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I. ANÁLISE DA ESTRUTURA DA DIVISÃO

2. A Ruptura com a Estrutura Original da Divisão

2.3. Uma Nova Estrutura para a Divisão; o Perspectivismo

2.3.1. As várias definições de sofista: errância do Estrangeiro

2.3.1.4. Os jovens e velhos tardiamente instruídos

Aqui, outro largo parênteses merece ser feito, pois alguns pontos neste trecho nos chamam atenção. Primeiro, é o fato de os partidários do infantil posicionamento descrito acima possuírem uma notória familiaridade com o próprio Estrangeiro: o fundamento de sua posição não é outra coisa senão o assim entendido mandamento eleata de que é impossível que o múltiplo seja um e que o uno seja múltiplo - que Cornford apropriadamente chamara de “dogma de Zenão”179. Eles radicalizam assim a

suposta assertiva monista eleata e retiram disso a sua funesta consequência para a linguagem: a tautologia. O segundo ponto desconcertante é precisamente o fato de o Estrangeiro não comentar essa familiaridade! Do ponto de vista dramático, para um aluno tão brilhante de Zenão e Parmênides, seria impossível ele não perceber a proximidade entre a posição destes “jovens e alguns velhos” e a de seus professores - posição no aprendizado da qual ele passou os seus anos de formação em Eleia, e com a qual lida durante todo o diálogo Sofista... O silêncio do personagem, mascarando aí talvez o silêncio do próprio Platão sobre esta proximidade, marca mais um dos enigmas da obra – e, aqui, abster-me-ei de elucubrações acerca de quais poderiam ser os motivos platônicos para tanto, já que eles podem ser de qualquer ordem, inclusive pessoais. Entretanto, não posso deixar de chamar atenção para que esta máxima eleata é já na visão do Estrangeiro algo que não mereça nenhum grande valor: é uma “resposta imediata” que todo homem (i. é, qualquer homem) pode dar... Esse desconcertante desprezo pelo “dogma” de seus professores seria, portanto, já uma indicação da superação da estrutura do Caminho da Verdade? - o parricídio estrutural, que talvez o Estrangeiro já trouxesse dentro de si, e ao qual daria vazão mais à frente no diálogo (fato que, na minha análise, já foi visto).

A tautologia desse grupo de pessoas criticado tem como uma de suas faces a negação de toda e qualquer predicação. A um mesmo objeto não se pode atribuir muitos nomes, exceto aquele que lhe é

178 ARISTÓTELES, Metafísica Z1 1028a10. 179 CORNFORD, 1950, p. 143.

próprio. Deve-se sempre ter em vista que a língua grega se refere tanto a substantivos quanto a adjetivos e verbos pelo mesmo termo, nome ou palavra (ónoma). Na carência de sua capacidade intelectual, os “jovens e velhos tardiamente instruídos”, de que fala o Estrangeiro, tratam o pensamento da impossibilidade de predicação como descoberta genial. Obviamente que o que resulta desta “teoria da linguagem” trai todo o projeto filosófico de Platão, e, portanto, os partidários de tal doutrina têm que ser refutados – refutados nos fundamentos mesmos dessa sua posição. E é na direção desses fundamentos que o Estrangeiro aponta, ao introduzir, sob a forma de interrogação, a tese ontológica que fundamenta a posição destes jovens e velhos. Ele pergunta a Teeteto se o correto seria

Não ligarmos a essência ao movimento e ao repouso, nem nada com o que quer que seja, em hipótese alguma, mas, como entes sem mistura e sem possibilidade de participação mútua, considerar as coisas assim em meus lógoi.

