4 O TEXTO E SUAS LEITURAS
4.1 Dos textos; dos discursos
Tão fecundo como suas possibilidades de interpretação é o próprio conceito de texto.
Historicamente, o termo ganhou variadas definições, que continuam a multiplicar-se conforme a perspectiva teórica adotada. Para muitos autores, é empregado como sinônimo de discurso. Para outros, esses conceitos tratam de fenômenos diversos, porém geralmente complementares.
Conforme Fávero e Koch (2002: 18-25), o conceito de texto abrange formas orais e escritas cuja extensão mínima é de dois signos lingüísticos, um dos quais pode vir a ser suprido pela situação (como no enunciado “socorro!”), e com extensão máxima indeterminada. São, em outras palavras, seqüências de signos – eminentemente verbais – sistematicamente ordenados. Alguns autores chegaram a propor que todas as enunciações de uma pessoa, limitadas por pausas mais ou menos longas, comporiam um único texto;
similarmente, todas as enunciações feitas em determinada língua poderiam ser consideradas um texto singular, por definição, ilimitado8.
À parte tais exercícios filosóficos, o fato é que a Lingüística Textual usualmente trabalha com textos bem delimitados, com começo e fim mais ou menos explícitos – caso das notícias jornalísticas escolhidas como corpus para o nosso estudo.
Quando unimos os arcabouços teóricos e bases fundamentais da Lingüística Textual e da Análise do Discurso, novas disparidades parecem surgir. Ricoeur apresenta uma solução limitada, embora bastante popular, ao impasse. Para ele, texto é “todo discurso fixado pela escritura” (1986: 137). Charaudeau e Maingueneau vêem, todavia, riscos nessa assertiva:
8 Referimo-nos a estudos de Harweg (1970) e Hjelmslev (1953), respectivamente.
A palavra “texto” (...) não se remete prioritariamente à escrita. Opor texto escrito a discurso oral reduz a distinção ao suporte ou meio e dissimula o fato de que um texto é, na maioria das vezes, plurissemiótico. Uma receita de cozinha, um outdoor ou um artigo de jornal, um discurso político, um curso universitário ou uma conversação não comportam apenas signos verbais, eles são igualmente feitos de gestos, de entonações e de imagens (fotografias e fotogramas, desenhos e infografias). (2004: 466, grifos dos autores)
Após rechaçar a hipótese de textos sempre escritos e discursos sempre falados, os autores apresentam uma proposta de complementaridade dos conceitos:
É preferível distinguir texto e discurso como duas faces complementares de um objeto comum tomado pela lingüística textual – que privilegia a organização do co-texto e da coesão como coerência lingüística, “Textverknüpfung” – e pela análise do discurso – mais atenta ao contexto de interação verbal e à coerência como “Textzusammenhang”. (Charadeau;
Maingueneau, 2004: 466-467)
Mesmo a fronteira que separa a análise do texto em si e de seu co-texto (Lingüística Textual) da análise do contexto e das ideologias manifestas na enunciação (Análise do Discurso), conforme defendem Charaudeau e Maingueneau (2004), é enevoada. O objeto de estudo – texto para um, discurso para outro – aproxima as tendências mais modernas da Análise do Discurso e da Lingüística Textual, conforme aponta Koch em suas reflexões sobre o futuro da Lingüística Textual no novo milênio:
Além da ênfase que se vem dando aos processos de organização global dos textos, assumem importância particular as questões de ordem sócio-cognitiva, que envolvem, evidentemente, as da referenciação, inferenciação, acessamento ao conhecimento prévio etc.; o tratamento da oralidade e da relação oralidade/escrita; e o estudo dos gêneros textuais, este agora conduzido sob outras luzes – isto é, a partir da perspectiva bakhtiniana. (Koch, 2001: 13)
Em outro texto, a autora reforça a observação de que o momento atual da Lingüística Textual no Brasil enfatiza sobretudo abordagens interacionais, igualmente preciosas para a Analise do Discurso:
Já nos primeiros anos da década de 90 delineava-se uma forte inclinação para a adoção de uma perspectiva sócio-interacional no tratamento da linguagem e, em decorrência, para o estudo dos processos e estratégias sócio-cognitivos envolvidos no processamento textual (quer em termos de compreensão, quer em termos de produção). (Koch, 1999: 3)
