2 REVISÃO DA LITERATURA
2.6 Linguagem e epilepsia do lobo temporal (ELT)
2.6.1 Distúrbios de linguagem em pacientes com ELT
A epilepsia do lobo temporal (ELT) é a causa mais frequente de epilepsia com crises focais em adultos. A ELT compreende um grupo heterogêneo de doenças cuja principal característica é a presença de crises que se originam no lobo temporal mesial ou lateral, de etiologia, idade de início, prognóstico e resposta ao tratamento médico e cirúrgico diversos. Dentre as causas de ELT estão a esclerose mesial temporal, lesões estruturais do lobo temporal secundárias a tumores benignos e malignos, doenças infecciosas, doença cerebrovascular, auto-imune, malformações do desenvolvimento cortical e trauma, além de formas hereditárias.
Em 1980, Mayeux e colaboradores demonstraram pela primeira vez a existência de acentuado prejuízo de nomeação por confrontação visual em pacientes com ELT esquerda. Estes autores demonstraram relação entre o desempenho nos testes de inteligência verbal, aprendizado e memória com o desempenho nos testes de nomeação. Desde então, ao se avaliar as funções de memória verbal, o déficit de nomeação deve ser levado em consideração como um fator confundidor na avaliação de memória. Atualmente, tanto o risco de declínio de nomeação pós operatório quanto o desempenho nos testes de nomeação por confrontação visual são incluídos na avaliação neuropsicológica da maioria dos programas de tratamento de epilepsia (Mayeux et al; 1980; Busch et al; 2013).
Muitos estudos corroboram esta afirmação, encontrando déficits de nomeação em mais de 40% dos pacientes com epilepsia do lobo temporal esquerdo ou bilateral (Bell et al; 2003; Loring et al; 1994). Cerca de 1/3 dos pacientes com epilepsia do lobo temporal esquerda refratária relatam dificuldades graves na vida diária para encontrar palavras durante a fala espontânea (Lomlomdjian, 2011).
Em tarefas de nomeação os pacientes gastam mais tempo para encontrar palavras. Mesmo quando a palavra alvo é identificada e semanticamente
acessada, existe uma dificuldade no acesso lexical (palavra na ponta da língua) que não se beneficia muito com pistas fonéticas. As dificuldades em encontrar palavras nestes pacientes classicamente são avaliadas com testes de nomeação por confrontação visual. É bem demonstrado que tarefas que utilizam definições (nomeação responsiva) se mostraram mais sensíveis que tarefas de nomeação por confrontação visual para detectar déficits pré- operatórios de linguagem em pacientes com ELT esquerda (Bell et al; 2003; Hamberger et al; 2003).
O comprometimento de linguagem e os fatores associados a este achado em ELT podem ser analisados em estudos que comparam o desempenho pré e pós-operatório de linguagem destes pacientes. A ressecção do lobo temporal esquerdo para tratamento de ELT associa-se a declínio de linguagem no pós-operatório. Estudo avaliando 24 pacientes com epilepsia não-lesional mostrou queda no desempenho no teste de nomeação de Boston após ressecção do lobo temporal esquerdo. O fator associado a maior declínio no desempenho foi idade mais tardia de início da epilepsia (Davies et al; 2005) Outro estudo com série de casos de 59 pacientes foi realizado para determinar a prevalência ou exacerbação de baixo desempenho na tarefa de nomeação responsiva após lobectomia temporal anterior e identificar os preditores de declínio. Observou-se exacerbação significativa da dificuldade em encontrar palavras, persistente após um ano da cirurgia em 25% dos pacientes submetidos a ressecção temporal anterior esquerda. Esta dificuldade foi pior em pacientes que apresentavam dominância de linguagem à esquerda, maior idade no momento da avaliação e para aqueles cuja avaliação havia sido realizada antes de um ano após a cirurgia (Langfitt, 1996).
Pacientes com ELT direito também parecem apresentar algum grau de comprometimento de linguagem. Em uma meta-análise recente, (Doering e Trinka, 2014) foram selecionados 31 estudos que realizaram avaliação interictal de linguagem em pacientes com epilepsia, incluindo pelo menos duas modalidades diferentes de linguagem. A maioria das publicações selecionadas avaliou o desempenho de pacientes com epilepsia do lobo temporal principalmente em tarefas de nomeação. De 28 estudos, 9 encontraram pior desempenho entre pacientes com epilepsia do lobo temporal esquerdo em relação àqueles com epilepsia do lobo temporal direito. No entanto, 11 estudos
não encontraram qualquer diferença entre ambos os grupos. Comparando os resultados individuais de cada paciente em cada estudo com dados normativos, notou-se que 55% dos pacientes com ELT esquerdo e 36% dos pacientes com ELT direito apresentaram significativo déficit de nomeação por confrontação visual.
Embora estes estudos avaliados sejam muito heterogêneos em relação ao número de testes de linguagem, seleção de pacientes e controles e apresentação dos resultados, pelo menos 17% dos pacientes com ELTE apresentaram déficits em mais de uma modalidade de linguagem, sendo nomeação, compreensão de leitura, fala espontânea e produção de discurso as funções mais frequentemente afetadas.
Em sua grande maioria, os estudos de linguagem em ELT avaliam populações de pacientes com epilepsia secundária a diversas etiologias, incluindo lesões que acometem estruturas neocorticais ou mesiais do lobo temporal.
Não é surpresa que a linguagem seja comprometida por lesões que acometem as porções anteriores do neocórtex temporal esquerdo, nas vizinhanças do córtex perissilviano. No entanto, a causa mais comum de epilepsia do lobo temporal é a esclerose mesial temporal (EMT), doença caracterizada pelo acometimento de estruturas hipocampais. Os fatores associados a distúrbios de linguagem em pacientes com lesão nas estruturas mesiais temporais não só à esquerda, como também à direita, ainda não são bem compreendidos.
Os estudos que avaliam linguagem em populações homogêneas de pacientes com esclerose mesial temporal são escassos na literatura e serão revistos a seguir.