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Distinções analíticas preliminares: propósitos, bens e princípios

2. RAZÃO PRÁTICA: DOS PRIMEIROS PRINCÍPIOS À REALIZAÇÃO HUMANA

2.4 Distinções analíticas preliminares: propósitos, bens e princípios

Começamos esse trabalho discutindo o método de investigação empregado por Finnis na construção da teoria neoclássica da lei natural. Tal método baseia-se, inicialmente, na identificação do significado focal e distinção entre casos centrais e casos periféricos. As teorias das ciências sociais sempre realizam descrições a partir de critérios avaliativos – mesmo o que o teórico social resolve colocar em uma lista já pressupõe critérios avaliativos que definem o que é relevante e valioso incluir na lista. Desse modo, nenhuma descrição é neutra, sempre há a eleição de um ponto de vista – que em última análise, inclui pressupostos morais. Nesse marco, o método adotado é importante também porque, sendo um método analógico (simpliciter e secundum quid), permite incluir fenômenos que não se enquadram no caso central de uma prática.

Se formos analisar qualquer prática que envolva a conduta humana autodeterminada, é necessário ter em mente a irredutibilidade desta última às ordens da natureza, da lógica ou da técnica. A conduta humana deliberada enquadra-se na ordem moral ou existencial – e é estudada pela philosophia moralis, a filosofia da conduta humana autodeterminada. Dizer que analisamos a conduta humana autodeterminada é o mesmo que dizer que analisamos a ação humana. Todavia, a ação humana, individual ou comunal, só pode ser propriamente entendida a partir da compreensão dos objetos da ação humana, a partir da resposta para a pergunta “por que você está fazendo x?”. Compreendendo o objetivo da ação, somos capazes de avaliar a coordenação de atividades – se é bem sucedida ou não para alcançar o fim que se propõe. A descrição sobre “o quê” alguém está fazendo, depende da compreensão do “por que esta pessoa está andando ou escrevendo, etc”.

O intelecto humano é composto por duas faculdades: a razão teórica e a razão prática. A primeira conhece o ser; a segunda prescreve o-que-é-para-ser. O princípio mais fundamental da razão prática é “o bem é para ser buscado e realizado e o mal é para ser evitado” – este princípio não identifica o bem, antes se limita a indicar que toda ação humana visará um fim. Existem, porém, outros preceitos básicos – objeto de nossa investigação abaixo – que tornam possíveis tanto a atração humana a determinados fins quanto a autodeterminação, a livre escolha. Para analisarmos a ação humana, precisamos compreender quais são os objetos da ação humana. Seguindo esse raciocínio, chegaremos a objetivos gerais que podem ser identificados como razões últimas para a ação humana e abarcam toda conduta humana. Essas razões últimas são os bens humanos básicos.

Existe uma relação entre as razões últimas para a ação humana e a própria natureza humana. O homem busca os fins ou bens que busca porque tem a natureza que tem. Esses fins, portanto, correspondem a tendências ou inclinações naturais. Por conseguinte, existe uma relação entre o conhecimento dos objetivos da ação humana e o conhecimento da própria natureza humana: conhecemos a natureza humana entendendo suas capacidades; conhecemos as capacidades observando a ação humana; e, por fim, entendemos a ação humana a partir dos objet(iv)os da mesma, que, em última instância, podem ser subsumidos nas razões últimas para o agir humano, nos bens humanos básicos. Portanto, a compreensão da natureza humana depende da apreensão correta dos bens humanos, das razões últimas para o agir humano. Tentar encontrar os bens a partir de uma concepção prévia da natureza, i.e., fazer o caminho contrário, é incorrer na Lei de Hume, derivando um dever ser de um ser.

Esses bens são atraentes ao ser humano (correspondem a desejos naturais), não apenas emocionalmente, mas (e principalmente) inteligentemente. O exemplo da máquina de experiências nos ajuda a visualizar que o valor dos bens instanciados na ação humana é perceptível inteligentemente, e não apenas emocionalmente ou experiencialmente. A posição humeniana sobre o alcance da razão prática é demasiadamente restritiva e insuficiente para explicar a realidade das ações humanas e o próprio conjunto de práticas e linguagem que interpreta o campo do agir humano. O ceticismo é autorrefutável.

