3 CONSEQUÊNCIAS DISTRIBUTIVAS DO REGIME POLÍTICO E
3.3 DISTRIBUIÇÃO DE RENDA, CRESCIMENTO E CONSUMO
Esta terceira parte é responsável por aferir as possíveis ligações existentes entre o consumo e a distribuição de renda, relacionando a variável interveniente com a variável a ser explicada. Uma vez que os princípios teóricos da distribuição de renda já foram explorados, torna-se possível estabelecer a sua relação com padrões de consumo e abrir espaço para um debate mais aprofundado sobre esse último. O capítulo 4 será responsável por estudar os padrões de consumo de forma independente, adentrando as teorias do consumo e as diferenças de padrão e propensão de consumo, fazendo com que este subcapítulo se concentre no impacto direto das medidas redistributivas no consumo da população.
Dória (2013, p. 19) desconsidera a importância dos regimes políticos e argumenta que “ u çã u u u [...] u çã por meio de outras variáveis, tais como a configuração do mercado de trabalho, a estrutura produtiva e as questões culturais e demográficas [...].” Rocha (1995, p. 316) por sua vez mostra que a variável política pode importar:
Caso o governo volte a desempenhar sua função de provedor de serviços básicos, como é demandado unanimemente pela sociedade brasileira, as famílias, particularmente as mais pobres, poderiam evitar ou reduzir gastos com saúde, educação e transporte urbano, liberando parcela da renda familiar para consumo de âmbito caracteristicamente privado, o que operaria no sentido de elevar seu bem estar.
Com o objetivo de aprofundar o estudo de tal relação, é possível realizar uma análise sob diferentes modelos e teorias. A seguir, são apresentadas as principais abordagens que trabalham com o impacto da distribuição de renda no consumo e, a longo prazo, no crescimento econômico dos Estados.
3.3.1 Modelos de mercado imperfeito de capital
O modelo de mercado imperfeito de capital tem como pilar a relação entre investimentos, distribuição de renda e acesso ao crédito, variáveis que impactam diretamente o crescimento econômico e os padrões de consumo da sociedade. Partindo da máxima de que a desigualdade é um fator restritivo ao crescimento, pode-se citar os trabalhos de Loury (1981), Aghion e Bolton (1997) e de Piketty (1997) como crucial para o desenvolvimento dessa teoria. Todos esses autores defendem que as dificuldades das classes menos favorecidas
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economicamente em ter acesso ao crédito resultam em um nível de produto agregado abaixo do potencial (MARÇAL, 2015).
A restrição de liquidez da população pobre aparece como um grande entrave não só ao crescimento econômico, como também ao nível mínimo requerido de investimento e do acesso ao crédito. Considerando que o acesso ao crédito é uma ferramenta fundamental para o fomento do consumo (FABER; O’GUINN, 1989), o modelo de mercado imperfeito de capital assume que a desigualdade de renda, na medida em que dificulta o acesso para uma parcela da população, possui uma relação inversa com o consumo. Ou seja, quanto maior a desigualdade, menor o consumo de um país e maior a discrepância de padrão de consumo entre os estratos sociais por conta da inaptidão de realização plena da capacidade produtiva pela parcela mais pobre.
3.3.2 Teorias eleitorais do consumidor-eleitor
Este arcabouço teórico tem como pilar a evidência da correlação entre elementos políticos e econômicos e a distribuição de renda, aproximando-se da segunda dimensão proposta por Jiang (2012) no seu estudo de dinâmica política, em que as ideologias políticas, a atmosfera e o ambiente social são fatores relevantes. Por esse motivo, assume-se que, quanto maior a desigualdade de um país, maior a instabilidade política, maior o nível de incerteza, menor as taxas de investimento e menor o consumo (MARÇAL, 2015).
A influência do eleitor mediano, mais uma vez, aparece como relevante para traçar a relação entre desigualdade de renda e consumo, na medida em que esse cidadão que possui o poder de voto também é ator ativo no mercado de consumo. De acordo com esse modelo, um cenário de desigualdade de renda propicia que o eleitor mediano vote em candidatos que defendam políticas públicas em prol da redistribuição (FOCHEZATTO, 2011). Entretanto, existe um impasse dentro dessa vertente: ao mesmo tempo em que a eleição de candidatos com esse viés tende a diminuir a desigualdade e dar mais acesso de renda para todos os estratos sociais, os gastos com a tributação dessas políticas públicas pode retardar os efeitos do crescimento que, a longo prazo, diminui o consumo da população (MARÇAL, 2015).
