Conforme Bernard Lewis104, até aproximadamente o século XVII gerações de
pensadores do mundo árabe-islâmico, baseadas nas conquistas militares da expansão muçulmana e nos progressos alcançados no campo dos saberes, mantiveram viva a ideia de uma superioridade civilizacional do islã em relação ao resto do mundo. Mormente durante a Idade Média, enquanto o mundo islâmico esteve na vanguarda do desenvolvimento e “civilização”, em linhas gerais, acreditava-se que além de suas fronteiras reinava a barbárie e a apostasia. Reforçando tal percepção sobranceira, destaca-se a constante expansão do islamismo e do Império Otomano até, pelo menos, o século XVII.
Segundo Lewis, essa representação como farol da humanidade esteve bem fundamentada, afinal, o islã se transformou em uma religião multiétnica e internacional. Seus fiéis constituíam os maiores exércitos, economias e redes comerciais. Além das inovações peculiares, havia importações da China e da Índia e traços herdados das antigas culturas persa, grega e dos povos médio-orientais. De forma geral, caracterizavam-se por elevados níveis científicos e refinada produção artística105.
103 HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p.
254.
104 Quanto às controvérsias entorno da figura de Bernard Lewis, ainda que seu posicionamento político
comprometa parcialmente suas pesquisas parte-se aqui do pressuposto de que não se deve desconsiderar sua obra como um todo (SAHD, Fábio B. Oriente Médio desmistificado: fundamentalismo, terrorismo e barbárie. Curitiba: CRV, 2011. p. 21-25; 45-50).
105 LEWIS, Bernard. What went wrong?: the clash between Islam and modernity in the Middle East.
Tal situação começou a mudar com o advento do humanismo, acelerando-se com as grandes navegações, o cientificismo e as revoluções burguesas e industriais. Para Lewis, tais elementos passaram despercebidos nas terras do Islã, onde, nesse momento, ainda havia uma inclinação a desdenhar dos habitantes de além das fronteiras. Tal representação etnocêntrica foi transformada de fato somente com as lições extraídas das derrotas nos campos de batalha, sobretudo diante do avanço russo e austro-húngaro.
Destarte, é a partir do momento que tais resultados desfavoráveis começam a se tornar frequentes, que os otomanos e demais povos islâmicos passam a reconhecer a capacidade dos europeus na produção material e formulação de estratégias, vendo-os como uma possível ameaça. No plano econômico-financeiro, a situação se inverte com o renascimento comercial da Europa e com as Grandes Navegações. Além da rota comercial alternativa com o “Oriente”, a afluência de metais e produtos da América mudam o equilíbrio da balança comercial e financeira. Em suma, ao lado das vozes que alertam para o perigo europeu no campo militar, somam-se outras ocasionais chamando a atenção para essa outra esfera.
As derrotas militares se tornam mais exacerbadas ao longo do século XVIII. O Império Otomano passou a perder territórios majoritariamente muçulmanos e começou a buscar tanto alianças com potências europeias quanto sua ajuda para treinar e equipar suas forças e corpo diplomático. Nesse quadro, a necessidade de modernização se tornou evidente.
Entretanto, a institucionalização de reformas modernizantes foi tortuosa. Enfrentando a resistência de setores tradicionais, as medidas adotadas, eventualmente caracterizadas como apostasia e desacreditadas, enfrentaram corriqueiras interrupções. Foi somente ao passo que derrotas mais severas foram impostas pelos Estados europeus, a partir da segunda metade do século XVIII, que a urgência dessas mudanças se mostrou iminente, suavizando as oposições106.
Assim sendo, paulatinamente, as elites governantes otomanas e provinciais prepararam e aplicaram reformas, buscando seguir o modelo europeu. Paralelamente, a partir de uma maior circulação de pessoas nos dois sentidos o liberalismo e outras ideias modernas (como o nacionalismo) irromperam no Oriente Médio, se bem que
restritas, em um primeiro momento, às elites fechadas. Com a maior difusão dessas ideologias e das novas tecnologias e técnicas, gradativamente o vocabulário árabe foi acrescido, adaptando os novos termos.
Para alguns autores, o marco simbólico que caracteriza o início da inserção dos povos árabes e muçulmanos na modernidade e a mudança em sua percepção de si de do outro (europeu) é a invasão do Egito pelas tropas de Napoleão. Segundo Hourani, tal fato escancarou a debilidade do Império Otomano e deixou como principal lição o fato irrefutável de que um pequeno contingente europeu era capaz de invadir o coração do Islã107. Outra conclusão era a de que somente uma força europeia podia
combater outra. Tal lição se repetiu entre 1806 e 1812, quando o Império se envolveu em uma desastrosa guerra contra a Rússia e perdeu ainda mais territórios108.
