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2 Vencemos a exclusão digital?

No documento PORTCOM (páginas 37-45)

2.

Vencemos a exclusão digital?

Francisco Machado Filho

1

UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão Digital: a miséria na era da informação. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. 48p.

A recente divulgação da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios - PNAD 20122 - aponta uma significativa melhora do Brasil nos aspectos sociais e

econômicos ao longo dos 12 anos que separam a publicação da obra de Sérgio Amadeu até nossos dias e o presente texto. O que se pretende aqui é fazer uma

1. Professor da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. E-mail: [email protected]

2. Disponível em <http://biblioteca.ibge.gov.br/d_detalhes.php?id=759> Acesso em 12 de out. 2013, às 00h28m.

exposição das ideias e argumentos que motivaram Amadeu a investigar a questão da exclusão digital em uma época na qual a internet no Brasil era um produto caro e inacessível para a maioria da população brasileira. Amadeu é um pesqui- sador atuante sobre a sociedade digital e suas problemáticas. Mesmo passado todo este tempo decorrido e o contexto social e econômico não serem mais os mesmos, Amadeu lança questionamentos importantes e que ainda hoje trazem à tona o outro lado da sociedade da informação. Contudo, é preciso compreender a nova configuração da sociedade brasileira e a questão da inclusão digital a partir das novas relações sociais e econômicas que estão ditando as regras ao acesso à rede mundial de computadores atualmente, além da apropriação da tecnologia pelos indivíduos, do controle dos fluxos de informação e das disputas pelos países desenvolvidos no controle da tecnologia em questão. Um tema extremamente atual, de importância estratégica e de soberania nacional em nossos dias.

De acordo com o sítio Wikipédia, Sérgio Amadeu da Silveira “é um sociólo- go brasileiro, geralmente lembrado como defensor e divulgador do software livre e da inclusão digital no país”3. Contudo, seu currículo é mais extenso do que isso.

É graduado em Ciências Sociais (1989), mestre (2000) e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Pau- lo (2005). É professor adjunto da Universidade Federal do ABC (UFABC). Integra o Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). Consultor de Comunicação e Tecnologia. Foi professor titular do Programa de Mestrado da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (2006-2009). Pre- sidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005). É membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Pesquisa as relações entre comunicação e tec- nologia, práticas colaborativas na Internet e a teoria da propriedade dos bens imateriais. Autor dos livros: Exclu- são Digital: a miséria na era da informação e Software Livre: a luta pela Liberdade do conhecimento. Desenvolve trabalhos nos seguintes temas: exclusão digital, tecnologia

3. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Amadeu_da_Silveira> Acesso em 12de out. 2013, às 01h45m.

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da informação e comunicação, sociedade da informação, economia informacional, cidadania digital e Internet. É parecerista AD-HOC da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.4

De fato, Amadeu é defensor e incentivador do uso de softwares livres, mas também milita a favor da inclusão digital. Acredita que a partir dela, a pobreza e a desigualdade social podem ser combatidas, pois as características da sociedade informacional que vem se configurando a partir dos anos de 70 e 80, principalmente por meio da po- pularização do computador pessoal e da internet, permitem ao indivíduo ampliar sua capacidade de pensar. O que para Amadeu é essencial nesta nova economia.

Enquanto a primeira e a segunda revoluções tecnológi- cas ampliaram a capacidade física e a precisão das ativi- dades humanas, esta revolução amplifica a mente. Eis o maior perigo de se chegar atrasado a ela. Essa revolução, exatamente por fundar-se em tecnologias de inteligên- cia amplia exponencialmente as diferenças na capacidade de tratar informações e transformá-las em conhecimento (AMADEU, 2001, p. 15-16).

Por isso, o temor de Amadeu de que a exclusão digital aprofunde ainda mais a distancia entre ricos e pobres. E, à época em que Amadeu apresentou seus ar- gumentos (2001), o pessimismo e a preocupação eram plenamente justificáveis. Naquele ano, os índices negativos econômicos no Brasil eram significantes e, para muitos, um computador e uma linha telefônica eram itens realmente inacessíveis.

A política fiscal entre 1994 e 1998 não criou limites ao endi- vidamento do setor público, e o resultado foi um crescimento muito forte dessa dívida (o valor nominal cresceu aproxima- damente dez vezes entre 1994 e 1998). Ademais, a valorização cambial e os juros reais muito altos (em torno de 20% ao ano no período 1995 a 2002) foram utilizados como ferramentas da política anti-inflacionária. Isso propiciou o crescimento substan-

4. Texto informado pelo autor em seu currículo Lattes. Disponível em <http://lattes. cnpq.br/6800442072685268> acesso em 03 de out. 2013, às 19h00m.