Considerando esse paradigma, podem-se citar alguns autores que desenvolveram teorias específicas dentro do modelo que considera a Política como fator relevante para determinação da evolução da economia. Alesina e Rodrik (1994) defendem que a desigualdade é ambígua, podendo prejudicar ou estimular o crescimento econômico. Entretanto, mesmo que assumam que os gastos do governo e uma política tributária
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redistributiva possam gerar ainda mais concentração de renda, argumentam que as alíquotas dos impostos são proporcionais à renda e os benefícios dos gastos públicos serão ofertados de forma homogênea para todas as classes (ALESINA; RODRIK, 1994). E u v , “ nível ideal de taxação do capital difere de indivíduo para indivíduo, dada sua dotação de capital.” (MARÇAL, 2015, .14). P v , o próprio eleitor mediano colocaria seus esforços na eleição de governos que trouxessem maiores benefícios para a sua realidade, na maioria das vezes focando no candidato com a proposta de tributação que resultasse em um aumento e melhor utilização do seu próprio capital.
Bertola (1993), em concordância com Alesina e Rodrik (1994), complementa o argumento ao assumir a existência de um complexo processo de tomada de decisões do eleitor mediano. O ponto central é que, independente do nível de renda, em um sistema democrático todos os votos possuem o mesmo peso, fazendo com que uma maior desigualdade gere uma maior probabilidade de implementação de políticas de redução de desigualdade de acordo com o resultado do voto majoritário da sociedade (BERTOLA, 1993). Fochezatto (2011, p. 114) : “S , uçã gu u quê escolhas do eleitor, que passaria a votar em candidatos defensores dessa causa.”
É importante frisar que esse modelo se desenha a partir de um regime político democrático, ou seja, considera que os cidadãos possuam direitos legais e eleitorais. Considerando esse cenário, as variações que resultam em crescimento econômico e aumento do consumo não dependem apenas de fatores exógenos nem de uma elite política, mas sim da sociedade em seu papel de eleitor. Além disso, influenciado por teorias clássicas do pensamento econômico, assume que o eleitor possui acesso à informação, conhecimento dos resultados de determinadas medidas econômicas e uma atitude racional na hora de definir o seu voto.
3.3.3 Teorias pós-Keynesianos
Os modelos pós-Keynesianos enfatizam o papel da demanda efetiva, determinante da renda nacional. A maior parte da literatura provinda desse arcabouço teórico relaciona o crescimento com a distribuição de renda. Porém, é possível se atentar para alguns argumentos que assumem a relação do consumo com a esfera distributiva.
Para Keynes (1936), existem algumas variáveis que estruturam o modelo econômico e aparecem como formas possíveis de intervenção na dinâmica econômica, como a propensão ao consumo, a eficiência marginal do capital, a quantidade de moeda ofertada pela autoridade
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monetária e a preferência pela liquidez. Dessa forma, o economista adota o volume de emprego como seu ponto de partida, o qual depende da somatória de despesas entre consumo e investimento no modelo mais simples. A partir dessa lógica, o consumo é a função do rendimento e da propensão a consumir, o investimento é a função da eficiência marginal do capital e da taxa de juros e a propensão ao consumo é a relação medida em unidades salariais entre o consumo e o rendimento (KEYNES, 1936).
A estrutura keynesiana foi substancialmente importante para a formação do pensamento econômico moderno, dando origem a novas teorias que se intitulam como pertencentes de uma corrente pós-keynesiana. De acordo com Carvalho e Oreiro (2006), é possível dividi-los em três principais grupos: a primeira geração que se vale dos modelos de crescimento balanceado, a segunda geração que considera a acumulação um fenômeno determinado pelas instituições e pelo sistema capitalista e a terceira geração que integra aspectos monetários em um cenário de não-linearidade.
