PERSPECTIVAS DE INTERVENÇÃO INFORMADAS PELA ANÁLISE DAS RURALIDADES EM DISPUTA
5.1. Potenciando sinergias e conciliando conflitos
Dar conta da dinâmica rural local implica traspassar o limite imposto pela lógica produtivista, sugestão que demanda pensar a dinâmica rural além do olhar estritamente setorial. Como foi exposto no primeiro capítulo, atualmente existe um consenso de que o mundo rural vai além do meramente agrícola. Ainda que esta afirmação seja válida, o que não se tem conseguido ainda é traduzir essa premissa em termos de política. Como expõem Echeverri e Ribero (2002) quanto aos países da América Latina, a agricultura como atividade econômica continua sendo o fator preponderante das políticas de desenvolvimento rural. Em Manizales, pensar no bem-estar da população rural, majoritariamente composta de agricultores familiares minifundistas, supõe centrar a atenção na questão produtiva: melhorar a sua capacidade técnico-produtiva como produtores de café ou incentivar sua mudança para produtores de alimentos básicos, propostas que reduzem o perfil destes atores a sua condição de produtores agrícolas.
Em primeira instância, seria possível afirmar que, para os pequenos produtores locais, ser produtores de café e cafeeiros é mais do que uma conotação econômica. Para eles, sua chácara, sua terra, a própria plantação de café (“olhar para a plantação é saber que esses pés de café são meus”) constituem um importante referente de identidade mediado por relações afetivas com o lugar, a atividade por anos desempenhada, a paisagem e seus elementos materiais (a plantação, a chácara, a terra). Neste contexto, a decisão de diversificar ou seguir cultivando café não pode ser reduzir a uma decisão somente técnico-econômica. Por mais que existam razões contundentes que justifiquem a mudança (a necessidade da elevada seguridade alimentar familiar e local, a existência de um mercado urbano com capacidade de absorver a produção, a conveniência econômica de produzir cultivos de ciclo corto, somados às desvantagens percebidas pelos próprios agricultores no dia a dia: “o café não dá para mais”), motivos de ordem simbólica e cultural intervêm no olhar dos pequenos produtores no momento de optar por continuar sendo “cafeeiros”.
Igualmente, como se mencionou no capítulo anterior, a forma de se relacionar com o espaço e a atividade agrícola mudam com o tempo de geração em
geração. O que o café significa hoje para pais e avós, não é necessariamente o que representa para os filhos que gostam do campo, da vida tranquila na zona rural do município, mas que não gostariam de ser agricultores; jovens que querem continuar morando no campo, mas trabalhando na cidade; jovens familiarmente e afetivamente vinculados com o mundo do café, mais interessados em explorar novas possibilidades ocupacionais ou querendo “viver a vida” além do socialmente predestinado para eles (ser a nova geração de produtores de café), por exemplo.
Incorporar esta perspectiva conduziria a relativizar as medidas agroprodutivas como a melhor e única alternativa de intervenção sobre a condição de vida dos pequenos produtores locais. Diante das condições relatadas, independentemente do caminho seguido, diversificar ou insistir na especialização cafeeira, a opção produtivista demonstraria ser uma medida excludente, isto é, unicamente dirigida para os atores rurais (contemplando alguns membros das famílias de agricultores) centrados na agricultura como atividade ocupacional. Num contexto no qual as novas gerações expressam suas dúvidas sobre seguir sendo agricultores, por que insistir na sua profissionalização agrícola? Sob a perspectiva de gênero, como olham as mães e filhas sua relação com a agricultura? Romper com a agricultura significaria para as jovens rurais algum ganho pessoal enquanto reconhecimento social ou bem-estar individual associado a sua condição feminina?
Nesses casos, o excludente das propostas produtivistas se expressaria na generalização realizada no momento de dar conta dos pequenos produtores. Inicialmente, reconhecer a totalidade dos membros das famílias de agricultores como “produtores”, no sentido restrito da palavra, constituiria um erro em si. Em múltiplos casos, ainda que pareça um raciocínio muito simples, a identificação como produtores se aplicaria estritamente para os pais, diretamente responsáveis pela lavoura familiar. Os filhos, colaboradores ocasionais no processo produtivo, em correspondência com muitos dos casos indagados na pesquisa, investiriam mais tempo no estudo ou em trabalhos extra chácara, fato que faria deles algo distinto de agricultores. Nestas circunstâncias, centrar as políticas de desenvolvimento rural na questão meramente agrícola desconheceria o perfil daqueles atores rurais, membros de famílias de agricultores não estritamente relacionados com a atividade agroprodutiva, mas diretamente vinculados à dinâmica social rural.
