Uma das doutrinas que influenciou o Brasil e o Rio Grande do Sul no período do Império e da República Velha foi o liberalismo, adaptado, como outras doutrinas, às condições específicas da situação do país. Um exemplo de como o liberalismo foi adaptado no território brasileiro foi a sua convivência com a escravidão, o que contraria um de seus mais elementares princípios, a liberdade do ser humano.
No Brasil, os princípios liberais se forjaram na luta da burguesia contra os privilégios da aristocracia e da realiza, privilégios esses importados da Europa, pois
[...] não existia no Brasil da época uma burguesia dinâmica e ativa que pudesse servir de suporte a essas ideias. Os adeptos das ideias liberais pertenciam às categorias rurais e sua clientela. As camadas senhoriais empenhadas em conquistar e garantir a liberdade de comércio e a autonomia administrativa e judiciária não estavam, no entanto, dispostas a renunciar ao latifúndio ou à propriedade escrava. A escravidão constituiria o limite do liberalismo no Brasil. (COSTA, 1999, p. 30).
Rémond (1974) explica que o liberalismo consiste em uma filosofia política voltada à ideia de liberdade, ainda que restrita ao que está posto institucionalmente.
Essa filosofia também se caracteriza por defender o individualismo, pois coloca o indivíduo à frente do Estado e dos interesses de grupos. Nesses pontos, o liberalismo é contraditório, pois a liberdade política do indivíduo está condicionada pela existência do Estado e a liberdade individual pela existência do grupo.
Félix (1996) e Aita (2006a) explicam que o Estado brasileiro, no Primeiro Império, era liberal em sua visão acerca dos problemas sociais e econômicos, mas conservador quanto à organização política, pois nasceu com o compromisso de cooptar interesses econômicos divergentes, tais como o senhor rural, o colono, o comerciante urbano, o galego. Para Aita, a anomalia desse liberalismo
[...] não se situava apenas na escravidão, compatível com a defesa da propriedade, mas sim na prevalência do Estado sobre o indivíduo, pressuposto, por definição, anti-lockeano e, portanto, desalinhado ao pensamento clássico da experiência inglesa. (AITA, 2006a, p. 46).
Stewart Júnior (1990) considera o liberalismo uma doutrina política voltada à melhoria das condições materiais do ser humano, cujo maior propósito consiste em reduzir a pobreza e a miséria pela liberdade de ação para que atinja tal condição.
Liberalismo é antes de tudo liberdade. Liberdade entendida como ausência de coerção de indivíduos sobre indivíduos. É a adesão do princípio de que a
ninguém é permitido recorrer à força ou fraude para obrigar ou induzir alguém a fazer o que não deseja.
A escolha da liberdade como valor supremo não decorre de razões de natureza metafísica ou religiosa; decorre do fato de que um sistema baseado na liberdade assegura uma maior produtividade do trabalho humano, sendo, portanto, de interesse de todos os habitantes do mundo.
(STEWART JÚNIOR, 1990, p. 70).
O liberalismo pode ser entendido como uma ideologia criada pela burguesia, como subsídio para a luta contra os abusos da autoridade real, dos privilégios do clero e da nobreza, bem como dos monopólios que inibiam a produção, a circulação, o comércio e o trabalho livre. Aita expõe que os adeptos ao liberalismo
[...] defenderiam a teoria do contrato social, afirmariam a soberania do povo e a supremacia da lei, e lutariam, enfim, pela divisão de poderes e pelas formas representativas de governo. Ainda, com o intuito de destruir os privilégios corporativos, converteriam em direitos universais a liberdade, a igualdade perante a lei e o direito de propriedade. (AITA, 2006a, p. 31).
A liberdade apregoada pelo liberalismo combina com a defesa da propriedade privada, pois esta é a única condição possível para que haja maior produtividade, maior criação da riqueza. A propriedade privada possibilita a plena liberdade de entrada no mercado, prevalecendo, assim, pelas próprias leis de mercado, uma economia saudável, em que sobreviverão aqueles que conseguirem apresentar um produto mais barato, com maior qualidade, capaz de atender o consumidor.