Uma das vertentes pós-keynesianas considera as taxas de poupança diferenciadas por classes de consumidores, de acordo com a origem/nível de sua renda, para representar o consumo das famíl . “N g z g u investimento e a produção, configurando uma economia equilibrada e compatível com o pleno u u x ” (MOREIRA, 2015, p. 7). Assumindo tal teoria, a análise das economias latino-americanas por esse viés foi feita principalmente por conta da sua elevada taxa de desigualdade. Um exemplo disso é o trabalho de Bonelli e Cunha (1981), os quais examinaram o efeito de redistribuição de renda e do padrão de consumo sobre a evolução da estrutura produtiva brasileira. Esse estudo permitiu uma nova análise setorial, estratificando os setores de produção entre aqueles que se beneficiam do aumento da concentração de renda, os que possuem melhores resultados em um cenário de desconcentração de renda e aqueles que são insensíveis às variações distributivas. Locatelli (1985) também contribuiu para o estudo de economias periféricas sob a ótica multisetorial, concluindo que uma melhoria na distribuição de renda resulta diretamente em aumento no nível de emprego.
3.3.4 Modelos estruturalistas Latino-Americano
O estruturalismo latino-americano propõe uma ressignificação de conceitos acerca do crescimento e da distribuição de renda de acordo com o seu objeto de análise: os países periféricos. Influenciada pelos modelos keynesianos (MARÇAL, 2015), essa corrente assume
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que existe uma diferença no comportamento dos países desenvolvido e dos em desenvolvimento e, por esse motivo, a análise de suas variáveis políticas e econômicas devem ser feitas de forma diferenciadas das elaboradas para as potências, considerando outros fatores e propondo soluções que conversem com essas realidades. A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), constituída em 1948, foi um marco crucial para o desenvolvimento dessa escola focada nas tendências socioeconômicas de médio e longo prazo dos países da América latina (BIELSCHOWSKY, 2000). Prebisch (1962) foi o precursor desses estudos que apontavam a impossibilidade de analisar os países subdesenvolvidos sob as mesmas formulações teóricas utilizadas aos países desenvolvidos, e foi seguido por outros importantes autores como Celso Furtado, Aníbal Pinto e Fernando Fajnzylber.
P S v M (2013), “O u u -americano defende que o subdesenvolvimento estaria atrelado à presença de problemas estruturais de diversas ordens – econômica, social, política e cultural.” A çõ á g ã 1960 fizeram com que a escola cepalina adotasse análises com caráter mais social, somado ao fato de que a industrialização não tinha sido suficiente para melhorar a qualidade de vida da população nem havia eliminado a dependência do mercado externo. Por isso, o debate se voltou para a necessidade de redistribuir a renda e restringir o consumo das classes mais ricas (PREBISCH, 1962). Além disso, essa concentração acabava privilegiando o setor de bens duráveis em razão da diversificação de consumo dos grupos mais ricos. Porém, esse mercado era reduzido e resultava em uma operação desses setores a custos altos. Celso Furtado argumenta que a composição da demanda pode explicar a estagnação das economias periféricas, na medida em que é essa variável que conduz a uma economia que a relação produto capital é decrescente (FURTADO, 1978).
Fajnzylber (1989) estabelece um argumento em concordância as ideias de Furtado e mostra que a concentração de renda gerou um padrão de consumo nos países em desenvolvimento que simula os dos países industrializados. Para ele, a melhor distribuição de renda faz com que exista uma maior noção de sociedade entre as pessoas e, consequentemente, é possível demandar sacrifícios para a redução do consumo imediato em prol de projetos de crescimento a longo prazo, além de gerar um padrão de consumo compatível com taxas aceleradas de crescimento e com um nível de investimento mais eficiente.
Assim, pode-se concluir que o pensamento estruturalista latino-americano, independente das suas variações teóricas, entende a distribuição de renda e o crescimento econômico como interdependentes, sendo os padrões de consumo um dos indicadores para
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entender essa relação. Além disso, tais teorias propiciam uma análise que considera as peculiaridades do território periférico latino-americano, fazendo com que o estudo de países dessa região obtenha um caráter mais assertivo quando feito sob o olhar desse modelo. Considerando todos esses benefícios, o presente trabalho se valerá desse método para estudar, em sequência, a trajetória da distribuição de renda da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.