18.
Do capital social ao
capital comunicativo
Celso Figueiredo Neto
1Universidade Presbiteriana Mackenzie MATOS, Heloisa. Capital social e comunicação: interfaces e articu- lações. São Paulo: Summus, 2009.
O livro Capital Social e Comunicação: Interfaces e Articulações condensa anos de pesquisa da professora Heloiza Matos, profissional com significativo percurso acadêmico. Heloiza Matos, graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, deu continuidade a sua carreira em São Paulo, tendo conquista- do seu mestrado e doutorado na ECA-USP. Também nessa Escola atuou como docente e pesquisadora até 2002. Prosseguiu sua formação com o pós-douto- ramento no Groupe de Recherche sur les Enjeux de la Communication de Grenoble,
1. Celso Figueiredo Neto, Doutor em comunicação pela PUC/SP, professor da Univer- sidade Presbiteriana Mackenzie.
na França. Lecionou ainda no programa de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, também em São Paulo.
Interessada em marketing político, a autora desenvolveu diversos estudos na área que a conduziram ao campo que se convencionou denominar Capital Social. É nesse âmbito que se encerra o presente texto, publicado em 2009 pela Summus, e que condensa anos de pesquisa de maneira primorosamente ordenada tornando o texto num guia fundamental para pesquisadores interessados na questão.
Nas 275 páginas do volume, prefaciado pelo eminente pesquisador, jornalista e, na época, ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins e Silva, a autora traça uma genealogia não apenas do termo, mas também do sentido de capital social, que remonta à menção de Tocqueville à importância da ca- pacidade associativa no aperfeiçoamento das instituições e, consequentemente, da vida na democracia. A autora entende que a ação política das associações na sociedade teria, talvez, o efeito projetado por Adam Smith ao referir ao famoso conceito da “mão invisível”, sendo, portanto não apenas a ação do mercado, enquanto interesses particulares desse ou daquele produtor ou setor industrial, mas a própria ação da sociedade organizada lutando por seus direitos, por leis, por padrões sociais mais consistentes com as realidades locais onde atuam.
A apresentação da obra investe na construção do corpus do texto, enquanto estudo das articulações do capital social e da comunicação e sua importância nas sociedades contemporâneas. Ela trata das articulações possíveis entre o processo comunicativo e a formação do capital social. A autora entende o capital social como origem e resultado de ações comunicativas, e propõe um novo ângulo ao debate já instaurado nos meios acadêmicos. No estudo desse sistema buscou com- preender como os indivíduos e as instituições podem atingir objetivos comuns.
O capítulo primeiro do livro faz um extenso levantamento das origens e usos dados ao conceito de capital social. Nele, de maneira didática, a autora resgata uma série de teóricos que direta ou indiretamente trabalharam com o conceito e oferece o que parece ter sido a primeira definição de capital social, de Hanifan (1916) na qual o termo designaria o “conjunto de relações sociais marcadas pela boa vontade, camaradagem e simpatia, atributos muito próximos do goodwill utilizado para definir as relações públicas na sua origem” (MATOS 2009, p. 34-35). A autora também recorre à Bourdieu que definira capital social como “o conjunto de recursos atuais e potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou me- nos institucionalizadas de interconhecimento e inter-relacionamento” (idem p. 35). O rico levantamento de definições oferecidas por teóricos de variados cam- pos do saber aporta no quadro apresentado nas páginas 42 e 43 que é um verda-
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deiro achado para pesquisadores do tema. De modo claro, sintético a autora lista os pensadores e seus enfoques acerca do tema. Lista ali estudiosos como Put- man, Coleman, Bourdieu, Tocqueville, Fukuyama, Levi, Nam Lin, entre outros... Oferece ainda um levantamento das publicações acerca do tema em diversos e renomados periódicos científicos (p. 57). Esse capítulo concentra ainda esforços em contextualizar os estudos de Putman que tornaram o capital social campo mundialmente conhecido, e que geraram enxurradas de novos trabalhos cientí- ficos, ora corroborando com a tese do autor, ora contestando-a.
