1.6 Limites do trabalho
2.1.12 Distritos industriais (modelo italiano)
Pode-se inferir que o conceito de distrito industrial é mais antigo, porque essa denominação foi utilizada por Marshall, em 1890, para definir a idéia de concentração geográfica entre as empresas que detêm vantagens derivadas das economias externas. Tais economias fazem referência às vantagens obtidas em custos e produção pela implantação de outras que se localizam próximas a ela. Sem dúvida, a visão atual dos distritos industriais responde às novas tendências da organização industrial que apareceram na década de 70 e da incipiente competência dos países asiáticos. Essas tendências se caracterizam pelas transformações tecnológicas que geram maior flexibilidade e que cedem espaço para um desmembramento das grandes corporações resultantes dos processos de
integração vertical que eram usuais. Todavia, quando Marshall realizou seus estudos (no final do século XIX), esses distritos teriam mais relação com cidades industriais do que os distritos atuais, pois Marshall não faz referência à cooperação interempresarial, como fazem outros autores contemporâneos que apontam para a possibilidade de incrementar as economias através de relações cooperativas (Ferro et al., 2001).
Os distritos industriais podem ser considerados sob a forma de complexos organizacionais e devem ser analisados como elementos de uma classe no espaço setorial, auto-organizadas economicamente. Esses distritos têm como característica altas taxas de crescimento da renda per capita, rendimentos em condições de capital escasso e difusão da propriedade produtiva, vantagens que tornam esse modelo altamente interessante para o desenvolvimento econômico. O conceito de auto-organização não é usado, nesse caso, para a construção de modelos abstratos, pois descreve e teoriza evidências concernentes aos distritos industriais da Itália que, na figura de Giacomo Becattini – Escola Italiana, foram os pioneiros na redescoberta e aplicação do conceito de Marshall (Mistri e Solari, 1998).
Na Itália, esses foram constituídos por sistemas de pequenas e médias empresas manufatureiras com tendências à exportação, localizadas em um território restrito e integradas em um processo produtivo geralmente especializado. Os distritos já estão disseminados por todo o território italiano, absorvendo quotas crescentes de ocupação do setor manufatureiro. Sua característica principal é uma destacada abertura em relação ao exterior, com um elevado grau de competitividade nos mercados internacionais.
A auto-organização pressupõe determinados requisitos, estudados por Mistri e Solari (1998): (1) diversidade, (2) autonomia e (3) abertura. Os autores defendem que o cooperativismo emerge espontaneamente como conseqüência de uma série de fatores que, em conjunto, explicam o sucesso desse sistema.
Dessa maneira, o conceito de distrito industrial vai além da mera aglomeração de pequenas e médias empresas concentradas em uma determinada região. Podem- se, então, considerar os distritos industriais de PMEs como clusters formados por
uma interação cooperativa, tanto econômica como social, induzida por demanda exterior do mercado.
A gênese do distrito industrial das PMEs fundamenta-se na cooperação delas para a produção de determinados produtos, sendo a produção final conseqüência das diferentes participações de empresas especialistas não concorrentes entre si que unem seus esforços para a realização de uma tarefa comum solicitada ao distrito como um todo, e não a seus membros individuais. O fundamental é que somente se pode falar de distrito industrial quando fica estabelecido esse nível de cooperação organizacional coletiva.
Portanto, um distrito industrial de PMEs pode ser caracterizado quando for patente a auto-organização como processo sinergético. Caso essa auto-organização desapareça, juntamente com as interações cooperativas, é factível seu declínio e perda de competitividade (Freire, Crisóstomo e Silva, 1999).
