3. PROPOSTAS DE POLÍTICA PÚBLICA PARA CONSERVAÇÃO DE BENS CULTURAIS EDIFICADOS.
3.1. Diversidade de valores inscritos em bens culturais edificados.
Como visto no capítulo 2, a noção tradicional de patrimônio histórico e artístico nacional no Brasil, bem como a intervenção governamental nesta área, historicamente não levaram em conta o valor econômico destes bens, preservando-os como elementos representativos da história nacional, a partir da visão de uma corporação profissional: os arquitetos.
O Programa MONUMENTA, que conta com financiamento do BID, contempla a recuperação de sítios e prédios históricos a partir de uma filosofia que tem como pontos principais a sustentabilidade, visibilidade, atratividade e acessibilidade do patrimônio (GASTAL, 2003). Fica claro, a partir da proposta do programa, o predomínio do valor econômico como parâmetro de ação e de medição dos resultados alcançados.
A análise da legitimidade de um bem cultural edificado enquanto receptor de recursos públicos para sua recuperação, conservação e utilização deve levar em conta os diversos valores presentes no patrimônio, considerando suas múltiplas facetas e sua importância em diversos campos de significação.
De acordo com Benhamou (1996), o valor de um bem cultural edificado compreende três elementos principais: o valor de mercado, ou seja, a capacidade de gerar benefícios econômicos, afetado pelo tombamento, o valor científico, como objeto de estudo, e o valor de comunicação, que representa o significado social do patrimônio.
Além destes três valores, Benhamou (1996) também considera o valor de opção. Ou seja, o quanto o não usuário de um bem está disposto a pagar para garantir, para si e para outros, a possibilidade de utilização futura.
A respeito do valor de opção, Towse (1994) acrescenta a questão das gerações futuras, quando não usuários de um bem ou serviço estão dispostos a pagar para que as próximas gerações tenham o benefício de poder desfrutar estes bens ou serviços. Segundo ela, o valor de opção é particularmente forte na questão do patrimônio material, já que, uma vez
destruído, não poderá ser mais restaurado em sua forma original16.
16 Towse (1994) sustenta que o grande problema do valor de opção é que a definição do que é patrimônio baseia-se em uma lista arbitrária de um órgão governamental ou nas demandas de grupos de pressão, e não nos valores da sociedade como um todo.
David Throsby sustenta que, de forma geral, os bens culturais edificados possuem dois tipos de valor: valor de uso, através da utilização direta pelo usuário, e valor simbólico. Este último, por sua vez, se subdivide em quatro sub-tipos: valor de existência (simples fato de existir, sem a necessidade de nenhum outro tipo de benefício adicional), valor de opção (possibilidade de consumo futuro), valor de preservação (manutenção do bem para as gerações futuras) e valor estético e histórico (estabelecido pela crítica especializada) (GOUVEIA;LIMEIRA, 2005).
A identificação de oito diferentes tipos de valor em bens culturais edificados feita por Lacerda (2002) é útil para orientar a intervenção estatal na área patrimonial. Aliás, de acordo com o plano do Complexo Turístico-Cultural Recife e Olinda, esta classificação está sendo usada para identificar as principais estruturas urbanas de interesse histórico, artístico e natural das cidades do Recife e de Olinda, bem como estabelecer prioridades de investimento.
De acordo com Lacerda (2002), os bens culturais edificados possuem um ou mais dentre oito tipos diferentes de valor: artístico, de antigüidade, histórico, cognitivo, cultural, de opção, de existência e econômico.
O valor artístico revela-se a determinado estilo detectável no bem cultural edificado, a partir de uma análise enviesada pelas exigências e preferências do querer artístico moderno. Em virtude disto, o bem pode ou não apresentar valor artístico para as gerações futuras, já que ele é valorizado a partir do conceito de arte vigente em cada época.
O valor de antigüidade opõe-se a valores contemporâneos, marcando o aspecto não moderno dos monumentos, os defeitos de integridade, a percepção da passagem do tempo e as marcas da destruição causadas pela natureza, com evidências do ciclo de criação e destruição. Este valor opõe-se à conservação do monumento no sentido de reverter o estado de deterioração presente, procurando apenas minorar os efeitos da natureza.
O valor histórico consiste na capacidade do bem caracterizar e fazer lembrar uma época, a partir da representação da evolução da atividade humana e dos modos de vida, desde sua criação. Apesar de o valor histórico basear-se em fatos passados, a atribuição deste valor dá- se a partir de preferências atuais.
Ao contrário do valor de antigüidade, o valor histórico refere-se ao estado inicial do bem cultural edificado, como criação humana. Quanto maior for a conservação de suas características originais, maior será o valor histórico presente do bem, o que leva a que a conservação procure conservá-lo no estado presente, evitando sua degradação.
O valor cognitivo consiste no valor educacional do bem, considerado como instrumento de transmissão de conhecimento e de complemento do processo de aprendizado. Este valor pode desencadear comportamentos econômicos, já que circuitos turísticos e culturais, com visita a bens edificados, geram renda e emprego nas regiões onde se localizam.