O segundo capítulo do livro traz estudos sobre a conversação, o engajamen- to cívico e o capital social. Nessa etapa a autora decanta autores que estudaram a questão da conversação como uma das mais importantes formas de interação que compõe as trocas comunicativas e, consequentemente, como ferramenta de construção do capital social dos indivíduos. Nesse sentido, são ingredientes do processo o conhecimento político, a complexidade cognitiva, a identida- de, a eficácia política e o engajamento associativo. O capítulo busca explicar de que maneira a conversação pode contribuir para o engajamento cívico e para o desenvolvimento do capital social. Para tanto é analisada a opinião pú- blica enquanto importante componente do debate argumentativo, a evolução da imprensa, a conversação nos cafés e a formação de uma esfera pública e as perspectivas atuais na abordagem da conversação. A autora estabelece então a distinção entre o everyday talk, o polítical talk e o everyday political talk como dis- tintas situações conversacionais com diferentes impactos sobre os interlocutores. Em seguida a autora arremete sobre as interações existentes entre a conversação e a construção de um caráter cívico e conversação como fonte para a cidadania. A autora encerra o capítulo investigando as contribuições da conversação coti- diana para o engajamento cívico dos indivíduos.
Se no capítulo 2 o foco recai sobre os indivíduos o capítulo 3 investiga as interações entre comunicação pública e o capital social. A autora então escla- rece que o “conceito de comunicação pública incorporou-se ao vocabulário da comunicação, marcado, talvez pelas referências dominantes à comunica- ção governamental, ao marketing político e às interfaces virtuais da internet que aproxima governantes e cidadãos”(p. 102). Contudo, demonstra que não apenas a comunicação governamental deve ser considerada quando se refere à comunicação pública, mas que essa seja “entendida como o processo de comunicação instaurado em uma esfera pública que englobe Estado, governo e sociedade, além de um espaço para o debate, a negociação e a tomada de decisões relativas à vida pública do país” (p. 105).
Outra contribuição interessante pode ser encontrada na página 109, na qual cita a então presidente da BBC expressa as prioridades de uma entidade pú- blica, quais sejam: qualidade, diversidade, inovação e reflexão quanto à cultura nacional. Em seguida o texto apresenta as visões da função pública dos meios de comunicação da Espanha e do Brasil sempre com olhos voltados para as poten- ciais deformações do sistema público de comunicação pelos vieses da política da economia e da midiatização. Apresentam-se em seguida as quatro concepções da comunicação política, instrumental, como mecanismo de manipulação da opinião pública via propaganda ideológica; a comunicação ecumênica que se relaciona aos processos de troca de informações entre os diversos atores sociais; a competitiva que tem por objetivo vencer a batalha pela opinião pública por meio da representação midiática da realidade; e finalmente a deliberativa, na qual os meios de comunicação de massa são utilizados para propor um debate ampliado, envolvendo outros setores sociais e permitindo uma discussão ampla das questões concernentes à cidadania. É nesse contexto que a autora propõe uma visão renovada das funções das comunicações públicas enquanto ferramen- tas para aquisição de um status de participação cívica por meio da comunicação. Heloiza Matos conclui o capítulo reafirmando que a comunicação pública é condição sine qua non para que os indivíduos possam exercer seu capital social nas comunidades onde atuam.
O quarto capítulo estabelece os elos existentes entre o capital social e as tecno- logias de informação e comunicação, as TICs. Nessa etapa do texto a autora investe na investigação acerca da relação entre capital social e o uso da internet. A autora examina três diferentes hipóteses acerca da relação entre capital social e internet, são elas: a) a internet transformaria o capital social; b) a internet diminuiria o capital social e; c) a internet suplantaria o capital social. Ao examinar detidamente as três hipótese pelo olhar de diversos pesquisadores da área, a autora ressalta o grande potencial de relacionamento existente na web, e que esse relacionamento poderá se dar tanto enquanto entretenimento e troca de notícias quanto para manifestações referentes à questões sociais e mesmo o chamado ativismo eletrônico.
A autora encerra sua leitura da questão afirmando que as TICs, em especial a internet se configuram como um campo que poderia
suplementar os contatos interpessoais face a face ou de outra modalidade, instituindo uma rede material possível para os flu- xos de informação: infovias construídas com base em uma série de recursos imateriais prévios como confiança, reciprocidade e
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engajamento nas questões públicas, mantendo e renovando as condições de existência do capital social (ibidem p. 152).
