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4 O TEXTO E SUAS LEITURAS

4.3 Do autor: pessoa e criação

O que o autor quer dizer quando escreve um texto? O que o jornalista quis dizer com aquela notícia? A indagação, freqüente nos cursos primários e secundários, apresenta-se, para Bakhtin, como um falso problema. Isso porque, na perspectiva desse pensador, “não interessam os processos psicológicos envolvidos na criação nem o depoimento do autor-pessoa sobre seu processo criador, porque este não experiencia os processos psicológicos criativos como tais, apenas sua materialização na obra” (Faraco, 2005: 39).

Ainda assim, é freqüente a confusão entre a intenção do autor empírico e os sentidos (sempre no plural) imanentes da obra. Outro problema diz respeito à própria conceituação de

“autor”. A exemplo da diferenciação leitor empírico e leitor-modelo, é possível traçar um paralelo entre autor-pessoa (a entidade empírica que come, bebe, respira e, entre outras coisas, escreve) e autor-criador (Bakhtin, 1986) ou autor-modelo (Eco, 2002), posição estético-formal imanente à obra e que fora dela não poderá jamais ser encontrada.

Para Bakhtin, o autor-pessoa é a manifestação do autor no plano da realidade – é o próprio escritor, o próprio artista ou jornalista, no caso desta pesquisa. Considerando a língua um ato social fundado pela necessidade de interação social, e não mero código projetado para transmitir informações, podemos afirmar que os diversos usos possíveis da língua refletem posicionamentos e atitudes valorativos da pessoa diante do mundo. E o autor-criador, também denominado “voz segunda” (Faraco, 2005: 39), é nada menos do que o resultado – ou materialização – de um posição axiológica do autor-pessoa em relação ao mundo. É, na interpretação de Faraco sobre o conceito bakhtiniano:

Um constituinte do objeto estético (um elemento imanente ao todo artístico) – mais precisamente, aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a

unidade do todo esteticamente consumado. Ele é entendido fundamentalmente como uma posição estético-formal cuja característica básica está em materializar uma certa relação axiológica com o herói e seu mundo: ele os olha com simpatia ou antipatia, distância ou proximidade, reverência ou crítica, gravidade ou deboche, aplauso ou sarcasmo, alegria ou amargura, generosidade ou crueldade, júbilo ou melancolia, e assim por diante. (2005: 29-30)

Assim, podemos dizer que o autor-criador é, simultaneamente, uma posição refratada e refratante em relação ao plano do real. Em outras palavras, é um pedaço da realidade, é a porção que o autor-pessoa seleciona de um mundo de infinitas possibilidades interpretativas e valorativas, e é também despedaçador da realidade, pois esse autor-criador valorado e valorativo é o marco a partir do qual a obra representa o mundo. O autor-criador não vive no plano da realidade, mas no da representação da realidade – ao mesmo tempo opera e cria valores, destaca aspectos da vida, os condensa e reorganiza, representando o mundo à sua volta.

A voz do autor-criador é uma voz segunda justamente porque é a apropriação refratada de uma voz social qualquer cujo objetivo é ordenar o objeto estético. Não sendo capaz de pôr a realidade no papel – nem mesmo de colocar suas próprias idéias na obra –, o autor-pessoa escreve imagens do real, imagens de suas idéias. O autor-criador é uma voz social que reflete e refrata vozes sociais (cf. Faraco, 2005: 49-50). A teoria de Bakhtin também contempla a existência de um leitor-modelo, inicialmente batizado de receptor imanente, cujos valores axiológicos são observados pelo autor-pessoa desde o início do ato criativo; observando tais mandamentos é que o autor-pessoa torna-se autor-criador. O receptor imanente existe apenas dentro da própria obra e é o objetivo final dela atingi-lo.

