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Disputas e solidariedades entre ruralidades confluentes

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Como já mencionado, as múltiplas ruralidades criadas por aqueles que concebem e intervêm no rural poderiam resultar tanto compatíveis como contraditórias, sobretudo quando, ao ser espacializadas, confluem para um mesmo lugar. Explorando essa perspectiva conflituosa, grupos ostentadores de ruralidades particulares chegariam a opor-se entre si, dando lugar a um campo de disputa no qual algumas significações tratariam de ser impostas sobre outras. Em meio a este meio conflituoso, como assinala Halfacree (1995), algumas das representações rivais chegariam a ser afundadas ou encobertas pela força de certa figuração dominante (para o caso em estudo, a ruralidade produtivista), perdendo posições de destaque.

Seria possível dizer que, em meio a amálgama de expressões e forças não equilibradas, as representações diferenciadas sobre o rural empresariam uma luta de poder: cada perspectiva a respeito do rural poderia ser concebida e seletivamente empregada por indivíduos e coletivos na produção de uma ruralidade na medida de suas necessidades, desejos e crenças, onde cada versão imaginada e operada se localizaria sobre as outras privilegiando determinados modos de relacionamento social, bem como negando, invisibilizando ou excluindo a presença de possíveis interpretações concorrentes. Quanto às relações de poder, conservando suas especificidades enquanto atores e problemáticas envolvidos, a noção de ruralidade se aproximaria da noção geográfica do território, na qual esta corresponderia ao recorte socioespacial sobre o qual teriam lugar a ação e a interação de múltiplos atores políticos, sociais e institucionais portadores de diferentes visões de mundo, em meio a simetrias e assimetrias de poder. De acordo com Haesbaert (2004), o território seria o produto de uma relação desigual de forças envolvendo tanto o domínio político-econômico do espaço como sua apropriação simbólica, neste caso a forma de figurar, vivenciar e intervir o rural sendo o eixo de interação conflituosa e solidária entre atores em convivência.

Um caso que ilustra o anterior poderia ser o associado ao turismo rural. Como se sabe, representações do rural são frequentemente usadas com fins comerciais. Em algumas áreas (como acontece no município de Manizales), empresas de turismo ressaltam, criam e veiculam diversas representações em resposta aos desejos, expectativas e necessidades de seus clientes (o rural associado ao descanso, à recreação, às paisagens abertas e naturais, por exemplo), dando lugar à consolidação de certo tipo de ruralidade hedonística afim a um público particular: turistas e visitantes esporádicos do campo com vontade de relaxar e se divertir “num ambiente diferente do habitual”.

Neste caso, retomando o exposto por Hopkins (1998), o rural seria criado e recriado em virtude das tensões produzidas entre consumidores de cenários rurais específicos e comerciantes dispostos a satisfazer as necessidades de seus clientes. Consumidores a procura de múltiplos bens e serviços diferenciados (orientados por diferentes formas de consumir hedonisticamente o rural), interagindo com produtores e vendedores dispostos a reconhecer as demandas, desejos e fantasias de

seus clientes para oferecer-lhes uma ruralidade o mais próxima possível de suas preferências e possibilidades. Tanto as demandas dos consumidores como as respostas dos produtores, somadas às exaltações sobre o produto transmitidas por publicitários e vendedores, influiriam sobre a produção e a reprodução informada e negociada de meios rurais diferenciados.

Por sua vez, em meio a múltiplas possibilidades, inicialmente esta forma de conceber o rural poderia conviver tranquilamente com as outras na medida em que a atividade turística domina ou ganha força como fonte econômica local e que o fluxo de turistas (“gente vinda de fora”) aumenta. A prevalência de imagens e práticas ligadas à noção hedonística chegaria a incomodar e provocar a reação de outros habitantes locais e simpatizantes (produtores agropecuários, membros de grupos ecologistas e ambientalistas, por exemplo), gerando possíveis situações de conflito. Enquanto atividades coligadas ao turismo poderiam converter-se na base econômica para certa parte dos habitantes e comunidades locais (indivíduos vinculados à prestação de serviços turísticos, à comercialização de artesanatos e produtos regionais, por exemplo), para outros esses empreendimentos poderiam constituir uma ameaça à identidade local, sentimento que poderia derivar-se da resistência a converter o patrimônio rural em mercadoria. Neste caso, retomando o exposto por Oliva e Camarero (2005), a “fetichização” do campo e seus habitantes, nesta ocasião com fins recreativos e turísticos, unida à mercantilização das ruralidades pós-modernas, seria vista por seus críticos como uma forma de reduzir o rural e os estilos de vida de sua gente a simples objetos de consumo. Trata-se de uma leitura útil para analisar e compreender a postura assumida por certos ativistas e produtores rurais que vêm na hedonização do rural (nas suas palavras, “converter o rural num sitio de recreio para os moradores da cidade”), para os quais “o rural deveria ser resguardado das daninhas intervenções urbanas”.