O quinto capítulo trata das possíveis implicações negativas do capital so- cial. Nele a autora lembra que é importante estudar também os efeitos nega- tivos das TICs para que se evite a ideia de que esses sistemas de comunicação são naturalmente benéficos e para evitar que os estudos de comunicação e capital social soem determinísticos. A autora examina o conceito de confiança e suas relações com as ideias de consanguinidade, paternalismo e favoritismo. Essas ideias podem contaminar o sentido positivo da confiança, levando os relacionamentos a basearem-se em critérios não democráticos ou confiáveis para a população. Como ressalta a autora “a reciprocidade, a cooperação, a formação de redes cívicas, a solidariedade etc. Também podem estar presentes em relações assimétricas de dominação e opressão” (p. 161).
Citando Portes (2000), Matos alinha os mais frequentes efeitos negativos do capital social, são eles: a exclusão de outsiders; exigências excessivas impostas aos membros dos grupos; restrições às liberdades individuais; e a existência de normas que nivelem por baixo. Nessas circunstâncias, então, o capital social atuaria sob forma de controle social.
Haveria então duas estratégias para o crescimento do capital social, a cha- mada bridging e outra, inversa, nomeada bonding. O bonding seria naturalmente exclusivo, composto por pessoas que possuem pontos de vista e valores si- milares, como os grupos que se encontram nas igrejas, clubes de leitura ou fraternidades. Já o bridging é um tipo de vinculação que aproxima indivíduos de grupos distintos, superando diferenças sociais. Como consequência tende a expandir as relações sociais ampliando o acesso aos recursos e informações. Ambos os modelos, entretanto, estão sujeitos a mediações negativas. Essas re- lações negativas tendem a surgir em contextos de desigualdade, prevalência de poder assimétricas e situações de vulnerabilidade de alguns atores sociais diante das relações de dominação. A autora ressalta ainda que o capital social pode se tornar fonte de interação para o crime, como é o caso da máfia e de outras associações criminosas, como é o caso no Brasil do PCC.
A seção final do livro, de número 6, aponta novas perspectivas para o capital comunicacional. Reiterando ser ainda cedo para se propor uma estrutura única que abarque todas as questões ligadas ao capital comunicacional, a autora res- salta a existência efetiva de organizações baseadas no capital comunicacional. O capital comunicacional seria visto então como “um conjunto de recursos
que uma organização possui, incluindo tanto as comunicações internas quanto aquelas estabelecidas com stakeholders e outros grupos externos à organização” (p. 200). Estariam então envolvidos fatores como tecnologia, inovação, design, marcas, comunicação e reputação. Citando Fingerl (2004) lista 12 ativos intan- gíveis: liderança, estratégia, comunicação, marca, reputação, alianças e redes de relacionamento, tecnologia, capital humano, cultura organizacional, inovação, capital intelectual e capacidade de adaptação.
A autora propõe que a comunicação seria o indicador e agente de uma nova concepção de organização. Assim o capital social das organizações seria entendido além do espectro da gestão para ocupar posição estratégica, enquanto capital comunicacional presente em todas as interações das organizações com seus colaboradores e demais stakeholders.
Ampliando essa visão teríamos a presença do capital comunicacional das orga- nizações presente nas redes sociais, reforçando os relacionamentos e aumentando os índices de credibilidade, presença, lembrança das marcas e inserção das organizações no dia a dia dos indivíduos. Desse modo o capital organizacional seria um patrimô- nio das empresas pois, por meio dessa capacidade de ativação social, via redes sociais, a presença da empresa na mente de seus consumidores seria mais intensa.
A autora encerra o volume reiterando a importância do capital comunica- cional como campo de estudos, dinâmico e importante em se considerando a presença das organizações no cotidiano dos indivíduos e a necessidade de estabe- lecimento de elos para que as ações sociais sejam efetivadas. Trata-se de um livro fundamental para os estudos acerca do tema, pois traz um rigoroso levantamento de fontes e pesquisa anteriores, apresenta as diversas leituras que o fenômeno vem provocando em estudiosos de todo o mundo e propõe um rico campo de estudos baseados nesses conceitos que poderão ser ampliados em pesquisas futuras.
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19.
Censura a livros durante a ditadura
1Flamarion Maués
2REINÃO, Sandra. Repressão e resistência: Censura a livros na ditadu- ra militar. São Paulo: Edusp/ Fapesp, 2011. 184 p.