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Distinção entre saúde pública, complementar e suplementar

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 75-78)

2.3 O QUE É O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS)?

2.3.1 Distinção entre saúde pública, complementar e suplementar

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, ao estruturar o fornecimento dos serviços de saúde no país, optou por um modelo híbrido, conforme prevê seu artigo 199, caput e § 1º. Referido dispositivo permite à iniciativa privada fornecer a assistência à saúde de duas maneiras: suplementar e complementar aos serviços

de saúde pública (BRASIL, 1988a). A respeito deste tema, conquanto já tenha sido afirmado na introdução da tese não ser objetivo do estudo discorrer sobre os sistemas de saúde suplementar e complementar, este tópico cinge-se em reconhecer a relevância e incidência cada vez mais ativa destes sistemas, notadamente do sistema suplementar no cenário nacional (MELLO, 2012). Logo, a abordagem que aqui se faz visa, tão somente, conferir uma efetiva compreensão da saúde pública nacional e advertir que o Sistema Único de Saúde não é exclusivo no território brasileiro.

A hibridez dos sistemas vigentes no Brasil possibilita a interação entre os serviços público e privado. Também permite a utilização complementar e, portanto, subsidiária dos serviços disponibilizados pelos particulares nas situações em que os serviços de saúde ofertados pelo sistema público forem insuficientes (BRASIL, 1988a).

Como o setor privado constitui o reverso da saúde pública, a convivência destes modelos antagônicos é possível em decorrência da aplicação jurídica específica a cada caso. No Sistema Único de Saúde, o indivíduo é compreendido como usuário dos serviços públicos. Já no âmbito suplementar, pela característica privada, estabelece-se uma relação de consumo entre o fornecedor dos serviços e o cliente (PRADO, 2011). Por sua vez, quando o atendimento é prestado de modo complementar, o cidadão continua sendo visto pelo prisma do serviço público, cujo particular atuará nesta qualidade, sem qualquer distinção pelo usuário.

No entanto, para que o setor privado complemente o serviço público é necessário o preenchimento de três requisitos fixados constitucionalmente (BRASIL, 1988a, artigo 199, § 1º), quais sejam: i) formalizar contrato ou convênio, obedecendo as normas de direito público, com primazia do interesse público sobre o privado; ii) a instituição privada deverá atender às normas técnicas do Sistema Único de Saúde, seguindo as diretrizes na normativa aplicável ao setor público de saúde, vez que atuará em nome do setor público; e iii) a integração dos serviços privados deverá obedecer a lógica organizativa do Sistema Único de Saúde no que tange à regionalização e hierarquização dos serviços. Porém, será conferida preferência às entidades filantrópicas e às sem fins lucrativos.

Portanto, a estruturação dos serviços de saúde nacional, embora pretenda atingir a cobertura universal por meio do Sistema Único de Saúde, não se limita a este sistema, admitindo-se a livre existência do sistema privado que poderá atuar na modalidade complementar ou suplementar. O Sistema Único de Saúde poderá ser auxiliado

complementarmente pelo setor privado apenas na hipótese que este obedeça aos mesmos critérios orientadores do sistema público. É isto que fundamenta a ausência de distinção pelo cidadão nas situações em que usa o serviço complementar, pois o particular atuará na qualidade de Administração Pública.

Esta forma organizativa dos sistemas de saúde disponíveis no Brasil permite uma leitura ampliada das diretrizes lançadas pelo Ministério da Saúde, segundo as quais as ações de promoção e proteção da saúde podem ser desenvolvidas pelos setores público e privado, além das ações a serem praticadas pelos próprios indivíduos. Esta amplitude de legitimados a atuar em prol da saúde, em grande medida, está atrelada a programas de saúde vinculados às condições de saúde da população em tempo determinado e espaço delimitado, vinculadas a outros condicionantes externos, mas a ela relacionados e em respeito aos critérios orçamentários.

O Sistema Único de Saúde, neste quadro, apresenta-se como um, dentre muitos casos particulares, de universalização da cobertura dos serviços de saúde pretendida pela Organização Mundial de Saúde. Referido sistema é “financiado, nos termos do art. 195, com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes” (BRASIL, 1988a, artigo 198, § 1º).

Logo, resta evidenciada a possibilidade de convivência do sistema público de saúde com o sistema privado. Dentro deste binômio de saúde público-privada há espaço para aprofundarem-se os estudos comparativos sobre as eventuais discrepâncias e similaridades na prestação dos serviços de saúde por ambos os setores, bem como sobre o processo de privatização da saúde, considerando-se, a título de exemplo, a realidade social, econômica, política e cultural da população assistida (BAHIA, 2005; SANTOS, 2009).

Contudo, nesta tese, a saúde enquanto direito social fundamental afasta-se e, ao mesmo tempo, se contrapõe ao caráter mercadológico. Isto justifica a baliza lançada na introdução, de que os estudos limitar-se-ão ao sistema público de saúde, lembrando-se que a pretensão deste estudo é, a partir da construção de indicadores sociais objetivos, estabelecer um cenário de saúde público por excelência pela perspectiva do estabelecimento de recursos humanos da área médica vinculados à Atenção Básica de Saúde.

Realizado este apontamento sobre a hibridez dos sistemas público e privado de saúde vigentes no país, com a possibilidade de atuação complementar deste último,

torna-se possível torna-seguir adiante para apretorna-sentar uma breve consideração sobre o custeio do Sistema Único de Saúde. Tal abordagem será feita no próximo tópico.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 75-78)