2. Texto e interação: conceitos e concepções
2.2. Diversidade textual
Para melhor compreensão dos pressupostos e metodologia adotados neste estudo, faz- se necessário refletir sobre o conceito de gênero textual, tal como foi proposto por Bakhtin [1979] (2000). Esse autor parte do princípio básico de que “cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin, 2000; p. 279). Nessa perspectiva, a diversidade textual presente numa dada sociedade, num dado momento histórico, é marcada por algumas regularidades que são de natureza social.
O estudo dessas regularidades, embora muito intenso nas últimas décadas, merece ainda aprofundamento que conduza a uma compreensão maior das relações entre linguagem e sociedade.
Marcuschi (2002) salienta, de início, a grande imprecisão conceitual que há nesse campo. É comum a confusão entre a Teoria de Tipos Textuais e a investigação dos Gêneros Textuais. Em relação aos tipos textuais, o autor defende que esses sejam tomados como
uma espécie de construção teórica definida pela natureza lingüística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como narração, argumentação, exposição, descrição, injunção (Marcuschi, 2002, p.22).
Quanto ao gênero textual, o autor afirma que é
uma noção propositadamente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio - comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal (...) (Marcuschi, 2002, p. 22-23).
Concebemos, pois, que as interações sociais são mediadas pelo uso de formas mais ou menos estáveis de organização textual, dando origem à construção de formas típicas de
comunicar intenções. É por esse motivo que Bronckart (1999, p. 137-138) atenta para o fato de que:
Na escala sócio-histórica, os textos são produtos da atividade de linguagem em funcionamento permanente nas formações sociais; em função de seus objetivos, interesses e questões específicas, essas formações elaboram diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis (justificando-se que sejam chamadas de gêneros de textos) e que ficam disponíveis no intertexto como modelos indexados, para os contemporâneos e para as gerações posteriores.
Os gêneros textuais podem, assim, ser conceituados como “artefatos culturais construídos historicamente pelo ser humano” (Marcuschi, 2002; p. 30). Tal conceituação é compartilhada por vários teóricos (Bakhtin, 2000; Canvat, 1996; Jauss, 1970), que concebem que os gêneros são “formas relativamente estáveis tomadas pelos enunciados em situações habituais, entidades culturais intermediárias que permitem estabilizar os elementos formais e rituais das práticas de linguagem” (Schneuwly & Dolz, 1999; p. 7). Dessa forma, eles funcionam como “um modelo comum, como uma representação integrante que determina um horizonte de expectativa para os membros de uma comunidade confrontados às mesmas práticas de linguagem” (Schneuwly & Dolz, 1999; p. 7).
Em suma, para reconhecer um gênero como constituinte de regularidades no uso da língua é preciso considerar três dimensões essenciais:
1) os conteúdos e os conhecimentos que se tornam dizíveis através dele; 2) os elementos das estruturas comunicativas e semióticas partilhadas pelos textos reconhecidos como pertencentes ao gênero; 3) as configurações específicas de unidades de linguagem, traços, principalmente da posição enunciativa do enunciador e dos conjuntos particulares de seqüências textuais e tipos discursivos que formam sua estrutura (Schneuwly & Dolz, 1999; p. 7).
Toda sociedade, então, detém um conjunto de gêneros textuais que são usados para os diversos fins, por diferentes grupos sociais. A familiaridade com tais gêneros facilita a apreensão das intenções comunicativas, pois cria expectativas sobre o que será dito e sobre os motivos pelos quais o conteúdo está sendo veiculado.
Todorov [1978] (1980; p. 49) aponta tais propriedades dos gêneros, a de criar "horizontes de expectativa" para os leitores e a de criar "modelos de escrita" para os autores, como "as duas vertentes da existência histórica dos gêneros”.