Como se vê, a destacada influência de perspectivas sociais e interacionistas aproxima vertentes da Lingüística Textual e da Análise do Discurso francófona, ora representada por Maingueneau. Alguns autores, a exemplo de Harris (1952) encerram a polêmica afirmando serem sinônimas as ciências “Análise do Discurso” e “Lingüística Textual”. Seguindo tal raciocínio, Charaudeau e Maingueneau afirmam, sobre a Lingüística Textual:
Disciplina auxiliar da análise do discurso, a lingüística textual apresenta um corpo de conceitos próprios; ela constitui um quadro no interior do qual podem ser associados os trabalhos sobre a macrossintaxe, as anáforas, os conectores, os tempos verbais, a elipse, as construções destacadas [topicalizadas, clivadas...] etc. (2004: 307, grifo nosso)
É a partir dessa noção que vamos nos guiar, utilizando a Lingüística Textual como ferramenta que se soma às propostas da Análise do Discurso de Maingueneau e da Semiótica italiana (de Eco) para compreender os mecanismos discursivos em ação no corpus analisado e, assim, atingirmos nosso objetivo de tecer o perfil do leitor-modelo implicado no discurso da Primeira Página da Folha de S.Paulo.
Destacamos ainda a contribuição de Fairclough (2002) para o horizonte dessas discussões. Minimizando as nuances teóricas que diferem o texto do discurso, o autor ressalta
que o analista deve ter em mente que o termo discurso é conveniente por subentender a manifestação de uma visão particular de mundo:
O mais autônomo dos tipos de elemento (além do gênero) é o ‘discurso’. (...) Os discursos correspondem aproximadamente às dimensões dos textos, que têm sido discutidas tradicionalmente em termos de ‘conteúdo’, ‘significados ideacionais’, ‘tópico’, ‘assunto’, e assim por diante. Há uma boa razão para usar ‘discurso’ em vez desses termos tradicionais:
um discurso é um modo particular de construir um assunto, e o conceito difere de seus predecessores por enfatizar que esses conteúdos ou assuntos – áreas de conhecimento – somente entram nos textos na forma mediada de construções particulares dos mesmos. (2002:
163-164)
Com base na breve revisão de literatura exposta, para efeito de análise, não usaremos as expressões texto e discurso nem como sinônimas nem como antônimas, mas sim como manifestações de fenômenos complementares. Optamos, neste caso, por seguir o raciocínio de Fávero e Koch, que pontuam:
É lícito concluir, portanto, que o termo texto pode ser tomado em duas acepções: texto, em sentido lato, designa toda e qualquer manifestação da capacidade textual do ser humano (quer se trate de um poema, quer de uma música, uma pintura, um filme, uma escultura etc.), isto é, qualquer tipo de comunicação realizado através de um sistema de signos. Em se tratando da linguagem verbal, temos o discurso, atividade comunicativa de um falante, numa situação de comunicação dada, englobando o conjunto de enunciados produzidos pelo locutor (ou por este e seu interlocutor, no caso do diálogo) e o evento de sua enunciação. O discurso é manifestado, lingüisticamente, por meio de textos (em sentido estrito). Neste sentido, o texto consiste em qualquer passagem, falada ou escrita, que forma um todo significativo, independente de sua extensão. Trata-se, pois, de uma unidade de sentido, de um contínuo comunicativo contextual que se caracteriza por um conjunto de relações responsáveis pela tessitura do texto – os critérios ou padrões de textualidade, entre os quais merecem destaque especial a coesão e a coerência. (2002: 25)
Adotaremos, portanto, a noção de texto como seqüência de signos verbais ou não-verbais – logo, as matérias jornalísticas que analisaremos são textos em sentido estrito. O discurso será, doravante, a manifestação verbal (no caso, escrita) de textos inseridos em uma atividade comunicativa (particular, conforme ressalta Fairclough), que compreende, portanto, a elaboração de enunciados. Serão, no caso específico deste estudo, representados pelos artigos jornalísticos escritos por um autor modelo para um leitor modelo, conforme definiremos adiante.