Convém recordarmos aqui, o que era o contrato social, que fundamentava as ideias liberais de um dos seus maiores representantes, John Locke. De acordo com esse filósofo inglês, na obra Law of Nature, escrita em 1662, o homem nasce livre, em estado de natureza, no qual exerce seus direitos inalienáveis de propriedade, vida e segurança. Nessa concepção, explica Paim (2007), os homens livres elaborariam um pacto capaz de garantir a permanência do estado de natureza pela constituição de uma sociedade, com governos que respeitassem os indivíduos e seu poder natural. Tal garantia estava centrada na propriedade privada.
É, pois, a propriedade privada, segundo a ideologia liberal, que reafirma o caráter individual e livre do homem, isto porque nem sociedade nem governo podem invadi-la. Todavia, para que o “estado de natureza” subsista após o contrato social, esclarece Malfatti (1985), torna-se necessário que o governo seja instituído e controlado pelos proprietários, únicos capazes de garantir a individualidade, a sociedade e o poder político.
O liberalismo, explica Stewart Júnior (1990), pressupõe liberdade econômica e liberdade política. A liberdade econômica constitui a liberdade de iniciativa, entendida como o direito de entrada no mercado para produzir bens e serviços que os consumidores desejam. A liberdade econômica constitui liberdade de contrato, no qual as partes estabelecem preços, salários e juros sem restrições de qualquer natureza, constituindo-se a atividade produtiva em um risco de alguém somete ser bem-sucedido se produzir algo melhor e mais barato. Por sua vez, expõe o autor, a liberdade política pressupõe a liberdade de expressão, de locomoção, de crença, de reunião, sendo a consciência de cada um que move o agir, que orienta a escolha de representantes e que promove o debate de ideias de forma livre, sem cerceamentos.
O liberalismo não pode ser imposto à força ou pela proibição de partidos políticos; tem que se impor pela persuasão e pelo argumento, pela explicação de suas vantagens como um todo e para cada um em particular.
As tentativas de impor a liberdade econômica sem a correspondente liberdade política são uma contradição. Mesmo um eventual e episódico sucesso econômico não pode servir para supressão da liberdade política.
Se houver liberdade política, podemos lutar pela liberdade econômica; se não houver, temos que nos conformar com as determinações do caudilho, general ou ditador a que estivermos submetidos. (STEWART JÚNIOR, 1990, p. 74).
Padoin e Rossato (2013) sintetizam as ideias liberais em diversos âmbitos.
Assim, conforme as autoras, no âmbito ético o liberalismo defende a garantia dos direitos individuais, como a liberdade de pensamento, a liberdade religiosa, o que supõe um estado de direito. No âmbito político, o liberalismo defende um forte combate ao absolutismo e ao direito divino dos reis, propondo um sistema de representação e de autonomia e divisão dos poderes. No que diz respeito ao âmbito econômico, defende a economia de mercado baseada na livre iniciativa, na competição e na propriedade privada, sem a intervenção do Estado.
Percebemos na leitura dos fragmentos acima que a teoria liberal consagra um modelo de autorregulação social e econômica, sem a intervenção do Estado. Assim, produtores e consumidores, através da livre concorrência e seguindo a lei da oferta e da procura, irão ajustando o mercado de bens e serviços para uma situação considerada ideal, na qual haverá o preço justo para cada mercadoria. Quando isto não acontece e o Estado é obrigado a intervir, começam a ocorrer injustiças, devido aos privilégios concedidos aos grupos que detém o poder. Nesse sentido, Stewart Júnior (1990) alerta que o liberalismo reconhece a imperiosa necessidade de o Estado garantir o direito de liberdade, por meio da constituição de uma ordem geral,
estruturada em normas abstratas de conduta, legitimamente geradas pelos cidadãos e eficazmente aplicadas pelas instituições administradoras da justiça. O papel deste Estado consiste em usar da coerção para garantir o livre mercado.
Bobbio (2005) comenta a relação que existe entre liberalismo e democracia, e afirma que a maior garantia de que os direitos individuais serão protegidos contra a tendência dos governantes de limitá-los e suprimi-los está na possibilidade que os cidadãos tenham de defendê-los contra eventuais abusos, através da participação direta e indireta dos cidadãos. Defende o autor:
[...] Ideais liberais e método democrático vieram gradualmente se combinando num modo tal que, se é verdade que os direitos de liberdade foram desde o início a condição necessária para a direta aplicação da regra do jogo democrático, é igualmente verdadeiro que, em seguida, o desenvolvimento da democracia se tornou o principal instrumento para a defesa dos direitos de liberdade. (BOBBIO, 2005, p. 44).
