Com relação a escolhas livres, alguém faz uma escolha livremente quando, julgando entre razões e motivos para adotar uma determinada via de ação, e razões para adotar alguma alternativa incompatível, a pessoa prefere uma opção à outra e assim define o que irá fazer (a não ser que mude de ideia). O processo deliberativo envolve várias etapas e possui uma estrutura complexa. Merece destaque, nesta estrutura, o entendimento prático, que consiste na habilidade do indivíduo de entender razões (benefícios inteligíveis) e elaborar planos e propostas; a razão prática, que consiste na habilidade de relacionar um tipo de benefício a outro e de considerar a eficiência dos meios e respectivos méritos de planos alternativos; e a vontade, que é a habilidade de responder a razões para a ação. O processo deliberativo, em si, passa por
47 A obra “Fundamentos de Ética” é um referencial muito importante para a adequada compreensão da crítica finnisiana à concepção restrita da razão e à questão dos bens inteligíveis face às meras experiências de realização humana.
diversas fases, que Finnis distingue analiticamente no terceiro capítulo de “Aquinas” como a
electio, intentio, consilium, consensus, sententia, imperium, usus e fruitio, por exemplo48.
A filosofia prática estuda as ações humanas, podendo ser dividida em dois campos: [1] o estudo das ações que não permanecem no agente, referente ao fazer, à técnica; e [2] o estudo das ações que permanecem no agente49, referente ao agir – trata-se do que Aquino chamou de
philosophia moralis. A philosophia moralis é a filosofia da conduta humana autodeterminada,
que investiga as ações de grupos ou pessoas (FINNIS, 1998, p.23). Este estudo pode estar voltado às ações individuais, de lares (oeconomica), ou do grupo civil, constituindo, neste último caso, a política (FINNIS, 1998, p.24)50.
Existe uma relação entre grupos e atividades. Um grupo ou comunidade é uma unidade de ordem e um tipo de todo. Nesse marco, as ações poderão ser das pessoas que constituem o grupo ou do próprio grupo, isto é, as pessoas no grupo podem realizar atos que não visam nenhum propósito do grupo especificamente; assim como o grupo pode realizar atos que os indivíduos, separadamente, jamais poderiam – e.g., um exército pode cercar uma cidade, um único soldado não (FINNIS, 1998, p. 24-25).
A ordem de um grupo humano que faz com que ele esteja unificado possui dois elementos principais: [1] a coordenação entre as partes, entre os membros do grupo; e [2] a relação entre aquela coordenação e a sua finalidade, entre o grupo e o propósito da associação e coordenação dos membros51. A inteligibilidade e avaliação – se bem-sucedida ou não – da coordenação (atividades) entre os membros do grupo depende da compreensão dos propósitos da associação e o modo como tal associação constitui ou contribui (ou deveria contribuir) para o bem-estar, para a realização, dos indivíduos associados. Apenas com a posse desse entendimento poderá a teoria política ou outra teoria social, adequadamente descrever, justificar ou criticar os padrões de associação e coordenação que fornecem o seu objeto (FINNIS, 1998, p. 26).
Por exemplo, um grupo de mulheres reunido, se é um grupo de freiras, de feministas, de ambientalistas ou de simples amigas que se encontram, depende da finalidade daquela união e das atividades que desempenham juntas ou cooperativamente. Apenas entendendo as ações e os propósitos de tal associação é que o teórico poderá descrevê-la como essa ou aquela
48 Cf. FINNIS, 1998, capítulo 3.
49 Efeito intransitivo da instanciação dos bens humanos básicos, GEORGE, 1998, cap. 6; FINNIS, 2012, cap. 6. 50 A comunidade política será objeto de estudo dos itens 4.2 e 4.3 adiante.
51 No item 4.2.6, partindo de “Lei Natural e Direitos Naturais”, veremos que Finnis, ao tratar sobre a existência de uma comunidade, identifica um terceiro elemento, que é o tempo, a permanêcia ou habitualidade daquelas coordenações de ação.
associação, bem como criticar a maneira como o grupo se organiza e as atividades que executa como bem sucedidas ou mal sucedidas, até mesmo para poder encontrar, porventura, os problemas estruturais na coordenação que estão relacionados às deficiências da comunidade.
Esse pensamento é particularmente relevante para pensarmos questões referentes ao casamento, pois, sendo um tipo de comunidade, precisa ser estudado a partir de seus fins. É necessário, antes de qualquer consideração sobre o direito ao casamento, identificar o que o casamento é e quais são os bens que o define e atividades que tornam essa comunidade um casamento e não um outro tipo de associação. Esta investigação precisa anteceder qualquer debate acerca do direito ao casamento ou dos privilégios que as pessoas casadas receberão do Estado, pois é apenas a partir daquelas respostas que essas últimas perguntas poderão ser apropriadamente respondidas52.
