II. ANÁLISE DO CONTEÚDO DA DIVISÃO
3. De que trata a divisão? Introdução ao problema
3.7. A Divisão lida com Formas? – o Viés Ontológico e seus autores
As espécies reveladas pela divisão devem ter o estatuto de Ideias? (…) Platão está dividindo ideias? As classes das dicotomias devem ter também o estatuto de Ideias? Pareceria o mais seguro responder que no
Sofista Platão não escolheu explorar este problema. Philip296
Fracassadas as tentativas de não identificação dos géne, eíde ou ideai, os elementos da divisão no Sofista, com as Formas ou Ideias inteligíveis, tratadas nos diálogos anteriores como os “tijolos” mesmos do real, eu poderia afirmar agora, categoricamente, essa identificação como uma certeza do diálogo. Assim o viram Cornford (1951), Brochard (1926), Ackrill (1957), Moravcsik (1973), Cherniss (1993), Dixsaut (2001) e Cordero (1993). Todavia, há ainda a posição de Philip (1966), citada acima, que é de longe a mais prudente acerca do tema: Platão não definiu isso no Sofista. De fato, em momento algum o Estrangeiro expõe abertamente a famosa Hipótese das Formas, como o personagem
292 Cf. ROSEN, 1983, p. 75.
293 Veja-se, p. ex., MARQUES, 2006, p. 24. 294 RYLE, 1979, sobretudo as páginas 142-150. 295 RYLE, 1979, p. 142.
Sócrates tantas vezes o fez - na verdade, o eleata o faz uma única vez, atribuindo-a aos Amigos das Ideias, para em seguida discordar e refutar essa forma específica de entender a hipótese (Sofista 246a- 249d). O uso em comum do termo eîdos entre Hipótese das Formas e o método de divisão também não é um bom juiz para assegurar o entrelaçamento entre as duas coisas; o rigor terminológico não é mesmo um dos atributos do fundador da Academia297. E, de fato, no contexto do corpus platonicus, talvez não
seja demais observar que, por um lado, o Sofista ensina que ao filósofo, no caminhar dialético, não importa muito o rigor com os nomes (220d4; 225c3-4); e, por outro, a República ensinara que a exigência excessiva de “rigor” (akribeía), e a grande importância ao “nome em si” (autò tò ónoma), são características sobretudo do tipo sofístico (I, 336d3; V, 454a7-8)298... Seja como for, independente do
quão rigoroso não seja o emprego platônico de certos termos, o Sofista, como já comentei, parece ter sido escrito para seus alunos mais avançados... Estes, certamente, apenas necessitariam de algumas “pistas” para perceber que o diálogo trata fundamentalmente da ontologia eidética. Pistas essas as quais ultrapassam o uso em comum de certos termos, mas que vão de encontro mesmo a certas qualidades específicas das Formas. E tais pistas estão presente o tempo todo. Antes do Sofista, as Formas foram apresentadas aos leitores de Platão pelo personagem Sócrates, sobretudo nos diálogos
Fédon, Banquete, Fedro e República. O filósofo ateniense fornecera larga lista de características que é
possível notar numa Forma nela mesma, dentre as quais posso destacar:
i) uma essência (ousía) que é sempre (aeì (…) ésti), com uma forma única (monoeidès), que nunca (oudépote) de modo nenhum (oudamôs) e em parte alguma (oudamêi) se altera(m) (alloíosin) nem recebe (endechetai) uma mudança (metabolèn) (Fédon 78d1-7);
ii) em si mesma, por si mesma e consigo mesma (autò kath' hautò meth' hautoû), sem mescla (eilikrinés), pura (katharón), sem mistura (ámeikton), divina (theîon) (Banquete 211b1; 211e1-3); iii) sem cor (achrómatós), sem formato (aschemátistos), intangível (anaphés), essência que realmente existe (ousía óntos oûsa) ou ente que realmente é (ho estin òn óntos) (Fedro 247c6-e2).
De modo análogo, é sem mistério que no Sofista
i) o Estrangeiro afirma que os géne ou eíde “realmente são”; i.é, eles são “entes reais”299 dotados
de substancialidade solidamente (bebaíos, 258b10) ontológica;
ii) os gêneros são “em si” (autó e variantes, 245d5, 257a1), eternos (aei, 254e4, 255c13, d1300), 297 Cf., p. ex., ROSEN, 1983, p. 96; 107; 108; 243.
