Historicamente, a disputa política no Estado do Rio Grande do Sul polarizou-se entre o grupo de ideário positivista e o grupo de ideário liberal, que protagonizaram um cenário de intenso e prolongado conflito, entremeado por inflamados discursos de acusação e defesa, e por violento enfrentamento, durante grande parte da Primeira República. Nesse contexto, as divergências políticas situavam-se muito além dos rumos do progresso do RS, permeando o plano das ideias.
50 Grande parte do descontentamento dos estancieiros é discutida posteriormente no projeto político-econômico de Assis Brasil, em especial, quando nosso personagem reúne as forças federalistas e republicanas dos dissidentes em torno da Aliança Libertadora, em janeiro de 1924, pouco mais tarde extinta, em 1928, com a fundação do Partido Libertador. (OSÓRIO, 1992, p. 160).
Os gaúchos, simpatizantes do positivismo, uniram-se em torno do Partido Republicano Rio-Grandense e nos governos de Júlio Prates de Castilhos51 (1893-1898), Antonio Augusto Borges de Medeiros (1898-1908 e 1913-1928) e Carlos Barbosa Gonçalves (1908-1913). O domínio do PRR na política sul-rio-grandense ficou conhecido pelo nome de castilhismo-borgismo.
Os liberais, sob a liderança de Gaspar Silveira Martins e Joaquim Francisco de Assis Brasil, no âmbito das ideias políticas, combatiam o autoritarismo castilhista e as posições positivistas do governo gaúcho, propunham o parlamentarismo como sistema de governo, o voto secreto e a representação política das minorias. No que diz respeito à economia, defendiam a especialização e as vantagens competitivas da pecuária e a imigração espontânea, e denunciavam a demasiada ingerência do governo estadual no campo econômico. Mesmo assim, decorrente da ligação com estancieiros da Metade Sul, os liberais defendiam o protecionismo econômico, principalmente do mercado do charque em nível nacional.
O Partido Liberal sul-rio-grandense, que havia sido hegemônico no Estado do RS no final do Império e agremiação da qual descendiam os maragatos, com a implantação da República, expõe Maestri (2010a), passou a reivindicar o ideário farrapo, mas abandonou a proposta separatista.52 Nesse novo contexto, mantinha-se a identificação entre o movimento farroupilha e a Campanha-fronteira.
Como mencionamos anteriormente, nos últimos anos do Império a economia do RS baseava-se no charque, no couro e na carne. Junto a nova ordem política incrementa-se a imigração que trouxe a semente da diversificação da economia e, consequentemente, possibilitou a emergência do poder do mato, como coloca Félix (1996). A nova ordem política, viabilizada pela Proclamação da República, garantiu a transposição do poder político no RS. Tal transposição, conforme Maestri (2010ª, p.
205), ocorreu “do bloco social pastoril-charqueador oligárquico hegemônico para
51 Anterior ao período registrado, Júlio Prates de Castilhos assumiu a presidência do RS em 15 de julho de 1891 e fora deposto em 11 de novembro desse mesmo ano em decorrência do Golpe de Três de Novembro, que se trata do golpe promovido pelo presidente da república, Marechal Deodoro da Fonseca. A dissolução do Congresso Nacional acabou por redundar na derrubada tanto de Deodoro quanto de Castilhos, assumindo Floriano Peixoto a presidência da república, e o governo do RS ficaria sob novo comando com ascendência dos dissidentes republicanos que formaram a Junta Governativa Gaúcha, composta por Domingos Alves Barreto Leite, Manuel Luís da Rocha Osório, João de Barros Cassal e Joaquim Francisco de Assis Brasil. (FRANCO, 1996).
52 O autor se refere ao movimento separatista sulino que tinha por finalidade a emancipação político-administrativa dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, cuja proposta de autonomia desvinculava-os em relação ao Brasil como nação. Esse movimento assumiu caráter separatista e republicano, apesar de essas orientações não serem maioria quando ocorreu a eclosão da Revolução Farroupilha (1835-1845).
uma nova composição de setores proprietários, mais ampla, mais diversificada”. O que se caracterizava, conforme o autor, como “um novo bloco político social, mais diretamente inserido na produção e circulação capitalistas”, que contava com apoio nos segmentos médios e facções das classes subordinadas sul-rio-grandense. É esse poder do mato que, aos poucos, ao adotar o discurso progressista republicano concorreu favoravelmente para o alargamento social da base política do PRR, partido esse que, para Pesavento (1992, p. 45), “preocupara-se em cooptar setores do complexo colonial imigrante, principalmente seus elementos enriquecidos:
industriais, comerciantes, financistas”. Complementa a autora que o PRR também
“mantinha uma ligação vantajosa com o exército, o que foi favorecido pela presença forte do componente ideológico positivista entre os militares”.