Como se tratou de fazer ao longo da tese, dar visibilidade a “outros rurais”, atores usualmente despercebidos na análise das dinâmicas rurais (Philo, 1992), constituiria um desafio em termos de incorporar suas especificidades na formulação de políticas diferenciais de desenvolvimento rural. Neste caso, atores presentes nas famílias de produtores (mulheres, crianças, jovens, adultos maiores) constituiriam os alvos diferenciais. Recorrendo ao exposto por Durston (1998), quais seriam as prioridades correspondentes aos atores de cada faixa etária, em atenção a suas formas diferenciadas de se relacionar com o espaço rural? Num contexto em que o ator é produtivamente ativo, como retribuir econômica e socialmente o trabalho por anos realizado pelos adultos maiores do campo? Se os jovens rurais estão optando por ocupações não agrícolas, como potenciar um melhor ingresso deles nesse mercado de trabalho?
Sem desconhecer o valor da questão agrícola para o desenvolvimento local e regional, responder perguntas como as formuladas demandaria ampliar o olhar para outras dimensões do rural, evitando as visões reducionistas de ordem agrícola ou agropecuária que orientam as concepções de desenvolvimento e informam as políticas de índole setorial. Neste contexto, evitar equiparar o desenvolvimento
agrícola ao rural constituiria uma ação prioritária, fato que demanda revisar criticamente aqueles pressupostos e saberes que informam a ação das instituições que operam nos diferentes níveis de decisão como o proceder dos funcionários envolvidos.
Na ordem municipal, adotando os lineamentos do Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural, a tarefa de dar conta do desenvolvimento rural é usualmente concentrada numa única dependência: a Unidade Municipal de Assistência Técnica (UMATA). Em Colômbia, desde 1987 o processo de descentralização político-administrativa desassociou a assistência técnica aos produtores agropecuários das entidades do nível centra, a partir da criação das UMATA. Nos municípios, além da assistência técnica, os extensionistas desta dependência assumem a coordenação de programas e projetos associados à geração de emprego, diversificação produtiva, mulheres e jovens rurais, organização comunitária, educação rural e ambiental e outras delegadas pela prefeitura, pela Secretaria Estadual de Agricultura e diretamente pelo Ministério de Agricultura e outras instâncias estatais orientadas para áreas concretas (pesquisa, vigilância sanitária, crédito, reforma agrária, dentre outras). Como assinalam Pérez et al. (2000), são políticas traçadas a partir do nível central, sendo o Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural quem concentra uma definição que consegue permear as orientações dispostas nos planos de desenvolvimento estaduais e municipais.
No nível municipal, a ênfase na assistência técnica marca o proceder da UMATA, que muitas vezes fica reduzido à assistência aos cultivos. Os encarregados da UMATA são geralmente profissionais em ciências agropecuárias (agrônomos, veterinários, zootecnistas), cuja formação técnica-produtivista norteia sua visão da dinâmica rural, fato que reforçaria a dominância da lógica que formula a política nos distintos níveis de decisão.
No caso do Comitê de Cafeeiros de Caldas, a visão produtivista centrada na dinâmica cafeeira, como foi exposto no capítulo anterior, restringe o rural ao “mundo do café”, enfatizando a questão tecnológica e confiando no aumento da capacidade produtiva como fator preponderante para o bem-estar social entre os pequenos produtores. Os técnicos do comitê, agrônomos que adotam os lineamentos da Federação Nacional de Cafeeiros, assim como os vinculados à UMATA, centram sua ação na assistência técnica ao cultivo, neste caso restrito à monocultura do café. Ainda que eles e seus superiores imediatos (chefes do serviço de extensão e gestão corporativa) mantenham uma retórica antitecnicista (preocupação constante pela situação social dos pequenos produtores), sua prática continua centrada na assistência técnica ao produtor. Segundo as observações dos pequenos produtores, as visitas dos técnicos têm como objetivo principal verificar que eles estejam seguindo as recomendações sobre o manejo do cultivo, culminando com a prescrição de algumas outras orientações técnicas.