O liberalismo, afirma Montaner (2013, p. 1), baseia-se em quatro premissas básicas, a saber: a) o exercício da liberdade individual é uma condição insubstituível para alcançar níveis ótimos de progresso, através da liberdade de possuir bens, condição que deve ser garantida pelo Estado que está a serviço do cidadão; b) assim sendo, as pessoas são responsáveis por seus atos, devendo considerar quais serão as consequências de seus atos e os direitos dos demais indivíduos; c) para garantir os direitos e deveres em relação aos outros, há necessidade de criar um Estado de direito, cujas leis sejam neutras e não favoreçam as pessoas, partidos e grupos, evitando-se, desta forma, os privilégios; d) nesse sentido, a sociedade deve controlar rigorosamente as atividades dos governos e das instituições de Estado.
Percebemos, é claro, que há contradições nesse discurso, pois a história mostrou que o liberalismo não conseguiu evitar situações desastrosas decorrentes de sua própria teoria aplicada na prática. Uma delas foi evitar a formação de grupos econômicos mais fortes, que deram origem aos trustes e carteis, que por meio do poder de barganha eliminam a livre concorrência, submetendo os mais fracos ao domínio dos mais fortes. A outra reside na crise econômica decorrente do excesso de produção, que leva os produtores à bancarrota. Tal crise é gerada pele excessiva confiança dos produtores de que tudo aquilo que fosse produzido seria naturalmente comercializado, pois o mercado absorveria seus bens e serviços. Como existe a autorregulação do mercado, ninguém seria inconsequente o suficiente para produzir algo que não soubesse que iria vender. Acontece que o produtor acreditou que seu
produto teria uma demanda crescente e isto não se configurou na prática. Como a produção não é organizada, ou seja, qualquer um produz aquilo que considera necessário e vendável, que nem sempre resultará em venda, os produtores não têm como saber todas as reais necessidades do consumidor.
As seguidas crises fizeram com que o liberalismo repensasse sua teoria e, posteriormente, com John Maynard Keynes, adotasse uma postura de aceitar a intervenção do Estado como regulador da economia, para que o mercado não provocasse novas crises. Recentemente, o liberalismo se reformulou e adotou a ideia de “Estado Mínimo”, garantidor de alguns itens como segurança e garantia da propriedade, deixando o restante da atividade econômica a cargo da iniciativa privada. Por conta dessa ideia, explica Paim (2007), empresas estatais do mundo inteiro foram privatizadas em um período da história conhecido como neoliberalismo.
Entretanto, para efeitos de nossa tese, convém entendermos somente como o liberalismo se propagou no RS no período republicano que vai até a subida de Getúlio Vargas ao poder federal, que coincide com uma das maiores crises do capitalismo mundial, a de 1929, que se iniciou com a queda das ações na Bolsa de Valores de Nova Iorque.
Dois gaúchos se destacaram na difusão do liberalismo no RS: Gaspar Silveira Martins e Joaquim Francisco de Assis Brasil. Buscamos comparar as ideias liberais clássicas desses dois pensadores, mostramos como seus fundamentos foram utilizados para criticar o positivismo e o castilhismo em diversos pontos.
Um desses pontos ressaltados por Assis Brasil é a demasiada concentração de poderes no executivo, razão pelo qual chamava de despótico o regime de Júlio Prates de Castilhos. Nosso personagem considerava que no RS não havia regime constitucional, pois o poder executivo exercia também as funções do legislativo e ainda dominava o judiciário. Isso ia contra a divisão de poderes postulada por Montesquieu. Rodriguez (2000) reproduz o pensamento de Assis Brasil acerca da concentração dos poderes nas mãos do poder executivo.
A situação é mais grave, ainda, diz Assis Brasil, quando se tem em conta que os representantes à Assembleia do Estado não gozam do poder de legislar, mas têm simplesmente funções orçamentárias. [...]