A ascensão do grupo de ideias positivista ao poder político sul-rio-grandense, em 1889, não apenas marcou a quebra da hegemonia do grupo de ideário liberal, mas a destituição deles de postos políticos. Contudo, a consolidação do PRR no governo gaúcho ocorreu em meio a contestações. Lembramo-nos das eleições para a Constituinte do Estado, na qual dissidentes republicanos e liberais se reuniram em torno do Partido Liberal para formar a base de oposição do PRR.
Em 1891, Júlio de Castilhos foi eleito para a Assembleia Nacional Constituinte e chegou ao governo do Estado, sendo deposto em novembro desse mesmo ano.
Inconformado, escreveu uma série de artigos, na qual reafirmava seu pensamento de base comtista e sua posição acerca da tarifa protecionista da República destinada à indústria nacional. Em sua preleção, expôs que, presos ao passado, os liberais apenas buscavam inviabilizar o desenvolvimento do RS enquanto os republicanos visavam o progresso industrial estadual. Seus escritos, reunidos no trabalho de Martins, Silva e Neves (2003), reportavam-se aos liberais, em referência aos dissidentes do PRR que compuseram o denominado ‘governicho’, que detinham o poder no Estado e que decidiram convocar uma Convenção para elaboração de uma nova Constituição Estadual a fim de derrotar a Constituição castilhista de 1891.
Afirmava o líder do PRR que:
[...] em vez de submeterem-se à vontade solenemente manifestada pelo Rio Grande do Sul, os dissidentes emparceirados com os liberais, decidiram convulsionar o Estado que entrara de cheio na senda do progresso industrial, decidiram trazer a anarquia a nossa terra pouco se importando que isso perturbasse de todo a evolução admirável que ia realizando.
(MARTINS; SILVA; NEVES, 2003, p. 101).
Em 1892, Júlio de Castilhos retorna ao governo do Estado com o auxílio do exército e os antigos liberais se rearticulam em torno de Gaspar Silveira Martins, recém-chegado do exílio na Europa, na fundação do Partido Federalista Brasileiro.
Ressalta Pesavento (1992) que os dissidentes republicanos não aceitaram a liderança de Gaspar Silveira Martins, nem a bandeira do parlamentarismo adotada pelo novo partido e sequer nele ingressaram. Mas os federalistas ou maragatos somaram forças de oposição ao governo estadual de Júlio de Castilhos e ao governo federal de Floriano Peixoto. No movimento de coligação, as forças de oposição, tanto no nível local quanto nacional, “fortaleceram os laços que uniam o PRR a Floriano Peixoto e ao exército”, assegura Pesavento (1992, p. 48).
No ano seguinte, em 1893, eclodiu a Revolução Federalista, cognominada por Pesavento (1992) com “revolução da degola” devido às atrocidades cometidas por federalistas e republicanos, a qual se prolonga até 1895. A autora expõe que em Mensagem enviada à Assembleia Legislativa, em 1893, Júlio Prates de Castilhos prometia severa e dura repressão aos revoltosos, expondo sua dificuldade em lidar com a oposição que, naquele momento, colocava em risco a posse da máquina administrativa montada por Castilhos, complementam Trindade e Noll (2005).
No contexto estadual, para os federalistas, a luta significava a derrubada de Júlio Prates de Castilhos na presidência do Estado e da Constituição gaúcha de 1891, de concepção positivista é tida como antiliberal. Durante o conflito, expõe Pereira (2006, p. 135), Gaspar Silveira Martins conclamava seus correligionários federalistas: “é preciso atividade, energia e confiança em nossa causa, que é a [...]
da honra e glória do Rio Grande do Sul”. “[...] o governo atual (de Júlio de Castilhos, grifo nosso) não representa o pensamento da revolução de novembro que não foi feita senão com o fim de estabelecer um regime livre em terra rio-grandense”.
Finda a revolução em 1895, com a promessa do governo estadual de rever a Constituição de 1891, em especial no que se referia à reeleição para presidente do Estado, nos anos seguintes ocorreu a consolidação do PRR no domínio da política.
Lembra Pesavento (1992) que, enquanto Júlio de Castilhos governou, nenhum membro da oposição ocupou qualquer cargo público no Estado. De igual maneira, nenhum representante federalista tomou assento tanto na Assembleia Legislativa Estadual como no Congresso Nacional. Constituiu, então, parte de um período político-administrativo que Félix (1996) denomina coronelismo castilhista, o qual teve garantida sua sequência no governo de Antonio Augusto Borges de Medeiros,
iniciado em 1898, que “herdou uma máquina partidária solidamente consolidada”, assegura Pesavento (1992, p. 48).