Seguindo uma lógica similar, em coincidência com o exposto por Willits e Luloff (1995), enquanto para alguns este mesmo tipo de iniciativas redundaria no melhoramento geral da dinâmica econômica local e regional, gerando emprego e oportunidades indiretas de captação de recursos a membros das comunidades receptoras, para outros atores esses mesmos empreendimentos só brindariam benefícios reais a certos investidores locais ou forasteiros (aqueles com suficiente capital econômico para investir nesse tipo de empresas, atraídos pelas possibilidades de terra e força de trabalho econômica). Para os críticos, tanto projetos residenciais concebidos para habitantes de origem urbana como atividades associadas ao turismo rural, além de trazer mínimos benefícios para os residentes originários do campo, em médio e longo prazo poderiam conduzir à deterioração dos recursos ambientais historicamente preservados pelas comunidades nativas.

Em semelhantes circunstâncias, a dominância da visão idílica que imagina o campo como recinto de paz, natureza e qualidade de vida, representação com frequência exaltada pelos novos habitantes (neo-rurais), geraria igualmente competição e conflito entre os atores comprometidos. Neste caso, uma das confrontações marcantes teria a ver com o uso dos recursos locais. Enquanto alguns novos moradores rurais se apropriariam do espaço e dos recursos disponíveis com fins habitacionais e recreativos, por exemplo, para boa parte dos habitantes nativos os recursos poderiam continuar cumprindo um papel predominantemente produtivo. Usando expressões cotidianas provenientes de certos produtores agrícolas, “a água que tem de ser usada para regar plantações não poderia ser desperdiçada mantendo piscinas ou jacuzzis”. Em contrapartida, nas palavras de alguns novos habitantes, “a natureza do campo não mereceria ser violentada com o

uso de agroquímicos que contaminam a água e esgotam a biodiversidade”, e muito menos “perturbada por atividades turísticas ou recreativas em massa e barulhentas que acabam com a tranquilidade do campo”, por exemplo.

No caso anteriormente esboçado, o conflito se basearia no uso de recursos compartilhados, mas apropriados e significados de diferentes formas. Múltiplas ruralidades em tensão (uma produtivista contra duas variantes de ruralidade hedonística, por exemplo) se expressariam em um mesmo espaço, cada uma defendida e legitimada pelos que empiricamente as sustentam. Neste caso, recorrendo ao exposto por Mormont (1994), considerando a diversidade de atores competindo pela definição do rural, em termos do rural ambientalizado, a natureza “vivida” pelos habitantes originários do campo seria diferente da desejada e experimentada pelos novos residentes de origem urbana. Nestas circunstâncias, como expressão da disputa entre ruralidades, o espaço rural se tornaria um cenário de competição entre os diferentes usos da natureza, cada um deles afim a percepções e preferências culturalmente orientadas.

Em outro plano, priorizar certos símbolos como distintivos do rural e da vida no campo (maior contato com a natureza, saúde, qualidade de vida, boa alimentação, entre outras), elementos que fariam parte da ideia dominante concebida por alguns novos habitantes rurais, inviabilizaria voluntária ou involuntariamente a existência de algumas ou muitas privações identificadas pelos habitantes nativos, até que, fiel a esta convicção, áreas ou localidades rurais poderiam ser assumidas ou interpretadas como praticamente livres de problemas. Para os habitantes nativos, ser referenciados da forma descrita diminuiria as possibilidades de acesso à “cidadania plena”, bem como a condições de “paridade social” com respeito a sua contrapartida urbana, em geral habituada a outro recenseamento de vida (acesso garantido a serviços domiciliares e aos sistemas de saúde, educação, recreação e justiça, usualmente concentrados nos cenários urbanos, por exemplo).

De acordo com Cloke et al. (1995), com referência ao contexto europeu, a concepção de um “espaço rural purificado”, noção informada pela leitura idealizada do rural, resultaria contraproducente para “os pobres do campo”. Ao ressaltar unicamente aspectos positivos, a citada concepção do rural subestimaria a existência no campo de pobres e desabrigados, excluindo ou minorando problemas latentes no mundo rural como pobreza, desemprego e falência da agricultura. No caso em estudo, a identificação de certas localidades como “zonas de condomínios” ou “de habitação dos ricos de Manizales”, expressões usadas por certos extensionistas e pelo público geral, gera desconforto entre alguns dos produtores agrícolas que compartilham espaço com os moradores dos condomínios campestres. Para certos agricultores, a dominância da imagem que associa sua localidade a um “lugar de residência de pessoas de alta renda” provoca a ideia de que “todo mundo acha que aqui só moram pessoas ricas, esquecendo as necessidades dos que têm menos recursos”, circunstância que evidencia a emergência de conflitos associados ao uso do espaço e a mudança da composição social dos habitantes rurais.