tivo das importações, a entrada de capitais especulativos externos e a elevação dos empréstimos de empresas privadas, nacionais e estrangeiras no sistema financeiro internacional, como estratégia de fugir dos elevados juros domésticos. Esses fatores resultaram em rápido crescimento da dívida externa entre 1994 e 1998. Os crescentes déficits em conta-corrente no período 1994 a 1999 foram determinantes para a não continuidade do crescimento econômico sustentado nesse momento. Após a desvalorização cambial e a imposição de superávits primários do setor público de 3,25% do PIB em 1999, a economia brasileira iniciou o con- trole desses dois níveis de endividamento, o interno e o externo. Como toda política austera, o resultado foi o reduzido cresci- mento econômico nesse período. (OLIVEIRA, NETO, 2005)5

Para Amadeu, a “exclusão digital ocorre ao se privar as pessoas de três ins- trumentos básicos: o computador, a linha telefônica e o provedor de acesso”. (2001, p. 18). Sua linha de raciocínio segue essa lógica e sua obra apresenta como principais tópicos:

• a conscientização de que a inclusão digital deve ser fruto de uma agenda pública;

• chama a atenção para o processo histórico da sociedade pós-indus- trial e o momento de transição para a nova sociedade informacional e a ampliação da desigualdade causada pelo processo de desindustrialização no ocidente;

• com a chegada da internet aponta os benefícios e a urgência de se utilizar esta nova plataforma como meio de inclusão e ampliação do saber; • liga o desenvolvimento socioeconômico ao acesso à informação proporcionada pela internet e à rede de computadores ligados a ela.

5. OLIVEIRA, André Mourthé de. NETO, Antonio Carvalho. Análise da conjuntura econômica brasileira: o crescimento sustentado é viável? Disponível em <http://www. iceg.pucminas.br/espaco/revista/E%20&%20G%20n%2011%20art%2007%20Con- juntura.pdf> Acesso em 08 out. 2013, às 18h08m.

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Este é um ponto chave na obra de Amadeu: a possibilidade do avanço do bem estar social por meio da inclusão digital. Para ele, “a pobreza não será redu- zida com cestas básicas, mas com a construção de coletivos sociais inteligentes, capazes de qualificar as pessoas para a nova economia e para as novas formas de sociabilidade” (AMADEU, 2001, p. 21), pois a configuração da sociedade informacional permite essa possibilidade, tanto quanto a industrialização dos séculos XIX e XX. Contudo, em um país desigual como o Brasil e, ainda mais, à época de sua reflexão, Amadeu não se furtou a questionar se esse desenvolvi- mento informacional seria mesmo possível e questionava se a inclusão social a partir da inclusão digital poderia realmente ocorrer. Para Amadeu sim, a partir de três argumentos. Primeiro, ele nos lembra de que a revolução ainda em curso destinou à informação um lugar estratégico. Segundo que a organização da eco- nomia e do trabalho no mundo rico será cada vez mais mediada por dispositivos informacionais. Terceiro, o uso em massa da tecnologia da informação pode gerar uma sinergia vital para o desenvolvimento sustentado em nossa sociedade.

Passados doze anos da publicação de sua obra, pode-se verificar um cresci- mento significativo no acesso da população à comunicação em rede. Os núme- ros utilizados por Amadeu evidenciavam um cenário diferente do que encon- tramos hoje no país. Para seu embasamento utilizava dados do Censo do ano de 2000, que apontava que o Brasil possuía entre 10 a 20 usuários de informática por 100 mil habitantes e havia apenas 5 milhões de brasileiros com acesso à internet. Hoje os números são bastante diferentes. 56% da população brasilei- ra tem acesso à internet6. O número de indivíduos alcança um total de 106,3

milhões de acessos em banda larga, sendo que 80% deste total se da por banda larga móvel.7 Do total de municípios brasileiros, 3.414 possuem cobertura 3G, o

que representa 89% da população8. A Cisco, empresa do ramo da infraestrutura

de redes, aponta em estudo que em 2017, o vídeo será 72% do tráfego móvel

6. Informação verbal apresentada no Congresso SET 2013. Palestra: TV e Internet a união dos mundos Broadcast e Broadband. Aguinaldo Bomquipani. São Paulo, 22 de agosto de 2013. 7. Informação disponível em <http://www.teletime.com.br/23/07/2013/brasil-

-tem-106-3-milhoes-de-acessos-de-banda-larga-em-junho/tt/348425/news.aspx> Acesso em 08 out. 2013, às 20h08m.

8. Informação verbal apresentada no Congresso SET 2013. Palestra> Convivência da TV e da Banda Larga. Eduardo Levy. São Paulo 21 de agosto de 2013.

na internet brasileira. Deve-se lembrar que o Brasil ainda irá implantar a tecno- logia 4G, que possibilitará maior tráfego de dados em velocidade ultrarrápida. Outra tecnologia não abordada por Amadeu é a TV Digital e sua possibilidade de inclusão via a interatividade. Tecnologia que ainda estava em fase inicial de estudos em 2001 no Brasil e impossível de ser analisada na obra em questão.

