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DISTINGUIR AS EMBAIXADAS MAIS IMPORTANTES?

No documento Estudo da estrutura diplomática portuguesa (páginas 38-40)

Face a este panorama genérico, coloca-se uma questão: faz sentido estabelecer distinções entre as representações diplomáticas segundo uma escala de importância? Em palavras de um responsável político uma eventual classificação desse tipo se- ria talvez imprudente e deselegante. Mas um es- tudo independente pode estabelecer uma hierar- quia com base analítica. Curiosamente, em 2009 as autoridades francesas decidiram classificar as representações diplomáticas em quatro categorias: “missões alargadas de formato excecional” (que se- riam 8: Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Itália, Madagáscar, Marrocos, Reino Unido e Senegal), “missões alargadas” (29 embaixadas), “missões prioritárias” (95 embaixadas, entre as quais a lo- calizada em Portugal) e 31 “postos de presença diplomática”6.

5 Bárbara Reis, “Em alguns postos, os diplomatas já nem conseguem arquivar os telegramas”, PÚBLICO, 5 de Outubro de 2017, disponível em https://www.publico.pt/2017/10/05/politica/noticia/em-alguns- postos-os-diplomatas-ja-nem-conseguem-arquivar-os-telegramas-1787705, consultado em 28/8/2018. 6 Ver M. VAÏSSE, Diplomatie Française, Paris: Odile Jacob, 2018, pp- 224-225, bem como o documento “Projet de loi

de finances pour 2018: Action extérieure de l’État : Action de la France en Europe et dans le monde”, disponível em http://www.senat.fr/rap/a17-110-1/a17-110-16.html, bem como R. Pilhion e M.-L. Poletti, “…et le monde parlera français”, parcialmente disponível em https://www.amazon.fr/monde-parlera-français-Roger-Pilhion/ dp/2363156366, ambos consultados em 25/8/2018. Esta racionalização não parece que se tenha efectivado e nenhuma alternativa foi considerada (segundo A. Barluet “Le réseau diplomatique français peine à se moderniser” em Le Figaro, disponível em http://www.lefigaro.fr/international/2013/05/02/01003-20130502ARTFIG00646- le-reseau-diplomatique-francais-peine-a-se-moderniser.php, consultado em 25/8/2018).

Voltando ao caso português, quanto à diferen- ciação de níveis das representações, é certo que o Estatuto da Carreira Diplomática de Portugal prevê a classificação dos postos de serviços ex- ternos em três níveis, classes A, B e C, a partir destes indicadores: as condições e a qualidade de vida do país onde se situa o posto; os riscos para a saúde e segurança; a distância e o isolamento7.

Segundo o jornal PÚBLICO, numa reportagem de 1999, “está prevista, embora não oficialmente, uma quarta categoria, os postos D, considera- dos de risco, de que são exemplos cidades como Kinshasa, Nova Deli, Luanda, Bissau ou Argel”8.

Esta classificação, porém, serve essencialmente para fins administrativos.

Diferente seria ensaiar uma classificação das embaixadas por níveis de importância política (estratégica, económica, cultural…). Introduzir uma diferenciação nos graus de relevância das representações do Estado português no estran- geiro permitiria hierarquizar prioridades e es- calonar a atribuição de meios em correspondên- cia com essa relevância. Embora seja de admitir alguma flutuação na importância relativa das embaixadas – dado o carácter movediço das rela- ções internacionais – deve ser possível assentar num certo número de critérios que, em linha de princípio, definam a coerência da inserção da diplomacia portuguesa no espaço mundial e permitam classificar comparativamente as mais relevantes e as menos relevantes.

Antes de mais, deve estar sempre presente esta evidência: a rede de embaixadas está ao servi- ço dos objetivos da política externa nacional e, portanto, a implantação geográfica das re- presentações nacionais terá de corresponder às prioridades e às estratégias politicamente determinadas. Por outro lado, é provável que, do ponto de vista da opinião corrente, a justi- ficação para a atividade diplomática se centre porventura em dois polos: a segurança dos ci- dadãos nacionais e a projeção dos interesses económicos do país.

7 Ver artigo 46º do referido Estatuto, disponível em https://dre.pt/web/guest/legislacaoconsolidada// lc/107065786/201706160116/exportPdf/normal/1/cacheLevelPage?_LegislacaoConsolidada_WAR_ drefrontofficeportlet_rp=indice, consultado em 13/9/2018).

8 Isabel Braga, Profissão: Diplomata, PÚBLICO, 16 de Fevereiro de 1999, consultado em 13/9/2018, disponível em https://www.publico.pt/1999/02/16/jornal/profissao-diplomata-129703.