Todavia, seria possível identificar uma teoria geral sobre o agir humano? Os teóricos contemporâneos da lei natural entendem que sim – esclareceremos esse argumento adiante. Basta, por ora, compreendermos que as falhas nas análises descritivas começam na reflexão inadequada sobre o próprio querer, decidir e agir. Nesse sentido:

A reflexão sobre o raciocínio prático e ação humana é, verdadeiramente, empírica quando procura compreender as capacidades humanas por meio da compreensão dos atos humanos e compreender esses atos por meio da compreensão de seus objet(iv)os. Assim, a pergunta reveladora é ‘Porquê’? (FINNIS, 2012, p. 51-52)

Assim, temos que princípios são conhecidos examinando-se aquilo do qual são princípios (método epistemológico Aristotélico). Sendo o objeto de estudo os motivos das ações humanas, os princípios serão os motivos básicos, irredutíveis a qualquer motivo anterior daquele mesmo tipo. Nesta moldura não estão incluídos motivos não especificamente humanos (por exemplo, o comportamento instintivo e as ações inteligentemente planejadas cujo único propósito é atender a parte senciente do sujeito, e.g., atos irrefletidos, como ir ao banheiro) (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987a, p. 105)75. Interessa, para os propósitos de análise, apenas as ações relacionadas com a livre escolha, realizadas com algum propósito e guiadas racionalmente (sejam ou não completamente morais e razoáveis em outros sentidos). Nesse diapasão, os atos humanos podem ser compreendidos como:

Atos humanos devem ser individualizados primeiramente nos termos daqueles fatores para os quais apontamos por meio da palavra “intenção”. Fundamentalmente, um ato humano é um aquilo-sobre-o-qual-algo-é-decidido (ou -escolhido) e sua primeira descrição apropriada é como aquilo-que-é-escolhido. A ação humana, para ser considerada humanamente, deve ser caracterizada da maneira como foi caracterizada na conclusão do raciocínio prático relevantemente encadeado do homem que escolheu realizá-la. Por outro lado, o mundo com suas estruturas materiais (incluindo nossos seres corporais) e suas estruturas de causalidade físicas e psicofísicas não é indefinidamente maleável à intenção humana. Quando alguém está decidindo o que fazer, a pessoa não pode razoavelmente fechar os olhos às estruturas causais do projeto de alguém; a pessoa não pode caracterizar seus próprios planos ad lib76 (FINNIS, 2011C, p.122).

As ações levadas em consideração, portanto, são aquelas deliberadamente, racionalmente e livremente eleitas e realizadas. Obviamente que, no processo de deliberação, o sujeito terá que levar em consideração os aspectos imaleáveis e contingenciais do mundo. Não

75 Em outros trabalhos Grisez, Finnis e Boyle chamaram essas ações de “vontade espontânea” (spontaneous willing). No entanto, na obra “Practical Principles, Moral Truth and Ultimate Ends”, retratam-se esclarecendo que utilizaram erroneamente a palavra vontade nesse sentido, porque confundiu a diferença que há entre a ação guiada inteligentemente e a ação racionalmente motivada (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987a, p. 105).

76 No original: “Human acts are to be individuated primarily in terms of those factors which we gesture towards with the word ‘intention’. Fundamentally, a human act is a that-which-is-decided-upon (or -chosen) and its primary proper description is as what-is-chosen. A human action, to be humanly regarded, is to be characterized in the way it was characterized in the conclusion to the relevant train of practical reasoning of the man who chose to do it (cf. III.3). On the other hand, the world with its material (including our bodily selves) and its structures of physical and psycho-physical causality is not indefinitely malleable by human intention. When one is deciding what to do, one cannot reasonably shut one’s eyes to the causal structure of one’s project; one cannot characterize one’s plans ad lib. One can be engaged willy-nilly but directly, in act, with a basic good, such as human life” (FINNIS, 2011c, p.122).

obstante, tais ações são realizadas com vistas a algum propósito, que se apresenta como uma possibilidade.

2.4.1 Propósito e bem

O propósito é aquilo pelo qual se age, o que se espera realizar por meio da ação. É, nesse sentido, um estado de coisas (algo concreto que pode existir ou não na realidade). Por exemplo, um doente procura um médico com o propósito de recuperar a saúde; ou alguém participa de uma competição com o propósito de vencer. O propósito nem sempre é distinto da ação, mas pode ser realizado na própria ação. Por exemplo, o propósito de ler (um romance) uma novela é realizado no próprio ato da leitura. O propósito de recobrar a saúde, por outro lado, requer a realização de uma série de atos – ser examinado por um médico, submeter-se a exames, etc. Aquilo que torna alguém racionalmente interessado em agir pelo propósito é o bem (GRISEZ et. al., 1987, PPRU, p. 103). Nesse diapasão, os bens da saúde, na situação da procura pelo médico, e da vitória, no exemplo da competição, são os bens que tornam alguém racionalmente interessado em agir pelo propósito de ganhar ou se recuperar. Nessas situações, ganhar e recobrar a saúde significa a participação do agente nos bens da vitória e da saúde nos quais o agente está mais interessado de uma maneira geral.