Πóτερον μήτε τὴν οὐσιαν κινήσει καὶ στάσει προσάπτωμεν μήτε ἄλλο ἄλλω μηδὲν μηδενί, ἀλλ' ὡς ἄμεικτα ὄντα καὶ αδύνατον μεταλαμβάνειν ἀλλήλων οὕτως αὐτὰ ἐν τοῖς παρ' ἡμῖν λόγοις τιθῶμεν; (Sofista 251d5-8)

Com esse salto da esfera meramente linguística para a da ontologia (esta, demarcada pelos termos “essências”, “entes”, etc), o Estrangeiro visa mostrar que a postura filosófica daquelas pessoas encerra em si mesma uma série de problemas – alguns dos quais, inclusive, já superados a esta altura do diálogo. Aqui, algumas breves referências a outros diálogos serão de extrema valia. Quando se atribui aos partidários da doutrina tautológica a concepção de que não é possível ligar o movimento e o repouso à essência (ousía), está sendo dito que, para eles, ambos não existem. Ou dito de outro modo: nada que exista (“seja”) participa no movimento ou no repouso. Todavia, no ponto em que o dialogo

Sofista se encontra, a recusa de existência tanto ao movimento quanto ao repouso já foi descartada (em

247e-249d), na refutação de Imobilistas, Amigo das Formas, Mobilistas e Filhos da Terra, porque levaria à recusa da vida (zoé), da reflexão (noûs), do discurso (lógos), do conhecimento (epistéme), da inteligência (phrónesis) e da alma (psyché). Além disso, a regra máxima deste time de “jovens e velhos tardiamente instruídos” – “é impossível o múltiplo ser um” e vice-versa -, para a qual o Estrangeiro tem desprezo, impossibilita os procedimentos de divisão e reunião (252b1-6) porque impossibilita a articulação de unidade com multiplicidade. Conforme já comentado aqui, o método de diaíresis é caríssimo ao Estrangeiro, utilizado do começo ao final do Sofista e do Político, sendo apontado

também como uma característica aparentemente essencial da dialética para Platão (p. ex., República 454a4-9). Tal método, além de ser aquele que agrada aos deuses (Fedro 273d7-e8), é, quicá, o único legítimo para a autêntica filosofia (Fedro 270c-271c). Por isto mesmo, aquele que o exerce é o dialético, pessoa que, semelhante a um deus, consegue ver com naturalidade a articulação entre unidade e multiplicidade (Fedro 266b). Tal poder no olhar é o que lhe permite reunir e dividir segundo as Formas/gêneros180 (Sofista 253b-e; Fedro 265d-e), a partir de suas articulações naturais (Fedro 265e1-

2); com base nisso, este homem serve de guia para os demais no pensar e no falar (Fedro 266b; Sofista 253b; Parmênides 135b). A articulação de unidade e multiplicidade, que leva à tautologia aquele time de néscios, é exatamente aquilo para o que o olhar da dialética está voltado. Nestes aludidos trechos do

Sofista e do Fedro, a própria dialética em si é definida nos termos de uma arte que tem como poder a

visão desta articulação. O que os néscios negam, sentindo nisso um prazer desmedido, é precisamente aquilo que é o mais difícil de ver, para onde o olhar do filósofo está sempre direcionado, com o grande esforço que isso exige. Nesse ponto, há outro elo em comum entre o Fedro e o Sofista: do mesmo modo que no segundo diálogo as pessoas que não possuem esse poder de visão são descritas como “jovens e velhos tardiamente instruídos” (Sofista 251b5-6), que dão uma opinião sem valor, no Fedro é dito que na falta deste método de divisão e reunião, mesmo maduro o homem “é nada mais do que [era] quando ouvia as lições reunidas [na escola]” (Fedro 271e1-2)!! Isto é: independentemente de sua idade real, sem a capacidade de articular a multiplicidade com a unidade, o homem continua com um pensamento pueril, que, como um garotinho inexperiente, não vê a realidade como ela é. Essa capacidade, ambos os diálogos não deixam dúvida, ganha sua expressão metodológica nos procedimentos de divisão e reunião – os quais são também, às vezes, resumidos por Platão como uma só coisa, ao dizer apenas “divisão”181, e é o que parece ocorrer no Sofista.

Encerro este ponto, então, chamando atenção para a primazia da plurivisão dialética, que guia o método do Estrangeiro, sobre a visão unívoca de cunho eleata que guia aquele outro grupo, partidário da doutrina tautológica. Outro ponto que deixo para o segundo tomo deste estudo é o fundamento ontológico forte, que alicerça essa pluralidade de visão presente no método. Fim dos parênteses. Voltemos aos autores que questionam a pluralidade de caminho para o sofista.

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