Assim, podemos imaginar que a inclusão digital no Brasil está ocorrendo em um processo mercadológico natural? Do ponto de vista ao acesso puro e simples, talvez seja possível dizer que sim, mas isso em si mesmo não quer di- zer que inclusão esteja ocorrendo de fato. Cardoso (2010, p. 58) nos lembra de que “a internet é apropriada de forma diferente por várias pessoas e nem todas realizam usos que a diferenciem do que outras mídias poderiam oferecer”. O autor cita que essa condição é mais perceptível em sociedades em transição, estritamente ligada à dimensão educativa e de geração.

Há algo nas sociedades em transição que as faz enfatizar mais as diferenças. Ou seja, nas sociedades em transição as divisões entre quem usa e quem não usa tecnologias como a internet são mais fortes e tendem a tornar ainda mais o seu uso dependente da geração a que se pertence: quanto mais jovens e maior o nível de educação, maior a utiliza- ção. (CARDOSO, 2007, p. 59)

Desta forma, o alerta de Amadeu de que a revolução da informação pode acentuar o distanciamento entre ricos e pobres é verdadeiro ainda hoje. “Ou seja, os interesses convergentes do mercado na inclusão digital são muitos genéricos, superficiais e impotentes”. (AMADEU, 2001, p. 24) Portanto, não basta ter acesso ao equipamento. É de extrema importância que este acesso venha acompanhado de políticas públicas que permitam que as diferenças no uso da tecnologia pelos diferentes grupos sociais sejam minimizadas. A questão é que essas políticas ocorrem em uma velocidade mais lenta do que os interesses do mercado.

Além disto, a inclusão digital está ganhando outro importante viés. Não apenas no campo econômico, mas também no campo democrático e da li- berdade de expressão. As redes sociais como, facebook, inexistente em 2001, é o segundo sitio mais acessado no país e o Brasil e ocupa a terceira posição

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mundial em número de usuários9. As redes sociais estão contribuindo para

troca de mensagens e mobilização social em uma escala de tempo e número nunca vistos anteriormente. O que gera outro grave problema: a liberda- de da rede e na rede passa a ser um ponto de interesses não só comercial, mas político e ideológico. Denúncias noticiadas pela imprensa em geral, demonstraram que é possível quebrar a segurança das redes informação e permitir a espionagem tanto de pessoas, como até mesmo de governos por parte de quem detém a tecnologia. Soma-se a isto, o controle do conteúdo e fluxo da informação a ser enviado pela internet e a possibilidade dos pro- vedores de acesso em privilegiar este ou aquele conteúdo. A neutralidade da rede é um debate que muito em breve irá ser tão crucial quanto as barreiras econômicas entre os países.

Cabe ao Estado, em suas três esferas de governo (municipal, estadual e federal), articular e implementar planos de inclu- são digital que busquem ampliar a cidadania a partir do uso intensivo das tecnologias da informação, inserir as camadas mais pauperizadas da informação do conhecimento e tornar o acesso à rede mundial de computadores um direito básico. (AMADEU, 2001, p. 43)

Infelizmente a inclusão no Brasil está ocorrendo do ponto de vista merca- dológico. O PNLB - Plano Nacional de Banda Larga, apresentado em 2010 pelo governo federal e que pretendia concretizar a universalização do acesso à internet alcançando os lugares que não atraíssem os interesses comerciais da ini- ciativa privada, foi abandonado pelo governo, nas palavras de Rogério Santana, presidente da Telebrás demitido em 2011, exatamente por não concordar com os caminhos que o projeto estava tomando após a entrada de Paulo Bernardo no Ministério das Comunicações. Portanto, não vencemos a exclusão digital. Se anteriormente ela estava diretamente ligada à compra dos instrumentos que possibilitavam o acesso à internet, hoje a exclusão se dá pela falta de uma polí- tica pública de envergadura nacional, desatrelada dos interesses das operadoras de telefonia e dos fabricantes de dispositivos eletrônicos. Por certo, existem

9. Disponível em <http://www.alexa.com/siteinfo/facebook.com> Acesso em 11 de out. 2013, às 23h38m.

iniciativas localizadas e práticas que objetivam o acesso por meio de escolas, bi- bliotecas públicas, telecentros, etc. e que por certo minimizam o problema, mas não o enfrentam diretamente.

Assim, o chamamento de Amadeu para a luta e o combate à exclusão digital ainda é tão atual quanto em 2001. O percurso acadêmico do autor demonstra que novos ingredientes foram adicionados ao tema, tais como o uso do software livre e o marco regulatório da internet brasileira, deixando claro que esta demanda ainda tem um longo caminho pela frente a ser seguido e que a participação da socieda- de civil é necessária e importante para a construção de um ambiente igualitário e livre da dominação hegemônica exercida pelos detentores da tecnologia.

Referência

CARDOSO, Gustavo. A mídia na sociedade em rede. Rio de Janeiro: Edi- tora FGV, 2007.

No documento PORTCOM (páginas 37-45)