Em ambos os casos se torna evidente que a ação institucional é orientada pelo perfil agrícola/setorial dominante entre as políticas públicas de desenvolvimento rural dispostas pelo nível central, fato a que se soma o perfil profissional dos funcionários relacionados com a sua formulação de políticas em nível local. Ainda que nesse último os diretivos e funcionários da UMATA tenham certa capacidade de ir além do meramente agrícola na formulação de programas e projetos relacionados com jovens e mulheres rurais, diversificação produtiva, organização comunitária, por exemplo, seus próprios olhares reforçam a perspectiva dominante. A prevalência de um perfil profissional técnico faz com
que muitas das ações empreendidas mantenham um caráter tecnológico, descuidando a atenção do resto das preocupações e necessidades cotidianas das famílias de agricultores atendidos. Num primeiro momento, ainda mantendo o olhar agrícola (mas não necessariamente produtivista), redefinir a ideia que assimila desenvolvimento tecnológico a desenvolvimento das sociedades rurais implicaria apreender a atividade produtiva, mais do que como um fim em si, como um meio usado por diferentes atores satisfazerem necessidades de diferentes índoles: o que representa a atividade produtiva para cada tipo de produtor ou grupo de interesse atuante no meio local? O que representa a agricultura para uma região ou localidade em particular? Responder a questões como essas remeteria diretamente ao contexto das relações estabelecidas entre agricultura e meio social, interações identificáveis, na sua diversidade, em meio às dinâmicas nesta pesquisa definidas como ruralidades em disputa: tramas diferenciáveis de relações sociais construídas por atores congregados em torno de certos propósitos comuns, informadas e caracterizadas por seus variados estilos de pensar e intervir o rural.
Como mencionam Pérez et al. (2000), a marcada tendência a priorizar as visões e estratégias orientadas ao desenvolvimento agrícola se evidencia na precariedade dos instrumentos disponíveis para incidir no desenvolvimento integral do campo. Partindo dessa premissa, ampliar o olhar sobre o universo rural, fazendo visível a participação ativa de atores que não os agricultores (jovens, mulheres, neo-rurais, ambientalistas, ativistas, estudantes, acadêmicos, por exemplo, compartindo cenário e interatuando em diferentes níveis com os produtores agrícolas); a coexistência de distintas formas de conceber o rural que orientam o proceder destes variados atores; assim como os projetos e situações de conflito e solidariedade gerados a partir do contato interativo entre os portadores dessas diversas posturas, isto é; incorporar o debate construído em torno das múltiplas ruralidades em disputa contribuiria para evidenciar a conveniente necessidade de pensar o rural além do setorial.
Nesse contexto, se o perfil dos profissionais vinculados às agências locais de extensão é identificado como um dos motivos que fundamentam a abordagem reducionista do desenvolvimento rural e das dinâmicas rurais, parte da responsabilidade de ampliar essa visão recairia nas instituições educativas em que se formam estes funcionários. Em Manizales, a maioria de profissionais vinculados à UMATA, o Comitê de Cafeeiro, a Secretaria Estadual de Agricultura, atores encarregados nos níveis local e regional de formular as políticas públicas, é formada pela faculdade de Ciências Agropecuárias da Universidade de Caldas. Este fato sugere a necessidade de abrir maior espaço ao estudo do meio social rural dentro do currículo correspondente aos programas de ciências agropecuárias (agronomia, veterinária e zootécnica, administração agropecuária), lugar propício para estimular a compreensão do cenário rural num sentido amplo e multidimensional. Nesta direção, contar com profissionais que vejam e assumam dessa forma o rural contribuiria para mudar a visão governamental, na prática traduzida em políticas públicas, ao serem estes atores os que diretamente participam da sua formulação e os que representam a presença do Estado, a partir da sua vinculação aos organismos públicos.
Como assinala Moreira (1994), o auge da formação disciplinar, caracterizada por contribuir para forjar uma visão estreita e simplificadora do mundo (neste caso a visão agrícola como olhar que informa a compreensão do rural), se expressa no projeto de uma universidade tecnicista, onde a formação profissional é a formação técnica, situação evidenciada no âmbito educativo local.
Em Manizales, a prevalência dessa circunstância tem ajudado a posicionar o olhar agrícola/setorial como orientador da ação profissional na área do desenvolvimento rural, pelo que intervir sobre este efeito implicaria estabelecer mais e efetivas pontes de comunicação entre os representantes do sector acadêmico e os funcionários comprometidos com a proposta e execução das políticas, planos e programas locais de desenvolvimento.
Retomando o colocado (dominância da visão agrícola/setorial, pouca atenção outorgada ao não agrícola, necessidade de diversificação produtiva e invisibilização de outros atores diferentes dos meramente produtivos), sem a intenção de esgotar as possíveis áreas de interesse e partindo dos resultados da pesquisa, proponho os seguintes temas como integradores de uma agenda de discussão ampliada sobre a questão rural e as perspectivas do desenvolvimento rural em Manizales:
a) Espaços convencionais e alternativos de atuação para os agricultores