A conferência internacional sobre inovação e internacionalização dos distritos italianos sobre a exploração das competências globais/transferência do conhecimento local, realizada em abril, por Chiarversio et al. (2003), abordaram a perspectiva da base do conhecimento e o processo de convergência entre sistemas locais e a economia global como uma tendência fundamental para que as PMEs assegurem a suas habilidades no que tange à inovação. Somente a partir da interação contínua entre o contexto local e as fontes globais da inovação é que as firmas podem explorar o conhecimento desenvolvido localmente, assim como o conhecimento externo para inserção no distrito e, dessa maneira, renovar a sua competitividade. Entretanto, a troca do conhecimento pode impactar de forma negativa na própria sustentação do sistema do distrito quando esses processos estão limitados a poucas firmas (líderes), o que separa as redes locais dos subcontratantes, de acordo com estratégias específicas de internacionalização. Nesse sentido, é observado que a competitividade provém da quantidade crescente de conhecimento especializado, de competências disponíveis no exterior e dos investimentos diretos italianos em outros países do leste europeu. Ademais, o modelo de gerência do conhecimento, no distrito, decorre da experiência e da divisão das atividades de alto valor (projetos) e de baixo valor (operações), não sendo isso uma estratégia fácil de ser executada por PMEs.
A pesquisa sobre distritos industriais enfatizou o modelo italiano específico de desenvolvimento econômico, baseado em pequenas e médias empresas que distinguem a Itália de outros países (Becattini, 1979; Porter, 1990; Goodmann et al., 1989; Piore e Sabel, 1984 apud Chiarversio, 2003). Mais especificamente, os estudos demonstram que a maneira italiana de crescimento impulsiona as empresas inclusas nos contextos locais ricos, onde os sistemas de fabricação se sobrepõem às redes sociais e a competitividade está relacionada diretamente aos territórios (Dei Ottati, 1994; Brusco, 1982; Pyke et al., 1990; Becattini, 1991 apud Chiarversio, 2003).
A literatura mostra que os elementos-chave do modelo do distrito italiano são: (1) a governança dos relacionamentos econômicos alicerçados em normas e tradições sociais entre indivíduos, dentro e através das organizações; (2) a competição e a cooperação que existe entre as firmas, nas quais os relacionamentos têm uma implementação longa; (3) distribuição igualitária do poder entre as firmas do distrito; (4) a agregação, a proximidade espacial e a língua compartilhada como elementos capazes de suportar a difusão rápida da informação, facilitando o acesso ao conhecimento e aos processos de inovação.
Na experiência italiana, a sociedade e o sistema econômico estão fortemente relacionados e mutuamente influenciados de muitas formas, a saber: as firmas são controladas por grupos da família, o sucesso econômico está considerado nos termos do reconhecimento social, uma vez que o crescimento econômico aumenta o bem-estar social da comunidade local como um todo. As características informais dos ambientes econômicos (conhecimento recíproco entre agentes, proximidade espacial, e métodos de comunicação) diminuem a necessidade para acoplamentos econômicos formais entre firmas. Os distritos industriais contribuem para o sucesso internacional do Made in Italy, aumentando a fama dessas indústrias. Os distritos industriais italianos podem desenvolver um processo de inovação rentável, estritamente relacionado à especialização da indústria e às peculiaridades das redes locais.
As instituições locais são muito importantes porque representam os interesses coletivos dos diversos participantes, como instituições políticas, associações de ofício, instituições comerciais, centros de serviço, ou centros de pesquisa.
Promovem discussões, encontros e várias atividades inerentes ao processo de desenvolvimento da inovação.
Nesse ponto, fica clara a interferência do nível meso falado na introdução para busca de instrumentos que venham facilitar a cooperação e o adensamento institucional. Assim, ocorrem as formações de consórcios, cooperativas e agências de fomento ou ações em nível de capacitação, pesquisa e suporte técnico.
Esse modelo foi implantado no Brasil de modo diverso e, mesmo que concentre uma série de empresas no mesmo local, o que é um mecanismo válido, difere do italiano pelo fato de não ser criado na base, ou seja, o mecanismo italiano foi criado pelas próprias empresas, e assim foram fortalecidos os laços de cooperação.