Ainda em relação à conduta humana, os atos são compreendidos, fazem sentido, apenas a partir da compreensão de seus objetos – para descrever o quê alguém está fazendo, a pergunta que deve ser estrategicamente posta é por que a pessoa está se comportando daquela forma (FINNIS, 1998, p. 35).
No que toca à coordenação, Finnis faz sete apontamentos: [1] deve ser compreendida com referência a seu objeto – não apenas com relação ao objetivo último, mas a cada objetivo intermediário para se alcançar o último; [2] cada um desses fins pode ser a razão (ratio/ rationale), o objeto diretivo, a fonte primária da coordenação para alcançá-lo; [3] a cada nível, a coordenação se dá ou por acordo unânime constante ou por observância a diretivas determinadas por líderes; [4] a coordenação pode ser limitada com relação a seu objeto e sua duração; [5] formas limitadas (ou mesmo algumas ilimitadas) de coordenação podem ser estruturadas ao redor de uma técnica; [6] a coordenação nos grupos humanos ocorre por meio de escolhas livres autodeterminantes, feitas por razões não redutíveis a qualquer arte; em cada nível de coordenação, a escolha está sempre aberta para participar ou não, e tal decisão poderá ou não ter um efeito para o objetivo geral do grupo, mas certamente terá um significado distinto para a pessoa que tomou a decisão e as relações interpessoais que tal decisão trair ou afirmar; [7] apesar de a coordenação quase sempre envolver algum tipo de autoridade, ela sempre irá requerer o exercício da autonomia das partes coordenadas (FINNIS, 1998, pp. 35- 37).
A sociedade, assim como as ações individuais, é objeto da philosophia moralis precisamente porque a philosophia moralis reflete sobre as ações humanas (em coordenação e
52 Cremos que a articulação mais simples e objetiva de respostas dos jusnaturalistas neoclássicos a essas questões foi formulada por Robert George, Ryan Anderson e Sheriff Girgs na obra “What is Marriage: man and woman, a defense” (2012). Cf. item 3.5.4.
finalidade), e as sociedades humanas possuem sua realidade distintiva enquanto ordens de ações inteligentes, voluntárias e finalísticas (FINNIS, 1998, p. 26-27). Desse modo, reiteramos novamente que ao tentar entender uma coordenação de ações voltadas a um fim, o teórico simultaneamente descreve e prescreve o que deve acontecer (ou deveria ter acontecido), isto porque ele sempre elege um ponto de vista moral e casos centrais. Assim, não existem descrições neutras.
Ante o exposto, temos que a compreensão de qualquer comunidade ou instituição humana depende da compreensão dos objetos de tais comunidades ou instituições. Existe uma coordenação de atividades que torna possível identificar e distinguir uma comunidade de outra. Tal coordenação só pode ser compreendida e avaliada a partir da apreensão do objet(iv)o, ou
bem, ao qual as atividades estão voltadas. A partir da descrição do bem (ou bens), é possível
medir o enquadramento das ações e a adequação ou inadequação da coordenação e das ações para alcançá-lo.
Por exemplo, um time de futebol diferencia-se de uma comunidade acadêmica, pois realizam atividades diferentes. Tais atividades moldam a comunidade, a comunidade é o que é porque faz o que faz. Paralelamente, tais atividades são determinadas pelo objet(iv)o, bem (que no caso da comunidade é comum – é um bem comum), buscado pela comunidade. Desse modo, as atividades de um time de futebol – exercícios físicos, uso de uniformes, etc. – serão diferentes das atividades de uma comunidade acadêmica – leitura, resumos, palestras, etc. –, porque os fins que buscam são diferentes. A comunidade esportiva está buscando o bem do jogo, da vitória; já a acadêmica, está buscando o bem do conhecimento, da verdade sobre o mundo e sobre as pessoas. Estendendo o raciocínio ao nosso objeto de análise, exsurge a pergunta: o que estará buscando a comunidade do casamento? Qual o bem comum que unifica as relações nesse contexto? Essas e outras considerações mais específicas serão abordadas no próximo capítulo.
As considerações sobre o modo operacional de comunidade também se aplicam a ações individuais – as pessoas também agem com vistas a algum bem, e a maneira de compreender a ação de qualquer pessoa é perguntar: “por que você está fazendo, agindo, realizando, ...?”. Tendo em vista que as ações humanas autodeterminadas partem de uma deliberação prévia irredutível às ordens da natureza, da lógica ou da técnica, passamos, a seguir, ao estudo das faculdades intelectuais que viabilizam a compreensão e orientação prática do ser humano.