Ainda que a Constituição Estadual de 1891 permitisse, em 1907 Borges de Medeiros não se candidatou a sua própria sucessão e indicou Carlos Barbosa Gonçalves como candidato ao governo do Estado, como representante do PRR.
Para esse pleito, a oposição republicana dissidente, apoiada por federalistas, indicou Fernando Abbott para concorrer à eleição do Estado. Osório (1992) comenta que a candidatura de Fernando Abbott ocorreu pelo Partido Republicano Democrático e contava com o apoio de Joaquim Francisco de Assis Brasil, ambos dissidentes republicanos e remanescentes federalistas.
A candidatura de Fernando Abbott traduzia as aspirações do grupo liberal, aliado ou não ao PRR, manifestando-se contra o autoritarismo do governo e a favor de nova Constituição estadual. Alves (1995) explica que em defesa da candidatura governista de Carlos Barbosa Gonçalves se formou a ‘ala jovem’ do PRR, que
“significou os primeiros passos políticos de elementos que viriam a tornarem-se, alguns anos mais tarde, personagens notórios da vida política nacional, como Getúlio Dornelles Vargas, João Neves de Fontoura, Pedro Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra”. (ALVES, 1995, p. 200).
O pleito de 1907, afirma Pesavento (1992, p. 48), correspondeu a primeira eleição para o executivo estadual em que houve disputa, sendo vencida pelo situacionismo. Porém, em função da aplicação da legislação federal no Estado, que
“oportunizava as representações das minorias, a Assembleia dos Representantes do Estado passou a contar com alguns representantes da oposição maragata”.
Trindade e Noll (2005) tecem um panorama do que teria sido a eleição e o escrutínio em 1907. Os autores afirmam textualmente que a máquina partidária do PRR se mostrou eficaz não apenas para reunir a massa do eleitorado em torno do partido, mas em especial para promover fraudes no escrutínio dos votos.
Findo o mandato de Carlos Barbosa Gonçalves, em 1912, o PRR continuou no governo, uma vez que Borges de Medeiros retornou ao poder executivo do Estado gaúcho e nele permaneceu até 1928.
Na literatura observamos que no período entre a eleição de 1907 a de 1922, apesar de existir uma oposição política organizada, essa não apresentou candidatos nos pleitos ocorridos nesse intervalo de tempo. Duas hipóteses são encontradas na literatura sobre o assunto. Um delas é que entre as facções políticas que formavam
a oposição não havia formas comuns de pensar a política, uma vez que federalistas, democratas e dissidentes republicanos buscavam manter preservados seus respectivos pensamentos políticos. A outra diz respeito ao uso de práticas de violência, corrupção e fraudes fortalecidas nos governos do PRR. Tais práticas dificultavam qualquer candidatura oposicionista. Essas hipóteses podem ser abstraídas nos trabalhos de Antonacci (1981), Pesavento (1992), Alves (1995) e Rouston Júnior (2012), principalmente. Todavia, no final do seu segundo mandato consecutivo (1912-1917 e 1918-1923), Borges de Medeiros enfrentaria a oposição e a candidatura de Assis Brasil, cuja competição resultara em acusações de corrupção e fraudes. Esse detalhe, na sequência, será apreciado com mais propriedade.
Descontente com os rumos da economia, parcela da elite dominante do bloco social pastoril-charqueador, que se encontrava alijada do poder desde o final do Império, revoltou-se contra o domínio republicano e exigiu uma política de defesa da pecuária. Mas, Borges de Medeiros não quis atender os estancieiros em suas demandas, pois pretendia manter a continuidade de sua política econômica de equilíbrio orçamentário, voltada ao “desenvolvimento global” da economia gaúcha.
O desencontro entre borgistas e os setores da pecuária-charqueadora, na tese defendida por Antonacci (1981, p. 34), “abriu condições objetivas para a arregimentação política das oposições gaúchas”. Assim, federalistas, democratas e dissidentes republicanos articulados se organizaram em torno da candidatura de Assis Brasil, ao pleito de 1922, posta como estratégia política para o Estado em seu relacionamento com as classes sociais dessa área. Os federalistas percebiam o movimento em torno da candidatura de Assis Brasil “como uma possibilidade de combate ao poder exclusivo do PRR no RS”, afirma Antonacci (1981, p. 81).
