expressão mais masculina. Mas o funk me deu essa liberdade, como se tivesse falado assim, você tem asas, é uma borboleta, você não é obrigada a viver dentro de um casulo. Vá voar! O céu é o seu limite. E o Lá da Favelinha foi afirmando isso o tempo inteiro. Hoje eu agradeço muito a Kdu dos Anjos e ao projeto. Essa visibilidade que tenho hoje vem muito com o pro- jeto. Já pisei nos maiores palcos e eventos da cidade, graças a ele que acreditou. E estamos aí vivendo resistência. O que eles chamam de minoria, eu chamo de força. E termino dizendo que ser preto, pobre, favelado, funkeiro e LGBT nunca foi um problema para mim. São os pilares de força para que eu possa chegar e continuar subindo. Um degrau de cada vez. Tive que ser forte durante muito tempo. Às vezes até queria ser fraco um pouquinho, para poder vivenciar outras coisas. Mas a sociedade não me deixa ser fraco nem por alguns minutos.