Parte I Revisão da Literatura
Capítulo 2 – Necessidades Educativas Especiais e Inclusão
3.1. Diversidade Cultural e Educação Inclusiva
A questão da diversidade cultural não deriva apenas da presença de imigrantes, à qual aparece, geralmente, associada. A coexistência de pessoas de diferentes origens e culturas não é um dado novo na nossa história uma vez que Portugal foi desde sempre um país de emigrantes. Actualmente há uma maior consciência e reconhecimento dessa diversidade cultural, traduzida numa multiculturalidade, que hoje se processa a uma escala muito superior, abrindo novas oportunidades de desenvolvimento e progresso:
“De facto vivemos num mundo complexo e plural. Actualmente, temos de aprender a viver e a conviver numa sociedade multicultural em que a diversidade étnica, linguística, cultural e social é uma realidade. Estamos em presença não apenas de diversidades individuais, mas de diversidades sistémicas, emergentes de sociedades pluralistas em que nos toca viver. A grande lição que se pode tirar é aprender a apreciar a diversidade – o outro - , o outro não como objecto de educação, mas como um interlocutor no processo de
comunicação e um parceiro de negociação e convivência. Um longo caminho a percorrer” (Peres, 2000: 27)
Assumindo o pluralismo como um diálogo positivo, entre identidades e culturas em transformação mútua, o que a abordagem intercultural nos pode trazer é a capacidade de lançar pontes e aprender a viver com os outros num mundo que é de todos.
Segundo a Comissão das Comunidades Europeias (2008), os fluxos de entrada de cidadãos de países terceiros na União europeia (EU) atingiram os níveis mais elevados de sempre, aliados à grande mobilidade que se verificou na UE na sequência dos dois últimos alargamentos, fizeram com que as escolas de alguns países da UE se deparassem com um aumento súbito e drástico do número destas crianças. Os dados PISA de 20061 mostram que, pelo menos, 10% da população escolar com 15 anos de idade nos países da UE 15 tinham nascido no país que não o de acolhimento ou eram filhos de pais nascidos noutro país; esta percentagem ascende a quase 15% no quarto ano do ensino básico.
Ainda segundo a mesma fonte (Comissão das Comunidades Europeias, 2008), em alguns países, como a Irlanda, a Itália e a Espanha, a percentagem de alunos nascidos noutro país triplicou ou quadruplicou desde 2000. No Reino Unido, no espaço de dois anos, o número de alunos recém-chegados ao país que deram entrada nas escolas duplicou, fazendo aumentar o número já elevado de alunos oriundos da imigração. Note-se ainda que os fluxos migratórios tendem a dar origem a concentrações de alunos migrantes em áreas urbanas e em determinadas cidades; por exemplo, em Roterdão, Birmingham ou Bruxelas, cerca de metade da população escolar é oriunda da imigração. Em Madrid, a percentagem de alunos migrantes decuplicou desde 1991.
Toda esta dinâmica entre países veio transformar as nossas escolas e a educação intercultural passou a ter uma importância primordial. Assim, a educação intercultural pode ser definida e encarada de diversas maneiras. Ao longo do tempo, tem sido objecto de várias abordagens e conceptualizações, em constante evolução, quer em teoria, quer na prática.
1 O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) é um estudo internacional trienal do desempenho escolar de alunos de 15 anos, cuja execução é coordenada pela Organização para a Cooperação e o
Para Ouellet (1991), o conceito de educação intercultural designa toda a formação sistemática que visa desenvolver, quer nos grupos maioritários, quer nos minoritários destacando-se:
• melhor compreensão das culturas nas sociedades modernas;
• maior capacidade de comunicar entre pessoas de culturas diferentes;
• atitudes mais adaptadas ao contexto da diversidade cultural, através da compreensão dos mecanismos psico-sociais e dos factores socio-políticos capazes de produzir racismo;
• maior capacidade de participar na interacção social, criadora de identidades e de sentido de pertença comum à humanidade.
A educação intercultural é um precioso instrumento para promover a educação para a cidadania onde a coesão social aparece associada à valorização da diversidade. As iniciativas que promove correspondem a cinco preocupações/valores que Ouellet ( 2002) salientou:
1. coesão social (procura de uma pertença colectiva); 2. aceitação da diversidade cultural;
3. igualdade de oportunidades e equidade; 4. participação crítica na vida democrática; 5. preocupação ecológica.
Banks e Banks (1993: 1) define educação intercultural como “educação para a liberdade”, “(…) uma ideia, um movimento de reforma educativa e um processo, cujo principal objectivo é a mudança estrutural das instituições educativas de modo que os alunos de ambos os sexos, sobredotados e de diversas etnias e grupos culturais, venham a ter oportunidades iguais para alcançarem o sucesso escolar”.
Do mesmo modo,os mesmos autores, definem educação intercultural como "(…) uma estratégia multifacetada, orientada para a mudança, que se norteia por seis objectivos relacionados entre si:
• a igualdade de oportunidades • o pluralismo cultural na sociedade
• a criação de relações de harmonia e compreensão intercultural na sala de aula, na escola e na comunidade
• a capacitação/"empowerment" de todos os actores educativos
• um conhecimento alargado dos vários grupos étnico-culturais por parte de todos os agentes da comunidade
• a formação de todos os intervenientes no processo educativo, numa perspectiva intercultural, informada e crítica".
Assim, a educação intercultural deverá ser transversal a toda a intervenção educativa e nela está implícito o conceito de inclusão e os seus objectivos deverão assegurar princípios de justiça social para todos, independentemente da origem ou do estatuto sócio-económico ou de qualquer outro factor que estabeleça a diferença.
Os estabelecimentos de ensino deverão organizar-se tendo como objectivo primeiro que nenhum dos seus alunos se sinta excluído, e é neste contexto, que se impõe o “(…) reconhecimento e a valorização da heterogeneidade, implicando a necessidade de se não ser indiferente à diferença, pelo que se deverá proporcionar a cada aluno, a oportunidade de progredir de acordo com as suas necessidades e características” (Correia & Serrano, J. 2000: 32).
Sob esta perspectiva, afigura-se fundamentada a crença de se estar perante uma escola quase ideal, até porque “ a filosofia da inclusão só traz vantagens no que respeita às aprendizagens de todos os alunos” (Correia, 2003: 14).
A progressiva transformação das comunidades escolares em comunidades inclusivas irá consolidando o sentimento de pertença a um grupo de referência, com as consequentes influências positivas a nível da auto-estima dos alunos, bem como da valorização das diferenças e do respeito mútuo sem impor uma cultura aos alunos.