Rouston Júnior (2012) coloca que a base política de oposição ao PRR – federalistas, dissidentes republicanos e democratas – ainda em 1908 já se orientava na perspectiva de congregar todos os grupos da oposição em um combate ao domínio do PRR, mas, naquela época, pela falta de adesão em congregar as ideias políticas, a iniciativa foi adiada. Todavia, com as articulações políticas em 1922,
[...] abriu-se uma nova possibilidade de reagrupamento das oposições fazendo com que os democratas, rapidamente, aderissem ao movimento pró-Assis Brasil. Em outubro de 1922, o Correio do Povo noticiou que os democratas, dentre eles José Luiz Vares, Engracio Menezes e Álvaro Mendes, receberam carta de Fernando Abbott, da dissidência castilhista, concitando-os a voltarem às atividades políticas e sufragarem o nome de Assis Brasil. (ROUSTON JÚNIOR, 2012, p. 64).
Em meio a especulação sobre a candidatura de oposição ao borgismo no pleito de 1922, Fanfa Ribas, diretor-chefe do jornal Correio do Sul, de Bagé, em 18 de agosto, ventilou a possível candidatura de Assis Brasil como representante do PRD e apresentou o candidato como alternativa para impedir a reeleição de Borges de Medeiros. Contudo, registrou que o apoio à candidatura assisista seria dado depois de o Diretório Central do PF oficializar a coligação entre federalistas e republicanos democratas, se assim ocorresse. Escreveu Fanfa Ribas:
Levanta-se no Estado e fora dele a candidatura do eminente dr. Assis Brasil para a suprema investidura de chefe do executivo nesta gloriosa unidade da Federação. Não sabemos ainda se lhe daremos o nosso apoio, porque o nosso candidato será aquele que o poder dirigente do federalismo indicar.
[...] Seja, porém, como for, seja sr. Exc. ou não o candidato do Partido Federalista, a ideia da sua candidatura merece as nossas simpatias, embora o ilustre rio-grandense não seja, doutrinariamente, nosso correligionário.53
Efetivamente, para concorrer ao pleito de 1922, como representante da situação, Borges de Medeiros candidatou-se ao seu 5o mandato, e Assis Brasil que governara o RS por curto período na época da Junta Governativa (novembro de 1891 a junho de 1892), representou a candidatura indicada pela oposição.
A candidatura de Borges de Medeiros, divulgada oficialmente em 25 de setembro de 1922, foi publicada pelo jornal A Federação com otimismo e exaltação com a nítida intenção de mostrar que ela representava a vontade de todos os republicanos rio-grandenses. Vejamos parte do artigo, porém antes lembramos que esse jornal sempre fora órgão oficial da propaganda política do PRR.
Proclamado com ufania a candidatura do benemérito rio-grandense, não esqueceremos de acrescentar que, já muito antes das consultas da comissão provisória do Partido, estava ela, naturalmente indicada. Acabará, com efeito, meses antes, o Rio Grande do Sul de assistir ao mais expressivo movimento de opinião registrado em todo o glorioso decurso da sua história republicana. Bastará que no seio do nosso Partido surgisse
A disputa acirrada entre borgistas e oposição libertadora durou pouco mais de um mês de campanha, entre 19 de outubro de 1922, quando oficialmente foi lançada a candidatura de Assis Brasil pelo manifesto redigido por Raul Pilla e assinado por
53 Publicação do Jornal Correio do Sul, de Bagé. Edição 2414, em 18 de agosto de 1922, p. 1.
54 Publicação do Jornal A Federação, Porto Alegre. Edição 221, em 25 de setembro de 1922, p. 1.
Andrade Neves Neto, Alves Valença, Walter Jobim, Fernando Abbott, Armando Tavares e Joaquim Tibúrcio, até 25 de novembro quando ocorreu o pleito. Mas, antes mesmo de assinado o manifesto de Raul Pilla, em 17 de outubro, o Correio do Sul registrava a seguinte nota, destinada Ao eleitorado livre do Rio Grande:
Os abaixo-assinados, ainda no caráter de diretores do Partido Republicano Federalista, concitam aos seus correligionários a sufragarem nas urnas de 25 de novembro próximo o nome do eminente brasileiro, Dr. Joaquim estupendo movimento que está a chamar a atenção de todo o nosso País, e que renderá fatalmente no ajuntamento do Rio Grande ao convívio da nossa gloriosa Pátria comum. Votai, pois, em Assis Brasil!
Bagé, 14 de outubro de 1922.