No entanto, não podemos realizar uma classificação acabada dos gêneros textuais, dado que, enquanto objetos histórico-culturais, eles são mutáveis. Como já apontamos anteriormente, a emergência dos gêneros textuais está atrelada às necessidades e às condições de funcionamento da sociedade. Como bem salienta Bronckart (1999),
A emergência de uma espécie de texto pode estar relacionada ao surgimento de novas motivações sociais (cf. as condições de elaboração do romance no fim da Idade Média ou da emergência dos artigos científicos no curso do século XIX, etc.); pode ser consecutiva ao aparecimento de novas circunstâncias de comunicação (cf. os textos comerciais ou publicitários) ou ao aparecimento de novos suportes de comunicação (cf. os artigos de jornal, as entrevistas radiofônicas ou televisuais, etc.) (p. 72).
Além dos fatores já citados, não devemos deixar de considerar que cada situação de interação tem especificidades que impõem uma construção singular do texto que a mediará. Schneuwly (1994) aponta que, no processo de construção de um texto, o agente da escrita realiza um cálculo acerca da adequação de um dado gênero à situação específica de interação e, ao mesmo tempo, adapta o novo texto às características do gênero, modificando-a quando necessário.
Bronckart (1999) conclui, então, que:
Esse processo de adoção - adaptação gera novos exemplares de gêneros, mais ou menos diferentes dos exemplares pré-existentes, e que, conseqüentemente, é pelo acúmulo desses processos individuais que os gêneros se modificam permanentemente e tomam um estatuto fundamentalmente dinâmico ou histórico (p. 103).
Todorov [1978] (1980), também abordando a questão da origem dos gêneros, atenta para o fato de que "um novo gênero é sempre a transformação de um ou vários gêneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação" (p. 46). Ou seja, partimos sempre de uma instituição já constituída.
Esse movimento contínuo dos gêneros (que se modificam, desaparecem, reaparecem, emergem, segundo a dinâmica da vida social) dificulta as classificações. A falta de fronteiras claras entre muitos gêneros, provocada pelos processos de adoção - adaptação também é um elemento que impede uma formalização mais rígida. Enfim, a multiplicidade de critérios possíveis também é fator dificultador.
Apesar dessas dificuldades de classificação, Dolz e Schneuwly (1996) defendem que os diversos gêneros textuais podem ser agrupados em função de algumas características estruturais e sócio-comunicativas: (1) agrupamento da ordem do relatar (textos destinados à documentação e à memorização das ações, tais como notícias, diários, relatos históricos); (2) agrupamento da ordem do narrar (destinados à recriação da realidade, tais como lendas, contos, fábulas); (3) agrupamento da ordem do descrever ações (destinados a instruir e prescrever, tais como receitas, regras de jogo, regulamentos); (4) agrupamento da ordem do expor (destinados à construção e divulgação do saber, tais como artigos, seminários, conferências); (5) agrupamento da ordem do argumentar (destinados à defesa de pontos de vista, tais como textos de opinião, diálogos argumentativos, cartas ao leitor, cartas de reclamação, cartas de solicitação, debates, editoriais, requerimentos, ensaios, resenhas críticas, artigos de opinião, monografias, dissertações).
Neste estudo, enfocaremos mais diretamente textos produzidos por crianças para defender pontos de vista na escola. Torna-se fundamental, para isso, investigar os gêneros textuais que circulam na escola em situações em que se defende um ponto de vista. No entanto, essa análise não é suficiente para que se entendam as estratégias de argumentação adotadas pelas crianças, pois cada texto empírico é singular e atende às características da situação de produção específica do momento em que foi elaborado. Bronckart (1999; p. 108), a esse respeito, alerta que todo texto empírico (real) é "sempre um produto da dialética que se instaura entre representações sobre os contextos de ação e representações relativas às línguas e aos gêneros de texto" (Bronckart, 1999; p. 108). Dessa forma, todo texto empírico tem características próprias, singulares. É sobre as características comuns e singulares dos diferentes textos que trataremos no tópico a seguir.