Por sua vez, em entornos sociogeográficos mais próximos aos dos países em desenvolvimento, onde boa parte da população economicamente vulnerável continua concentrando-se no campo e onde os subúrbios com estrutura precária seguem expandindo-se sobre espaços rurais contíguos, tanto a defesa contra o avanço das favelas sobre o campo como a exigência da extensão dos direitos e serviços aos moradores do meio rural (aceso a serviços públicos, principalmente)

constituiriam possíveis ações associadas à inter-relação solidária/conflitiva entre o campo e a cidade. Afim a esta idéia e diante de representações originadas em meios urbanos, como as que associam o rural com “estagnação e pobreza”, por exemplo, alguns atores sociais se esforçariam por converterem-se e ser reconhecidas como modelos de organização e qualidade de vida, talvez como estereótipos contrários às condições de vida deprimentes observáveis em bairros urbanos vizinhos. Por sua vez, apoiados na mesma representação, membros de comunidades urbanas recém- formadas, por exemplo, reivindicariam seu direito à “cidadania plena”, exigindo intervenção estatal para superar a situação de atraso e pobreza que os assemelharia com “povoadores do campo”. Retomando o exposto por Wanderley (2000), se trataria de representações que, baseadas na confirmação, negação ou construção de dualidades, poderiam ser, em mão dupla, usadas para mobilizar e organizar grupos e pessoas em torno de reivindicações específicas.

Em localidades rurais de Manizales mais próximas do meio urbano, a reivindicação da condição rural frente aos “prejuízos causados pelo crescimento dos subúrbios”, expressão usada pelos habitantes rurais, se evidencia no contexto escolar. Em vários casos, pais e mães de família têm exposto ante as autoridades competentes (Secretaria de Educação) seu descontentamento com respeito a autorizar a matrícula de jovens de origem urbana, geralmente provenientes dos bairros da periferia, nas escolas rurais. Os demandantes argumentam que “o exemplo dos jovens da cidade, muitos deles viciados em drogas, mal comportados e com maus costumes, representa um perigo para os jovens do campo, moços acostumados a viver num ambiente mais familiar e sadio”. Neste caso, a defesa da condição rural sustentada nas dualidades entre campo e cidade ilustra a disputa entre duas representações: um mundo rural pacífico e socialmente sadio oposto a um ambiente urbano socialmente perturbado.

Por outro lado, a ideia que assume a pobreza ou a austeridade como uma característica intrínseca das comunidades rurais tradicionais (compostas por camponeses e pequenos produtores agrícolas e pecuários) avivaria a visão segundo a qual seus integrantes tolerariam em maior grau todo tipo de penúria. Próximo do exposto por Woodward (1996) ao referir-se à capacidade que tem a visão idílica de escurecer as privações a que se veriam expostos os habitantes rurais, se trataria de carências algumas vezes vistas como reparadas por certos aspectos positivos da vida no campo. Aspectos como o acesso cotidiano a um ambiente mais saudável ou a pouca exposição aos “males urbanos” (ruído, tráfego excessivo, contaminação do ar, estresse, por exemplo) diminuiriam o efeito de outros, como o isolamento e o difícil acesso a certos serviços públicos, visão não sempre compartilhada pelos habitantes nativos que, sem desconhecer os aspectos favoráveis da vida em meios rurais, reivindicariam seu direito a uma vida mais “confortável”.

Do mesmo modo, essa forma de conceber o rural, isto é, aquela que o concebe como “em via desenvolvimento”, expressão localmente usada por alguns novos habitantes do campo, permitiria a estes atores manter seu status diferencial urbano, bem como assumir uma atitude paternalista e de assistência para os outros rurais, sujeitos usualmente vistos como à espera de uma mão amiga disposta a ajudar-lhes a solucionar seus problemas. Em Manizales, a atitude crítica de alguns novos habitantes a respeito dos hábitos e costumes dos originários do campo (crítica ao individualismo, à tendência a pensar unicamente no curto prazo, à dependência de agroquímicos no manejo dos cultivos, por exemplo), aspectos concebidos por certos neo-rurais com as “causas do atraso” dos moradores do campo, motiva a constante incitação à mudança. Para os agricultores, sentirem-se

constantemente julgados “pelos que vêm de fora” provoca descontento e prevenção frente àqueles que se sentem capacitados para “falar para os outros o que melhor teriam que fazer”, situação que motiva conflito entre atores em convivência.