O Presidente, continua o liberal gaúcho, exerce também de direito e de fato o Poder Judiciário. Enquanto na maioria das nações livres o Ministério Público é indicado pelas autoridades judiciais superiores, [...] no Rio Grande do Sul o artigo 60 da Constituição atribui ao Presidente a nomeação dos membros do Ministério Público. Assim, se os promotores querem
conservar-se nos cargos devem converter-conservar-se em instrumentos do despotismo legal imperante. (RODRIGUEZ, 2000, p. 196).
Além dessas críticas, Assis Brasil condenava o sistema eleitoral, criado para votar sempre os membros da elite, diferente do que propunha o ideário liberal.
Assim, em vez de eleger representantes para defender seus interesses, o eleitor estaria atrelado a uma máquina eleitoral que conduziria, sempre, ao poder, a mesma minoria. Assis Brasil deixava claro duas premissas para evitar o despotismo, ou seja,
“governo de um só é o que se chama despotismo”, afirmava Assis Brasil (1931, p.
330): a representação do povo e o controle do poder por parte do mesmo. Para esse pensador, o voto e a eleição direta seriam formas genuínas da representatividade do povo. Essas premissas estão evidentes na literatura produzida por nosso personagem e, notadamente, são registradas no programa do Partido Libertador, publicado em 1928.
Entendia Gaspar Silveira Martins que o povo é soberano para a escolha de seus representantes através da delegação de sua soberania. Então, a eleição direta e a liberdade de voto constituíam-se a base fundante da representatividade.
Reivindicava o aumento da representação na província do RS, na qual levasse em conta a quantidade de sua população.
A liberdade constituía, para Assis Brasil, uma exigência também no plano econômico. A educação e a riqueza de um povo estão em relação proporcional com a sua liberdade. “Dá-me um povo educado e rico e eu respondo pela sua liberdade, e felicidade”. (ASSIS BRASIL, 1908, p. 33). Assim é que se pode combater o perigo da tirania nas sociedades democráticas.
No trecho abaixo, verifica-se o ideal liberal nas palavras de Assis Brasil. Em sua análise Rodriguez (2000) complementa a ideia assisista:
Um governo que promove a educação e a riqueza da população estará poupando os gastos relativos à força pública para exercer a tutela oficial, porque a sociedade saberá para onde marcha. Dispensará, também, o protecionismo exagerado para as indústrias, pois o povo terá iniciativa na criação da riqueza. (RODRIGUEZ, 2000, p. 189).
Um sistema opressivo como o castilhista, afirmava Assis Brasil (1928), não poderia se manter no seio de quaisquer povos ricos e educados, pois a educação seria condição necessária para o funcionamento de um governo representativo, no qual os cidadãos participassem das eleições e da atividade legislativa, pois somente povos ignorantes deixam que outros elejam e legislem por eles.
Do ponto de vista econômico, também o liberalismo encontra ressonância nas palavras de Gaspar Silveira Martins, que combatia todas as formas de protecionismo econômico e de monopólio estatal da economia, pois considerava tais medidas como um atentado à liberdade dos cidadãos, bem ao gosto do ideário liberal, como mostra o trecho abaixo retirado de Rodriguez (2000). Antes, lembramos que Gaspar Silveira Martins também reivindicava legislação fiscal específica à província do RS.
Efetivamente, a partir da produção cada um deve assegurar sua liberdade mediante uma equitativa movimentação da riqueza; para isto, é necessário que o comerciante fosse ponte entre o produtor e o consumidor, garantindo desta forma a sua propriedade privada, assim como a do produtor e a do consumidor. Por isso, a liberdade de comércio deve ser irrestrita, com a condição de que se assegure o crédito público. A intervenção do governo central na economia das províncias, ainda que feita de forma indireta, é negativa para a liberdade dos cidadãos, porque paralisa o comércio e, portanto, a riqueza. (RODRIGUEZ, 2000, p. 190).
Efetivamente, a doutrina liberal é aqui reproduzida na sua mais autêntica interpretação com base nas ideias do economista liberal Adam Smith de que a sociedade encontra seu ponto de equilíbrio quando todos têm acesso à produção da riqueza, pois somadas as riquezas produzidas por todos, dentro da mais absoluta liberdade, é que se constrói um país forte.
Na sequência, propomos entender os princípios da fisiocracia e sua influência no pensamento político-econômico da República Velha, em especial, de Assis Brasil.