A partir do século XIX, essa e outras derrotas, com a consequente perda de territórios quase que exclusivamente islâmicos, denotaram a debilidade otomana e a necessidade de reformas. Ao passo que a Rússia incorporou porções da Ásia central, França e Grã-Bretanha iniciaram a invasão do norte da África, consolidando-a definitivamente no final do século. Concomitantemente a essa expansão dos Estados europeus para dentro das fronteiras otomanas, a marginalização das minorias e a influência do ideário da Revolução Francesa sobre elas contribuíram na desestabilização do Império. Súditos cristãos protagonizaram várias revoltas, hora bem-sucedidas ora reprimidas, em busca da independência nacional.
Em suma, todos esses fatores exacerbaram a necessidade de reformas e difundiram a percepção da modernização como o caminho a ser trilhado109. Assim, ao
longo do século XIX o Império Otomano adotou diversas medidas, considerando o ideário, as técnicas modernas europeias e o avanço imperial de suas principais potências no mundo árabe-islâmico. Tentando manter sua autonomia e defender territórios diante desse avanço, tanto elites nativas vinculadas à Istambul quanto o próprio governo central empreenderam reformas nas instituições que embasavam seu poder, dando início a um amplo programa modernizador.
Se, em um primeiro momento, as reformas fiscais e do exército empreendidas pelo sultão Selim III, que governou entre 1789 e 1807, não obtiveram resultados
107 HOURANI, op. cit. 108 LEWIS, op. cit., p. 271. 109 LEWIS, op. cit., p. 274.
efetivos, por ameaçarem interesses de grupos internos sobejamente poderosos, as tentativas de sultões posteriores angariaram algum sucesso. Um exemplo é Mahmud II, cujo governo foi de 1808 a 1829, que, auxiliado por um pequeno grupo de altos funcionários, empreendeu mudanças contundentes. O velho exército foi dissolvido e em seu lugar foi criado um novo, constituído a partir de serviço militar obrigatório. Novas leis foram criadas para funcionários públicos e súditos em geral, garantindo maior liberdade na realização de empreendimentos econômicos110.
Paralelamente a essas reformas que se processaram no poder central, no Egito e em Túnis autoridades locais executaram programas modernizadores semelhantes, destacando-se, respectivamente, as figuras de Muhammad Ali, que governou entre 1805 e 1848, e Ahmad Bei, entre 1837 e 1855. Por trás das novas ideias de “controle central, burocracia conciliar, governo da lei e igualdade” estava a da Europa como modelo de civilização moderna e a do Império Otomano como seu parceiro.
Em suma, segundo Lewis, tanto o maior contato com o mundo ocidental quanto o esforço modernizador empreendido pelo Império Otomano e algumas de suas províncias renovaram antigas perguntas e suscitaram novas entre os pensadores e elites locais. Partindo sobretudo de comparações com os países e povos europeus, os súditos do sultão questionavam sobre a origem do poder destes e a causa geral do declínio árabe-islâmico.
De forma geral, enquanto as respostas tradicionalistas apontavam para um desvio do caminho islâmico puro e pregavam um retorno ao mesmo, enrobustecia-se um corpo de pensadores modernizadores, que reconheciam os avanços europeus e buscavam adaptá-los ao mundo árabe-islâmico111. Essa oposição ideológica entre
reforma modernizadora e “revolução” islâmica esteve cada vez mais presente, tanto em escritos de pensadores políticos quanto em discursos oficiais, a partir do final do
110 Essa série de medidas modernizadoras adotadas para reorganizar o Império Otomano visando
adequá-lo aos novos tempos ficou conhecida pelo nome de Tanzimat (da palavra ordem). Esse período de mudanças, iniciado por Selim III e Mahmud II teve seu zênite em 1876, quando foi anunciada uma Constituição e eleito e reunido o primeiro Parlamento do Império. Entretanto, já em 1877, após uma nova derrota do Império diante da Rússia ocorreu um grande retrocesso com a dissolução do Parlamento e a suspensão da Constituição. Segundo Roberta Vicenzi Aragoni, durante o período da Tanzimat também houve a crescente importação e aplicação de leis europeias, inclusive alterando preceitos da lei islâmica (charia islamyya) (VICENZI, Roberta A. N. Nacionalismo árabe: apogeu e declínio. Tese defendida em 14 fev. 2007. 227 páginas. Tese - USP (FFLCH). p. 81).
século XIX112.