A relação de participação entre propósito e bem é explanada pelo termo instanciação. Alcançar o propósito irá instanciar o bem que é a razão pela qual alguém está interessado em agir por aquele propósito. Mesmo quando o propósito não é diferente da ação existem bens que subjazem o interesse racional de alguém pela ação e as ações particulares instanciam limitadamente aqueles bens. Por exemplo, a leitura do romance da novela realiza o propósito na ação, todavia podemos analiticamente distinguir o bem que torna alguém interessado em agir pelo propósito, nesse caso, trata-se do bem do conhecimento – é o bem inteligível que a pessoa busca ao ler o romance, quer ela esteja consciente disso ou não.

Os bens podem ser básicos, ou instrumentais. Os bens instrumentais pedem outra razão para explicá-los. Já os bens básicos são as razões finais que não precisam de outras razões e que subjazem (underlie) todos os propósitos. Os fins últimos da ação humana correspondem aos primeiros preceitos da lei natural. Esses preceitos são apreendidos pela razão prática e revestem os objetos de inclinações da intelegibilidade de fins-a-serem-perseguidos-pelo-agir (GRISEZ, 1965, p.181). Os propósitos também podem ser classificados em básicos e instrumentais, sendo que os básicos são aqueles que instanciam bens básicos imediatamente; e os instrumentais,

quando realizados, empoderam as pessoas para alcançar outros bens, ou seja, instanciam bens instrumentais.

As ações razoáveis das pessoas são acompanhadas por motivos emocionais também. Emoções não pesam sobre a inteligibilidade do bem em si, mas nos propósitos concretos da ação ou sobre algo ligado por associação psicológica ao propósito. Motivos emocionais e racionais incidem de formas diferentes sobre o propósito de uma ação; por isso podemos distinguir dois aspectos do propósito, duas formas distintas como um propósito é desejado: como algo concreto e imaginável ou como um bem inteligível.

Conquanto o propósito seja concreto e imaginável, será desejado de modo senciente ou emocional. O propósito como objeto de sentimento é o alvo (goal). O propósito é um alvo na

medida em que a visualização do propósito suscita os sentimentos que o agente precisa para agir pelo propósito (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 104).

Conquanto seja proposto pelo conhecimento intelectual, o propósito será volitivamente

desejado. O propósito continua sendo um estado de coisas concreto, mas quando alguém

delibera sobre agir por ele, conhecimento proposicional recomenda fazê-lo em virtude de um bem inteligível – e, derradeiramente, por um bem básico. Se a pessoa escolher agir pelo propósito, esperará realizar o bem e ser, ele ou ela mesma(o), mais ou menos realizado. A

antecipação é a relação entre [1] o conhecimento prático dirigindo uma ação racional e

voluntária à sua realização (i.e., à realização da própria ação) e [2] a realização que o agente

espera alcançar. O benefício é o aspecto inteligível de um propósito básico e contribui

diretamente à realização de alguém (diferentemente do alvo). Já o empoderamento é o aspecto inteligível do propósito instrumental.

Motivos racionais motivam à realização da pessoa como um todo, enquanto os motivos emocionais motivam à realização apenas da parte senciente da pessoa. Apesar de distintos, esses motivos estão dinamicamente unidos no propósito (GRISEZ, FINNIS, BOYLE 1987b, p. 104- 105). Alvos compreendidos e generalizados podem ser pensados como bens inteligíveis, mas apenas intermediários porque a realização da natureza senciente enquanto tal não é a realização da pessoa como um todo. Por exemplo, comer uma refeição em particular é um alvo, e alguém entende comer em geral como um bem. No entanto, comer só pode ser deliberadamente

escolhido conquanto seja instrumental a bens básicos como a vida ou a amizade (GRISEZ,

FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 105).