O valor cultural consiste na capacidade do bem cultural edificado de solidificar uma identidade comum. Tal simbolismo atua em processos de reconhecimento, rememoração, criação e modificação da identidade coletiva de determinados grupos da sociedade. Por causa disto, o valor cultural é de impossível apreensão pela teoria econômica, centrada nas trocas entre indivíduos.
O valor de opção consiste no quanto um consumidor estará disposto a pagar para a manutenção de um bem sem que haja consumo ou utilização no presente, somente para preservar a possibilidade de consumo futuro. Trata-se de manter um leque de alternativas disponíveis para o consumo futuro, mesmo as que não sejam escolhidas no presente.
De forma geral, o valor de opção aplica-se a bens cujo valor de uso futuro é desconhecido, em virtude da falta de informações disponíveis, e que apresentem risco de irreversibilidade, caso se façam alterações nos monumentos.
O valor de existência consiste na valorização de bens pelo simples fato de existirem, sem que haja qualquer forma de consumo ou utilização. Está ligado a características como singularidade e irreversibilidade do monumento.
Um bom exemplo do valor de existência é o caso das estátuas gigantes de Buda destruídas pelo movimento Taliban no Afeganistão, pouco antes da invasão americana. A perda chocou todo o mundo, mesmo muita gente jamais pretendendo visitar o Afeganistão e conhecer as estátuas.
Por fim, o valor econômico consiste na utilização direta dos bens culturais edificados, em funções habitacionais, administrativas, comerciais e culturais, entre outras. Trata-se da satisfação de uma demanda efetiva, ficando a análise de valor centrada em impactos sobre o emprego e a renda através da utilização do patrimônio.
Cabe destacar, ainda de acordo com Lacerda (2002), que a presença de diversos valores em um mesmo bem cultural edificado (valor de existência com valores de antigüidade, histórico, artístico, cognitivo e cultural, entre outros), além das respectivas inter-ligações, torna a avaliação confusa.
Apesar de reconhecer a diversidade de valores presentes nos bens culturais edificados, bem como a necessidade de considerar cada um deles em uma mesma política pública, a ênfase desta dissertação põe-se no valor econômico do patrimônio. São três os motivos para isto.
Em primeiro lugar, um dos maiores problemas do patrimônio histórico e artístico nacional é o seu baixo grau de utilização, como visto no capítulo 2. Ou seja, mesmo monumentos importantes, como a Igreja de Nossa Senhora do Terço e a Igreja de São Gonçalo, ambas no Recife, passam a quase totalidade do tempo trancadas, sem qualquer tipo de uso.
A utilização de igrejas, casario e monumentos, entre outros, como residências, escritórios, lojas ou pontos turísticos pode gerar receita para o patrimônio e aumentar o leque de interessados na sua conservação, revertendo o processo de degradação.
Em segundo lugar, grande parte do patrimônio tombado encontra-se em áreas com baixo desenvolvimento econômico e social. É o caso de muitas cidades históricas do Nordeste, que possuem rico acervo arquitetônico como legado de atividades econômicas hoje decadentes. Por exemplo, há em muitas cidades decadentes da Zona da Mata pernambucana igrejas, engenhos e casario remanescentes do ciclo da cana-de-açúcar, sem que haja recursos para a conservação deste patrimônio ou iniciativas para sua utilização como fatores de geração de emprego e renda nas comunidades onde estão inseridos, através de uma proposta de turismo cultural.
Por fim, a carência crônica de recursos para a área patrimonial no Brasil coloca em risco mesmo bens impregnados por outros valores. O Pátio do Terço é um espaço importante de reforço da identidade dos afro-brasileiros do Recife e arredores (valor cultural), e também é o lugar onde Frei Joaquim do Amor Divino Caneca foi despojado das ordens sacras para ser executado na Praça das Cinco Pontas (valor cognitivo). Ao mesmo tempo, a Igreja de Nossa Senhora do Terço, que domina o logradouro, é tombada pelo IPHAN e inscrita no livro de belas artes (valor artístico). Apesar de tudo isto, há quase trinta anos logradouro e igreja esperam a concretização de inúmeros projetos de recuperação elaborados para a área e o templo, uma vez que o casario histórico do pátio apresenta avançado estado de deterioração e a igreja corre riscos de perdas irreversíveis, principalmente de sua talha setecentista.
A análise de alternativas de políticas públicas para recuperar, conservar e utilizar o patrimônio histórico e artístico nacional concentra ênfase no valor econômico de bens culturais edificados, sem que isto, de modo algum, possa ser visto como desmerecimento dos demais valores.
As seis alternativas de intervenção abordadas na dissertação são: (1) concessões de incentivos fiscais a serviços de recuperação e conservação de bens materiais edificados ou a associações que tenham esta missão, (2) projetos de regeneração urbana, (3) leis de incentivo à cultura, (4) mudanças na sistemática de tombamento e preservação, (5) criação de um sistema nacional de patrimônio ou de transferências compulsórias para a área patrimonial e (6) fomento e regulação da atividade de turismo cultural que envolvam visitação de bens culturais edificados.