Na perspectiva propagada por Eco (2002), autor-modelo e leitor-modelo são estratégias textuais, hipóteses imaginadas por suas contrapartes empíricas com base no respeito implícito às máximas conversacionais e ao contrato de gêneros (não se espera encontrar conteúdo pornográfico em jornais de elite, como a Folha, nem piadas racistas ou

termos obscenos, por exemplo, salvo em contextos muito especiais10). Segundo Eco, a relação entre as quatro entidades do texto – autor empírico e autor-modelo, leitor empírico e leitor-modelo – se dá da seguinte forma:

De um lado, conforme dissemos até aqui, o autor empírico, enquanto sujeito da enunciação textual, formula uma hipótese de Leitor-Modelo e, ao traduzi-la em termos da própria estratégia, configura a si mesmo autor na qualidade de sujeito do enunciado, em termos igualmente “estratégicos”, como modo de operação textual. Mas, de outro lado, também o leitor empírico,como sujeito concreto dos atos de cooperação, deve configurar para si uma hipótese de Autor, deduzindo-a justamente dos dados de estratégia textual. A hipótese formulada pelo leitor empírico acerca do próprio Autor-Modelo parece mais garantida do que aquela que o autor empírico formula acerca do próprio Leitor-Modelo. Com efeito, o segundo deve postular algo que atualmente ainda não existe e realizá-lo como série de operações textuais; o primeiro, ao invés, deduz uma imagem-tipo de algo que se verificou anteriormente como ato de enunciação e está textualmente presente no enunciado. (...) A configuração do Autor-Modelo depende de traços textuais, mas põe em jogo o universo do que está atrás do texto, atrás do destinatário e provavelmente diante do texto e do processo de cooperação (no sentido de que depende da pergunta: “Que quero fazer com este texto?”) (Eco, 2002: 47-49)

Em outra obra, o autor aproxima o conceito de autor-modelo do conceito de estilo:

(...) No final pode-se reconhecer o autor-modelo também como um estilo, e o estilo será tão claro e inconfundível que veremos que sem duvida se trata da mesma voz (...). Contudo, o termo “estilo” diz muito e pouco. Leva-nos a pensar que o autor-modelo (para citar Stephen Dedalus)11, isolado em sua perfeição, “como o Deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, refinado, fora da existência, aparando as unhas”. Por

10 Recordamos aqui, para efeito didático, a série de reportagens veiculadas na Folha de S.Paulo a partir do dia 14/04/2005 com a descrição do caso do jogador argentino Leandro Desábato, da equipe Quilmes, que fez ofensas racistas contra o atacante Edinaldo Batista Libânio, o Grafite, do São Paulo Futebol Clube, durante disputa entre as duas equipes. Na época, o jornal reproduziu o teor de Boletim de Ocorrência da Polícia Civil de São Paulo no qual constava que Desábato havia chamado Grafite de “negro de merda, filho da puta, negrinho”, termos que causam estranhamento ao leitor, mas que foram respaldados pelo contexto de crime, racismo e disputa entre torcidas que envolvia a notícia.

11 O autor se refere, como é sabido, ao célebre protagonista da obra Retrato do Artista Quando Jovem (Joyce, 1964), que tecia, no trecho selecionado, considerações sobre a aura fantasiosa que ronda a figura do escritor.

outro lado, o autor-modelo é uma voz que nos fala afetuosamente (ou imperiosamente, ou dissimuladamente), que nos quer a seu lado. Essa voz se manifesta como uma estratégia narrativa, um conjunto de instruções que nos são dadas passo a passo e que devemos seguir quando decidimos agir como o leitor-modelo. (Eco, 2004: 21)

No jornal, a voz do autor-modelo dos textos classificados como noticiosos (excluindo assim os artigos de opinião, crônicas, editoriais e cartas de leitores, nos quais as estratégias textuais acionadas são muito diversas) manifesta-se de maneira curiosa. Por ser considerada uma técnica informativa, e não uma ferramenta estética, a linguagem jornalística procura

“sufocar” e padronizar as ousadias narrativas de seus autores empíricos para configurar cada notícia sob o espectro de um mesmo autor-modelo, claramente identificado sob a imperiosa bandeira do lead. Iremos nos debruçar sobre a questão do texto jornalístico e de suas estratégias de diluição do autor – e constante monitoramento do leitor-modelo – no tópico a seguir.