O propósito, portanto, possui dois aspectos que podem ser distinguidos analiticamente: o aspecto emocional, senciente, definido como alvo; e o aspecto inteligente, que pode ser definido [1] como benefício, se estiver pautado em um bem básico; ou [2] como

empoderamento, se versar sobre um bem instrumental. A realização do alvo pode realizar a

parte senciente do ser humano, porém não realizará a natureza humana como um todo. Uma vida pautada na perseguição de alvos é uma vida desintegrada, pois ignora os bens inteligíveis que realizam a natureza humana. A realização de alvos, em detrimento da realização de bens

reais, afirma uma visão dualista da natureza humana, na medida em que separa o aspecto

emocional ou senciente do resto do sujeito. Tal visão não realiza a natureza humana, antes configura a desintegração do indivíduo na medida em que separa o aspecto inteligível do emocional. A realização do aspecto inteligente do propósito, por outro lado, realiza a natureza humana como um todo e será, comumente, acompanhado da realização senciente ou emocional também. Assim, o ser humano cuja realização está pautada em benefícios identificados nos propósitos que motivam seu agir será integrado e estará em contato com a realidade. Por outro lado, a vida pautada apenas na realização de alvos não é muito diferente da vida na máquina de experiências.

O sentimento (entendido aqui como a motivação decorrente de uma espécie de cognição sensorial subconsciente) pode incitar o comportamento em direção ao alvo (não compreendido como razão para a ação, mas como algo que pode ser trazido à realidade), que poderá ser perseguido por um processo de causalidade inteligente. A ação pode ser inteligentemente dirigida sem estar racionalmente motivada. Tal processo ocorre frequentemente em crianças pequenas, que direcionam seus esforços à apreensão de um fim.

2.4.2 Primeiros princípios práticos

Sempre há um juízo dirigente a uma escolha em toda ação racionalmente motivada. O

juízo é aquilo que propõe e molda a ação como o que é para ser feito ou que deve ser feito. A escolha é a vontade para realizar aquela ação ao invés de outra ou de não realizá-la. A diferença

entre essas ações tem origem na distinção de seus princípios, na diferença entre [1] o conhecimento intelectual dos bens básicos como razões para escolher e [2] a correspondente volição para esses bens (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 105).

O conhecimento que molda a ação é um juízo que propõe: essa ação é para ser feita ou

deve ser feita (realizará certo benefício). Tal juízo é alcançado pelo arrazoar a partir de um ou

mais bens básicos. O caso mais simples de tal arrazoar é “isto é para ser feito porque provavelmente realizará certo benefício” – i.e., instanciará tal bem básico (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 105). “Este processo racional presume: tal e tal bem é para ser realizado

[...]”. Bens básicos funcionam como princípios de ação por serem conhecidos como fundamentos racionais últimos (princípios da razão prática) para propor ações a serem feitas por certos benefícios (instanciações antecipadas daqueles bens). (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 106). Correspondentemente, a escolha para agir pressupõe uma volição do aspecto inteligente do propósito – esta volição pressupõe uma volição fundamental ao bem básico relevante. As volições fundamentais correspondem aos princípios do conhecimento prático que

fornecem o objeto da volição.

A outra maneira como os bens básicos funcionam como princípios de ação é por serem/sendo desejados (willed) como os primeiros objetos da volição. (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 106). A escolha significa volição influenciando uma ação a ser feita. O

interesse é a volição influenciando no aspecto inteligível (benefício ou empoderamento) ou

algum conjunto de propósitos potenciais (ou atuais também) (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 106). A intenção é a volição influenciando no aspecto inteligível (benefício ou empoderamento) de um propósito pelo qual um ato é de fato escolhido. A volição simples (aliveness77) é o tipo de volição (pressuposta pelo interesse e pela intenção) que afeta (bears

upon) os bens básicos.

Assim, especificado pelos primeiros princípios do conhecimento prático, aliveness ou avivamento aos bens básicos subjaz os interesses variados que, em contrapartida, tomam formas específicas nas intenções com as quais alguém escolhe agir por propósitos (GRISEZ, FINNIS, BOYLE, 1987b, p. 106)78

Os princípios do conhecimento prático são os fundamentos racionais últimos na propositura de ações a serem feitas – (mas) como eles são conhecidos? Não podem ser derivados, são autoevidentes. Como explanado alhures, autoevidente é algo per se nota, conhecido (mediante a apreensão do) conhecendo o significado de seus termos. Não significa que sejam meras clarificações linguísticas ou intuições (insights desassociados de data/ informações). Antes, a partir da experiência, são apreendidos pelo entendimento por um ato de

insight.

77 Entendemos que o “avivamento” aos bens humanos básicos tem sua origem nas inclinações naturais – é porque temos tais inclinações a tais bens que estamos “avivados” para eles.

78 No original: Thus, specified by the first principles of practical knowledge aliveness to the basic goods underlies one’s various interests which, in turn, take specific form in the intentions with which one chooses to act for purposes.