Contudo, é preciso voltar a destacar que as relações entre atores criadores e operantes de diferentes ruralidades não só resultam em conflitos como também em alianças e solidariedades. Os diversos sujeitos que disputam a significação do rural (agricultores, ambientalistas, novos residentes, antiurbanistas, turistas, entre outros), na medida em que atuam sobre um mesmo cenário e compartilham alguns mesmos referentes, veem-se com frequência diante da necessidade de achar diversos pontos de encontro que lhes facilite conviver e negociar suas perspectivas. Novamente, isso pode ser ilustrado pelo turismo rural. Como assinalam Garrod et al. (2006), na medida em que esta atividade depende da qualidade da totalidade de recursos tanto materiais como simbólicos disponíveis, sua conservação e melhoramento seriam uma necessidade constante, cuja consecução convoca direta ou indiretamente toda uma gama de atores. Produtores agropecuários, moradores de comunidades locais, membros de organizações ambientalistas, governos locais e regionais, entre outros, estariam de alguma forma comprometidos com a manutenção desse acervo. A preservação das idiossincrasias, as tradições e a originalidade das festividades locais, por exemplo, agora assumidos como atrativos culturais, demandariam a participação de boa parte dos atores citados, independentemente de suas especificidades ideológicas. Este mesmo princípio seria aplicado à paisagem, à biodiversidade, à arquitetura, aos sistemas de produção agrícola, à qualidade da água e do ar, por exemplo, elementos determinantes de uma experiência turística satisfatória.

Seguindo um caminho similar, se a “cultura regional” é gerada em torno de um sistema de produção particular (a cultura do café, para o caso em estudo), o estabelecimento de alianças entre atores que vislumbram o rural como um atrativo turístico e aqueles que o assumem como a territorização de certos sistemas de produção agrícola seria uma possibilidade previsível. Nestes casos, a própria atividade agropecuária, unida à cultura e à paisagem desenvolvidas ao seu redor, agregaria valor turístico ao território, fato que convocaria atores, tanto agrícolas como não diretamente agrícolas, em prol de um objetivo comum. Por sua vez, considerando atores possivelmente interessados em desenvolver propostas de agricultura alternativa (modelos de produção orgânica, ecológica ou biodinâmica, por exemplo), sujeitos usualmente detentores da agricultura convencional (na contramão da monocultura do café e suas consequências ambientais, por exemplo), sua inclusão em circuitos turísticos, mais do que uma agressão poderia representar uma oportunidade para difundir seus pensamentos e princípios filosóficos, talvez contribuindo para criar “consciência crítica e reflexiva” entre o público que os visita.

Sob outro ângulo, para ativistas de diversas origens (estudantes, acadêmicos, membros de grupos ecológicos e ambientalistas, por exemplo), sujeitos usualmente identificados com as populações socialmente mais vulneráveis localizadas nos meios rurais, estabelecer alianças e solidariedades com estes últimos atores constituiria uma fonte pedagógica e de realização política. Conhecer suas estratégias de reprodução socioeconômica, apoiar suas causas, defender seus direitos, assumir sua voz frente a instituições governamentais e não governamentais, por exemplo, representariam ações afins ao tipo de interação esboçada. Em Manizales, como será desenvolvido no capítulo 3, a relação entre produtores agrícolas em condições de vulnerabilidade socioeconômica e outros

atores, geralmente ativistas, identificados ou solidarizados com sua condição de vida tem favorecido a emergência de alianças em torno da geração de novas formas de relacionamento entre habitantes do campo e da cidade.

Assim se deseja chamar a atenção para o fato de como, em meio a essa malha concreta e simbólica de ruralidades, além de disputas e marginalizações também é possível estabelecer alianças, encontros usualmente derivados da existência de certas complementaridades, bem como de ideias e interesses cruzados. Nestas circunstâncias, recrear e compreender a rede de relações entre ruralidades em disputa implicaria abordar ao mesmo tempo conexões de ordem convergente e divergente, sendo este o ponto de partida para identificar de maneira simultânea tanto nos problemáticos demandantes de intervenção como nas articulações solidárias exitosas, a premissa assumida como objetivo geral da investigação desenvolvida.

Informados pelo marco de referência aqui desenvolvido, alguns questionamentos orientarão os seguintes capítulos: Que formas de representar e atuar sobre o rural operam no meio local manizaleño? De que maneira se entrecruzam as diferentes formas de conceber o rural coexistentes na zona de estudo e em que situações se expressa essa relação? Como influi esse relacionamento, seja conflituoso ou solidário, sobre a dinâmica local rural? No contexto da investigação realizada, dar resposta às perguntas levantadas implicou voltar às ruralidades em disputa, sendo este o caminho seguido para dar conta da realidade local.

1.4. Operacionalização do discurso em torno das ruralidades confluentes

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