Dr. Alexandre da Silva Lisboa, Dr. Rafael Bandeira Teixeira, Coronel Vasco Alves Nunes Pereira, Coronel Antonio Barbosa Netto, João José de Ávila Brum, Flaubiano Medeiros, Dr. A. de Moraes Fernandes, Vencido quanto a não recomendação do vice-presidente Dr. Wenceslau Escobar.55
O jornal A Federação, na matéria relativa ao apoio à candidatura de Borges de Medeiros, também fazia alusão crítica a uma possível aliança entre federalistas e dissidentes republicanos correligionários do PRD e do PRR em favor da candidatura de Assis Brasil. No trecho, a seguir, fragmento do artigo A morte de um partido, publicado na edição seguinte à confirmação da candidatura de Borges de Medeiros, fica evidente a referência ao parlamentarismo defendido pelo federalista Gaspar Silveira Martins – já falecido, idealizador do programa do PF – e a implícita referência às ideias assisistas em defesa da república presidencialista. Vejamos:
[...] Em vão os impenitentes pescadores de posições casaram o parlamentarismo de Silveira Martins com o presidencialismo dos candidatos à presidência e à vice-presidência da República. De nada lhes serviu a 1922. Expomos outro fragmento do artigo A morte de um partido, publicado quando ainda era somente suscitada a coligação PF-PDR com apoio de dissidentes do PRR.
Notadamente, a intenção da matéria era persuadir o eleitor a optar pelo PRR e não
55 Publicação do Jornal Correio do Sul, de Bagé. Edição 2457, em 17 de outubro de 1922, p. 2.
56 Publicação do Jornal A Federação, Porto Alegre. Edição 222, em 26 de setembro de 1922, p. 1.
votar em candidatos da oposição que representasse a coligação de partidos com o PF, visto que qualquer coligação, em hipótese, não reuniria de forma unânime todos os correligionários federalistas diante de arranjos e projetos políticos antagônicos e incoerentes. Por tal razão, a coligação oposicionista seria responsável pela morte do PF, não ofereceria segurança acerca dos rumos da administração do Estado do RS e, por não ter ideias alicerçadas em doutrinas, sobretudo, constituir-se-ia em uma
‘ajuntamento heterogêneo’. Vejamos:
[...] O partido federalista está morto: Morto á míngua de ideias e de homens.
As ideias, que sempre foram parcas e frágeis, tiveram, além disto, a ingrata sorte de ser malbaratadas, traídas, conspurcadas. Os homens, que só valem pela função das ideias que realizam, forma tendo o esquecimento dos seus próprios correligionários, antes mesmo que a morte os levasse.
[...] Está morto o partido federalista, morto de inconsistência moral, de penúria mental, de valimento cívico. Morreu na própria honra em que a sua tradição coletiva estava sendo posta a preço, mais uma vez, pelos seus exploradores. A ninguém deve surpreender esse desfecho: Partido sem ideias não é partido, mas ajuntamento heterogêneo que não resiste aos embates políticos; nem dá sombra protetora aos que sob as suas frágeis ramadas se queira abrigar. Edificado sobre a areia, não há nas suas fundações mal seguras a argamassa das doutrinas, nem se abroquelam os seus contornos com as vigas mestras dos princípios orgânicos que resistem ás deturpações do tempo. O partido federalista teve a sorte natural que o aguardava: perdido o impulso inicial que lhe imprimira seu fundador, estacou, começou a retrogradar e desapareceu.57
A partir da oficialização da candidatura de Assis Brasil ao pleito de 1922, A Federação se empenhou no combate à campanha política da oposição. A temática fundante desse ataque ficou por conta da incompatibilidade dos programas políticos sustentados pelos partidos coligados. A questão ideológica entre parlamentarismo e presidencialismo foi seu carro-chefe. Na citação anterior, “mercadejam com ideias como quem compra e vende roupas usadas” fica evidente a crítica ao PF. Em especial, trata-se do arranjo político que “mercadeja” o princípio do parlamentarismo federalista, que submergiria a mercê do presidencialismo republicano assisista.
A partir da oficialização da candidatura de Assis Brasil ao pleito de 1922, A Federação se empenhou no combate à campanha política da oposição. A temática fundante desse ataque ficou por conta da incompatibilidade dos programas políticos sustentados pelos partidos coligados. A questão ideológica entre parlamentarismo e presidencialismo foi seu carro-chefe. Na citação anterior, “mercadejam com ideias como quem compra e vende roupas usadas” fica evidente a crítica ao PF. Em especial, trata-se do arranjo político que “mercadeja” o princípio do parlamentarismo federalista, que submergiria a mercê do presidencialismo republicano assisista.