298 Rosen, sou obrigado a assinalar, também parece apresentar tal exigência e atribuição de importância.. Cf. ROSEN, 1983,
p. 113.
299 Confira-se as já aludidas várias ocorrências dessa fórmula entre Sofista 250 e 268, cf. sessão 3.5. 300 Cf. GRISWOLD, 1977, p. 564, nt. 22.
divinos (254b1), objetos de conhecimento (248d-e) e garantia da estabilidade necessária aos processos do noûs (249b12-c4);
iii) por fim, a descrição do gênero ou ideia de Ser (254a8-b1) retoma – no limite da oportunidade – a poética caracterização luminosa que é oferecida acerca da ideia de Bem nos livros centrais da
República301.
Portanto, considerar os gêneros nas divisões não como meras espécies ou classes, nem como meras abstrações do pensamento302, mas como entes realmente existentes, é considerá-los, como bem o
perceberam Cornford, Brochard, Ackrill, Moravcsik, Cherniss, Dixsaut e Cordero, como Formas ou
Ideias, os reais “aspectos” (eíde, ideai) através (diá) dos quais o ser, multifacetado (polýtropos), se
permite “ver” (idein). Tal assunção, por um lado, se harmoniza com a definição para a filosofia das Formas como princípio, meio e fim da investigação (República VI, 511c1-2). Por outro, dá também pleno sentido à colocação do Estrangeiro de que, em suas investigações por diaíresis, o que está em jogo é aquilo exatamente que faz-se visível (deíknutai) apenas através do lógos: “os seres incorpóreos mais importantes e mais belos” (tà asómata, kállista ónta kaì megísta, Político 286a5-7).
Um último argumento ainda intentado contra o viés ontológico de compreensão do método dierético é possível ver no comentário de Rosen303: segundo o comentador, se este viés estivesse
correto, por que então, em todo o corpus platonicus, as únicas aplicações deste método são a tipos humanos – notoriamente, o sofista e o político? No meu entender, a partir de toda a minha argumentação exposta nas sessões anteriores, as seguintes respostas poderiam ser dadas ao comentador: i) a despeito de diferenças não essenciais entre os procedimentos do Estrangeiro e do personagem Sócrates, é possível dizer que uma versão do método de diaíresis é empregado no Fedro a gêneros que não são tipos humanos, como o Amor; ii) em nenhum momento o Estrangeiro dá a entender que o método não pudesse ser empregado a um gênero que não fosse um tipo humano; iii) ao contrário, em
Sofista 235c, ele dá a entender que o método poderia ser aplicado a quase qualquer gênero. Conforme
eu apontarei mais à frente neste estudo, minha posição é de que o método possa ser aplicado virtualmente a quaisquer gêneros, desde que possuam entre si uma relação comumente entendida como 'parte-todo'. A outros tipos de relação entre Formas, como as existentes entre gêneros supremos, o método de divisão não pode ser aplicado.
A Forma genérica é dita 'envolvê-las' (sc. as outras Formas), como um inteiro envolve suas partes. (…) É este inteiro que nós dividimos (…)
301 Discordo, portanto, da leitura de Philip sobre esse passo. Cf. PHILIP, 1966, p. 338. 302 Como Rosen parece considerá-las. ROSEN, 1983, p. 86.
(CORNFORD, 1951, p. 269)
Aplicando esse método à Ideia do sofista, Platão mostra que o sofista pertence a um grande número de gêneros diferentes. (…) Portanto, participa de muitas Ideias. (BROCHARD, 1926, p. 19) (...) Virtude e Justiça não estão meramente conectadas; elas estão conectadas de um jeito particular: Justiça é uma espécie de Virtude. Relações não-simétricas devem então ser invocadas se a estrutura complexa do 'mundo das Formas' está a ser descrito (…) (ACKRILL,
1957, p. 4)
(...) o método de divisão deve ser interpretado como ainda um outro estágio no desenvolvimento da Teoria das Formas de Platão.
(MORAVCSIK, 1973, p. 324
(...) era justamente estas Ideias que se alcançava pelo método de divisão tal qual o utilizava Platão. (CHERNISS, 1993, p. 113) Isso que divide a divisão, é então a unidade real de uma Forma (eîdos) (…). Os gêneros, as Formas, existem, i.é, não são somente abstrações ou conceitos. (DIXSAUT, 2001, p.125; p.174)