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Tendo em conta estas premissas, admitamos que os critérios para a localização prioritária de embaixa- das se possam enunciar assim, numa ordem algo arbitrária: 1) em países com importante presença de comunidades da diáspora portuguesa; 2) em paí- ses membros da comunidade de países de língua portuguesa; 3) nos principais parceiros comerciais e espaços estratégicos para a economia portuguesa; 4) em países relevantes no sistema internacional no âmbito global e nas esferas regionais; 5) em países onde Portugal constitui referência de grande valor simbólico de natureza histórica e cultural.

Com base neste enunciado, é possível identificar os países que preenchem um ou vários desses critérios:

Critérios de prioridade Países

Importante presença de comunidade

portuguesa África do Sul, Alemanha, Angola, Bélgica, Brasil, Canadá, Espanha, EUA, França, Luxemburgo,

Moçambique, Reino Unido, Suíça e Venezuela

Lusofonia Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau,

Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste Principais parceiros comerciais e espaços

estratégicos para a economia portuguesa Alemanha, Angola, Argélia, Brasil, China, Espanha, EUA, França, Holanda, Itália, Japão, Marrocos,

Polónia e Reino Unido Países relevantes no âmbito global

e nas esferas regionais África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Cazaquistão, China,

Colômbia, Coreia do Sul, Egipto, Espanha, Etiópia, EUA, França, Holanda, Índia, Indonésia, Irão, Israel, Itália, México, Quénia, Reino Unido, República Democrática do Congo, Rússia, Singapura, Suíça e Turquia Locais de grande valor simbólico-cultural

para Portugal Por exemplo Banguecoque na Tailândia, Vaticano, Montevideu no Uruguai, Dakar no Senegal, Colombo

no Sri Lanka

POSSÍVEL CLASSIFICAÇÃO POR NÍVEIS DAS PRINCIPAIS EMBAIXADAS BILATERAIS PORTUGUESAS

Embaixadas Europa Américas África Subsariana Magrebe e Médio Oriente Ásia e Oceânia

Nível A Berlim Brasília Luanda Pequim

Londres Washington Maputo

Paris Madrid Moscovo

Nível B Berna Caracas Bissau Argel Díli

Bruxelas Ottawa Praia Cairo Nova Deli

Haia Pretória Rabat Tóquio

Roma São Tomé

Varsóvia

Nível C Luxemburgo Buenos Aires Abidjan Ancara Banguecoque

Vaticano Cidade do México Adis Abeba Camberra

Dakar Jacarta Riade Seul Singapura Teerão Telavive

Cruzando agora os critérios enunciados parece possível sugerir três níveis na escala de impor- tância de um certo número das principais embai- xadas bilaterais:

1 – Dez embaixadas de nível A, nas quais con-

vergem alguns dos critérios mais importantes anteriormente referidos: cinco embaixadas na Europa – Alemanha, Espanha, França, Reino Unido e Rússia; duas nas Américas – Brasil e EUA; duas em África – Angola e Moçambique; uma na Ásia – China.

2 – 17 embaixadas de nível B: cinco na Europa

– Bélgica, Itália, Países Baixos, Polónia e Suíça; quatro na África Subsariana – África do Sul, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe; e três no Magrebe e Médio Oriente – Argélia, Egipto e Marrocos; duas nas Américas – Canadá e Venezuela; três na Ásia – Índia, Japão e Timor-Leste;

3 – 16 embaixadas de nível C: duas na Europa

– Luxemburgo e Vaticano; três em África – Costa do Marfim, Etiópia e Senegal; quatro no Magrebe e Médio Oriente – Arábia Saudita, Irão, Israel e Turquia; duas nas Américas – Argentina e México; cinco na Ásia e Oceânia – Austrália, Coreia do Sul, Indonésia, Singapura e Tailândia.

Esta hipótese de classificação das embaixadas bilaterais prioritárias está, em grande medida, em con- formidade com os resultados do inquérito aos diplomatas. À pergunta “Na sua opinião quais são para Portugal, os seis mais importantes postos diplomáticos (bilaterais e multilaterais)?”, mais de 10% dos inquiridos (14 respostas em 109, não considerando agora os postos em instituições intergovernamentais) colocam Madrid como a mais importante embaixada portuguesa; só mais três capitais aparecem com esta prioridade nalgumas respostas dispersas: Washington, Luanda e Pequim. Depois, com algum relevo, mas já nos lugares seguintes, aparecem Berlim, Paris, Londres, Moscovo, Brasília, Caracas. Mais isoladamente surgem Praia, Maputo, Rabat, Bissau, Santa Sé, Díli e mesmo Abu Dhabi.

Se os diplomatas concedem nítida prioridade a Madrid, já a opinião

No documento Estudo da estrutura diplomática portuguesa (páginas 38-40)